Category Archives: Crônicas e poesias

Namastê

_Se posicione na cadeira, encontre seu equilíbrio corporal. Respire devagar e expire longamente.

_Eu tenho que pagar o estacionamento da faculdade pela internet, senão vou ter que enfrentar aquela fila enorme na saída. Eu deveria rever essa questão de débito em conta, é tão prático e eu fico aí evitando essas burocracias. Será que eu consigo colocar a conta de celular no débito automático também? Vou ligar na operadora. O celular da minha avó poderia entrar também, tadinha, nunca tem tempo de ir pagar os boletos… Volte para a meditação, idiota.

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Caixa-postal

Me atende. E entende.

Me fala que está tentando consertar do teu lado o que tá quebrado aqui, dentro de mim, e por isso não ligou ainda. Me explica o que eu faço com tudo que é seu e que ficou comigo, porque eu não aguento mais tirar o pó da nossa foto na tentativa de que eu te toque de alguma maneira e que aí, do outro lado da linha, você sinta. Eu to vivendo do que tem pra hoje e parei com os planos. Todos os projetos estão parados porque eu não sei como continuar sem você. Daí, eu queria só ter certeza de que você vai atender e eu não terei que me contentar com a caixa postal me pedindo pra deixar um recado. Porque, sinceramente, eu nem sei por onde começar e nem sei se tudo isso que eu sinto cabe num recado. Eu não sei como eu coloco os livros na minha estante e não sei se você anda comendo direito, se lembrou de tirar o vinho da geladeira, porque eu saí correndo da última vez e esqueci de avisar sobre isso. Você já falou com os seus pais essa semana, mais do que cinco minutos relapsos e sem profundidade? Eles precisam de você, assim como você deles e assim como eu preciso de você. Todo o tempo.

Então, me atende. Me escuta.

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A necessidade de pertencer 

A complexidade de não encontrar em si o sustento necessário para sanar a sede da alma, faz com que busquemos no cais alheio o líquido necessário para manter a cabeça em pé. É como se no fundo tivéssemos uma âncora amarrada no pescoço, que tenta nos grudar no lodo daquilo que gostaríamos de ser. É tão complicado lidar com tudo o que gostaríamos de ser em contraste com aquilo que os outros gostariam que fossemos, que acabamos não sendo nada, e nesse breu encontramos a dor.

A dor nos leva a necessidade de buscar um remédio que tape as escaras do peito. E geralmente caímos na amarga ilusão de achar que a solução para tamanho caos está no pertencer. Aí entra o maior erro de todos, no lugar de buscarmos pertencer a nós mesmos – o que em alguns casos já seria uma grande bosta – caímos no abismo de buscar pertencer aos outros. Mas como alguém vai se interessar por uma pessoa que não se interessa por ela mesma? Deveríamos buscar sempre responder a essa questão.

Mas realmente entendo como é difícil responder ao que quer que seja, pois diante dessa tormenta de tentar entender quais são as perguntas da vida, percebemos que não temos as respostas. Alguns não as têm por pertencer demais a si, ao ponto de não conseguir olhar mais nada a não ser o espelho. Já outros, de tanto buscar ser aceito, não consegue entender as perguntas por não ter em si as respostas necessárias.

Seguimos assim nessa insana explosão de contrariedades, diante de tudo aquilo que não temos, buscando ser o que não somos, para agradar aqueles que não gostamos. Dessa maneira, não pertencemos a nada e nem a ninguém – e quanto a ninguém, esse sim pode ser nós mesmos.

4 anos de Regra dos Terços e não prometo mais nada

Por mais que eu não queira, esse sou eu. Desde o início, sou eu. Eu não posso prometer que manterei uma frequência, não posso prometer que irei me dedicar mais. O que  posso prometer é que continuarei assim, fazendo tudo do fundo da alma, inclusive isso aqui, escrever nesse  blog que vive, morre e renasce há quatro anos.

Mano, quatro anos é tempo pra caramba! Uma criança com quatro anos já anda, já fala e já está mostrando ao mundo o que ela quer. Ela tenta enganar seus pais – sim, pasmem senhoras e senhores, crianças mentem! –   tudo para conquistar seus desejos. Com o Regra não é diferente, ele tem suas vontades próprias, os seus próprios caminhos.

Tem dias que esse blog não me deixa fazer o que quero. Não deixa com que eu o utilize para aquilo que o criei, simplesmente porque nesse dia ele não está afim. Tá, talvez você esteja me achando louco, mas juro que todo o meu sumiço daqui não foi minha culpa, foi esse filho de uma intranet maldita que não me permitiu utilizar seu espaço para expor meus anseios.

Mudamos o layout na última semana do ano passado. E lá vim eu, boboalegre tentar fazer um baita textão bonito da porra para que todos vissem a nova cara dessa criança travessa. E ela o que fez? Se escondeu. Não me deixou criar com ela. Fez birra a lazarenta. Ok, ok. Pensei eu. Amanhã pego esse blog de jeito. Mas o amanhã não chegou tão cedo.

O ano acabou, e eu vi que tínhamos atingido a marca recorde de acessos anuais do blog. Obvio que  meu desejo era gritar em LETRAS GARRAFAIS para vocês saberem o quanto sou grato por tantos acessos. Mas nesse dia o Regra tinha acordado com o script virado pra  lua. E no fim, foi um texto bonitinho na nossa página do Face mesmo e só.

Parece desleixo da minha parte, mas sempre levei esse blog assim, com o coração. E se o coração não deixa a brisa da inspiração bater, foi mal, jogo a culpa no blog mesmo. Afinal, ele não fala se não for mim – ou pelos outros escritores. É meio cruel, mas como diria um jornalista amigo meu – está mais para ídolo na vida real – todo mundo tem um ditadorzinho dentro de si.

Mas até os ditadores não deixariam de comemorar o aniversário de um filho, e de agradecer aqueles que fizeram com que a vida dessa criança continuasse se prolongando. Por isso deixo aqui registrado o meu muito obrigado a cada um de vocês! Que venham mais quatro, mais oito… dezesseis já não sei, é tempo demais para  saber, ainda mais pra mim, que prometi  que além de continuar a escrever com o coração não prometo mais nada.

Sentir não faz sentido

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Até o silêncio me cuida, eu me agarro nisso antes de afundar e depois eu já não vejo mais nada. Nessa água escura, sem som, eu só quero ser a unha que descasca a ferida- porque eu preciso ser alguma coisa. Tudo é preciso justificar: A lista de compras, os gastos no final do mês, a ausência na reunião de família, a escolha do próximo destino de fuga e o motivo de tudo virar um “você”. Tudo precisa estar minimamente justificado, parágrafo 2 em times new roman 12. A faca que gira dentro da pele e sangra toda vez que me perguntam quando irei parar de sentir tanto e com tanta intensidade e enfim parar de ser tanto eu pra ser o que querem de mim. Eu vejo a minha pele árida colar nos meus ossos e depois eu já estou mastigando algum órgão que parou- sente agora? Eu sou a arma apontada, o gatilho na mira. Eu incomodo, altero o ar. Eu respiro fundo, seguro um pouco para conseguir morrer depois, na esquina de um desespero qualquer e me reerguer sem os dentes da frente, fingindo não doer. E novamente, você.

Como você pode falar da morte com tanta intimidade?– eles perguntam.

Eu já amei tantas vezes e ainda me mantenho aqui, firme no que creio. Mentiras nos alimentam, você sabe, amar é também morrer um pouco todos os dias. Eu já me perdi tantas vezes que consigo fingir conforto aí, onde você finge ter chegado- às vezes morro de fome com tantas verdades. Eu já me achei tantas vezes, que consigo morrer na sua boca agora, sem medo. Inibiram meus sentimentos, porque sentir demais me afasta do Paraíso dos Frigidos- há dias que me sinto o próprio inferno. Gritos de socorro não são ouvidos atrás dos meus acenos educados e eu vesti um pijama ruim hoje porque até a minha blusa favorita você levou em meados de um dezembro antigo- nem isso me pertencia, afinal. Ansiedades se viram dentro da minha íris e descobri que sofro de refluxo quando penso demais no que existe dentro da pele- eu preciso sair de mim, nem que seja em fluídos.

Agora, de onde eu olho as imagens salgadas do choro que eu não derrubei, das feridas que eu não sangrei, os cigarros que eu não fumei, eu pergunto: Até quando o teu silêncio me manterá segura, meu amor? Até quando iremos carregar esses fardos? O céu da tua boca anda vazio, assim como o meu? Forço a mandíbula e lembro de te ver acordar pela manhã, confuso e reclamando do frio e ter certeza de que se aquela fosse a minha última visão, eu morreria em paz. Estico um pouco meu braço e sinto que daqui eu poderia te acariciar os cabelos até a sua insônia perder a força. Por isso, se você não tiver muita coisa para fazer, muita gente para manter, muito assunto pra colocar em dia, por favor, me diz para ficar, mesmo fadigada e sendo essa tormenta, essa insensatez?

Namora comigo.

Namora, feito gente que não tem dívidas, nem refluxo, nem insônia, nem parentes chatos, nem nome sujo e tampouco se preocupa com depósito bancário. Namora comigo, feito aqueles filmes ruins de tarde de domingo, onde a mocinha fecha os olhos quando fala de amor e a gente tem vontade de jogar um pouco da nossa bile na cara dela pra mostrar a realidade da vida. Namora comigo como se a gente não estivesse preocupado com a possível proibição do omeprazol e nem tomasse corticoide como se fosse bala de morango- a gente precisa se tratar sobre isso. Namora comigo como se fosse possível. Como se não abalasse nenhum equilíbrio. Feito aquelas pessoas que a gente sempre viu de longe, se ignorando na mesa do bar porque o celular é mais interessante, e se sentia distante demais dessa realidade porque se interessa demais no outro. Anda comigo de mãos dadas da sala até a cozinha e vamos dividir a mesma colher de açúcar na hora do café. Namora comigo e me deseja, até que o teu desejo seja tanto que não haja espaço para pensar em ir embora e depois, me deita no teu peito, segura minha mão e adormece- ou não. Faz um beijo calar um pranto. Divide comigo tuas hipocondrias, neuroses, receitas e vamos falar sobre nossas terapias. Me faz habitar no teu silêncio que me cuida, me cura e me saúda todas todas as vezes em que eu não tenho palavras para explicar os meus rios que não chegam em oceano algum.

“Me abraça. Me beija. Me chama de ‘meu amor'”

Conta-gotas

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Eu sei que eu amo tudo aquilo que remete ao pranto. Mas eu amo você, e isso me salva. Eu sei que quando você ouve isso já vai colocando as suas coisas na mala e vai saindo como se eu não fosse capaz de notar a sua partida, mas eu amo e as minhas confissões só vão até aqui. Eu sei que eu sinto a sua falta quando a quarta dose chega na mesa e o cara do violão toca Legião e eu lembro dos seus olhos fechados e do sorriso aberto, tão correto e tão bonito, falando do Deus infinito, aquele, o mais lindo. Mas eu também sei que amo o teu silêncio, e daí as minhas certezas acabam aqui para dar espaço para o meu silêncio, que alguns dias é um oceano tão calmo, que dá medo. E tem dias que dá sede. E engana as pessoas cegas ao meu redor. Tão cegas que acham que me veem.

Talvez você até queira ficar para tomar mais um café e esqueça das planilhas e palestras e dos artigos e dos desejos secretos de só dormir até mais tarde pra conseguir engolir mais uma dose da hipocrisia humana. Eu digo isso, porque, assim como você, eu não tenho medo do lado sombrio que carregamos dentro de nós e que nossos pais não conhecem. Os nossos anciãos um dia nos disseram que essa versão tabagista e etílica não presta, mas esqueceram de avisar que muitas vezes é só o que nos resta para conseguir sobreviver nas versões branco gelo, bem passadas e de colarinhos alinhados que diariamente a gente finge amar de verdade. E até ama. E eu amo você. Mesmo quando você pulsa e depois me estica, porque sabe que os meus joelhos quebram quando eu fico tanto tempo sem te respirar. E eu sei que deveria ter uma visão mais pastel do amor, mas eu só consigo amar o que me tira camadas e me revela inteira, ossos e dentes, veias e danos. E eu me amo tanto, que aceitei que eu mereço alguém como você me atravessando e alterando e esvaziando as minhas azias. E eu sei que eu deveria falar sobre outras coisas, como a incapacidade das pessoas de conseguirem viver com a verdade, mesmo elas jurando que é o que mais querem para a vida. Mas, a gente sabe, ninguém está aberto e preparado pra ouvir sobre seus fracassos e a gente também sabe que amar desse nosso jeito conta gotas, é a única maneira de não se afogar no outro.

Eu sei que pode parecer egoísta não querermos companhia nesse nosso círculo fechado onde só cabe os nossos corpos e os nossos copos e não encaixa nenhuma outra versão, senão essa, una e cíclica. Eu sei que eu exagero demais quando o assunto é sentir e que mesmo você acalmando as tempestades dentro e fora daqui, eu ainda sou um assunto para depois, quando der um tempo, pra quando o tédio te corroer e a sua saliva pedir uma novidade. Eu sei que eu ando dizendo por aí que a vida vai se acertar e comprando band-aid, remédio pra dor, cuidando da alimentação e fugindo dos exames de rotina toda semana porque eu sou um pouco hipocondríaca. Mas você sabe que tenho medo de encarar as feridas externas e prefiro te deixar ser meu principal catalisador de euforias. Eu sei que agora, nesse instante, eu esteja alimentando algumas das suas certezas e que você vai colocar isso na sua pilha de pessoas que salivam quando você passa. Eu sei que quando eu peço para você voltar, isso remete aos amores adolescentes que a gente detesta. Eu sei que quando eu te peço pra ficar, você pondera, mas ainda assim entra no seu mundo particular e vai. Eu sei de quase tudo o que acontece depois daqui e que nos leva sempre ao mesmo lugar, aquele momento em que eu descubro que posso enfim te alcançar. E que todas as nucas com cabelos bem cortados, todas as doses e todas as noites e todas as bocas, nunca irão chegar perto da magnitude do que eu sinto quando você desliza e me sente. Do que eu sou no vão dos teus dedos. Eu sei que agora eu pareço despida demais a ponto de querer te fazer olhar para o outro lado e fingir que nada disso aconteceu. Mas se houver alguma maneira de explicar melhor o que eu estou tentando dizer, faz o seguinte: Me beija.

Me beija até eu não saber de mais nada.