Category Archives: Crônicas e poesias

Me engula agora, se possível

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A sua camisa era branca, seu cheiro ainda era de quem saiu do banho poucos minutos antes da minha chegada, mesmo o suor tendo tomado o seu corpo. Você pedia para que eu ficasse enquanto eu me organizava para sair. Eu já sabia que se não saísse naquele instante seria um caminho sem volta, eu iria te ver para sempre como casa, mas você me segurou tempo suficiente para eu querer repousar minha cabeça no seu peito para o resto dos meus dias. Carência, você diria no dia seguinte. Vinho demais, um lapso, um erro, um descuido, uma casualidade de quem ficou tanto tempo sem conhecer alguém tão diferente, foi o cigarro, foi o perfume, não sei. Antes da lista de desculpas, eu só conseguia focar naquele momento despido- por dentro e por fora. Sabe, as pessoas passam a vida buscando cinco minutos daquilo, e nós fugimos disso a vida inteira. Idiotas.

Medrosos.

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Só mais dez minutos

Não existe crise existencial mais conhecida que a crise dos dez minutos. Aquela que se alimenta das suas energias no tempo preenchido pela soneca entre o primeiro alarme de manhã e o segundo, terceiro, quarto. Você desperta mais cansado que quando foi deitar, aparentemente. Seu nome, seu trabalho, sua vida… tudo parece ter menos significado que tatuagem brega de adolescente, e a única coisa que a sua consciência espera de você é uma decisão muito simples: Levantar ou dormir mais dez minutos?! Quem nunca acordou e ficou sentado na beira da cama tentando recuperar a memória que atire a primeira pedra.

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Namastê

_Se posicione na cadeira, encontre seu equilíbrio corporal. Respire devagar e expire longamente.

_Eu tenho que pagar o estacionamento da faculdade pela internet, senão vou ter que enfrentar aquela fila enorme na saída. Eu deveria rever essa questão de débito em conta, é tão prático e eu fico aí evitando essas burocracias. Será que eu consigo colocar a conta de celular no débito automático também? Vou ligar na operadora. O celular da minha avó poderia entrar também, tadinha, nunca tem tempo de ir pagar os boletos… Volte para a meditação, idiota.

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Caixa-postal

Me atende. E entende.

Me fala que está tentando consertar do teu lado o que tá quebrado aqui, dentro de mim, e por isso não ligou ainda. Me explica o que eu faço com tudo que é seu e que ficou comigo, porque eu não aguento mais tirar o pó da nossa foto na tentativa de que eu te toque de alguma maneira e que aí, do outro lado da linha, você sinta. Eu to vivendo do que tem pra hoje e parei com os planos. Todos os projetos estão parados porque eu não sei como continuar sem você. Daí, eu queria só ter certeza de que você vai atender e eu não terei que me contentar com a caixa postal me pedindo pra deixar um recado. Porque, sinceramente, eu nem sei por onde começar e nem sei se tudo isso que eu sinto cabe num recado. Eu não sei como eu coloco os livros na minha estante e não sei se você anda comendo direito, se lembrou de tirar o vinho da geladeira, porque eu saí correndo da última vez e esqueci de avisar sobre isso. Você já falou com os seus pais essa semana, mais do que cinco minutos relapsos e sem profundidade? Eles precisam de você, assim como você deles e assim como eu preciso de você. Todo o tempo.

Então, me atende. Me escuta.

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A necessidade de pertencer 

A complexidade de não encontrar em si o sustento necessário para sanar a sede da alma, faz com que busquemos no cais alheio o líquido necessário para manter a cabeça em pé. É como se no fundo tivéssemos uma âncora amarrada no pescoço, que tenta nos grudar no lodo daquilo que gostaríamos de ser. É tão complicado lidar com tudo o que gostaríamos de ser em contraste com aquilo que os outros gostariam que fossemos, que acabamos não sendo nada, e nesse breu encontramos a dor.

A dor nos leva a necessidade de buscar um remédio que tape as escaras do peito. E geralmente caímos na amarga ilusão de achar que a solução para tamanho caos está no pertencer. Aí entra o maior erro de todos, no lugar de buscarmos pertencer a nós mesmos – o que em alguns casos já seria uma grande bosta – caímos no abismo de buscar pertencer aos outros. Mas como alguém vai se interessar por uma pessoa que não se interessa por ela mesma? Deveríamos buscar sempre responder a essa questão.

Mas realmente entendo como é difícil responder ao que quer que seja, pois diante dessa tormenta de tentar entender quais são as perguntas da vida, percebemos que não temos as respostas. Alguns não as têm por pertencer demais a si, ao ponto de não conseguir olhar mais nada a não ser o espelho. Já outros, de tanto buscar ser aceito, não consegue entender as perguntas por não ter em si as respostas necessárias.

Seguimos assim nessa insana explosão de contrariedades, diante de tudo aquilo que não temos, buscando ser o que não somos, para agradar aqueles que não gostamos. Dessa maneira, não pertencemos a nada e nem a ninguém – e quanto a ninguém, esse sim pode ser nós mesmos.