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Como Bolsonaro traiu as promessas e se corrompeu em três anos

Como Bolsonaro traiu as promessas e se corrompeu em três anos
Presidente Jair Bolsonaro (Foto: Sergio Moraes)

Quando trouxe partidos do Centrão para dentro do governo por meio da distribuição de cargos, o presidente Jair Bolsonaro (PL) ganhou sustentação política no Congresso, mas traiu parte dos bolsonaristas fiéis, que o elegeram acreditando nas promessas de campanha de “nova política” e de combate à corrupção.

Para o cientista político da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Ricardo Ismael, a reversão do discurso bolsonarista de campanha ocorreu conforme o risco de um impeachment se tornou maior. “O candidato que tentou liderar o país contra a corrupção, o patrimonialismo e a apropriação dos interesses públicos pelas empresas terminou como o que ele sempre foi, isto é, um deputado do baixo clero ocupando a presidência da República, fazendo declarações esdrúxulas e insanas, procurando brigas com os demais poderes, loteando cargos do governo para o Centrão em busca de apoio político e agradando um segmento da direita radical e conservador de cerca de 20%”, explica Ismael.

Bolsonarismo: da ascensão à queda
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Em junho de 2020, a principal contradição do presidente foi recriar o Ministério das Comunicações e indicar o então deputado federal Fábio Faria (PSD-RN) ao cargo de ministro. Em um só ato, Bolsonaro fez exatamente o contrário em relação às suas promessas de reduzir ministérios e acabar com a distribuição de cargos públicos por interesse político. 

Com a distribuição de cargos a parlamentares do Centrão, Bolsonaro viabilizou sua permanência na presidência enquanto permaneceu estimulando o apoio de seus eleitores mais radicais. De acordo com o cientista político Ricardo Ismael, “Bolsonaro governa praticamente com base em suas livres de quinta-feira e, do ponto de vista de evitar sua queda, ele conseguiu alimentar o apoio de seu público fiel contra o Supremo Tribunal Federal (STF) diante da baixa manifestação popular para seu impeachment, e conseguiu blindar-se da retirada do cargo ao aliar-se ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PL-AL)”.

Nas redes sociais, ex-parlamentares e aliados bolsonaristas, como Janaína Paschoal (UB-SP) e o ex-ministro Sérgio Moro (Podemos-SP) criticaram veementemente a atitude de Bolsonaro. “Bolsonaro se ilude, pensando que esse pessoal do Centrão vai blindá-lo. Melhor seria ficar fiel aos princípios que defendeu na campanha eleitoral! Dilma chegou a ter mais de 30 ministérios. Fosse fiel ao que prometeu, estaria muito mais forte. É triste!”, escreveu Janaína Paschoal em seu Twitter. 

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O  ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, também criticou a criação de mais um ministério, chamando-o pejorativamente de “Ministério da Propaganda”. “Recriado o Ministério da Propaganda. Quais serão os próximos?”, escreveu.

A crítica do deputado federal Júnior Bozzella (PSL-SP) foi ainda mais contundente que a de Paschoal e Moro. “Mais um dos tantos atos que comprovam que Jair Bolsonaro se utilizou de um discurso em campanha. Na prática é o oposto. Recria ministérios e loteia cargos. Nunca foi um reformista. Nem um homem de palavra”, afirmou em seu Twitter.

Aliança não garantiu aprovação de projetos

Mesmo com o apoio do Centrão e a articulação de Lira, Bolsonaro não conseguiu aprovar os principais projetos relacionados às pautas de costumes e segurança pública no Congresso, trazendo mais uma decepção para seus apoiadores fiéis após as eleições de 2018. Agora, em seu último ano de gestão, o governo tenta aprovar algum projeto antes das eleições para reacender o apoio da base bolsonarista, sobretudo os eleitores evangélicos. Por isso, as pautas em destaque incluem a aprovação da educação em casa (homeschooling) e a liberação do porte de armas para diversas categorias de servidores públicos.

Para Ismael, o mandato de qualquer cargo majoritário, como o de presidente da República, já causa um desgaste natural na imagem pública do político. Porém, no caso de Bolsonaro, existem alguns agravantes. “Bolsonaro está desgastado de várias formas, seja pela gestão econômica desastrosa marcada pela inflação e pelo baixo crescimento do PIB ou pela má condução da pandemia. Além disso, seus aliados do Centrão não são muito confiáveis, porque como eles são muito pragmáticos, provavelmente vão apoiar o Lula no Nordeste por puro oportunismo. Então, Bolsonaro terá apoio eleitoral apenas nas regiões em que se mostrar competitivo e popular entre o eleitorado”, explica o cientista político.

Entre os cinco projetos relacionados à pauta de costumes que o governo entregou para análise da Câmara no início do ano passado, nenhum foi aprovado. Uma das propostas é a aprovação do excludente de ilicitude, ou seja, da ausência de penalização até em casos de morte para militares que participarem de operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO). Caso aprovado, o projeto de Bolsonaro acenaria para sua base eleitoral de militares, da qual se colocou como representante político desde seus mandatos como deputado federal pelo Rio de Janeiro. 

Porém, três projetos do governo avançaram na Câmara. O texto que propõe a inclusão da pedofilia como crime hediondo foi aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) no final de 2021, assim como o projeto que aumenta a pena para crimes contra crianças e adolescentes, aprovado em maio do ano passado. No entanto, ambos os projetos precisam passar por votação do plenário da Câmara para serem aprovados.

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A Câmara também aprovou recentemente o projeto do homeschooling. Agora, a proposta segue para análise do Senado, que pode fazer alterações no texto.

A derrota do governo no Senado foi ainda pior do que na Câmara. Dos três projetos de costumes enviados pelo governo ao presidente Rodrigo Pacheco (PSD-MG), nenhum deles avançou. Um deles altera regras de registro, posse e comercialização de armas de fogo por CACs (caçadores, atiradores e colecionadores). No final do ano passado, a CCJ tentou analisar a proposta, mas fracassou e adiou a votação para este ano.  

A base bolsonarista no Congresso foi ainda mais prejudicada após a saída do líder do governo no Senado, Fernando Bezerra (MDB-PE), no fim de 2021. Visto como um dos apoiadores mais leais de Bolsonaro, defendeu diversas vezes a gestão do governo federal durante a pandemia na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, mas abandonou o bolsonarismo após o governo não ter trabalhado a favor de sua eleição para conselheiro do Tribunal de Contas da União (TCU), sendo derrotado de maneira acachapante com apenas 7 dos 78 votos do plenário do Senado. 

Desde então, o governo permanece sem uma liderança no Senado, o que prejudica a aprovação dos projetos. Isso acontece porque, como o Congresso trabalha de forma conjunta, é ineficaz aprovar um texto na Câmara e não conseguir o número suficiente de votos no Senado.

Segundo Ismael, Bolsonaro tentará manter suas principais bases eleitorais e diminuir a rejeição através de programas do governo. “Bolsonaro continua agindo a favor dos militares, mantendo o eleitorado evangélico com a pauta de costumes, o agronegócio, enfim, ele tem redutos de apoiadores mesmo nos piores momentos do governo. A solução, por enquanto, é que ele tem a caneta. Tomar medidas populistas como Vale Gás e Auxílio Brasil tem tido algum efeito para reduzir sua rejeição, mas existe um eleitorado jovem, feminino e de classe média que realmente será difícil de convencer a mudar de ideia, pois já sabe como Bolsonaro governa e se opõe diretamente a ele desde o início do governo”, afirma o cientista político.

Letícia Fortes

Estudante de Jornalismo na PUCPR e estagiária do Regra. Escrevo para evidenciar e esclarecer assuntos que exigem nossa atenção, pois essa é minha forma de defender uma comunicação humanizada, acessível e engajada socialmente.

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