All posts by Rafaela Manicka

Publicitária, especialista em Comunicação e Cultura e graduanda em Letras, Rafaela é criadora do blog "Amanhã Tanto Faz" e escreve não só por prazer, mas por necessidade também.

Você tem medo de que?

Faz tempo que não abro essa porta que está diante de mim. Faz tanto tempo que nem sei mais como as coisas estão organizadas, se alguém já mexeu ou se continua a mesma coisa. Será que alguém leu os inúmeros rascunhos que deixei jogados sobre a escrivaninha? Será que tudo aquilo continua sendo para mim as melhores palavras que uma pessoa poderia colocar num papel? Provavelmente não, eu nunca fui tão boa assim. E, justamente por não ser tão boa assim, acabei deixando de lado muito do que acreditava. Na verdade, fui deixando para trás aquele computador sobre a mesma escrivaninha e as músicas que me inspiravam por puro medo. Sim, o medo que jurei não ter. Pois bem, olha ele aqui. Olá.

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Regra Indica | 5 livros para surpreender o seu 2018

Durante todo o ano de 2017 fiz questão de anotar os livros que lia, só para fazer um balanço de quantos conseguiria ler no total. Foram 40 livros – dentre eles ficção, não-ficção, romances, de crônicas ou contos, sobre publicidade ou teoria da literatura, e por aí vai. O legal de ter feito isso é que percebi que saí um pouco da minha zona de conforto e, consequentemente, conheci um pouco mais de outros gêneros e também me surpreendi com a quantidade de material bom que há entre os escritores de nosso país.

O grande “culpado” por tudo isso foi o curso de Letras Português que comecei a cursar nesse mesmo ano. Não tinha como o cenário ser diferente, certo? Por causa dos meus professores, pude ter contato com autores que antes nunca tive interesse, além de, a cada leitura, ser um pouquinho mais crítica com ela. Tudo isso me amadureceu como leitora e apreciadora da literatura.

Diante disso, separei os 5 melhores livros que li no último ano (em minha opinião, que fique bem claro) e espero que vocês deem uma chance a cada um deles – ou, pelo menos, um deles. Vamos lá?

1 – Índice Médio de Felicidade (David Machado, 2013)

Numa escala de 0 a 10, o quão satisfeito você se sente com a sua vida? A vida de Daniel é nota 8, mas ele se vê obrigado a refazer esses cálculos estranhos e subjetivos quando uma grave crise atinge Portugal e começa a demolir seus planos. Desempregado, longe da mulher e dos filhos, vendo os amigos em situações difíceis e toda uma nova geração ameaçada, Daniel tem seu otimismo colocado à prova. A cada revés, à medida que seu índice médio de felicidade cai, uma força inexplicável dentro de si só parece aumentar. Na sua jornada para recuperar a esperança na felicidade, ele percebe que poderá desistir de tudo, menos de ajudar aqueles que ama. (Google Books)

* Clique aqui e leia a resenha que fiz sobre o livro.

2 – Gota D’Água (Chico Buarque e Paulo Pontes, 1975)

Versão brasileira de Medeia, Chico Buarque e Paulo Pontes se reuniram para revitalizar o texto de Eurípedes, escrito quase meio milênio antes de Cristo, submetendo-o uma injeção de nossa realidade urbana. Medeia é uma história de reis e feiticeiros. Gota D’Água é uma história de pobres e macumbeiros. Medeia é Joana, mulher madura, sofrida, moradora de um conjunto habitacional. Jasão aqui é Jasão mesmo, ainda jovem, vigoroso, sambista que desponta para o sucesso com uma música chamada “Gota D’Água”. Creonte também conserva o nome, e na nossa peça é o todo-poderoso do local, dono das casas, muito rico, o poder corruptor por excelência. A filha de Creonte é Alma, mocinha de veleidades pequeno-burguesas. A aia de Medeia é Corina, amiga e confidente de Joana, que enquanto lavam roupa vão desenrolando o fio da história. (Google Books)

3 – Olhai os Lírios do Campo (Érico Veríssimo, 1938)

Eugênio Pontes, moço de origem humilde, a custo se forma médico e, graças a um casamento por interesse, ingressa na elite da sociedade. Nesse percurso, porém, é obrigado a virar as costas para a família, deixar de lado antigos ideais humanitários e abandonar a mulher que realmente ama. Sensível, comovente, Olhai os Lírios do Campo é um convite à reflexão sobre os valores autênticos da vida. (Google Books)

4 – Detetive à Deriva (Luís Henrique Pellanda, 2016)

Nas crônicas de Detetive à Deriva, as belas estranhezas do dia a dia – como uma família de urubus nas alturas de um prédio, um par de botas abandonado, um solitário bebê chinês na calçada e um enigmático rastro de pétalas – estabelecem a relação entre o flâneur e o investigador, entre os observadores da poesia cotidiana e os autores policiais. Fugindo da tendência atual de transformar o espaço da crônica na imprensa em tribuna de opinião, Luís Henrique Pellanda, grande renovador e um dos principais autores contemporâneos do gênero, inspira-se nas ruas e nas janelas de sua Curitiba. Em pistas que só o cronista vê, o mistério das coisas pequenas se revela ao leitor com a leveza e o encanto de uma história bem contada. (Google Books)

5 – Ele Tem o Sopro do Diabo nos Pulmões (Marcelo Amado, 2016)

Lá de cima, da caravela que passa, aquele é apenas um lugar estranho, distinto. Mas é ali embaixo que as almas banidas devem ficar eternamente presas nas terríveis Gotas de Âmbar. No entanto, algo se mostra muito errado quando um homem consegue burlar o seu destino. E, ao se envolver com uma misteriosa mulher, tentará escapar desse mundo abissal. Depois, um jovem se tornará o maestro do espetáculo circense mais horrível da Terra. Uma figura enigmática em busca do melhor – ou pior – para o seu espetáculo perfeito, doentio. O romance de horror Ele Tem o Sopro do Diabo nos Pulmões apresenta o grotesco e o sobrenatural que transitam por uma atmosfera carregada de gore, insanidades e um toque de steampunk. Bem-vindo ao maior espetáculo de horrores já visto! Bem-vindo ao Cirque Le Monde Bizarre! Mas tome cuidado para não ser a próxima vítima das insanidades do… leal Tissot. (Amazon)


Espero que vocês apreciem cada leitura dessas assim como eu apreciei. Bom 2018! 😉

Retrospectiva

Esse ano não foi fácil. Foi daquele jeito lá – como é que os jovens dizem? Tiro atrás de tiro? Pois então, foi. O ano nem acabou ainda, mas já o considero como pilar máximo que sustenta o que chamo de vida. Nada veio ao chão, muito menos eu. É claro que houve um deslizamento ali, outro acolá, mas desmoronamento? Nenhum.

A vida é isso aí mesmo. Um tal de tropeça, cai, levanta. Tropeça, cai, levanta. tropeçacailevanta ad infinitum. Mês atrás de mês, deixando tudo o que aconteceu nele e apenas nele. Coisas pequenas para preocupações demasiadas grandes nunca foram proporcionais entre si – talvez seja até por isso que às vezes é mais cômodo tropeçar e ficar ali pelo chão mesmo. Com tanta chuva caindo ao redor, não me admiraria caso caísse também uma lágrima do anjo que insiste em tentar me levantar. Os anjos só não existem para quem não acredita em sua existência.

Pessoas se foram, outras chegaram. Tudo bem, é a lei da vida, eles disseram. No dia em que eu descobrir quem são eles, não sei do que sou capaz. Até parece que fazem de tudo para me boicotar, será que é por eles que não consigo chegar onde sempre quis? Não chego porque tropeço, caio, levanto, tropeço mais uma vez e mais uma vez permaneço ao chão. É mais fácil – e mais fresco, faz muito calor aqui na Terra. Derreto-me em forma de pó, pois com tanta secura que se instalou já não há mais água que transpire de meu corpo. Esgotaram-se pelas lágrimas, escorreram pelo meu rosto dedos corpo. Tropeçaram, caíram, mas jamais se levantaram.

Últimos meses, últimos dias – só não digo últimos anos porque não é o que realmente quero. Espero momentos melhores de dias iguais. Os dias não foram ruins, apenas cansativos. Duros. Infinitos. Dias em que tropecei, caí e levantei incessantemente. E mesmo com tudo isso, com todos os arranhões e tropeços e quedas e sorrisos e lágrimas e fracassos e vitórias e tudo mais o que se imaginar, permaneço de pé. Em frangalhos, mas de pé. Quase caindo novamente, mas de pé. Com todas as dores e pesos que o mundo insiste em jogar contra mim, mas de pé.

Essa tríade tropeçarcairlevantar foi fundamental para estar aqui. Foi com ela que pude perceber que estou viva – e isso é bom. Mesmo com tanta coisa ruim acontecendo. Sendo assim, desejo a todos um excelente ano novo com ainda mais tropeços, quedas e levantamentos.

Les Misérables

Dia desses viajei para São Paulo. Cidade grande, cinza, concreta. Tudo ao meu redor parecia que iria me engolir a qualquer momento. Os prédios me inibiam; as pessoas, intimidavam. Eu era a intrusa daquele lugar, pois não estava no meu de origem. Nesse, sim, viro o predador, onde inibo e intimido quem quer que passe por mim. Mas não na cidade da garoa. Lá, são eles que mandam.
 
Eu estava de folga, aproveitando momentos únicos ao lado de quem supostamente diz que quer o meu bem. Digo supostamente porque do íntimo de cada um eu já não sei. Pode ser que tudo seja da boca pra fora, mas talvez não. Eu nunca irei saber, entende o que quero dizer? Tive que sair do meu habitat natural, mudar de caçador para caça, para entender que nem tudo é tão claro e nítido quanto as águas do Tietê deveriam ser.
 
Às seis e meia da manhã, estava eu estendida no meio de milhares de pessoas indo de um lado para o outro, virando caças sem ao menos perceberem. Todos estamos sujeitos a sermos o que não queremos. Miseráveis, por exemplo – e não faço menção à obra de Victor Hugo. Refiro-me às nossas vidas limitadas, projetadas a não saírem do raio que nos foi imposto dentro de seja lá qual for a cidade. Entenda, somos todos miseráveis. E me dei conta disso quando eu também fui. Jamais ousamos imaginar que erros e defeitos também podem nos pertencer, mas é bem assim mesmo. Às vezes as pessoas são o que são só por serem; talvez cientes de seus passos e atitudes, talvez não.
 
Em plena Avenida Paulista, grande rio fechado e asfaltado, andava despretensiosamente só para tentar fugir dos demônios que acolhi dentro de mim com um prazer maior e mais estranho que o normal. Eles não me pertenciam, mas assim mesmo os tomei como meus. E nada melhor que uma cidade tão pouco conhecida para livrar-me deles. O plano era parar em alguma esquina, algum canto escuro como meus pensamentos em dias ruins, para expelir o que não prestava, o que me fazia mal. Viver em sociedade me deixa cada vez mais doente, mas disso eu não tenho como fugir. Ironia é sair da minha zona de conforto para encarar uma sociedade ainda mais miserável e tentar entender o porquê de certos acontecimentos recaírem apenas sobre mim.
 
Em meio à minha busca por refúgio, percebi que a cada dois passos eu tropeçava em misérias alheias. A cada esquina, os donos daquilo tudo, com sorrisos tortos, suplicantes. Os miseráveis estavam por toda parte, pedindo dinheiro, informando que estavam com fome. Assustei-me com tamanha audácia de um deles ao me encurralar e permanecer insistindo no que não ia receber. Pediu-me dinheiro, não dei. Disse que estava com fome, não fiz nada. Pediu meu frappuccino do Starbucks e EPA, AÍ NÃO NÉ – praticamente como se dissesse ao pedinte para comprar o seu próprio com o dinheiro de outros miseráveis assim como eu.
 
Percebe? Nós somos todos, sim, miseráveis.
Eles, de bens. Eu, de espírito.

A vida é uma piada

É tudo engraçado. A dor que a gente sente, o café que tomamos, o pão na chapa que queimou, até mesmo o que deixamos de fazer na noite anterior. Nada é pra ser levado tão a sério, pra quê? Não se estresse, coloca um sorriso no rosto, finge que está tudo bem. E mesmo que não dê, finge mais uma vez. Ninguém se interessa pela história do outro, é tudo baboseira, lero-lero.

Se estiver apaixonado, ou qualquer dos outros derivados, esqueça. O mundo não pertence mais aos românticos, você estará sozinho no meio de pessoas turbulentas, que debocham de tudo por medo de se arriscarem. Ei, não fique assim, eu estava só brincando. Será que tudo tem que ser realmente assim? Seja leve, deixe os outros pra lá – eu já disse que ninguém se importa com quem você é.

Não sinta nada, finja demência, que não é contigo. Os dias estão cada vez mais caóticos, as pessoas tornaram-se protagonistas da própria desgraça. Mas não se esqueça que tudo podia ser pior, jamais se esqueça. Acordou de ressaca? Agradeça. Brigou com quem se gosta? Agradeça. Alguém se foi dessa pra melhor? Agradeça também, pelo visto é assim que tudo funciona. Aliás, de nada adianta você tentar se não agradecer, tá?

Olha lá fulano, já está casado. E você?, quando vai? Responda que nunca, que ninguém se importa. Responda que pessoas como você não têm vez no mundo, que ninguém quer alguém que se preocupe, que pergunte se está tudo bem. Diga que você é diferente, que já entendeu que as coisas não acontecem como você sempre imaginou. Fala que você já aceitou se entregar para o que não gosta só pra ver os outros com sorrisos falsos estampados bem no meio da cara, fingindo que estão felizes por você.

Aparentemente, tudo é motivo para a felicidade alheia – inclusive se ela for composta por tristezas de sua parte. Porque você não aguenta fingir por tanto tempo, você no fundo não aceita metade do que te impõe. Você até tenta ser como o molde que a sociedade cria, mas você vai além, você transborda, você se desdobra pra estar exatamente no lugar em que deveria estar: no peito de alguém que te quer bem também.

(mas isso não existe, porque a vida é uma piada)

A gente não está na mesma sintonia

Ontem você me ligou. Disse que estava com saudade, que queria me ver. Meu coração acelerou, acredito que por sentir saudade também. Mas não passou disso. A gente desligou, eu fui dormir e você não veio me ver. Tá tudo bem, eu insisto em dizer para mim mesma. As coisas são assim mesmo, quando um não quer dois não brigam. Será mesmo? Será que não vale a pena comprar essa briga? Não digo briga de porradaria, mas aquelas discussões saudáveis, que terminam com alguma conclusão plausível. Sabe? Ok, pelo visto não, porque se soubesse não diria coisas que fazem com que eu permaneça acreditando que isso que temos (nós temos?) um dia vai dar em algo.

Hoje eu te liguei – e na hora que eu ia te dizer algo, minha boca me trapaceou. Nada saiu, nem mesmo aquelas palavras que fiquei ensaiando durante o meu banho de trinta minutos. Você atendeu e eu gaguejei. Falhei diante de tudo o que havia prometido para mim, que ia fazer com que alguma atitude fosse tomada. Não foi. Perguntei como você estava, você disse tudo bem. Desliguei. Chorei. Lágrimas torrenciais eu chorei ao perceber que aquilo não ia sair do lugar que estacionou. Não tem porquê sair, pois permanecer estagnado, parado no tempo, é o mais sensato a se fazer. Pra você. Pra mim. Pra nós (nós?).

Amanhã o meu telefone não vai tocar. Não vai porque você não vai me ligar pra dizer que está com saudade ou que vem me visitar. Não vai porque eu não quero mais que ele toque. Não vai porque o aparelho não está na sintonia que deveria estar. Acredito que nunca esteve. Acredito também que enquanto a frequência tentava se ajustar, eu não estava presente para você e você muito menos para mim. As coisas não aconteceram de maneira linear porque nós estávamos em linhas tortas, opostas. Estávamos mortos um para o outro antes mesmo de vivermos algo juntos. Nós nunca estivemos juntos (estivemos?).

Algum dia o seu telefone irá tocar. Só não sei quando – e nem se será eu do outro lado da linha. A verdade é que a gente não está na mesma sintonia porque não fizemos o mínimo que deveria ser feito. A gente não está na mesma sintonia porque essa nunca foi a nossa intenção. A gente continuou do mesmo jeito desde o início porque pra estar em sintonia é preciso prestar atenção no outro.

E a gente nunca prestou.
Em todos os sentidos.

Momentos ressignificados

Tem muita coisa que acontece em nossas vidas que nós só queremos guardar pra sempre na memória, não é mesmo? Pelo menos comigo é assim. São tantos momentos bons e únicos, que a coisa que mais faz sentido é querer viver aquilo pra sempre e um pouco mais. Soa egoísta querer alguém que te faz bem sempre por perto? Não sei, prefiro pensar que pra tudo há um motivo de ser do jeito que é. O que sei, na verdade, é que existem momentos com significados que só a gente entende – e não tem porquê outras pessoas entenderem também.

Têm sentimentos que por si só já dizem tudo o que precisa ser dito. Momentos inesquecíveis que foram vividos do jeito que deveriam ter sido possuem um grande significado pra mim. São momentos que me tiram sorrisos, que me fazem acreditar que aquilo não foi em vão. Têm pessoas que também fazem eu me sentir assim. Talvez eu não transpareça isso da melhor forma possível, mas quando eu posso, eu explodo palavras, faço com que chova sentimentos simples, mas sinceros. Nem todo mundo pode entender o que se passa aqui dentro, mas fico feliz com os poucos que entendem.

Eu não preciso agradar a todos, aprendi que quem quer estar com a gente, dá um jeito de estar. A presença se faz fundamental quando percebemos que algo significativo está acontecendo. Quando não há presença, há o vazio – e não importa o quanto a gente tente, vazios nunca serão preenchidos por completo. Faço ao máximo para não ser parte do vazio de alguém, ainda mais alguém que só quero o bem. Acredito que certas atitudes dizem muito mais que palavras e por mais que eu custe a entender esse conceito, faço o possível para tal. Nem todo mundo corresponde às nossas expectativas – idealmente falando. Ninguém é perfeito, mas os momentos que passamos com certos alguéns podem ser.

Alguns significados carregam sentimentos verdadeiros com memórias que custam a se soltar das garras em que as prendi. Algumas memórias custam a sumir pelo simples fato de não conseguirem se distanciar de seus significados iniciais. Algumas pessoas conseguem ser mais especiais do que aparentam ser – e acredito que isso acontece só porque elas trazem, dentro de si, significados e memórias e sentimentos que as fizeram ser assim, exatamente como são e como deveriam ser.

tudo acontece; tudo permanece.