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Como Bolsonaro perdeu aliados da base ideológica em quatro anos

Como Bolsonaro perdeu aliados da base ideológica em quatro anos
Deputada Joice Hasselmann e presidente Jair Bolsonaro (Foto: Marcos Corrêa/PR)

Desde o início do mandato, o presidente Jair Bolsonaro (PL) acompanhou a erosão de sua base de apoio ideológica na Câmara. O presidente tinha uma bancada com mais de 50 deputados federais eleitos pelo mesmo partido que o seu, o PSL. Mas essa base, apesar de ser a maior da Casa, não foi suficiente para aprovar boa parte dos projetos defendidos pelo governo. Ao longo dos quase quatro anos de mandato, Bolsonaro foi abandonando e sendo abandonado por antigos aliados, como os deputados Joice Hasselmann (PSDB-SP), que chegou a ser líder do governo no Congresso, Alexandre Frota (PSDB-SP), Luciano Bivar (UB-PE), Delegado Waldir (UN-GO), entre outros. Hoje, os dissidentes da onda bolsonarista encontram dificuldades para se desvencilhar do estereótipo público de “oportunistas” e para viabilizarem uma candidatura de direita mais moderada.

Durante o mandato, o presidente foi deixando pelo caminho apoiadores ideológicos e caindo cada vez mais nos braços do chamado centrão – grupo de deputados que pertencem a partidos fisiológicos que buscam cargos e recursos em troca de votos no Congresso.

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Bolsonarismo: da ascensão à queda
Bolsonarismo: da ascensão à queda

Nesse contexto, o caso do deputado federal Daniel Silveira (PTB-RJ) é um exemplo de como Bolsonaro montou uma estratégia política dúbia. No ano passado, quando Daniel Silveira gravou um vídeo ameaçando ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e teve a prisão decretada, o Palácio do Planalto tomou distância da crise. O presidente sequer se manifestou sobre a prisão do aliado.

Agora, a seis meses das eleições, o presidente reascendeu a base ideológica ao intervir em favor de Silveira. Em 22 de abril, Bolsonaro usou uma das prerrogativas do cargo para conceder perdão da pena ao deputado, condenado pelo Supremo há oito anos e nove meses de prisão em regime fechado por ameaçar ministros da Corte. Silveira também foi condenado a perda do mandato e dos direitos políticos e ao pagamento de uma multa de cerca de R$ 200 mil. O julgamento ocorreu em 20 de abril, em virtude dos ataques do deputado à democracia, a ministros do STF e às instituições brasileiras.

Embora o indulto individual seja capaz de extinguir a pena dada pelo Supremo a Daniel Silveira, partidos como PSOL, PDT e Rede apresentaram ações junto ao STF para anular o perdão presencial concedido à Silveira, e ainda articulam novas ações conjuntas, o que pode fazer com que a Suprema Corte derrube a medida. 

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Lulismo: As esperanças controversas

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Além disso, o ministro do STF Alexandre de Moraes afirmou em decisão que o deputado federal Daniel Silveira segue inelegível, mesmo após o indulto individual concedido pelo presidente. O ministro respondeu nos autos, conforme decisão colegiada dos bastidores da Corte, e decidiu não reagir às provocações do Palácio do Planalto e falar somente através do próprio processo.

Daniel Silveira não foi o único aliado de Bolsonaro que havia ficado pelo caminho ao longo do mandato. Depois de compor a base política mais próxima de Bolsonaro, o deputado federal Alexandre Frota foi expulso do PSL em agosto de 2019,  acusado de infidelidade partidária pelos colegas Carla Zambelli (SP) e Major Olímpio (SP). Sua expulsão foi motivada por críticas públicas ao presidente Jair Bolsonaro e por sua ausência no segundo turno de votação da reforma da Previdência, legislação da qual Frota foi um dos maiores defensores na época das eleições em 2018. A principal crítica de Frota a Bolsonaro foi sobre a tentativa de nomear Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, para a Embaixada do Brasil nos Estados Unidos. Hoje, Frota é filiado ao PSDB e tornou-se um dos maiores críticos do governo.

A ex-líder do governo Bolsonaro no Congresso, Joice Hasselmann, rompeu sua aliança com o presidente durante a troca de liderança no PSL, quando apoiou o deputado Delegado Waldir como líder do partido na Câmara em vez de Eduardo Bolsonaro. Depois disso, Joice entrou em um embate direto com os filhos do presidente, acusando-os de organizarem uma “milícia digital” para constranger e atacar opositores do governo. Ela mesma foi uma das vítimas do linchamento virtual bolsonarista, ao ser alvo de disparos em massa de fake news e de piadas machistas, ridicularizando-a por seu sobrepeso.

Outra dissidência interna no PSL envolveu o embate entre Bolsonaro e o então presidente do partido, Luciano Bivar. O afastamento entre o presidente e Bivar começou com a tentativa de Bolsonaro de afastar-se do escândalo de candidaturas laranja no PSL nas eleições de 2018, chegando a divulgar um vídeo em que o presidente afirmou que o deputado estava “queimado pra caramba”. O auge da crise entre Bolsonaro e Bivar ocorreu em 2020, quando o deputado federal pernambucano pleiteava que Delegado Waldir se tornasse líder do governo na Câmara, diferentemente dos interesses de Bolsonaro, que apoiou seu filho Eduardo na disputa. 

O cientista político da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Ricardo Ismael, explica que o motivo da crise entre Bolsonaro e Bivar foi a disputa pelo controle do PSL, o qual Bolsonaro desejava assumir de maneira informal. “Com diversas brigas internas, Bolsonaro acabou saindo do partido. Assim, essa ala do PSL eleita pelo bolsonarismo e mais fiel a ele se mudou junto com o presidente, fazendo com que o PSL diminuísse sua força e aceitasse uma junção com o DEM em um novo partido, o União Brasil”. 

Apesar da tentativa de Bolsonaro, o “Aliança pelo Brasil” não obteve o número mínimo de 500 mil assinaturas de apoiadores para ser reconhecido legalmente como partido político pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Para Ismael, o presidente Bolsonaro abandonou o PSL e se aproximou do Centrão para conseguir viabilidade política não apenas durante o mandato, mas também nas eleições deste ano. “Eu acho que Bolsonaro procurou o Centrão e distribuiu recursos para as bases eleitorais dos políticos desse grupo na tentativa de ter estrutura partidária mínima para enfrentar as eleições deste ano, que vão exigir mais alianças políticas e acesso ao fundo eleitoral de mais de R$ 4 bilhões do que discursos fervorosos e antissistema como foi em 2018, ano em que as descobertas da Lava Jato estimularam essa tensão”, explica.

Eleições 2022: como chegamos até aqui

Essa é a segunda matéria da série Eleições 2022: como chegamos até aqui. Nela, o Regra dos Terços está mostrando o cenário eleitoral deste ano e o que ocasionou a polarização que estamos vivendo. São três eixos temáticos, o primeiro deles é “Bolsonarismo: da ascensão à queda”, que mostra como o presidente Jair Bolsonaro se elegeu como candidato antissistema e em menos de quatro anos virou aliado do centrão. O segundo leva o nome “Lulismo: as esperanças controversas”, que explica como o ex-presidente Lula (PT) saiu das fábricas ao poder, se tornando o presidente mais bem avaliado da história e, com os escândalos de corrupção de cerco da Lava Jato, acabou preso, solto e líder das pesquisas eleitorais. Por último a série aborda o tema “Terceira via: em busca de um nome viável”, que conta como surgiu em 2014 a busca por um nome para derrotar o PT e, nos dias atuais, o chamado “bolsopetismo”, até aqui, sem sucesso.

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Letícia Fortes

Estudante de Jornalismo na PUCPR e estagiária do Regra. Escrevo para evidenciar e esclarecer assuntos que exigem nossa atenção, pois essa é minha forma de defender uma comunicação humanizada, acessível e engajada socialmente.

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