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Autistas Alvinegros: futebol vira inclusão nas arquibancadas do Corinthians

Autistas Alvinegros: futebol vira inclusão nas arquibancadas do Corinthians
Foto: Reprodução/Redes sociais

É dia de jogo do Corinthians. Enquanto parte dos alvinegros que vai compor o “bando de loucos” ainda se prepara para sair de casa e se dirigir até a Neo Química Arena, no bairro de Itaquera, zona leste de São Paulo, Rafael Lopez, de 35 anos, já percorre as cadeiras do estádio. Profissionalmente auxiliar administrativo e apaixonadamente corinthiano, ele sabe que o amor pelo futebol, desde a partida contra o time do Santos, no dia 25 de junho deste ano, já é maior que fome de bola e sede de gol. É também vontade de inclusão social. Ao ocupar a arquibancada do Itaquerão, outros muitos estão ali representados com a faixa (obviamente) branca e preta em que, mesmo de longe, se lê: “Autistas Alvinegros”. O clássico contra o rival praiano – que terminou em uma goleada de 4×0 para os donos da casa – foi o início de um movimento que vai além do campo.

Com 8 pessoas à frente das ações, cerca de 200 membros em um grupo de Whatsapp e quase 4 mil apoiadores no Instagram, o Autistas Alvinegros nasceu do desejo de tornar o esporte um ambiente de representatividade para a torcida corinthiana que tem Transtorno do Espectro Autista (TEA). É uma das primeiras torcidas no Brasil que estampam a pauta neurodivergente durante os jogos e abrem espaço para essa discussão. Que, como ressaltam os fundadores do movimento, não é sobre futebol.

“Eu frequento estádio há muitos anos. Sempre fui fissurado no Corinthians. Mas, até então, eu não sabia da minha condição. Eu sabia que eu era uma pessoa diferente das outras, falavam para mim. Mas eu não sabia o que eu tinha”, comenta Rafael. Ele recebeu o diagnóstico de autismo aos 33 anos. Era a resposta que ele precisava para as dificuldades de interação e relacionamento interpessoal que a vida toda o acompanharam.

A ideia de criar uma faixa e estampar em apenas duas palavras o sentimento pelo “timão” e a condição de existência vieram de uma conversa com outra corinthiana “roxa”. Juliana Prado, 30 anos, topou na hora, e os dois, então, levaram a ideia para a direção do estádio – seria necessário passar por alguns protocolos de validação e, enfim, conseguir a liberação para estender o letreiro. 

No clássico contra o Santos, a faixa ficou atrás de uma das traves. Apesar do orgulho de já conquistar aquele espaço, a realização aumentou quando os Autistas Alvinegros foram parar em uma das laterais da arquibancada, pois a visibilidade – inclusive para as transmissões de TV – aumentou.

Foi nesse momento em que eles começaram a ter “consciência do tamanho do projeto que estava sendo criado e de quantas pessoas estavam sendo representadas”, segundo Juliana. Ela destaca que “não é sobre futebol, é sobre autismo. Independente se é corinthiano ou não, a gente vai apoiar”.

Foto: Reprodução/Redes sociais

Para quem tem autismo, uma partida pode ser desafiadora – mesmo que não se trate da final do campeonato. Diagnosticada com o TEA, depois que Rafael recomendou que ela procurasse fazer exames, Juliana revela que o “antes” e o “durante” de um jogo de futebol elevam a ansiedade. No entanto, a parte mais complicada é o pós-jogo.

“A volta é muito pesada para mim. Eu consigo suportar durante o jogo, grito, pulo, mas o retorno é estressante e agonizante. Para desencadear uma crise é muito fácil, nunca sei onde ela pode chegar. Só suporto porque é o Corinthians”, descreve ela. A torcedora explica que “parece que a cabeça vai explodir a qualquer momento pelo desgaste físico e emocional”. Para evitar uma crise, ela se utiliza de um hiperfoco dado pelo autismo: a música. Hiperfoco é uma forma intensa de concentração em um determinado assunto que neurodivergentes têm.

No caso de Rafael, o amor desde a infância em acompanhar os jogos do “coringão” está presente até no transtorno neurológico, pois ele tem hiperfoco no alvinegro de Itaquera. Não fosse por isso, assistir a uma partida das arquibancadas poderia ser menos agradável, como é para muitos autistas.

A Neo Química Arena possui um ambiente dedicado aos torcedores neurodivergentes. O Espaço TEA, como é chamado, tem janelas e paredes com isolamento de som, além de oferecer atividades e brincadeiras que tornam a experiência mais agradável. Outros clubes como Coritiba e Náutico também disponibilizam espaços inclusivos. A torcida Fogo Serrano, do Botafogo, luta pela conquista de mais inclusão aos torcedores que precisam dos ambientes adaptados para apoiarem de perto o time.

Essa é a vontade de Nayra Cavalcante, estudante de 25 anos que leva no colo o filho Kauan, de 8, e no peito, o desejo de apresentar o Corinthians e o Itaquerão ao pequeno. Ainda bebê, Kauan assistiu a um jogo do São Paulo – time do pai – das arquibancadas. “A gente ainda não tinha noção de que ia viver o autismo. Conforme ele foi crescendo, não levamos ao estádio justamente pelo autismo. Ele tem muita sensibilidade auditiva, dificuldade de estar em meio a muita gente. Então, tem que ser algo que nos inclua”, conta a estudante.

Atualmente, é Nayra quem fica responsável por acolher as pessoas que procuram o Autistas Alvinegros e buscam apoio na causa. Ela diz que muitas famílias buscam o movimento por sentirem que existe ali, de fato, uma rede de acolhimento. 

Foto: Reprodução/Redes sociais

“Uma vez, recebemos um pedido de ajuda. Era um adolescente, que estava na escola e que falou que tinha um menino que sempre zombava dele, principalmente na hora do intervalo. Não entendia porque o menino agia dessa forma. Já não sabiam mais o que fazer. Foi no nosso grupo de Whatsapp que ele fez esse relato. Automaticamente, as pessoas do grupo acolheram ele e o orientaram a buscar a secretaria da escola, conversar com o diretor e passar a situação”, relembra Nayra. Ela ainda ressalta que é “um grupo onde está todo mundo junto. É uma família”.

O apoio não vem só dos alvinegros. Na partida contra o argentino Boca Juniors, pela Libertadores da América, um “hermano” se solidarizou com os adversários. Residente em Buenos Aires, o rapaz comentou que trabalha em uma escola voltada para autistas. Além deles, torcedores do Flamengo e – até mesmo – do maior rival do clube, o Palmeiras.

Todo o impacto de uma faixa pode não ser entendido por quem não faz parte do movimento. Mas, como ressaltam os organizadores do movimento, em um país onde o futebol alcança tanta gente, ganhar espaço nos olhos e nas televisões da população é um jeito de conquistar também representatividade e respeito. 

“A gente se sente acolhido, a gente se sente abraçado. Para muitos, é uma simples faixa, mas a gente, que vive isso na pele, é inexplicável”, define Nayra. Um dos objetivos do grupo é levar a faixa para outros estádios, quando possível. Aos poucos, como no futebol, a causa avança – oitavas, quartas, semi e, enfim, final. Para que mais gente não tenha só a camisa no corpo e o emblema no peito, mas também a consciência nas ideias.

Eduardo Veiga

Estudante de Jornalismo e redator freelancer. Já trabalhou em Rádio Banda B, Portal Banda B e publicou no Jornal Plural. Atualmente, é estagiário no Regra.

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