Category Archives: Crônicas e poesias

Você tem medo de que?

Faz tempo que não abro essa porta que está diante de mim. Faz tanto tempo que nem sei mais como as coisas estão organizadas, se alguém já mexeu ou se continua a mesma coisa. Será que alguém leu os inúmeros rascunhos que deixei jogados sobre a escrivaninha? Será que tudo aquilo continua sendo para mim as melhores palavras que uma pessoa poderia colocar num papel? Provavelmente não, eu nunca fui tão boa assim. E, justamente por não ser tão boa assim, acabei deixando de lado muito do que acreditava. Na verdade, fui deixando para trás aquele computador sobre a mesma escrivaninha e as músicas que me inspiravam por puro medo. Sim, o medo que jurei não ter. Pois bem, olha ele aqui. Olá.

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Azulejos provisórios

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Eu poderia ter olhado um pouco mais profundamente no espelho, respirado e ficado. Mas não. Eu saí dizendo que talvez na quinta-feira eu trouxesse um pouco de queijo ralado da padaria perto da minha casa, porque o seu acabou- é que eles ralam na hora e fica fresquinho. Mas eu sabia que não, eu não estaria ali na quinta, depois das 19h e esperando você entrar dizendo que o dia tinha sido tão cansativo que você só teve tempo de comer um sanduíche no almoço. E você também. A sua vizinha do terceiro andar não sabia. Mas a gente, sim. O seu porteiro que sempre me dizia se ia chover ou não, talvez nem imagine. Mas nós sabemos, ficou claro.

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Voando baixo

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Eu sei voar baixo no radar, você já deve saber disso.

Quando eu quiser ser encontrada, você saberá. Mas calma, eu não irei te julgar por ter todas as suas certezas prontas para serem mastigadas pelas minhas vontades. Me vira, me toca, me afogue com a sua saliva. Eu posso te perdoar por achar que sabe me definir ou moldar, mas por enquanto, apenas continue voando baixo comigo. Me pede pra ficar de novo e eu fico. Me pede para me descobrir e eu me despedaçarei pouco a pouco, camada por camada, e talvez um dia você saiba o motivo dos alertas de perigo em meus olhos. Mas não espere estar nas capas de jornais, não ache que eu irei pegar na sua mão no almoço em família ou que eu irei te implorar atenção como um ser que necessita se sentir visto. Não. Ninguém precisa nos ouvir ou rotular ou sequer precisa entender. Ninguém.

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Focas do atlântico

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“Já ouviu dizer que o mundo está acabando?” Você me pergunta enquanto enrola uma mecha do meu cabelo. “Dizem que está acabando porque ninguém cuida de nada direito, mas a verdade é que a gente não cuida nem do que ama, imagina da foca listrada do atlântico? Que eu nem sei se existe mesmo.” Eu poderia tatuar esse diálogo e criar uma tese filosófica sobre ela que iria cruzar o mundo, porque “a gente não cuida nem do que ama”, repetiu-se na minha mente como um ciclo infinito de uma verdade tão sóbria e tão suave, como tudo o que aconteceu naquele dia tão cinza.

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Por favor, não mate meu São João

 São João Batista de Boa Viagem tinha só vinte e quatro anos de idade quando recebeu das mãos de finado Frei Manoel da Costa o Candeeiro do Santo Fogo Encantado. Lhe disse Frei Manoel que os milagre do candeeiro levariam alegria pro povo do sertão e essa seria a missão de São João. Onde chegasse deveria acender uma fogueira com o fogo do candeeiro e fariam festa. Ainda lhe alertou que João tomasse muito cuidado, pois uma vez que se apagasse o candeeiro o santo fogo deixaria de existir e as pessoas se esqueceriam de seus milagres. Continue reading Por favor, não mate meu São João

Eu te vejo inteiro

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Você me ama a ponto de conseguir segurar meu soco seco na ponta de facas que me ferem. Você me estanca, cura e sangra, pra poder me lembrar o custo e o barulho mudo que é te desejar num dia frio de meio de ano, querendo morar no seu pulmão esquerdo que é menor, pra eu não ter mais espaços para outra coisa que não seja você me respirando. Amar tanto. Amar teu zelo e teu sofrimento e depois querer orbitar em cada uma das suas animosidades pra dar novidades na minha vida. Eu sou a história que você poderá repetir por anos a fio e sempre haverá algo novo para incluir, para te incluir. Meus dias de conquista, você. Quando o chão tocou meu rosto, você. Quando eu sou algo maior do que eu achei que seria, nós.

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