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Bolsonaro: do anti-establishment à tchutchuca do Centrão

Bolsonaro: do anti-establishment à tchutchuca do Centrão
Foto: Reprodução/Facebook

Apesar de criticar veementemente a aliança dos antigos presidentes da República com partidos do Centrão para “garantir a governabilidade”, o presidente Jair Bolsonaro (PL) passou de candidato anti-sistema a filiado a um dos principais partidos fisiológicos, o PL, conhecido no Congresso Nacional como um dos partidos de centro-direita mais influentes para negociar cargos em troca de apoio político, independente do direcionamento ideológico de governo. Por isso, a relação entre Bolsonaro e o Centrão é vista de modo controverso pelo seu eleitorado, seja pelo ponto de vista moral ou como uma aproximação natural e pragmática de interesses.

Ainda durante a campanha eleitoral de 2018, Bolsonaro criticou a aliança eleitoral do então candidato à presidência pelo PSDB, Geraldo Alckmin, com os partidos do Centrão, que estabeleceram um acordo em troca de mais tempo de propaganda eleitoral no rádio e na TV e acesso ao fundo eleitoral.

Bolsonarismo: da ascensão à queda
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Bolsonaro criticou Alckmin dizendo que o tucano se cercou “do que há de pior” da política brasileira, e colocou-se diante do eleitorado como o primeiro presidente que “acabaria” com os acordos do Planalto com o Centrão em troca de mais votos para a aprovação de projetos de lei no Congresso. “Ou a gente quebra ou não quebra. ‘Ah, mas vão cassar seu mandato e pedir impeachment’. Não vai ser por omissão e nem corrupção. Esse é o recado que estou dando”, afirmou Bolsonaro na época da campanha. 

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Para o cientista político da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Ricardo Ismael, assumir-se como político anti-establishment foi apenas uma manobra eleitoral de Bolsonaro, pois sua carreira política se construiu através de 27 anos como deputado federal. “Das eleições para cá, Bolsonaro não combateu a corrupção, enfraqueceu e tentou interferir na Polícia Federal, abraça o Centrão para se sustentar no Congresso, busca uma aliança fisiológica baseada na distribuição de cargos, e isso faz com que o Bolsonaro passe por uma transformação negativa de sua imagem pública”, avalia.

O que o Centrão?

O termo “Centrão” surgiu após a Assembleia Constituinte de 1988, durante o governo de José Sarney (MDB), quando começou-se a trocar as agendas de deputados e senadores por concessões de rádio e televisão sob o comando do então ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães.

Os partidos do Centrão estruturaram-se para focar sua influência apenas no Poder Legislativo em vez do Executivo e, com isso, tornou-se mais interessante não estabelecer uma identidade partidária e ideológica clara. Isso lhes traz o menor “custo reputacional” e permite um trânsito mais dinâmico de apoio a governos e agendas.

A configuração atual do Centrão é formada por legendas como Partido Progressista (PP), Partido Liberal (PL), Republicanos, Solidariedade, Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Partido Social Democrático (PSD), Movimento Democrático Brasileiro (MDB), Democratas (DEM – agora União Brasil), Partido Republicano da Ordem Social (PROS), Partido Social Cristão (PSC), Avante e Patriota. Durante o governo Bolsonaro, alguns desses partidos decidiram não se juntar explicitamente à base governista, como é o caso do MDB e do DEM (agora União Brasil), por exemplo. Mesmo assim, os partidos tendem a votar a favor dos interesses do Planalto.

Bolsonaro se aliou ao Centrão para fugir do impeachment

Devido ao fato de as legendas do Centrão serem as que mais cresceram nos últimos anos, Bolsonaro buscou filiar-se ao PL, partido que atualmente tem a maior bancada na Câmara, com 69 membros. Para o cientista político Ricardo Ismael, o cálculo de Bolsonaro com a filiação ao PL alcançou, como resultado, o afastamento de um impeachment antes de 2024.

“A partir do momento que Bolsonaro teve que abraçar o Centrão, dando a condição de decidir a pauta do Congresso, ocupar cargos e liberar orçamentos enormes, ele alterou seu discurso para conseguir apoio no Congresso. Mas quando o [ex-ministro da Justiça e Segurança Pública] Sérgio Moro saiu do governo, ficou claro que Bolsonaro não iria combater a corrupção conforme prometera na campanha e, por isso, ele perdeu o voto da classe média nas eleições de 2022, com eleitores antipetistas e da chamada direita moderada mais ao lado de João Doria e Eduardo Leite”, afirma o cientista político.

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Entre 2018 e 2020, o presidente Bolsonaro parou de criticar os parlamentares do Centrão e, inclusive, começou a nomear políticos do bloco para cargos de segundo escalão do governo desde maio de 2020. Porém, apenas as quatro principais indicações de Bolsonaro somam um orçamento de R$74,6 bilhões em recursos públicos entregues pelo presidente para a administração de políticos do Centrão. Essa soma, contudo, desconsidera as nomeações para o Conselho da Usina Hidrelétrica Itaipu Binacional do ex-ministro do governo de Michel Temer, Carlos Marun, e do ex-deputado federal, José Carlos Aleluia (DEM-BA), citado na delação da Odebrecht. 

Embora Bolsonaro tenha caído em contradição em relação à aliança com o Centrão após assumir a Presidência, alguns de seus aliados mais próximos, como a deputada federal Alê Silva (Podemos-MG), eleita pelo PSL, vê essa contradição de Bolsonaro como “um mal necessário” para avançar nas votações das pautas. “Nós tentamos por mais de um ano lutar contra o Centrão. Não conseguimos. Agora o negócio também não é se unir a eles, não. Em nome do país, para que as pautas do governo federal sigam adiante, eu compreendo perfeitamente que devem haver concessões para o país não falir. É um ato de legítima defesa”, afirmou a deputada.

A primeira nomeação de políticos do Centrão para cargos no governo ocorreu no Ministério da Educação (MEC), quando Garigham Amarante Pinto, um dos aliados do ex-presidente do PL condenado no julgamento do mensalão, Valdemar da Costa Neto, foi oficializado como diretor do Fundo de Ações Educacionais do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), cujo orçamento é de R$ 55 bilhões. 

Para o Ministério de Desenvolvimento Regional, o presidente da Câmara Arthur Lira (PL-AL)  e o senador Ciro Nogueira (PL-PI) indicaram Tiago Pontes de Queiroz como gestor do orçamento de R$ 17,2 bilhões da Secretaria Nacional de Mobilidade. Porém, Queiroz saiu do cargo em novembro de 2021, após ser citado como um dos alvos da operação Pés de Barro da Polícia Federal (PF), que apura possíveis irregularidades no Ministério da Saúde durante o período em que Queiroz atuou na pasta.

No Departamento Nacional de Obras Contra Seca (Dnocs), Arthur Lira e o deputado Sebastião Oliveira (PL-PI) apadrinharam Fernando Marcondes Araújo Leão para administrar um fundo de R$ 1 bilhão. Já na Superintendência de Trens Urbanos do Recife, o advogado  Carlos Fernando Ferreira da Silva Filho, indicado do líder do Partido Social Cristão na Câmara (PSC) André Ferreira (PE), vai gerenciar R$ 1,1 bilhão.

Letícia Fortes

Estudante de Jornalismo na PUCPR e estagiária do Regra. Escrevo para evidenciar e esclarecer assuntos que exigem nossa atenção, pois essa é minha forma de defender uma comunicação humanizada, acessível e engajada socialmente.

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