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Bolsonaro não precisa dar um golpe, só precisa convencer a todos de que vai

Bolsonaro não precisa dar um golpe, só precisa convencer a todos de que vai
Foto: Marcos Corrêa/PR
Coluna Kelli Kadanus

Mais uma vez o presidente Jair Bolsonaro (PL) captura a atenção de todos ao investir contra o Poder Judiciário e inflamar uma crise institucional. Nesta terça-feira (17), o presidente afirmou a apoiadores em um aplicativo de mensagens que acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) contra o ministro da Corte, Alexandre de Moraes, por suposto abuso de autoridade.

A ação tem pouca – ou nenhuma – chance de prosperar e o Palácio do Planalto sabe disso. Mas isso não é o que importa. Bolsonaro está mais uma vez preparando o terreno para questionar o resultado das eleições de outubro caso não seja reeleito. Afinal, Moraes, alvo da ira bolsonarista, será o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) durante a eleição. Ao questionar um suposto abuso de autoridade do ministro, Bolsonaro cria mais um argumento para usar em outubro para alegar que o pleito foi fraudado.

Ao adicionar mais um ingrediente a sua receita golpista, Bolsonaro captura a pauta da eleição presidencial mais uma vez, como fez em 2018. Os temas discutidos deixam de ser planos de governo e passam a ser pautados por uma briga ideológica. Ao atacar o STF mais uma vez, o presidente consegue duas coisas importantes para seu plano autoritário. Primeiro, inflama a base bolsonarista movida pelo ódio. Segundo, consegue fazer com que a elite intelectual se preocupe com a saúde da democracia e gaste toda a sua energia nessa pauta.

Toda vez que Bolsonaro dá um passo em direção ao autoritarismo, consegue o que quer: desviar o foco do que realmente pode fazer com que ele perca a eleição. Desta vez, ele se movimenta contra Moraes para desviar a atenção do desemprego, da fome, da inflação que corrói o poder de compra da população. A vida piorou durante o mandato de Bolsonaro e, por isso, ele precisa chamar atenção e ameaçar um golpe de Estado para que seus apoiadores mais inflamados não se deem conta disso.

No fim das contas, Bolsonaro não precisa dar um golpe. Ele só precisa convencer a todos de que vai. Assim, perdemos nosso tempo defendendo a democracia e as instituições – que são essenciais, mas também princípios abstratos e difíceis de explicar para o eleitor médio -, ao invés de mostrar a responsabilidade do presidente na piora da vida das pessoas.

Bolsonaro dificilmente dará um golpe. Ao fazer ameaças e levar a pauta da eleição apenas para o campo ideológico, do nós contra eles, do Messias contra o sistema, vai ganhar a eleição, como ganhou em 2018. Não vai precisar de tropas militares nas ruas para garantir isso. E em 2023, dará início a um novo capítulo na sua tão sonhada autocracia.

A saída para a democracia é desviar da armadilha ideológica e não dar palco para a histeria presidencial. O caminho passa por candidatos capazes de se conectar com os reais problemas do país e apresentar soluções, mostrar que é possível voltar a sonhar com um futuro melhor. Se conseguirmos isso, Bolsonaro vai perder a eleição e não terá legitimidade, nem apoio, para se aventurar contra o Estado Democrático de Direito.

Ao levar a discussão para o campo ideológico, Bolsonaro não precisa de golpe para continuar na presidência em 2023. A pergunta é: vamos cair na armadilha de novo?

Kelli Kadanus

Kelli Kadanus, jornalista, cronista, tia coruja. Escrevo para tentar me entender e entender o mundo. É assim desde que aprendi a juntar sílabas. Sonho em mudar o mundo e as palavras são minha única arma disponível.

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