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Regra Entrevista| Coletivo Amuela

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Baseado em São Paulo, o Coletivo Amuela é um coletivo cultural, artístico e educativo, que de forma plural e provocativa, tem como interesse comum a democratização dessas bandeiras.

Regra dos Terços – Qual é a proposta do Coletivo Amuela?

Coletivo Amuela – Somos estudantes das manifestações artísticas em relação à condição humana, a partir disso e de acordo com nossas tendências questionadoras, desenvolvemos projetos que misturam linguagens artísticas e abordagens conceituais.

RT – Qual é o significado do nome “Amuela”?

CA – O nome “Amuela” surgiu de uma brincadeira interna do coletivo que tem a ver com a moela da galinha. Porém ao pesquisar o significado da palavra, descobrimos que a mesma, em espanhol, tem o sentido de amolar (tanto as facas, quanto as pessoas), algo parecido com o “apoquentar” do nosso português.

RT – Quem compõe o coletivo?

CA – Somos uma grande mistura de vertentes artísticas. Somos professores de arte, artistas plásticos, curadores e produtores culturais, além de termos nossas parcelas vindas da arquitetura, do jornalismo e do Design.

RT – Quais são as atividades desenvolvidas pelo coletivo?

CA – O coletivo atua, principalmente, na área da arte-educação. Atuamos com residências artísticas (como a primeira temporada do projeto “ Arte Educação- Tradição e Ruptura”, que resultou em uma exposição que esteve presente na Galeria Mario Schenberg, na Funarte nos meses de junho e julho de 2016), exposições, palestras, rodas de discussões e oficinas.

RT – Quais os desafios que vocês já enfrentaram ou enfrentam?

CA – Nosso maior desafio até agora tem sido a falta de apoio, e não é um problema só nosso, e sim da grande maioria dos coletivos que existem na cena artística atual. Nossa caminhada é longa e cheia de obstáculos, sempre. Cabe a nós manter o foco e estarmos sempre abertos a novas integrações, troca de ideias e assim manter nosso nome na cena.

As dificuldades existem, principalmente no que diz respeito à falta de apoio e às dificuldades de se manter, por exemplo, cursos completamente gratuitos. A falta de um espaço próprio também nos afeta, embora estejamos com apoio da Funarte e da representação regional do MinC-SP, que nos cede as instalações para os cursos, residências artísticas e exposições.

O coletivo, que até meados de outubro se chamava “Amigos do MinC” (fizemos um manifesto chamado “Tiranossauros em mutação”, que explica os motivos para a mudança do nome) ganhou destaque em um momento em que a Funarte e o MinC corriam o risco de serem extintos pelo governo interino, então as atividades promovidas pelo Amuela ajudaram a manter o espaço em movimento, juntamente com as atividades propostas pelo pessoal dos movimentos sociais que ocupavam as instalações Minc/Funarte na mesma época.

RT – Em janeiro deste ano vocês irão realizar o evento “PROVOCA+AÇÕES”. Conte-nos um pouco mais.

CA – Em janeiro estaremos com algumas rodas de conversa acontecendo dentro das instalações da Funarte/MinC de São Paulo. O evento chama-se“PROVOCA+AÇÕES”, e os encontros acontecerão em 4 semanas consecutivas durante o mês de janeiro e início de fevereiro de 2017, sendo que a cada semana haverá um eixo temático específico.

O nosso principal objetivo neste evento é articular ação e reflexão sobre as artes visuais e seus desdobramentos no contexto cultural do Brasil contemporâneo. Por ter um formato mais dinâmico, teremos dois debatedores e um moderador discutindo questões centrais para a arte contemporânea, como a relação com o espaço público, os embates com o campo étnico, ambiental, social, filosófico e político.

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Link do evento no Facebook: https://www.facebook.com/events/1327081197313208

Inscrições para o evento*:

EIXO 1: https://goo.gl/forms/VzqrXCkXp9YSCi602
EIXO 2: https://goo.gl/forms/xJiP3MDOeHUlGmH72


*os links de inscrição para os outros dois eixos serão divulgados em breve.

Coletivo Amuela

Facebook Page: https://www.facebook.com/coletivoamuela

Email: coletivo.amuela@gmail.com

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Regra Indica | Ana Schirpa e Caroline Moraes

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O Regra Indica de hoje é um bate-papo com duas fotógrafas paulistas, Ana Schirpa e Caroline Moraes, sobre o trabalho de cada uma delas e os desafios de ser mulher nessa indústria.

ANA SCHIRPA

Ana Schirpa (Créditos da imagem: Tauanna Borazo Maia)
Ana Schirpa (Créditos da imagem: Tauanna Borazo Maia)

A paulista de 25 anos é estudante de marketing e se autodescreve como capricorniana teimosa. Morou dois anos na Irlanda e agora, de volta ao Brasil, divide seu tempo entre lecionar aulas de inglês e a fotografia.

Regra dos Terços – Por que fotografia?

Ana Schirpa – A fotografia permite que mostremos para as pessoas como vemos o mundo, permite traduzir a beleza que enxergamos nas coisas, nas pessoas, ou em uma determinada situação… É a mágica do momento, onde é só você e sua câmera e o resultado só depende de você. Um clique pode mudar tudo.

RT – Como você começou na fotografia?

AS – Desde pequena eu saía fotografando as coisas, mas nunca levei muito a sério. Acabei mergulhando de cabeça nesse mundo quando voltei de um intercâmbio e a readaptação estava sendo difícil. A fotografia me ajudou muito, conheci pessoas incríveis, mulheres maravilhosas e empoderadas que posaram para mim; poucas, mas boas pessoas querendo me ajudar, e trabalhos que me orgulho muito de ter feito parte.

RT – Qual é seu estilo de fotografia?

AS – Gosto muito de fotografar a beleza feminina e a sua sensualidade. Acho o corpo feminino lindo e é maravilhoso entregar um trabalho em que a pessoa fale “nossa, eu não me via linda desse jeito”. É gratificante. Mas, como fotógrafa, procuro ser flexível, então busco aprimorar meu olhar em diversas situações. Carrego minha câmera comigo sempre que possível e saio clicando. Alguns resultados eu publico, outros guardo pra mim…

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Créditos da Imagem: Ana Schirpa.

RT – Quais são suas referências na fotografia?

AS – Tenho algumas referências, tanto masculinas quanto femininas, nacionais e estrangeiras… As minhas principais inspirações são: Mayara Rios, Felipe Watanabe, Gab Dias, Luana Patricio, Andrew Kearns, Thais Marin. Sigo também vários perfis de projetos bacanas, como o Eu mesma, Eu livre.

RT – Quais os desafios de ser uma fotógrafa mulher?

AS – Acredito que para o estilo de foto que eu gosto de tirar, ser mulher acaba sendo um facilitador. Algumas meninas se sentem mais a vontade em tirar a roupa na frente das lentes de um estranho quando quem está por trás dela é uma mulher. Mas acho que existem desafios sim, às vezes é difícil ser levada a sério, ou algum cara se acha no direito de ultrapassar alguns limites e acaba faltando com respeito.

RT – Qual equipamento você usa para fotografar?

AS – Uso uma Canon T5 e as minhas lentes.

RT – Você já teve alguma publicação de destaque ou recebeu algum prêmio?

AS – Eu fiz umas fotos para a Cavalera duas vezes. Em uma delas tive a oportunidade de fotografar o Luringa e seu filho. Acho que foi uma das vezes que mais fiquei nervosa, mas deu tudo certo no final (risos). Também tive a chance de dividir um ensaio com um dos fotógrafos que tenho como referência, e foi uma oportunidade massa para conseguir aprender mais.

Luringa e seu filho Nick. (Créditos da Imagem: Ana Schirpa)
Luringa e seu filho Nick. (Créditos da Imagem: Ana Schirpa)

Ficou a fim de conhecer mais o trabalho da Ana Schirpa? Dá uma olhada nos links abaixo.

Portfólio: Ana Schirpa Fotografia

Instagram@anaschirpa.fotografia

Facebook Page: http://www.facebook.com/anaschirpa.fotografia

 

CAROLINE MORAES

Autorretrato – Caroline Moraes

Ao se situar na intersecção entre palavra e imagem, a paulista de 33 anos constrói narrativas visuais dotadas de poesia, forma e potência.

Regra dos Terços – Por que fotografia?

CM – Foi uma paixão, bem daquele jeito clichê. Comecei a fotografar e a entender o que era isso de produzir imagens e fiquei apaixonada pelas possibilidades, pela emoção, pela delicadeza mesmo nas cenas mais duras. Sempre gostei de contar histórias, acho que a fotografia virou mais um jeito de poder fazer isso. É por essa linha narrativa que pretendo seguir.

RT – Como você começou na fotografia?

CM – Me formei em Publicidade em 2004 e, com 21 anos de idade, caí no mercado como redatora meio sem saber de nada da vida, das coisas corporativas e tal. Passei por agências, empresas e uma grande editora. Aos 28 anos, estava chateada com meu trabalho; não via relevância naquilo. Fui estudar fotografia em busca de um hobby, uma coisa para mudar de assunto.

Fiz um curso de férias e adorei. Fui atrás de outro curso, um pouco mais teórico. Seis meses depois, eu estava completamente apaixonada e resolvi buscar uma formação como fotógrafa. Enquanto estudei na Panamericana, mantive meu trabalho como redatora, que pagava bem as contas.

Depois de um ano  naquela vida dupla, entre textos e fotos, saí da editora e resolvi abraçar a vida de fotógrafa. Desde de 2013 sou fotógrafa profissional, apesar de ainda escrever e gostar muito. Hoje, busco maneiras de juntar essas duas linguagens sempre que posso.

Créditos da imagem: Caroline Moraes.
Créditos da imagem: Caroline Moraes.

Já fiz uma pós graduação de fotografia pensando em narrativas e pretendo entrar em um mestrado. Tenho algumas pesquisas artísticas que mixam as duas linguagens e comecei a entender que não existe isso de imagens dispensarem palavras ou vice-versa.

As coisas podem se complementar, existe uma potência linda ao juntar texto e fotografia, que foge da clássica ilustração, que pode abrir muitos horizontes, pensamentos e possibilidades.

No mundo prático, sou fotógrafa de eventos corporativos, de produtos (still) e faço outras coisas quando acho interessante, me identifico, acredito. Uma das minhas principais determinações quando mudei de carreira foi de só trabalhar com o que faz sentido pra mim. Tem dado certo.

RT – Qual é seu estilo de fotografia?

CM – Gosto da capacidade que a fotografia tem de mostrar a beleza das coisas, da natureza das pessoas. Em eventos, corporativos ou não, gosto muito de explorar uma linguagem mais jornalística, de testemunha oculta, sem muitas poses ou coisas armadas. Amo fotografar teatro e dança justamente por poder explorar o que as luzes e os corpos oferecem de possibilidades. Nas minhas pesquisas voltadas para as poéticas acho que junto tudo isso, procuro o que me toca, o que faz sentido para o meu olhar. Fotografar é muito subjetivo pra mim.

Créditos da imagem: Caroline Moraes
Créditos da imagem: Caroline Moraes

RT – Quais são suas referências na fotografia?

CM – Sou apaixonada pelo trabalho da Rinko Kawauchi, japonesa e contemporânea, que produz livros lindos. Há algum tempo tenho interesse nos fotolivros, nas narrativas visuais. A Francesca Woodman me comove sempre, Annie Lebovitz, Cindy Sherman… acho que temos grandes mulheres na história da fotografia.

RT – Quais os desafios de ser uma fotógrafa mulher?

CM – Enfrentar um mercado ainda muito machista e dominado por homens, perder trabalhos porque você não é um cara e só por isso deduzem que não vai dar conta de fazer. Ainda parece normal ser mais bem sucedida se você for gostosa, se der mole, se o cara que detém o poder conseguir o que quer. Ainda é preciso engrossar o trato para ir mais longe.

RT – Qual equipamento você usa para fotografar?

CM – Uma nikon D90 e umas 3 ou 4 lentes.

RT – Você já teve alguma publicação de destaque ou recebeu algum prêmio?

CM – Escrevi por 3 anos para o blog do Paraty em Foco, fazendo a cobertura oficial do evento com textos, críticas e análises dos acontecimentos. Esse ano tive 3 fotos expostas durante um festival de fotografia na RedBull Station, de uma pesquisa chamada Ensaios Sobre Butô. Estou começando a criar coragem pAra me inscrever nesses editais e premiações.

Ficou a fim de conhecer mais o trabalho da Caroline Moraes? Dá uma olhada nos links abaixo.

Portfólio: Caroline Moraes Fotografia

Instagram: @carolemoraes

Facebook Page: http://www.facebook.com/carol.rmoraes

 

Regra Entrevista | Sharks’ Teeth

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Sharks’s Teeth é uma banda de New Orleans composta por Tyler Scurlock, Devin Hildebrand, Shelby Grosz e Emily Hafner. Lançado em setembro deste ano, o álbum It Transfers & Grows é um mergulho cósmico.

Confira a entrevista que a banda deu para a Camila Ayouch, colunista do Regra dos Terços!

Regra dos Terços – O que cada um faz na banda?

Tyler Scurlock – Eu escrevo as bases e as letras para a maioria das canções. Eu canto nas músicas e nos shows ao vivo, onde eu toco basicamente o módulo DSI Mopho & Roland JP-08.

Emily Hafner – Eu faço um pouco de tudo. Eu toco baixo, lead line, ou faço algum um pouco de som ambiente dependendo da música. Eu e o Devin normalmente alternamos entre o Novation MiniNova e o Korg MS-2000.

Shelby Grosz – Eu normalmente faço a estrutura harmônica das músicas, como as progressões de acordes, com vários acentos em frases, usando a varredura do poly-synth da Yamaha SK-20.

Devin Hildebrand – Eu faço os elementos de percussão para os shows ao vivo e nos discos. Quando tocarmos ao vivo, eu uso o Korg MS2000b para qualquer coisa, desde arpejos a ondas, e o vocoder no Mininova.

RT – Como vocês se conheceram?

TS – Quando eu era calouro na Universidade de Loyola, fui designado para o dormitório ao lado do quarto do Devin. Eu o convenci/forcei a tocar um solo de guitarra, embora ele continuasse dizendo que era mais um baterista [do que um guitarrista] na música que eu estava gravando.

Eu conheci o Shelby através de um amigo mútuo na música, em um show em Lafayette. Depois de tocar em bandas periféricas por anos e ver o quanto Shelby poderia destruir no teclado, não tivemos escolha senão convidá-lo para participar.

Emily e eu nos conhecemos na faculdade também. Há alguns anos atrás, no fim da noite em uma Casa de Natal, nós ligamos os sintetizadores e Emily se juntou ao Shelby para liderar o coro bêbado através das canções de Natal mais espaçadas que eu já ouvi.

RT – Há quanto tempo vocês estão na estrada?

TS – O Sharks’ Teeth não faz tours frequentemente. Às vezes nós viajamos durante uma semana ou tocamos em alguns festivais regionais. O Shelby está em uma banda chamada Trampoline, que faz tours prolificamente, e a Emily vai se juntar a um belo projeto de Nova Orleans chamado Treadles, que fará sua primeira turnê em janeiro deste ano.

RT – De onde surgiu o nome da banda?

TS – Sharks’ Teeth vem de um poema homônimo de Kay Ryan.

RT – Como vocês descreveriam o tipo de música do Sharks’ Teeth para quem nunca ouviu?

TS – Minha descrição favorita, que eu ouvi recentemente, é “pop orgânico mutante”. Algo como um monte de almofadas etéreas, cordas e varreduras sobre batidas sedutoras de dança, cobertas por letras tristes. Embora tenhamos usado sintetizadores, módulos de sintetizador e drum machines exclusivamente para o nosso último álbum, as músicas seguem um formato pop familiar, apenas de muito longe.

Leia também – Sharks’ Teeth e o synthpop mutante.

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RT – Quais são suas referências musicais?

TS – John Maus, Oppenheimer Analysis, New Order, Yo La Tengo, Bjork.

SG – Devo, Human League, Kate Bush, Gary Numan, Angelo Badalamenti.
EH – Elliott Smith, Grouper, Cocteau Twins, Sufjan Stevens, Ryuichi Sakamoto.
DH – Tobacco, Black Moth Super Rainbow, Fennesz, Talking Heads.

RT – Como surgiu seu interesse pela música?

TS – Eu comecei a tocar música na escola primária e desde então foi a maneira mais divertida, fascinante e gratificante de passar o tempo.

EH – Eu comecei a tocar piano clássico quando eu tinha 5 anos de idade. Continuei com as aulas até a faculdade antes de ficar um pouco cansada dele. Ao longo do caminho, eu aprendi peças em outros gêneros por diversão e foi o que manteve a centelha viva. Eu ainda gosto de tocar música clássica de vez em quando, mas também gostei de me divertir nessas ramificações de um estilo tão restritivo de aprender e tocar música.

RT – Como é o processo de composição?

TS – Normalmente eu trago uma fundação de acordes, batidas e letras para o grupo. Devin vai então inventar algo com sua magia digital e que se transformará na nova base de percussão.

Todo mundo dá sugestões de como a canção poderia ser melhor ou como lidar com transições, e as novas partes vão sendo escritas em conjunto.

Por último, a Emily e o Shelby adicionam suas partes ao conteúdo, já que eles são os únicos que têm ideia do que está acontecendo. Então eles voltam e gravamos tudo juntos.

RT – Vocês parecem ser muito bem humorados. Em sua página oficial no Facebook, cada integrante tem um nome divertido. Vocês poderiam comentar isso, por favor?

TS – A reprodução mecânica de cada conta no Facebook, pessoal ou musical, é uma coisa estranha. Eu sinto que nas mídias sociais, algo criado para nos tornar mais homogêneos, você pode subverter isso com a arte e se divertir mais com elas. Enquanto, eventualmente e esperançosamente, de alguma forma, mostre a outras pessoas que elas também podem fazer o que quiserem.

RT – O que é “Christmas in Space” (“Natal no Espaço”)?

TS – Por volta de 2010, eu fiz um show num pequeno bar usando uma guitarra curvada, sobre alguns sintetizadores de ambiente, mas com o coro soando como loops de fita. O local tinha algumas luz de Natal espalhadas por todo o palco. Entre os sons e a decoração, a única maneira de descrever seria “Natal no espaço”. Desde então, essa atmosfera tem influenciado o tipo de acordes ou tons nós tocamos.

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RT – Vocês lançaram 16 álbuns nos últimos 7 anos, de diferentes tamanhos e até mesmo estilo. De onde vem tanta criatividade?

TS – A criatividade vem de estar próximo a tantas pessoas criativas fazendo tanta música incrível, como aqui em Nova Orleans. A quantidade tem mais a ver com a falta de filtro. Muito do que o Sharks’ Teeth lançou nos últimos 7 anos não tem qualquer padrão profissional ou foi analisado o que teria sido melhor fazer.

Eu tinha o equipamento para fazer a música e um lugar para colocar (BandCamp), então fazer o upload regularmente e manter a produção era fácil, ainda mais com projetos pequenos e não muito pensados.

Entre escrever, ensaiar, reescrever, gravar, divulgar e distribuir, It Transfers & Grows foi um projeto que nós trabalhamos por cerca de 2 anos. O resultado é algo mais polido, mas não teria sido possível sem todo esse tempo e colaboração.

Os anos em que o Sharks’ Teeth estava lançando um álbum ou EP por mês foi quando eu estava pulando basicamente todos os passos que fazem It Transfers & Grows o que ele é.

RT – O álbum It Transfers & Grows parece mais maduro artisticamente em relação aos outros. Como foi o processo de criação do disco?

TS – Isto se relaciona diretamente com a última pergunta sobre a prolificidade. A maioria do catálogo antigo foi gravado essencialmente por mim. Quando começamos a gravar It Transfers & Grows, o Sharks’ Teeth vinha se apresentando junto com os quatro integrantes. A cada ensaio ou show, cada membro foi desenvolvendo o que eventualmente acabaria sendo o disco.

A Emily e o Shelby são ambos talentosos e capazes nos sintetizadores. Quando chegou a hora de gravar, eles contribuíram com alguns dos momentos mais memoráveis do disco. Devin foi responsável pela gravação, mixagem e masterização do álbum inteiro e suas habilidades loucas são o que torna o registro tão coeso.

RT – Quais são as expectativas para este álbum?

TS – Quando estávamos trabalhando nisso, eu acho que minhas expectativas eram de que as pessoas compartilhassem a afinidade pela música física e que os equipamentos fossem atraídos para isso.

Agora que o disco já foi lançado faz algum tempo, eu estou surpreso. Nunca achei que fosse estar tão orgulhoso de algo em que eu trabalhei por tanto tempo.

Durante a maior parte da minha vida eu tenho me desapontado cronicamente com projetos, mas trabalhando no ITAG, colaborando com os novos membros para ensaiar para shows que ainda estamos tocando… Eu estou muito feliz de estar continuamente orgulhoso do trabalho que todos nós colocamos neste disco e que realmente foi além das minhas expectativas.

RT – Vocês já vieram ao Brasil?

TS – Nós nunca estivemos no Brasil, mas ADORARÍAMOS ir.

RT – Indique algo para os nossos leitores.

TS – O livro do Walker Percy,”Lost in the Cosmos”,  foi uma grande influência na criação de It Transfers & Grows; e também é muito engraçado.

EH: Se você estiver procurando por alguma arte inspiradora, dê uma olhada em Yuko Shimizu (não o da Hello Kitty; o outro)! Ela é uma ilustradora japonesa baseada em Nova York, e todo seu trabalho é imaginativo e bonito. Ela faz trabalha muito com tinta e escova, e sua arte combina influências tradicionais e modernas sem problemas.

Curtiu a entrevista do Sharks’ Teeth? Clique aqui para ouvir o som deles.

Regra Entrevista | Entre Serviço e Simpatia, com Castello Branco

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Para tentar desvendar um pouco desse ser de intensidade quixotesca, o Regra dos Terços entrevistou o cantor, compositor e escritor Castello Branco.

Regra dos Terços – Muitas pessoas te conhecem da R.Sigma. Como foi a transição de um projeto coletivo para um disco solo?

Castello Branco – O processo coletivo nunca saiu de mim. Sou um ser do coletivo. Mesmo quando trago para o pessoal, como acontece com o projeto solo, ainda sim não deixo faltar o coletivo nas coisas.

RT – Um de seus poemas no livro Simpatia diz: “sem atrito não há lapidação”. Quais foram as intempéries que você teve que enfrentar para se estabelecer como artista?

CB – Nossa (risos)! São muitos os traumas que ainda vivo e atritos que tive. Não seria capaz de formatá-los em texto. O que posso dizer é que existem dois tipos de confronto, o externo, onde outros lhe trazem o atrito, e o interno, onde você é quem “tatua” a si mesmo. Ambos são positivos, quando a motivação é honesta enquanto amorosa.

Leia também – Simpatia, de Castello Branco.

RT – Você cresceu em um monastério ecumênico. Como isso influencia sua conduta enquanto artista e seu processo criativo?

CB – Não consigo criar algo sem pensar nos outros. Isso não quer dizer que seja bom.

RT – Quais são as suas referências literárias e musicais?

CB – Meus amigos e alguns seres gigantes que fui encontrando no caminho. Posso citar alguns como Pãma, Trigueirinho, Lôu Caldeira, André Dahmer, Ana Lomelino, Gabriel Bittencourt, Eduarda Bittencourt, Tomás Tróia, Rafaela Cardeal e por aí vai…

RT – “Permitir é um gesto sagrado”. Comente este poema, por favor.

CB – O ato de permitir é uma das coisas mais poderosas que podemos manifestar.

RT – Recentemente você completou 30 anos. O que a idade te trouxe como presente?

CB – Saber viver mais esse presente.

RT – Indique algo para os nossos leitores.

CB – Feijão, por cima uma camadinha de farinha, depois alguns fios de azeite e por último umas pitadinhas de sal. FICA UMA DELÍCIA!

Entrevista: Nilson Sampaio

tiraO Regra dos Terços entrevistou o cartunista Nilson Sampaio, que está lançando o seu livro de tirinhas das baratas “Cuca e Racha – Subindo pelas paredes”.
Ele nos conta um pouco de sua história e sobre o livro que está para ser lançado na Gibiteca de Curitiba.

Regra dos  TerçosVamos começar à falar sobre a sua carreira. Quando que você começou e o que exatamente te moveu à ser desenhista?

Nilson Sampaio – Sempre soube que seria desenhista um dia, desde criança sempre quis desenhar fazer gibi, contar piadas ou desenhar na mad… A vontade de um dia ser um desenhista que soubesse desenhar coisas legais… Tô tentando ainda…

R – Quais são as suas influências?

N – Ziraldo, Aragonés, Gonzales, LAN, Solda, Paixão, Jacobsen e mais um monte de gente fera.

R – Você chegou à participar de um tempo do Clube dos Caricaturistas (importante grupo artístico que fundamentou em muito a profissão de caricaturista na cidade de Curitiba). Como é que foi essa experiência?

N – Gratificante, na época era bem bacana você fazer o que você gosta e as pessoas te pagarem por isso! Somos da turma que montou as trincheiras (risos).

R – E essa história de você ser o CEO do Site Sacizento?

N – O Sacizento é um blog de humor e é lá que eu descarrego todas as piadas que eu não consigo sair falando como gostaria, o www.Sacizento.com.br começou bem de boa, e hoje ele já tem o seu lugar na sombra e me permite pagar as contas e fazer outras…

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R – Sobre as baratinhas, Cuca e Racha, são dez anos de tirinhas. O que mudou de lá do começo para cá?

N – Elas ficaram mais maduras, hoje existe uma preocupação maior com o público com o recado, e ao mesmo tempo, penso: o que o Vicente acharia dessa tira..? Não sei se isso é bom ou ruim, mas faz vc repensar nas mensagens que deixa no mundo.

R – Os temas geralmente circundam o relacionamento Marido e Mulher. Porque escolheu exatamente este assunto?

N – Esse tema é o que mais me agrada por ser tão rico, é tão misterioso que não importa o casal, todos tem algum drama que daria outro livro deste de tiras

R – Você é um cartunista que tem uma opinião bem definida à respeito da política. Como foi para você a experiência de fazer este livro, num momento onde a área de políticas para a Cultura tem sofrido ataques, muitas vezes injustificados, principalmente no que tange às leis de incentivo fiscal?

N – Sinceramente me acho meio sem noção ou meio sonhador. Nesse momento que tudo é 8 ou 80 você lançar um livro de humor e quadrinhos que não fala de política é no mínimo utópico! Ah e quanto minha posição política eu faço questão de deixar bem clara!

R – Ziraldo e Fernando Gonsales participam do livro. Como é ter um livro com a participação de dois “Monstros” da Ilustração brasileira?

N – É uma baita responsabilidade. É como você estar no meio da viagem e não poder mais voltar pra trás, é uma baita de uma honra saber que eles gostam e curtem meu trabalho.

R – O lançamento na Gibiteca tem um gostinho especial? Por que?

N – Porque é a última do ano e também porque a gibiteca pra mim é um lugar especial.

R- Por quanto que está saindo o livro?
N – O livro custa 40,00 R$.

R – Quer mandar um salve, uma mensagem, fazer um comercialzinho? O espaço é livre!

N – Espero vocês no meu lançamento!

Além de livrarias, o livro pode ser adquirido pelo site http://www.sacizento.com.br.

O lançamento acontece quinta feira (22/12/2016) à partir das 19:00, no Salão de lançamentos da Gibiteca de Curitiba. Endereço: Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 533, Solar do Barão – Centro.
Horário: 19:00
Entrada Franca
Mais informações:


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Jyudah e o Encontro de Ilustradores

logo-maltao-1Há quase quatro anos acontece em Curitiba um evento que tem mudado a cena cultural da cidade, principalmente para os quadrinistas e desenhistas da capital. O Maltão – Encontro de Ilustradores, acontece à cada dois meses, e é organizado por Jyudah, desenhista, produtor e fomentador cultural. O evento, além de um grande encontro de artistas locais, se tornou referência por trazer grandes nomes para expor suas obras e debater um pouco sobre o mercado. Todo o bate-papo acontece de maneira muito natural, nas mesas espalhadas por todo o  Quintal do Monge, no centro histórico de Curitiba.

Tão importante quanto a exposição dos nomes e desenhos, certamente são as propostas de uma política cultural mais sólida no mercado. E se tem algo que o Jyudah dedica a sua vida, certamente é nisso. Militante assíduo do movimento cultural, ele encabeçou diversas políticas públicas com o impacto direto para esse setor. Um dos exemplos que podemos levantar aqui é a Gibiteca de Curitiba, que após muito esforço e militância, voltou para o seu local de origem dentro do Solar do Barão. Conversamos com Juydah sobre o movimento cultural de Curitiba e também sobre suas atividades, confira.

Regra dos Terços – Você atua há muito tempo no cenário cultural, dentro das diversas conquistas que podemos levantar aqui, acredito que uma muito expressiva seja o renome que o Maltão tem. Como esse projeto começou?
Jyudah – Obrigado pelo espaço. Bem, o Maltão é um encontro de ilustradores que nasceu em 2013. Nesse período, no Brasil, existia um movimento forte entre ilustradores pelo país e em cada cidade onde organizavam, davam o nome de alguma comida típica da cidade, com o acréscimo de “ilustrado” no nome.  O primeiro dos encontros do país, foi criado pelo Kako (kakofonia) e batizado de Bistecão Ilustrado, na cidade de São Paulo. Curitiba teve duas versões desses encontros, que foram o “Costelão Ilustrado” e o Pinhão Ilustrado”. Hoje, nenhum desses encontros acontecem mais, infelizmente.
No caso do Maltão, em 2013, por conta das conferências municipais de cultura, comecei junto de outras pessoas, um movimento no sentido de buscar políticas públicas para a área. Estava conversando com o Adilson Farias e ele me deu a ideia de ressuscitarmos os encontros que haviam antes.
Então,  começamos por juntar o pessoal numa cafeteria e fizemos. Foi legal, mas no encontro, ninguém bebia café e o dono do lugar não vendia cerveja. Aí a gente viu que tinha que fazer esses encontros num bar, que era o lugar certo.
Por isso, eu conversei com o Adilson, o qual considero o verdadeiro criador do Maltão e disse que se déssemos continuidade à esse encontro, deveríamos fazer algo bem diferente dos outros encontros, à iniciar, por tirar o nome “ilustrado” dele e também criar um propósito, que beneficie a classe e os artistas. Por isso, decidi que faríamos uma edição à cada 2 meses, que em cada uma delas, trouxéssemos um ilustrador para fazer o desenho de cartaz e uma exposição no espaço e por fim, dar uma direção sonora, com algumas músicas que relacionam-se com o seu desenho de trabalho.
O formato tem dado certo e estamos aí até hoje.

R – Qual é a principal proposta do Maltão?
J – Vamos lá! Como disse, já havia um movimento forte no país com os encontros, porém, eles foram minguando e as tentativas que fizeram na cidade, nenhuma havia vingado. Hoje, pelos meus dados, além do Urban Sketchers, no país todo, só existe a gente e o pessoal de Florianópolis que faz esses encontros.
Outra necessidade que tínhamos, é que a cidade tem muitos artistas do mais alto gabarito, mas que às vezes, pouca gente sabe disso. Por exemplo, o Tadao Miaqui. Você sabia que a série do Alladim da Disney foi feita aqui em Curitiba no estúdio dele no Capão da Imbuia? Ou que o Zé-Gotinha foi criado pelo Nilson Muller e o Smilingüido pela Márcia D’haese e eles também são daqui?
Essa deficiência em se fazer o profissional ser conhecido e também conhecer o pessoal mais novo é uma necessidade que a profissão tem e que é necessária, para a melhoria da profissão.
O Guia do Ilustrador é uma das grandes iniciativas feitas no país na área, o IlustraBrasil e aqui em Curitiba, já havia uma “militância” por assim dizer, forte que o Marcelo Marques Lopes fazia nas aulas e palestras que ele dava, pela valorização da profissão e do artista.
Então, para trazer à tona uma maneira de ajudar à melhorar esse cenário, resolvemos fazer esse formato com exposição e aos poucos estamos melhorando, pois agora temos um DJ, que é o Tiago Rangel, que é parte indispensável do encontro como um todo e também lá, tem os apoiadores que sempre nos ajudam à sortearmos seus trabalhos, podemos utilizar o espaço para trocar figurinhas, fazer planos de atividades, em outras áreas, como até a de mobilização de classe.
Já perguntaram se esse era o propósito do Maltão, mobilizar a classe e etc e eu costumo dizer que também pode ser, mas que o espírito contido no encontro é o da diversão e valorização do Ilustrador. Posso colocar várias outras coisas lá dentro e que cabem como atração. Talvez erre em alguma coisa aqui, acerte outras lá, mas esses dois propósitos nunca deixarão de ser o norteador do encontro, pois afinal, é a sua essência.

R – Você é quem faz a curadoria do evento. Quais os critérios que você usa para escolher o Ilustrador da edição?
J – Por mais simples que pareça, para organizar uma edição do Maltão, eu levo dois meses preparando. Por isso, cada ilustrador está já selecionado com 1 ano de antecedência e creia, passa muito rápido! A do Rogério Coelho, levou um ano e meio para conseguir fazer o encontro e o resultado foi ótimo.
Os critérios que eu uso para escolher o Ilustrador, são basicamente estes:

1 – Tem que profissional reconhecido na área.
2 – Tem que ter um trabalho bonito ou contextualizada com a proposta que a gente queira atingir, seja uma mulher no mês de Maio, seja para levantar uma área da ilustração em específico como a Ilustração Fashion, por exemplo e etc…
3 – Tem que ser uma pessoa gente boa e disponível à outras pessoas. Isso é imprescindível, porque no encontro, você tem veteranos, que já se conhecem faz tempo, mas também existem estudantes, que são entusiasmados em conhecer melhor aquela pessoa à qual ele já viu o trabalho.
Então, como a gente está se reunindo no bar, conversando, desenhando e tal, que passa muita gente, fica estranho você acolher uma pessoa que age com certo “nojinho” e esquisitice com o pessoal.

R – Para finalizar, essa edição de Dezembro o convidado para a exposição foi o Paixão. Porque você escolheu logo ele para encerrar o ano?
J – A razão de ter escolhido o Paixão, é porque ele é muito sangue bom! E ele continuará tendo sempre espaço lá dentro, porque além dos 3 critérios que mencionei, ele é muito engraçado!
Mas falando sério, 2016 foi um ano conturbado em muitos sentidos para nós brasileiros e o trabalho dele como chargista e seu olhar como um cronista, faz uma excelente vitrine desse mundo de hoje, que mais parece o Wild, wild Life do Talking Heads.

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É com muito orgulho que o Regra dos Terços anuncia a sua parceria com o Maltão – Encontro de Ilustradores. A partir de hoje, você poderá conferir aqui no site entrevistas exclusivas com os artistas da área de ilustração da cidade, bastidores desses encontros, resenhas, críticas e reflexões sobre o mercado atual. Tudo isso será encabeçado por Jyudah, que chega para somar com a equipe do Regra dos Terços. Não esqueça de curtir a página do Maltão no Facebook.


Quer ver a sua arte divulgada aqui? Nos encaminhe um texto para regradostercos@gmail.com. Sigamos juntos por um movimento cultural cada vez mais forte.

Mulamba e a P.U.T.A

Uma música forte, uma mensagem simples de ser entendida, e um desenho de uma realidade cruel. A música P.U.T.A do grupo Mulamba viralizou nas redes no mês de novembro, com todo o mérito. A canção trata sobre o abuso sexual contra mulheres, os discursos machistas e a ira de mulheres fortes, que com toda a sua alma expõe no decorrer da canção os medos e ódios daquelas meninas que só querem viver em paz. O Regra dos Terços conversou sobre o grupo, as composições, feminismo e machismo com as compositoras e cantoras Amanda Pacífico e Cacau de Sá. Abaixo segue o clipe, na sequencia a entrevista:

Regra dos Terços – Segundo os dados oficiais a cada 11 minutos uma mulher foi violentada no ano de 2014, totalizando 47.646 casos. Mas esses são apenas os casos onde as mulheres tiveram condições de denunciar, todos nós sabemos que essa realidade é muito pior. Como vocês encaram essa realidade?
Amanda Pacífico – Com tristeza, mas ao mesmo tempo, é aí que lembramos da importância de levantarmos essa bandeira na nossa música. De fazer chegar no ouvido dessas mulheres que se sentem sem força de denunciar ou de sair de um relacionamento abusivo, e encorajá-las a seguir a diante, firmes e donas de si.
Cacau – Com a tristeza dum igual que se pergunta o motivo de tanto ódio? Mesmo com medo não me nego o direito de ser, viver e transparecer toda essa indignação no som e na vida

R – Vocês são fortes na expressão e nos gestos. Acredito que todo ser humano tem essa força dentro de si, algumas pessoas por não terem tido os meios para desenvolver esse lado acabam se mostrando mais frágil e é nessa hora que os algozes se aproximam e dominam a situação. Vocês acreditam que ao exporem as suas forças por meio da arte, vocês dão a essas pessoas as ferramentas necessárias para se perceberem senhoras de si?
A – Acho que essa nossa força vem exatamente da nossa inquietação de querer transformar o que a gente enxerga. A gente se sente na obrigação de chegar pra essas mulheres de maneira incisiva mesmo, tentando, à partir do nosso exemplo, resgatar de dentro delas essa força que também existe e nos alimenta.
C – Acredito que “os meios” da força que trago é pra ser força em quem precisa. Assim como me valho da força dos outros. Acredito que quando qualquer pessoa acredita no que tenho me leva a acreditar… Sendo assim é mais da soma dos eus outros é que me tomo senhora de mim.
R – De que maneira a cultura machista coopera para que os números de mulheres violentadas continue tão alto?
A – Coopera quando lidamos com isso com naturalidade. Quando não repreendemos um hábito machista de um homem ou da própria mulher, e até reproduzimos o hábito ou a frase, por estar enraizado no nosso cotidiano. Esse auto policiamento precisa ser diário, digo isso pra mim também! Todos nós já nos pegamos fomentando o machismo involuntariamente. Uma piada reproduzida, uma cantada.
A nossa música “Mulamba” nasceu disso também. De uns caras que, no nosso show, “chegaram” repetidas vezes em mulheres na balada sem o consentimento delas.
C – De muitas maneiras, “Desde olha filhão que tia gostosa, quando tu crescer..” ou “filha, olha a louça, não saia pra rua é perigoso!” Um machista perto de outro falando de tudo o que se poderia fazer com a secundarista que passa e sua sainha, pra mim colabora pra que o cenário continue assim.

R – Como vocês encaram o feminismo nos dias atuais?
A – Fico muito feliz de poder viver essa organização de nós mulheres. Nunca se falou tanto em feminismo como nos dias atuais, de maneira elucidativa, por pessoas que jamais teriam acesso ao tema. A nossa música vem pra somar nesse momento e queremos um dia não precisar explicar o óbvio.
C – Acho que tem coisas maravilhosas e coisas ruins e como toda e qualquer forma de grupo tende ao extremismo as vezes, o que não é muito saudável em qualquer linha de raciocínio. Meu ponto de vista.

R – O clipe de P.U.T.A viralizou na rede. Vocês acreditam que conseguiram expressar nesse trabalho o grito entalado no peito das mulheres brasileiras?
A – Temos certeza. Foram 500 mil visualizações…. Mulheres de vários cantos do país nos mandando mensagens, relatando alguma história de assédio, nos agradecendo pela representatividade ou contando da emoção de se identificar com o que a música narra. Queremos que a P.U.T.A e a Mulamba (nossa outra música, que também tem esse papel do empoderamento) cheguem a mais mulheres a cada dia.
C – SIM, mas ainda não é o suficiente. Um grito pra séculos de dor! Eu quero mais… Chegar mais longe e falar com a realidade de mulheres reais assim como nós.

R – O que se passou na mente de vocês quando se depararam com o sucesso desse trabalho
A – É muito louco ver a repercussão e o feedback de tanta gente. Todo dia a gente se emociona, quando recebemos em troca tanta coisa bonita. Sensação de dever cumprido como artista e de sentir a utilidade e a urgência da nossa fala.
C – Até hoje me pergunto isso. Mas a certeza de ter dado minimamente o recado tá ai. Nas discussões e fomentadores em torno do assunto. Tua procura só te faz fomentador desse trabalho junto com a gente, por exemplo.

R – Como foi o processo de composição da canção? O que inspirou vocês?
A – Ano passado eu li um post no Facebook de uma amiga, relatando o medo de descer do ônibus na rua escura ao voltar da faculdade e quando via que uma mulher descia junto, se sentia mais segura. Eu notei que esse medo era de toda mulher, inclusive meu. Aquilo martelou na minha cabeça por um tempo, até saírem os primeiros versos. Mostrei pra Cacau e a gente sentiu na hora que estávamos falando de algo muito sério e delicado. Sentamos na sala e em umas duas horas nasceu a P.U.T.A.
C – Natural. Não sei bem dizer, mas quando estamos todas juntas as coisas começam a acontecer naturalmente… Entre Amanda e eu, no processo de pensar uma canção ou mesmo quando vem em conjunto… Se faz natural.

R – Algo mudou depois do lançamento?
A – Muito! A nossa voz reverberou muito mais. Muitas pessoas nos param pra dizer que se sentiram representadas, que precisávamos desse recado no mundo. Muitos caras também, entenderam o recado, vão aos shows e cantam junto. Somos gratas também ao Haistudio, que nos presenteou com o vídeo.
C – Se algo mudou? Sim, descobrimos que somos bem mais que seis. Descobrimos que somos todas as mulheres que nos trombam pra falar sobre o cansaço que é ser a “fêmea” desses machos tantos. Somos todas as outras que por qualquer motivo não falam ou ignoram nosso trabalho.
R – Como surgiu o grupo Mulamba e qual é o objetivo da banda daqui em diante?
A – A Naira (baixista) e eu nos conhecemos na nossa outra banda, a Orquestra Friorenta. Daí tivemos a ideia de fazer um especial Cássia Eller, só com mulheres. As meninas já tocavam juntas em outras bandas, a Farrapos e a Hounds. Esse especial foi em dezembro de 2015, de lá pra cá foram alguns especiais da Cássia e de outras mulheres, como Elza, Rita Lee, Marisa, Gal. E o autoral veio chegando naturalmente desse encontro que acabou dando certo.
Agora a gente tá em fase de finalização do EP, que lançaremos em março e continuaremos o nosso caminhar.
C – Surgiu como um presente pra Cassia Eller, um som em tributo no dia do aniversário dela e uma coisa foi puxando outra… Vimos o quanto nos somamos juntas e ai estamos. E o que queremos daqui pra frente, continuar tocando e passando a mensagem que tiver que levar
R – Qual é o recado que vocês deixam para as mulheres brasileiras?
A – Que o medo não te vença. Se permitam ser visíveis e livres, como boas P.U.T.A.S que somos!
C – O recado que eu deixo é : mulher saia de casa, vá ver sol e lembrar que as flores tem caules capazes de virar troncos fortes. Não estás ficando empoderada , nasceste poderosa!!! O ventre que pesa o feto tá em ti. Ensina teu guri e tua guria a serem iguais.

Além de Amanda e Cacau, o grupo também é formado por Caro Pisco (Bateria), Fer Koppe (Cello), Naíra Debértolis (Baixo) e Nat Fragoso (Guitarra).

Curtiu? Então não esqueça demonstrar isso seguindo a página da banda no Facebook. Mas se você além de curtir, virou fã, saiba que nesse sábado (10/12) elas se apresentarão em Curitiba, confira os detalhes e confirme sua presença aqui.

Quer ver sua banda divulgada aqui? Nos encaminhe o material para regradostercos@gmail.com.