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Autismo na vida adulta é debatido no Podcast Distraídos

Autismo na vida adulta é debatido no Podcast Distraídos

Com o aumento da conscientização sobre o transtorno do espectro autista (TEA) em adultos, houve um aumento nos diagnósticos tardios. Por isso, no episódio 14 do Podcast Distraídos, Erick Mota e Alpin Montenegro convidam o autista, jornalista e produtor de conteúdo Tiago Abreu, do podcast Introvertendo, para debater sobre autismo na vida adulta. 

Apresentando o aumento dos diagnósticos de autismo entre adultos, o host Erick Mota afirma que, mesmo que o transtorno não seja reconhecido na infância, entender-se como autista pode trazer diversos benefícios e alívio. Segundo a host Alpin Montenegro, o alívio pode se traduzir na percepção de que dificuldades sociais e comportamentos repetitivos são características inerentes à neurodivergência, libertando o autista de sensações como culpa e vergonha por ter um comportamento diferente da maioria.

Tiago conta que foi diagnosticado com autismo aos 19 anos, em 2015. Ele conta que demorou a desenvolver a fala e, quando iniciou a fase escolar, deparou-se com diversos problemas de comunicação, embora fosse um estudante dedicado e que tirava boas notas.

Ao apenas relatar parte de sua infância, Tiago ressalta indiretamente o despreparo dos professores para identificar e respeitar alunos com neurodivergências em sala de aula. “Tinha aquela noção dos professores de ‘ah, mas ele é um aluno inteligente, tira boas notas, e ele não se dá bem com os colegas. Logo, o problema é que ele não quer interagir’. E ficava muito ruim, porque eu me sentia culpado, mas ao mesmo tempo não sabia como lidar com essa situação. Foi assim durante minha vida toda, até chegar ao diagnóstico na fase adulta”, conta.

Além disso, Tiago conta que os problemas de convivência que enfrentou no Ensino Médio o fizeram confundir a queda de seu rendimento escolar e sua introversão social à depressão. Porém, como não tinha condições de pagar pelo tratamento, começou a ler sobre a doença na internet e se deparou com uma comunidade virtual de pessoas com transtorno de personalidade esquizóide. “Eles tinham dificuldade de interação social, mas também tinham um certo desprezo pelas pessoas, que era uma sensação que eu não me identificava. Foi aí que um dos participantes levantou a dúvida de que alguns de nós poderiam ter síndrome de Asperger”. A partir desse momento, Tiago entrou em uma nova comunidade e, com a ajuda de uma amiga, obteve atendimento médico e diagnóstico adequado após um ano.

Nesse contexto, Erick cita a mudança na nomenclatura do autismo, o qual era chamado de síndrome de Asperger até a última atualização do Cadastro Internacional de Doenças (CID-11), proposto pela Organização Mundial da Saúde (OMS). ​​Desde janeiro de, a nova classificação para Aspergers tornou-se Transtorno do Espectro Autista Sem transtorno do desenvolvimento intelectual e com Leve ou Nenhum prejuízo de linguagem funcional (6A02.0 Autism spectrum disorder without disorder of intellectual development and with mild or no impairment of functional language).

Além disso, Tiago explica que os métodos de diagnóstico da síndrome de Asperger foram propostos em 1981, a partir de pesquisas do pediatra Hans Asperger. Porém, desde o início dos anos 2000, os médicos começaram a se questionar sobre a viabilidade de ter um diagnóstico independente, que separasse a síndrome de Asperger do espectro autista como um tudo. “Com a participação de ativistas autistas, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) publicou o DSM-5 em 2015, que já inaugurou a ideia do espectro do autismo. Depois disso, foi um processo gradual. Porém, o grande marco para o fim do uso dessa nomenclatura foi 2018, quando um historiador publicou um artigo relacionando o Hans Asperger com um programa de eutanásia com pessoas com deficiência, na época da Alemanha nazista”, afirma.

Em relação ao convívio social, Erick, Alpin e Tiago ressaltam dificuldade em alguns diálogos, causados pela  tendência de ‘cortar’ as pessoas ao longo de um diálogo e fazer poucas perguntas, por exemplo. “Não consigo relaxar em uma conversa, embora as pessoas achem que eu estou sendo natural”, conta Erick. Alpin, por sua vez, relata: “Eu estou na terceira tentativa de fazer amizade com uma pessoa autista, porque as duas primeiras infelizmente se afastaram depois de um tempo”.

Já Tiago afirma que conheceu outros autistas ao entrar na faculdade, e depois de um ano, uma psicóloga do campus lhe apresentou Otávio, um estudante de Medicina que também era autista. “A partir daí, a gente se conheceu e começou a montar um grupo de autistas na universidade, mas sempre foi desafiador estabelecer um vínculo fora da roda de terapia que fazíamos lá”. Ainda, Tiago ressalta que a ideia do Introvertendo começou com Lucca, um amigo que conheceu pela internet e que o fez se interessar por podcasts, pois adorava esse formato. 

Por fim, Erick, Alpin e Tiago ressaltam que o diagnóstico do autismo na fase adulta é uma questão de qualidade de vida, pois proporciona autoconhecimento, facilita o entendimento e a formação de amizades e o acesso à cidade. “Eu acho que o autista leve fica em uma situação de criar escalas de deficiência e não se sentir tão merecedor de aspectos de acessibilidade, mas acho que o diagnóstico pode garantir que, por exemplo, essa pessoa pare de se invalidar”, afirma.

O que é o Podcast Distraídos? 

Nos episódios do podcast, os hosts Alpin Montenegro e Erick Mota contam as curiosidades sobre o universo de quem é TDAH, autista e demais neurodivergências, que se referem a todas as possíveis variações no cérebro humano em relação à sociabilidade, aprendizagem, atenção, humor e demais funções cognitivas. O termo neurodivergência foi criado e popularizado a partir de 1998, pela socióloga Judy Singer. No episódio de estreia do Podcast Distraídos, Alpin Montenegro e Erick Mota falam sobre como o TDAH impactou na vida deles e trazem relatos de outros TDAHs. 

De maneira geral, a proposta do podcast é proporcionar o compartilhamento de vivências e informações sobre o TDAH. Alpin Montenegro é TDAH, autista e digital influencer com o @blackautie em todas as redes sociais. Já Erick Mota também é TDAH, além de ser empreendedor e jornalista com passagem em grandes veículos de comunicação. Está em todas as redes no @erickmotaporai.

Pensando em mobilizar uma rede de apoio concreta, capaz de ajudar os ouvintes do podcast a buscarem um diagnóstico adequado e a conviverem com o TDAH sem perder a qualidade de vida, o podcast Distraídos criou um grupo no Telegram chamado Hiperfocados, com especialistas e outros neurodivergentes. Como o Distraídos é uma iniciativa independente, o grupo no Telegram é uma vantagem para os ouvintes que quiserem contribuir com algum valor, em dinheiro, para a produção do podcast através do Apoia.se. Você pode colaborar com qualquer valor acessando o apoia.se/podcastdistraidos

Letícia Fortes

Estudante de Jornalismo na PUCPR e estagiária do Regra. Escrevo para evidenciar e esclarecer assuntos que exigem nossa atenção, pois essa é minha forma de defender uma comunicação humanizada, acessível e engajada socialmente.

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