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A carência que nos roubou a maturidade

A carência que nos roubou a maturidade
Foto: Canva

Hoje eu queria ser uma pessoa bem arrogante, falar como se eu tivesse alguma propriedade e aconselhar vocês, queridos leitores. Vou abordar um tema que me incomoda muito, muito mesmo: a carência.

Eu sou uma pessoa com muitas carências, fruto de traumas de abandono e uma família para lá de desestruturada. Minha avó cumpriu um papel fantástico na minha educação, sabendo me explicar que sentir carência é normal, mas agir como refém dela é suicídio emocional. E por causa das minhas carências, eu cometi alguns erros comuns que a gente comete quando está começando a vida. Normal, cresci, sigo evoluindo todos os dias e sendo refém dessas emoções algumas vezes, porque a vida não é plena em nenhuma etapa dela.

Mas, atualmente, eu não sei se eu me tornei mais sensível em notar esse tipo de comportamento, mas tenho ficado horrorizada com a falta de maturidade emocional das pessoas e com esse medo terrível que elas têm de ficarem sozinhas. Não sei se isso é de uma geração que se casava por obrigação, com pressa, e agora, diante da oportunidade de recomeçar, não aprendeu a recomeçar sozinha, precisa sempre de um relacionamento para validar seu sucesso pessoal. São pessoas mais velhas, que já passaram alguns traumas e que também passaram por muitos problemas financeiros. Aí elas se tornam sempre muito cuidadosas na hora de fazer um investimento, mas trocam de relacionamentos na velocidade da luz, além de se casarem novamente no mesmo modelo anterior: por obrigação e com pressa. Elas têm medo de envelhecerem sozinhas, já ouvi isso muitas vezes. Já se entregaram antes mesmo dos 60, se julgam no final da vida, sem cogitar que a vida é uma imensidão muito imprevisível. Eu quero que seja isso, um “hábito” de achar que relacionamentos são validações e garantias que alguém vai te dar banho em caso de derrame, porque aí temos uma justificativa para atitudes infantis e desesperadas. Ainda que seja bem frágil, essa pode ser uma explicação.

Por medo e carência, essas pessoas se enfiam em qualquer tipo de relação, sem nenhum tipo de critério, sem nenhum tipo de auto avaliação, e vão indo… vão indo… vão indo. Vão usando da desculpa do perdão sem medidas, para aceitarem abusos, traições, mentiras, violências físicas e emocionais. Usam o amor como desculpa par serem abusadoras, traidoras, mentirosas, violentas. É uma moeda de duas faces muito parecidas.

São homens e mulheres que se julgam incrivelmente maduros e vividos, mas que não passam de adolescentes desesperados por afeto, segurança, qualquer coisa que eles deveriam trabalhar dentro deles mesmos, mas saem por aí buscando nos outros e achando que irão suprir suas necessidades, assim, sem responsabilidade afetiva nenhuma. Vão enfiando a obrigação de serem feitas felizes em seres que mal sabem quais são as próprias alegrias. São algemas e pesos desproporcionais. E pode notar, sempre são pessoas que se acham acima da linha do horizonte, que se dizem incríveis e independentes, fortes e batalhadoras (essa última é um cliché), mas que se perderem o relacionamento que têm, perdem o rumo e a identidade. É um padrão bem redondo, raramente elas saem disso.

A carência tira o tempo de qualidade de quem entra nesse tipo de relação. Já não há um conhecimento prévio, um período de teste, o famoso namoro, sabe? É tudo de sopetão, as pessoas vão enfiando os pés pelas mãos e dizendo “eu sei exatamente o que estou fazendo”, quando claramente não estão. São casais que, mesmo infelizes, não têm coragem de se largarem. Afinal, imagina a vergonha de assumir que eles enfrentaram todas as críticas e o povo ao redor tinha razão? Jamais, né? Ou, são aqueles casais que se suportam e fingem que ainda estão lutando por um relacionamento que morreu faz tempo. “Afinal, depois de tanto tempo, não vamos assumir que fracassamos?”

Lembro que a minha avó dizia que a gente não tem que observar como um homem trata a mãe ou uma irmã, a gente tem que ver como ele fala de uma (um) ex. E, dentro do universo dela, que foi casada com um homem divorciado, ela sempre dizia que é muito fácil tratar mãe e irmã bem, porque geralmente a mãe cuida do filhinho com carinho e atenção e a irmã é o reflexo da mulher que ele precisa proteger. Mas a (o) ex é o ser humano que não agradou, que decepcionou, que não realizou as suas utopias. Esse homem ainda consegue falar bem dela? Consegue respeitar a mãe dos filhos? Ele fala do antigo marido de qual maneira? Mantém o mínimo de afeto por alguém com quem dividiu a vida? Se você está com um homem que trata a (o) ex da pior maneira possível, mesmo ela (ele) tendo os defeitos que qualquer ser humano tem, cuidado, porque um dia você pode ser a (o) ex e, pior, ele pode começar esse tratamento dentro do relacionamento, o que muito possivelmente aconteceu lá no passado. Se a mulher com quem você está agora, trata os antigos relacionamentos de forma violenta, talvez abusiva ou até pejorativa, cuidado: você pode ser a próxima pessoa foco dessas violências todas. Isso vale para todos os modelos de relacionamento do universo!

Mas, como ver isso? Se relacionando. Conhecendo. Desbravando. E não por medo de ficar só ou necessidade de atenção e afeto o tempo todo. Mas por querer dividir genuinamente a sua vida com alguém, por não PRECISAR, mas sim, QUERER. Existe uma diferença enorme nisso! O tempo e a maturidade de entender que nada se constrói do dia para a noite, moldam não somente nosso caráter, mas nos ajudam a ver a hora de sair ou de permanecer.

Vale a pena uma terapia vez ou outra e menos ego, sabe? Não faz mal para ninguém e só ajuda.

Dito isso, depois desse coach maravilhoso, voltarei aqui a observar a humanidade infantil e carente que nos rodeia. Sigo aqui me monitorando também, afinal, hipocrisia pouca é bobagem.

Até semana que vem!

Eline Carrano

Jornalista por profissão, cronista por opção e neta coruja. Escrevo porque preciso justificar as ansiedades que o tarja-preta não dá conta.

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