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Autismo e comunidade LGBTQIA+ são debatidos no Podcast Distraídos dessa semana

Autismo e comunidade LGBTQIA+ são debatidos no Podcast Distraídos dessa semana
(Foto: Podcast Distraídos)

Além de ser o mês do orgulho LGBTQIA+, junho é também o mês do orgulho autista. Nesse sentido, uma pesquisa realizada na Universidade de Cambridge mostrou que adultos autistas são mais propensos a se identificar com uma gama mais ampla de orientações sexuais do que indivíduos não-autistas, apontando uma relação entre essa neurodivergência e a diversidade sexual. Por isso, no episódio 13 do Podcast Distraídos, Erick Mota e Alpin Montenegro convidam Kaito, produtor de conteúdo no YouTube e homem trans, gay, autista e TDAH, para debater sobre autismo e a comunidade LGBTQIA+.

Apresentando os destaques do estudo mais recente da equipe do “Autism Research Center”, o host Erick Mota ressaltou a constatação científica de que adultos e adolescentes autistas são aproximadamente oito vezes mais propensos a se identificar como assexual e ‘outra’ sexualidade do que seus pares não-autistas. Além disso, homens autistas são 3,5 vezes mais propensos a se identificar como bissexuais do que homens não-autistas, enquanto mulheres autistas são três vezes mais propensas a se identificar como homossexuais do que mulheres não autistas.

Já a host Alpin Montenegro explica que essa maior propensão à diversidade sexual entre autistas acontece porque essa neurodivergência estimula uma experiência de mundo que costuma ser muito mais abrangente e livre de estereótipos. Por isso, como autista e LGBTQIA+, Alpin explica que muito do que é estabelecido como “padrão” pela sociedade cisheteronormativa “não faz sentido ou simplesmente passa despercebido por nós”.

Ao abordar seu processo em se entender e se descobrir LGBTQIA+, Kaito ressaltou que convivia com uma preocupação maior de seus pais em relação à sua identidade de gênero e sexualidade do que em relação a possíveis sintomas e o diagnóstico de suas neurodivergências, que são o autismo e o TDAH. Kaito conta que, ao criar seu canal aos 19 anos, enfrentou críticas das pessoas em relação à aspectos do autismo, como a repetição de palavras no vídeo ou sua dificuldade de se expressar olhando diretamente para a câmera. “Eu pensava que estava olhando para a outra pessoa nos olhos, e isso me incomodava muito”, conta.

Nesse contexto, Erick conta que também passou por problemas causados pelo TDAH, pois ele e as pessoas em seu círculo de convivência não entendiam seus hábitos de balançar a perna constantemente enquanto estava sentado ou de utilizar o celular constantemente, que eram traços da hiperatividade. Ele conta que após receber o diagnóstico de TDAH, contou o resultado para um amigo próximo que duvidou de sua neurodivergência, pois Erick sempre trabalhou como repórter. “Acontece que eu sou TDAH, não sou incapaz de executar tarefas”, afirma Erick. Porém, ele afirma que o diagnóstico contribuiu para que pessoas mais próximas, como sua própria esposa, se tornassem mais compreensivas e acolhedoras em relação às suas características.

Para Kaito, embora o diagnóstico auxilie a construir uma rede de apoio, nem todas as pessoas levam o diagnóstico em consideração para relevar alguns comportamentos repetitivos e hiperativos causados pelo TDAH e pelo autismo. “A maioria meio que não liga, porque não sabem como lidar com essa questão. Muita gente diz ‘ah não, acho que você está colocando mais coisas no seu diagnóstico, conheci tantas pessoas que eram autistas ou TDAH e elas não eram como você’. Acontece que as pessoas não conseguem entender que existem diagnósticos diferentes e características diferentes, que são próprias da pessoa. Eu não vou ser igual a outros autistas e eles não vão ser igual a mim”, explica Kaito.

Para proporcionar um ambiente de acolhimento para autistas e a comunidade LGBTQIA+ na internet, Kaito deletou seu canal anterior no Youtube para criar o Dino Gênero, após dez anos da criação de seus primeiros vídeos. “A ideia do canal surgiu porque eu e muitos autistas adoramos dinossauros”, explica. Nesse contexto, ele conta que parou com o antigo por começar a ficar “muito depressivo” com o plágio que sofria. “Meu hiperfoco sobre gênero é desde a infância, porque eu adorava Biologia. Acontece que as pessoas não gostavam de mim. Algumas pessoas até mesmo disseram ‘ah, odeio o Kaito, mas até que os vídeos dele são legais’. Em questão de um mês, canais grandes, com mais de 100 mil seguidores, copiavam o tema e inclusive as minhas falas, em alguns casos, e os créditos sempre iam para a pessoa que me plagiou”, comenta Kaito.

Além disso, Alpin abordou as consequências do discurso higienista de “cura gay” e “cura do autismo” na vida das pessoas da comunidade LGBTQIA+ e neurodivergente, afirmando que já recebeu dicas de pessoas conhecidas, através do Whatsapp, para ser curada do autismo parando de ingerir glúten e outras dietas restritivas. “Isso parece bobo, a gente até dá risada, mas mostra como as pessoas se incomodam com a nossa existência no mundo e a urgência que elas têm em nos moldar aos padrões típicos”, comenta.

Por fim, Erick, Alpin e Kaito ressaltam que soluções ‘milagrosas’ vendidas ilegalmente, como remédios ou chás para cura gay ou cura para o autismo, podem causar efeitos colaterais perigosos e não “resolvem” a questão, pois diversidade sexual e autismo são características humanas e não se tratam, de forma alguma, de doenças. 

Ouça no Anchor.

O que é o Podcast Distraídos?

Nos episódios do podcast, os hosts Alpin Montenegro e Erick Mota contam as curiosidades sobre o universo de quem é TDAH, autista e demais neurodivergências, que se referem a todas as possíveis variações no cérebro humano em relação à sociabilidade, aprendizagem, atenção, humor e demais funções cognitivas. O termo neurodivergência foi criado e popularizado a partir de 1998, pela socióloga Judy Singer. No episódio de estreia do Podcast Distraídos, Alpin Montenegro e Erick Mota falam sobre como o TDAH impactou na vida deles e trazem relatos de outros TDAHs. 

De maneira geral, a proposta do podcast é proporcionar o compartilhamento de vivências e informações sobre o TDAH. Alpin Montenegro é TDAH, autista e digital influencer com o @blackautie em todas as redes sociais. Já Erick Mota também é TDAH, além de ser empreendedor e jornalista com passagem em grandes veículos de comunicação. Está em todas as redes no @erickmotaporai.

Pensando em mobilizar uma rede de apoio concreta, capaz de ajudar os ouvintes do podcast a buscarem um diagnóstico adequado e a conviverem com o TDAH sem perder a qualidade de vida, o podcast Distraídos criou um grupo no Telegram chamado Hiperfocados, com especialistas e outros neurodivergentes. Como o Distraídos é uma iniciativa independente, o grupo no Telegram é uma vantagem para os ouvintes que quiserem contribuir com algum valor, em dinheiro, para a produção do podcast através do Apoia.se. Você pode colaborar com qualquer valor acessando o apoia.se/podcastdistraidos

Letícia Fortes

Estudante de Jornalismo na PUCPR e estagiária do Regra. Escrevo para evidenciar e esclarecer assuntos que exigem nossa atenção, pois essa é minha forma de defender uma comunicação humanizada, acessível e engajada socialmente.

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