All posts by Eline Carrano

Jornalista por profissão, cronista por opção e neta coruja. Escrevo porque preciso justificar as ansiedades que o tarja-preta não dá conta.

Azulejos provisórios

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Eu poderia ter olhado um pouco mais profundamente no espelho, respirado e ficado. Mas não. Eu saí dizendo que talvez na quinta-feira eu trouxesse um pouco de queijo ralado da padaria perto da minha casa, porque o seu acabou- é que eles ralam na hora e fica fresquinho. Mas eu sabia que não, eu não estaria ali na quinta, depois das 19h e esperando você entrar dizendo que o dia tinha sido tão cansativo que você só teve tempo de comer um sanduíche no almoço. E você também. A sua vizinha do terceiro andar não sabia. Mas a gente, sim. O seu porteiro que sempre me dizia se ia chover ou não, talvez nem imagine. Mas nós sabemos, ficou claro.

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Voando baixo

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Eu sei voar baixo no radar, você já deve saber disso.

Quando eu quiser ser encontrada, você saberá. Mas calma, eu não irei te julgar por ter todas as suas certezas prontas para serem mastigadas pelas minhas vontades. Me vira, me toca, me afogue com a sua saliva. Eu posso te perdoar por achar que sabe me definir ou moldar, mas por enquanto, apenas continue voando baixo comigo. Me pede pra ficar de novo e eu fico. Me pede para me descobrir e eu me despedaçarei pouco a pouco, camada por camada, e talvez um dia você saiba o motivo dos alertas de perigo em meus olhos. Mas não espere estar nas capas de jornais, não ache que eu irei pegar na sua mão no almoço em família ou que eu irei te implorar atenção como um ser que necessita se sentir visto. Não. Ninguém precisa nos ouvir ou rotular ou sequer precisa entender. Ninguém.

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Focas do atlântico

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“Já ouviu dizer que o mundo está acabando?” Você me pergunta enquanto enrola uma mecha do meu cabelo. “Dizem que está acabando porque ninguém cuida de nada direito, mas a verdade é que a gente não cuida nem do que ama, imagina da foca listrada do atlântico? Que eu nem sei se existe mesmo.” Eu poderia tatuar esse diálogo e criar uma tese filosófica sobre ela que iria cruzar o mundo, porque “a gente não cuida nem do que ama”, repetiu-se na minha mente como um ciclo infinito de uma verdade tão sóbria e tão suave, como tudo o que aconteceu naquele dia tão cinza.

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Eu te vejo inteiro

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Você me ama a ponto de conseguir segurar meu soco seco na ponta de facas que me ferem. Você me estanca, cura e sangra, pra poder me lembrar o custo e o barulho mudo que é te desejar num dia frio de meio de ano, querendo morar no seu pulmão esquerdo que é menor, pra eu não ter mais espaços para outra coisa que não seja você me respirando. Amar tanto. Amar teu zelo e teu sofrimento e depois querer orbitar em cada uma das suas animosidades pra dar novidades na minha vida. Eu sou a história que você poderá repetir por anos a fio e sempre haverá algo novo para incluir, para te incluir. Meus dias de conquista, você. Quando o chão tocou meu rosto, você. Quando eu sou algo maior do que eu achei que seria, nós.

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Me engula agora, se possível

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A sua camisa era branca, seu cheiro ainda era de quem saiu do banho poucos minutos antes da minha chegada, mesmo o suor tendo tomado o seu corpo. Você pedia para que eu ficasse enquanto eu me organizava para sair. Eu já sabia que se não saísse naquele instante seria um caminho sem volta, eu iria te ver para sempre como casa, mas você me segurou tempo suficiente para eu querer repousar minha cabeça no seu peito para o resto dos meus dias. Carência, você diria no dia seguinte. Vinho demais, um lapso, um erro, um descuido, uma casualidade de quem ficou tanto tempo sem conhecer alguém tão diferente, foi o cigarro, foi o perfume, não sei. Antes da lista de desculpas, eu só conseguia focar naquele momento despido- por dentro e por fora. Sabe, as pessoas passam a vida buscando cinco minutos daquilo, e nós fugimos disso a vida inteira. Idiotas.

Medrosos.

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Namastê

_Se posicione na cadeira, encontre seu equilíbrio corporal. Respire devagar e expire longamente.

_Eu tenho que pagar o estacionamento da faculdade pela internet, senão vou ter que enfrentar aquela fila enorme na saída. Eu deveria rever essa questão de débito em conta, é tão prático e eu fico aí evitando essas burocracias. Será que eu consigo colocar a conta de celular no débito automático também? Vou ligar na operadora. O celular da minha avó poderia entrar também, tadinha, nunca tem tempo de ir pagar os boletos… Volte para a meditação, idiota.

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Caixa-postal

Me atende. E entende.

Me fala que está tentando consertar do teu lado o que tá quebrado aqui, dentro de mim, e por isso não ligou ainda. Me explica o que eu faço com tudo que é seu e que ficou comigo, porque eu não aguento mais tirar o pó da nossa foto na tentativa de que eu te toque de alguma maneira e que aí, do outro lado da linha, você sinta. Eu to vivendo do que tem pra hoje e parei com os planos. Todos os projetos estão parados porque eu não sei como continuar sem você. Daí, eu queria só ter certeza de que você vai atender e eu não terei que me contentar com a caixa postal me pedindo pra deixar um recado. Porque, sinceramente, eu nem sei por onde começar e nem sei se tudo isso que eu sinto cabe num recado. Eu não sei como eu coloco os livros na minha estante e não sei se você anda comendo direito, se lembrou de tirar o vinho da geladeira, porque eu saí correndo da última vez e esqueci de avisar sobre isso. Você já falou com os seus pais essa semana, mais do que cinco minutos relapsos e sem profundidade? Eles precisam de você, assim como você deles e assim como eu preciso de você. Todo o tempo.

Então, me atende. Me escuta.

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