Ser ou não ser

Todos meus arquétipos deitam comigo na cama, me acariciam os ombros e me fazem dormir sonos perturbados, incoerentes, cheios de sudoreses e saudosismos. Alguns, mais freudianos, erotizados com ares de Dionísio. Outros mais poéticos, shakespearianos natos e ritmados. Há dias que eu caio no abismo profundo do não saber o que desejar daqui cinco anos, há dias que eu simplesmente tenho certeza do que eu não quero agora. E só o agora segura meus pés aqui, nessa linha tênue entre a loucura e um tanto de orgulho de não ser mil coisas que eu poderia ter sido. E só o agora me lembra das outras mil coisas que eu poderia ser, mas não sou.

Continue reading “Ser ou não ser”

Advertisements

Fresta

7a00534558129cc6d654ee1589836537

Quando a manhã se desponta na janela, passando por aquela fina fresta que não é coberta pela cortina, eu sinto que há você em algum espaço de mim que eu não controlo e nem sei direito onde fica. Mas te tem. Eu sinto nas primeiras respiradas da manhã os teus vestígios de comportamento expressos nos meus hábitos. Não me preocupo, afinal, já aceitei a diacronia da sua existência em mim. Quando eu tomo menos açúcar no café ou coloco no lembrete da agenda o nome do filme que eu nunca vi e você acha que eu vou gostar, quando eu penso em te desdobrar do meu subconsciente pra te ter mais palpável para os meus egoísmos, é como se eu pudesse respirar com teu pulmão, como se corresse em mim as tuas plaquetas, eu já não vejo diferença entre teu sorriso e meu lábio.

Continue reading “Fresta”

Azulejos provisórios

tumblr_inline_o2puzfdB0O1qa0woi_5001

Eu poderia ter olhado um pouco mais profundamente no espelho, respirado e ficado. Mas não. Eu saí dizendo que talvez na quinta-feira eu trouxesse um pouco de queijo ralado da padaria perto da minha casa, porque o seu acabou- é que eles ralam na hora e fica fresquinho. Mas eu sabia que não, eu não estaria ali na quinta, depois das 19h e esperando você entrar dizendo que o dia tinha sido tão cansativo que você só teve tempo de comer um sanduíche no almoço. E você também. A sua vizinha do terceiro andar não sabia. Mas a gente, sim. O seu porteiro que sempre me dizia se ia chover ou não, talvez nem imagine. Mas nós sabemos, ficou claro.

Continue reading “Azulejos provisórios”

Voando baixo

432194-tumblr-and-tumblr-boys-hands

Eu sei voar baixo no radar, você já deve saber disso.

Quando eu quiser ser encontrada, você saberá. Mas calma, eu não irei te julgar por ter todas as suas certezas prontas para serem mastigadas pelas minhas vontades. Me vira, me toca, me afogue com a sua saliva. Eu posso te perdoar por achar que sabe me definir ou moldar, mas por enquanto, apenas continue voando baixo comigo. Me pede pra ficar de novo e eu fico. Me pede para me descobrir e eu me despedaçarei pouco a pouco, camada por camada, e talvez um dia você saiba o motivo dos alertas de perigo em meus olhos. Mas não espere estar nas capas de jornais, não ache que eu irei pegar na sua mão no almoço em família ou que eu irei te implorar atenção como um ser que necessita se sentir visto. Não. Ninguém precisa nos ouvir ou rotular ou sequer precisa entender. Ninguém.

Continue reading “Voando baixo”

Focas do atlântico

tumblr_static_tumblr_static__640

“Já ouviu dizer que o mundo está acabando?” Você me pergunta enquanto enrola uma mecha do meu cabelo. “Dizem que está acabando porque ninguém cuida de nada direito, mas a verdade é que a gente não cuida nem do que ama, imagina da foca listrada do atlântico? Que eu nem sei se existe mesmo.” Eu poderia tatuar esse diálogo e criar uma tese filosófica sobre ela que iria cruzar o mundo, porque “a gente não cuida nem do que ama”, repetiu-se na minha mente como um ciclo infinito de uma verdade tão sóbria e tão suave, como tudo o que aconteceu naquele dia tão cinza.

Continue reading “Focas do atlântico”

Eu te vejo inteiro

11925796_132582923750989_344436697_n

Você me ama a ponto de conseguir segurar meu soco seco na ponta de facas que me ferem. Você me estanca, cura e sangra, pra poder me lembrar o custo e o barulho mudo que é te desejar num dia frio de meio de ano, querendo morar no seu pulmão esquerdo que é menor, pra eu não ter mais espaços para outra coisa que não seja você me respirando. Amar tanto. Amar teu zelo e teu sofrimento e depois querer orbitar em cada uma das suas animosidades pra dar novidades na minha vida. Eu sou a história que você poderá repetir por anos a fio e sempre haverá algo novo para incluir, para te incluir. Meus dias de conquista, você. Quando o chão tocou meu rosto, você. Quando eu sou algo maior do que eu achei que seria, nós.

Continue reading “Eu te vejo inteiro”

Me engula agora, se possível

35223048_1675290995881495_2778563847299006464_n

A sua camisa era branca, seu cheiro ainda era de quem saiu do banho poucos minutos antes da minha chegada, mesmo o suor tendo tomado o seu corpo. Você pedia para que eu ficasse enquanto eu me organizava para sair. Eu já sabia que se não saísse naquele instante seria um caminho sem volta, eu iria te ver para sempre como casa, mas você me segurou tempo suficiente para eu querer repousar minha cabeça no seu peito para o resto dos meus dias. Carência, você diria no dia seguinte. Vinho demais, um lapso, um erro, um descuido, uma casualidade de quem ficou tanto tempo sem conhecer alguém tão diferente, foi o cigarro, foi o perfume, não sei. Antes da lista de desculpas, eu só conseguia focar naquele momento despido- por dentro e por fora. Sabe, as pessoas passam a vida buscando cinco minutos daquilo, e nós fugimos disso a vida inteira. Idiotas.

Medrosos.

Continue reading “Me engula agora, se possível”

Namastê

_Se posicione na cadeira, encontre seu equilíbrio corporal. Respire devagar e expire longamente.

_Eu tenho que pagar o estacionamento da faculdade pela internet, senão vou ter que enfrentar aquela fila enorme na saída. Eu deveria rever essa questão de débito em conta, é tão prático e eu fico aí evitando essas burocracias. Será que eu consigo colocar a conta de celular no débito automático também? Vou ligar na operadora. O celular da minha avó poderia entrar também, tadinha, nunca tem tempo de ir pagar os boletos… Volte para a meditação, idiota.

Continue reading “Namastê”

Caixa-postal

Me atende. E entende.

Me fala que está tentando consertar do teu lado o que tá quebrado aqui, dentro de mim, e por isso não ligou ainda. Me explica o que eu faço com tudo que é seu e que ficou comigo, porque eu não aguento mais tirar o pó da nossa foto na tentativa de que eu te toque de alguma maneira e que aí, do outro lado da linha, você sinta. Eu to vivendo do que tem pra hoje e parei com os planos. Todos os projetos estão parados porque eu não sei como continuar sem você. Daí, eu queria só ter certeza de que você vai atender e eu não terei que me contentar com a caixa postal me pedindo pra deixar um recado. Porque, sinceramente, eu nem sei por onde começar e nem sei se tudo isso que eu sinto cabe num recado. Eu não sei como eu coloco os livros na minha estante e não sei se você anda comendo direito, se lembrou de tirar o vinho da geladeira, porque eu saí correndo da última vez e esqueci de avisar sobre isso. Você já falou com os seus pais essa semana, mais do que cinco minutos relapsos e sem profundidade? Eles precisam de você, assim como você deles e assim como eu preciso de você. Todo o tempo.

Então, me atende. Me escuta.

Continue reading “Caixa-postal”

Sentir não faz sentido

rain-room-random-international-moma

Até o silêncio me cuida, eu me agarro nisso antes de afundar e depois eu já não vejo mais nada. Nessa água escura, sem som, eu só quero ser a unha que descasca a ferida- porque eu preciso ser alguma coisa. Tudo é preciso justificar: A lista de compras, os gastos no final do mês, a ausência na reunião de família, a escolha do próximo destino de fuga e o motivo de tudo virar um “você”. Tudo precisa estar minimamente justificado, parágrafo 2 em times new roman 12. A faca que gira dentro da pele e sangra toda vez que me perguntam quando irei parar de sentir tanto e com tanta intensidade e enfim parar de ser tanto eu pra ser o que querem de mim. Eu vejo a minha pele árida colar nos meus ossos e depois eu já estou mastigando algum órgão que parou- sente agora? Eu sou a arma apontada, o gatilho na mira. Eu incomodo, altero o ar. Eu respiro fundo, seguro um pouco para conseguir morrer depois, na esquina de um desespero qualquer e me reerguer sem os dentes da frente, fingindo não doer. E novamente, você.

Como você pode falar da morte com tanta intimidade?– eles perguntam.

Eu já amei tantas vezes e ainda me mantenho aqui, firme no que creio. Mentiras nos alimentam, você sabe, amar é também morrer um pouco todos os dias. Eu já me perdi tantas vezes que consigo fingir conforto aí, onde você finge ter chegado- às vezes morro de fome com tantas verdades. Eu já me achei tantas vezes, que consigo morrer na sua boca agora, sem medo. Inibiram meus sentimentos, porque sentir demais me afasta do Paraíso dos Frigidos- há dias que me sinto o próprio inferno. Gritos de socorro não são ouvidos atrás dos meus acenos educados e eu vesti um pijama ruim hoje porque até a minha blusa favorita você levou em meados de um dezembro antigo- nem isso me pertencia, afinal. Ansiedades se viram dentro da minha íris e descobri que sofro de refluxo quando penso demais no que existe dentro da pele- eu preciso sair de mim, nem que seja em fluídos.

Agora, de onde eu olho as imagens salgadas do choro que eu não derrubei, das feridas que eu não sangrei, os cigarros que eu não fumei, eu pergunto: Até quando o teu silêncio me manterá segura, meu amor? Até quando iremos carregar esses fardos? O céu da tua boca anda vazio, assim como o meu? Forço a mandíbula e lembro de te ver acordar pela manhã, confuso e reclamando do frio e ter certeza de que se aquela fosse a minha última visão, eu morreria em paz. Estico um pouco meu braço e sinto que daqui eu poderia te acariciar os cabelos até a sua insônia perder a força. Por isso, se você não tiver muita coisa para fazer, muita gente para manter, muito assunto pra colocar em dia, por favor, me diz para ficar, mesmo fadigada e sendo essa tormenta, essa insensatez?

Namora comigo.

Namora, feito gente que não tem dívidas, nem refluxo, nem insônia, nem parentes chatos, nem nome sujo e tampouco se preocupa com depósito bancário. Namora comigo, feito aqueles filmes ruins de tarde de domingo, onde a mocinha fecha os olhos quando fala de amor e a gente tem vontade de jogar um pouco da nossa bile na cara dela pra mostrar a realidade da vida. Namora comigo como se a gente não estivesse preocupado com a possível proibição do omeprazol e nem tomasse corticoide como se fosse bala de morango- a gente precisa se tratar sobre isso. Namora comigo como se fosse possível. Como se não abalasse nenhum equilíbrio. Feito aquelas pessoas que a gente sempre viu de longe, se ignorando na mesa do bar porque o celular é mais interessante, e se sentia distante demais dessa realidade porque se interessa demais no outro. Anda comigo de mãos dadas da sala até a cozinha e vamos dividir a mesma colher de açúcar na hora do café. Namora comigo e me deseja, até que o teu desejo seja tanto que não haja espaço para pensar em ir embora e depois, me deita no teu peito, segura minha mão e adormece- ou não. Faz um beijo calar um pranto. Divide comigo tuas hipocondrias, neuroses, receitas e vamos falar sobre nossas terapias. Me faz habitar no teu silêncio que me cuida, me cura e me saúda todas todas as vezes em que eu não tenho palavras para explicar os meus rios que não chegam em oceano algum.

“Me abraça. Me beija. Me chama de ‘meu amor'”