All posts by Eline Carrano

Jornalista por profissão, cronista por opção e neta coruja. Escrevo porque preciso justificar as ansiedades que o tarja-preta não dá conta.

Me engula agora, se possível

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A sua camisa era branca, seu cheiro ainda era de quem saiu do banho poucos minutos antes da minha chegada, mesmo o suor tendo tomado o seu corpo. Você pedia para que eu ficasse enquanto eu me organizava para sair. Eu já sabia que se não saísse naquele instante seria um caminho sem volta, eu iria te ver para sempre como casa, mas você me segurou tempo suficiente para eu querer repousar minha cabeça no seu peito para o resto dos meus dias. Carência, você diria no dia seguinte. Vinho demais, um lapso, um erro, um descuido, uma casualidade de quem ficou tanto tempo sem conhecer alguém tão diferente, foi o cigarro, foi o perfume, não sei. Antes da lista de desculpas, eu só conseguia focar naquele momento despido- por dentro e por fora. Sabe, as pessoas passam a vida buscando cinco minutos daquilo, e nós fugimos disso a vida inteira. Idiotas.

Medrosos.

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Namastê

_Se posicione na cadeira, encontre seu equilíbrio corporal. Respire devagar e expire longamente.

_Eu tenho que pagar o estacionamento da faculdade pela internet, senão vou ter que enfrentar aquela fila enorme na saída. Eu deveria rever essa questão de débito em conta, é tão prático e eu fico aí evitando essas burocracias. Será que eu consigo colocar a conta de celular no débito automático também? Vou ligar na operadora. O celular da minha avó poderia entrar também, tadinha, nunca tem tempo de ir pagar os boletos… Volte para a meditação, idiota.

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Caixa-postal

Me atende. E entende.

Me fala que está tentando consertar do teu lado o que tá quebrado aqui, dentro de mim, e por isso não ligou ainda. Me explica o que eu faço com tudo que é seu e que ficou comigo, porque eu não aguento mais tirar o pó da nossa foto na tentativa de que eu te toque de alguma maneira e que aí, do outro lado da linha, você sinta. Eu to vivendo do que tem pra hoje e parei com os planos. Todos os projetos estão parados porque eu não sei como continuar sem você. Daí, eu queria só ter certeza de que você vai atender e eu não terei que me contentar com a caixa postal me pedindo pra deixar um recado. Porque, sinceramente, eu nem sei por onde começar e nem sei se tudo isso que eu sinto cabe num recado. Eu não sei como eu coloco os livros na minha estante e não sei se você anda comendo direito, se lembrou de tirar o vinho da geladeira, porque eu saí correndo da última vez e esqueci de avisar sobre isso. Você já falou com os seus pais essa semana, mais do que cinco minutos relapsos e sem profundidade? Eles precisam de você, assim como você deles e assim como eu preciso de você. Todo o tempo.

Então, me atende. Me escuta.

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Sentir não faz sentido

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Até o silêncio me cuida, eu me agarro nisso antes de afundar e depois eu já não vejo mais nada. Nessa água escura, sem som, eu só quero ser a unha que descasca a ferida- porque eu preciso ser alguma coisa. Tudo é preciso justificar: A lista de compras, os gastos no final do mês, a ausência na reunião de família, a escolha do próximo destino de fuga e o motivo de tudo virar um “você”. Tudo precisa estar minimamente justificado, parágrafo 2 em times new roman 12. A faca que gira dentro da pele e sangra toda vez que me perguntam quando irei parar de sentir tanto e com tanta intensidade e enfim parar de ser tanto eu pra ser o que querem de mim. Eu vejo a minha pele árida colar nos meus ossos e depois eu já estou mastigando algum órgão que parou- sente agora? Eu sou a arma apontada, o gatilho na mira. Eu incomodo, altero o ar. Eu respiro fundo, seguro um pouco para conseguir morrer depois, na esquina de um desespero qualquer e me reerguer sem os dentes da frente, fingindo não doer. E novamente, você.

Como você pode falar da morte com tanta intimidade?– eles perguntam.

Eu já amei tantas vezes e ainda me mantenho aqui, firme no que creio. Mentiras nos alimentam, você sabe, amar é também morrer um pouco todos os dias. Eu já me perdi tantas vezes que consigo fingir conforto aí, onde você finge ter chegado- às vezes morro de fome com tantas verdades. Eu já me achei tantas vezes, que consigo morrer na sua boca agora, sem medo. Inibiram meus sentimentos, porque sentir demais me afasta do Paraíso dos Frigidos- há dias que me sinto o próprio inferno. Gritos de socorro não são ouvidos atrás dos meus acenos educados e eu vesti um pijama ruim hoje porque até a minha blusa favorita você levou em meados de um dezembro antigo- nem isso me pertencia, afinal. Ansiedades se viram dentro da minha íris e descobri que sofro de refluxo quando penso demais no que existe dentro da pele- eu preciso sair de mim, nem que seja em fluídos.

Agora, de onde eu olho as imagens salgadas do choro que eu não derrubei, das feridas que eu não sangrei, os cigarros que eu não fumei, eu pergunto: Até quando o teu silêncio me manterá segura, meu amor? Até quando iremos carregar esses fardos? O céu da tua boca anda vazio, assim como o meu? Forço a mandíbula e lembro de te ver acordar pela manhã, confuso e reclamando do frio e ter certeza de que se aquela fosse a minha última visão, eu morreria em paz. Estico um pouco meu braço e sinto que daqui eu poderia te acariciar os cabelos até a sua insônia perder a força. Por isso, se você não tiver muita coisa para fazer, muita gente para manter, muito assunto pra colocar em dia, por favor, me diz para ficar, mesmo fadigada e sendo essa tormenta, essa insensatez?

Namora comigo.

Namora, feito gente que não tem dívidas, nem refluxo, nem insônia, nem parentes chatos, nem nome sujo e tampouco se preocupa com depósito bancário. Namora comigo, feito aqueles filmes ruins de tarde de domingo, onde a mocinha fecha os olhos quando fala de amor e a gente tem vontade de jogar um pouco da nossa bile na cara dela pra mostrar a realidade da vida. Namora comigo como se a gente não estivesse preocupado com a possível proibição do omeprazol e nem tomasse corticoide como se fosse bala de morango- a gente precisa se tratar sobre isso. Namora comigo como se fosse possível. Como se não abalasse nenhum equilíbrio. Feito aquelas pessoas que a gente sempre viu de longe, se ignorando na mesa do bar porque o celular é mais interessante, e se sentia distante demais dessa realidade porque se interessa demais no outro. Anda comigo de mãos dadas da sala até a cozinha e vamos dividir a mesma colher de açúcar na hora do café. Namora comigo e me deseja, até que o teu desejo seja tanto que não haja espaço para pensar em ir embora e depois, me deita no teu peito, segura minha mão e adormece- ou não. Faz um beijo calar um pranto. Divide comigo tuas hipocondrias, neuroses, receitas e vamos falar sobre nossas terapias. Me faz habitar no teu silêncio que me cuida, me cura e me saúda todas todas as vezes em que eu não tenho palavras para explicar os meus rios que não chegam em oceano algum.

“Me abraça. Me beija. Me chama de ‘meu amor'”

Conta-gotas

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Eu sei que eu amo tudo aquilo que remete ao pranto. Mas eu amo você, e isso me salva. Eu sei que quando você ouve isso já vai colocando as suas coisas na mala e vai saindo como se eu não fosse capaz de notar a sua partida, mas eu amo e as minhas confissões só vão até aqui. Eu sei que eu sinto a sua falta quando a quarta dose chega na mesa e o cara do violão toca Legião e eu lembro dos seus olhos fechados e do sorriso aberto, tão correto e tão bonito, falando do Deus infinito, aquele, o mais lindo. Mas eu também sei que amo o teu silêncio, e daí as minhas certezas acabam aqui para dar espaço para o meu silêncio, que alguns dias é um oceano tão calmo, que dá medo. E tem dias que dá sede. E engana as pessoas cegas ao meu redor. Tão cegas que acham que me veem.

Talvez você até queira ficar para tomar mais um café e esqueça das planilhas e palestras e dos artigos e dos desejos secretos de só dormir até mais tarde pra conseguir engolir mais uma dose da hipocrisia humana. Eu digo isso, porque, assim como você, eu não tenho medo do lado sombrio que carregamos dentro de nós e que nossos pais não conhecem. Os nossos anciãos um dia nos disseram que essa versão tabagista e etílica não presta, mas esqueceram de avisar que muitas vezes é só o que nos resta para conseguir sobreviver nas versões branco gelo, bem passadas e de colarinhos alinhados que diariamente a gente finge amar de verdade. E até ama. E eu amo você. Mesmo quando você pulsa e depois me estica, porque sabe que os meus joelhos quebram quando eu fico tanto tempo sem te respirar. E eu sei que deveria ter uma visão mais pastel do amor, mas eu só consigo amar o que me tira camadas e me revela inteira, ossos e dentes, veias e danos. E eu me amo tanto, que aceitei que eu mereço alguém como você me atravessando e alterando e esvaziando as minhas azias. E eu sei que eu deveria falar sobre outras coisas, como a incapacidade das pessoas de conseguirem viver com a verdade, mesmo elas jurando que é o que mais querem para a vida. Mas, a gente sabe, ninguém está aberto e preparado pra ouvir sobre seus fracassos e a gente também sabe que amar desse nosso jeito conta gotas, é a única maneira de não se afogar no outro.

Eu sei que pode parecer egoísta não querermos companhia nesse nosso círculo fechado onde só cabe os nossos corpos e os nossos copos e não encaixa nenhuma outra versão, senão essa, una e cíclica. Eu sei que eu exagero demais quando o assunto é sentir e que mesmo você acalmando as tempestades dentro e fora daqui, eu ainda sou um assunto para depois, quando der um tempo, pra quando o tédio te corroer e a sua saliva pedir uma novidade. Eu sei que eu ando dizendo por aí que a vida vai se acertar e comprando band-aid, remédio pra dor, cuidando da alimentação e fugindo dos exames de rotina toda semana porque eu sou um pouco hipocondríaca. Mas você sabe que tenho medo de encarar as feridas externas e prefiro te deixar ser meu principal catalisador de euforias. Eu sei que agora, nesse instante, eu esteja alimentando algumas das suas certezas e que você vai colocar isso na sua pilha de pessoas que salivam quando você passa. Eu sei que quando eu peço para você voltar, isso remete aos amores adolescentes que a gente detesta. Eu sei que quando eu te peço pra ficar, você pondera, mas ainda assim entra no seu mundo particular e vai. Eu sei de quase tudo o que acontece depois daqui e que nos leva sempre ao mesmo lugar, aquele momento em que eu descubro que posso enfim te alcançar. E que todas as nucas com cabelos bem cortados, todas as doses e todas as noites e todas as bocas, nunca irão chegar perto da magnitude do que eu sinto quando você desliza e me sente. Do que eu sou no vão dos teus dedos. Eu sei que agora eu pareço despida demais a ponto de querer te fazer olhar para o outro lado e fingir que nada disso aconteceu. Mas se houver alguma maneira de explicar melhor o que eu estou tentando dizer, faz o seguinte: Me beija.

Me beija até eu não saber de mais nada.

Bom dia

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Hoje eu acordei querendo ser o seu contato de emergência no seu plano de saúde. Querendo fazer seu café da manhã. Escolher a sua camisa. Colocar uns guardanapos na sua mochila do trabalho, porque nem sempre tem guardanapo bom quando a gente come fora de casa e isso é uma coisa que sempre me incomodou. Avisar que passou na televisão que no final do dia vai chover de novo e te dar um guarda-chuva.  Te acordar na próxima noite por causa das minhas insônias- principalmente as românticas. Hoje eu amanheci querendo te contar sobre as minhas partidas, sobre o que eu já fui sem você e que hoje não existe mais, mas também falar do quilo do açúcar mascavo que é um absurdo e não tá dando pra ser saudável assim, vai o refinado mesmo. Queria fazer um texto para você, te associando com um cais, mas eu não consegui contextualizar esse pensamento ainda. Hoje eu amanheci com dor nos ombros, mas ao mesmo tempo determinada a não ser só mais um ser humano na Terra que vive, cresce, come até ficar com o colesterol alto e cego por causa da diabetes e morre. Então, eu decidi que preciso da sua ajuda pra isso. Eu preciso da sua ajuda para não me perder das essências e continuar indo para a academia três vezes na semana.

Hoje eu queria te explicar que eu não tenho medo de morrer, mas tenho medo que um dia você morra e eu fique sem ter para onde ir. E que tenho medo de não conseguir fechar o mês com dinheiro suficiente na conta, porque eu decidi assumir a minha casa, e que eu deveria ter comprado um sofá menor para a sala, mas agora eu já me precipitei, paciência. Hoje eu tenho certeza de que eu te falaria da existência humana de maneira profunda, mas juro por Deus, que te imploraria pra colocar umas prateleiras que eu comprei há meses, mas não tenho ninguém pra me ajudar a parafusar na parede. Queria continuar a conversa da noite passada, só que mais de perto, talvez com umas taças a gente acabasse criando novas teorias e eu possa te mostrar uma receita de macarrão integral maravilhosa e que dá pra gente comer com menos culpa. Queria te tranquilizar sobre o futuro, porque eu tenho certeza de que você nunca precisará comprar nenhum afeto, barganhar nenhuma companhia, porque você é um dos seres mais doces da humanidade e terá parte da minha herança- sim, no caso, o meu carro- e, quem sabe, não achar que te colocar tão dentro da minha rotina seja algo intenso demais para nós dois.

Hoje eu não queria fingir que sei exatamente o que estou fazendo quando digo que sei. Queria planejar férias- essas que eu não terei tão cedo– e ter certeza de que conseguirei sentir um pouco do sol queimar o meu rosto- só um pouco, porque a minha pele é muito clara. Gostaria de te ouvir reclamar da humanidade ao seu redor que hora te desafia, hora te encanta e hora te deixa morrendo de tédio. Queria pedir os pratos quentes do bar que a gente gosta e uma água com gás e dois copos com gelo, limão só no meu. Queria que você esticasse a mão para me lembrar que a gente escolheu ser sozinhos, só que juntos. Queria ter uma solução viável para essa sensação que nós temos sobre a brevidade da vida. Sobre o quão efêmeros somos diante de tudo o que acreditamos. Hoje eu só queria poder te dizer que o teu silêncio, cura. Que nem sempre eu queria que a hipótese de dormir na minha cama fosse só uma hipótese, porque o teu braço me ajuda com essa dor do meu ombro que surge quando eu durmo torta. Queria que todas as coisas que eu sinto em vão esvaíssem, tipo o meu desespero diante de coisas pequenas, e ficasse somente o que realmente me serve de abrigo- simno caso, você- e que você tivesse total certeza de que eu nunca irei te abandonar, enquanto houver verdade em nós. E que o seu cabelo é. definitivamente, muito bonito e bom.

Hoje, queria poder ter certeza absoluta de que você consegue levar as próprias escolhas com tranquilidade, sem vontade de ver como seriam outras versões da vida que você leva. Amanheci querendo te dar uma família, mas também te fazer entender que isso não nos garante um lar de verdade. Amanheci com alguns erros seus de gramática para corrigir, mas nenhum deles é concreto de verdade a ponto de me fazer significativa na sua história. Hoje acordei usando suas meias e te ouvindo dizer que nem tudo é tão bom assim, como eu acho que é, mas em nenhum momento você estava dividindo meu travesseiro. Acordei querendo que você estivesse no outro cômodo lendo um dos livros novos que eu comprei. Hoje eu abri os olhos na minha cama, com as minhas cobertas, envolta dos meus lençóis e te querendo aqui, em mim. Acordei com um pouco mais de liberdade em nós. Com um pouco mais de você na íris. Com um pouco mais, de tudo.

Aceita um café? 

O caminho de volta

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Eu sento diante de uma mesa ao lado de fora da cafeteria onde vimos o mundo inteiro se resumir na frase: “Eu espero que você consiga encontrar o que tanto busca”, e  acho que ainda consigo me lembrar de como os seus olhos ficavam apertados quando eu começava a explicar as razões de sempre me sentir desconexa, de você me ferir mesmo quando tentava não fazê-lo. Lembro de como você precisava colocar o cabelo para trás quando não conseguia se fazer entender. Lembro de como nós éramos apenas os opostos de tudo, tentando se encaixar. Lembro do pedido à moça sorridente que ainda serve as mesas. Será que ela ainda lembra de mim? De mim quando era com você? De nós? Se é que houve esse “nós” em algum momento. Seus beijos ainda parecem horríveis e seu toque pesado, seus desastres interiores expressados nas suas ações físicas. A cafeteria não mudou, nem mesmo as cadeiras e o cheiro de canela que sobe do balcão ainda chama atenção. Mas eu, com certeza não sou a mesma pessoa, não guardo os mesmos detalhes e não consigo sequer me recordar de como eu parecia nos porta retratos da vida. É, talvez a moça não consiga lembrar de mim, porque nunca me conheceu. Não é culpa dela. Eu também não te reconheceria na multidão.

Em minhas mãos carrego cicatrizes de quando tentei, inutilmente, te segurar para não cair no abismo que é essa vontade faminta que carregamos dentro do peito numa ilusão de que um dia vamos saciar. São essas marcas que me provam que em algum momento eu fui, sim, aquela versão tão mais clara e simples e não fumante e não adepta de auto flagelo emocional para me punir pela sua existência. Então, agora, nesse instante, me explica uma coisa simples: Como você consegue simplesmente traçar o caminho de volta para a minha vida, sem teus ombros pesarem? Sem as tuas mentiras arrancarem um pedaço do seu estômago? Porque, quando a sua voz do outro lado da linha só conseguia dizer um “desculpa” bem mal formulado, eu só senti aquele formigamento de mágoa subir pelos meus pulsos e novamente eu estava sendo submersa no limbo emocional que eu te joguei. Me fala, como você faz pra conseguir chegar perto, sem nem mesmo esticar os braços? Como você consegue dizer que eu ainda faço parte de você, se quando você saiu pela última vez, me arrancou membros e órgãos e eu sou essa versão reconstituída, sem garantias de funcionamento ideal? Eu não consigo entender, eu não consigo conceber a ideia de que passou pela sua cabeça que em algum instante eu conseguiria te receber para tomar um café, falar de canela e erros que a gente comete quando compra um novo celular e me colocar na linha de frente das tuas lutas por redenção.

A naturalidade de como você erra e volta com os olhos cheios de esperança, me desanima. Eu penso que nunca conseguirei ser como você e me anestesiar pelos danos causados e sofridos, como quem lida com uma planilha cotidiana de funções casuais e apenas encolhe os ombros enquanto mostra as mãos limpas de culpa. Eu cheguei ao ponto de crer que você encara a vida alheia como uma experiência laboratorial. Você observa, anota, mas nunca faz parte integralmente de nada, de ninguém e nem de si mesmo, porque sabe muito bem onde se esconder. Então, me explica uma coisa simples: Você se reconhece no espelho ou aceitou uma versão qualquer para conseguir levar os dias? Me explica, como você consegue vestir essa roupa justa de homem sábio, enquanto os teus crimes sujam o caminho atrás dos seus pés? Será que você se blindou tanto aos sentimentos e se cegou tanto com as suas verdades conservadas à vácuo, que agora consegue volta por uma estrada cheia de cacos sem sequer se cortar? A sua facilidade em se justificar usando inocências que não existem, sequer te sangra. Sequer mostra alguma rachadura.

Agora, olhando o passado, agora, vendo com clareza, agora, com os olhos menos inchados, com a razão mais equilibrada, me sinto como uma espectadora. Eu só consigo sentir pena de nós, tento me avisar que vai ser mais difícil do que o planejado e que NÃO, eu não saberei lidar com nada disso por muito tempo. Por muitas vidas. Por muitos ciclos que cruzam a nossa história e a gente acredita ser parte de um plano maior para nós. Se é que houve esse “nós” em algum momento. Eu repito as cenas, eu ainda consigo lembrar as emoções, mas não sou capaz de te amar nem mesmo nos momentos em que você merecia. Nem mesmo quando a verdade era evidente. Nem mesmo quando a gente achava uma posição onde conseguia se equilibrar nas ausências. Nem mesmo quando você se deixava ver por inteiro. Nem mesmo porque eu parecia ter nascido para fazer isso. Porque agora, é só o cheiro de canela subindo de algum lugar. É só a falta de vontade de ter que encarar o suicídio que é te ter novamente na lista de contatos. É só a paz interior de te mandar embora  e a minha vontade sincera de que você consiga encontrar o que tanto busca. E de preferência, longe de mim.