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Para membro do CWB Contra Temer, violento é o Estado e não Black Bloc

As manifestações contra o governo do atual presidente Michel Temer continuam por todo o Brasil. Milhares de pessoas seguem indo as ruas para clamar pela saída do presidente. Não são poucas as polêmicas do seu governo, e muito menos a sua impopularidade (veja a análise política do momento atual clicando aqui). Para buscar entender o real posicionamento dos movimentos que tem saído às ruas, fizemos uma longa e profunda entrevista com Rafael Alves, um dos integrantes do movimento CWB Contra Temer, movimento esse que organiza e coordena as manifestações em Curitiba.

PS.: PEÇO ENCARECIDAMENTE QUE SEJA ABERTA A MATÉRIA COM ESSAS PALAVRAS: PRIMEIRAMENTE FORA TEMER
Gostaria de me posicionar nessa matéria explicando que não sou o líder do movimento CWB Contra Temer, não temos líderes. Eu ajudo na organização. Não sou petista, não apoio o antigo governo da Dilma, principalmente por ela e o PT terem tido uma política criminosa em relação as causas indígenas. Por terem se consolidado por tanto tempo no poder e não se posicionarem realmente como esquerda, que sempre foi o que os seus eleitores em sua grande maioria gostariam.
– Rafael Alves

Erick Reis – Você é carioca e hoje milita em Curitiba, o que te trouxe pra cá?
Rafael Alves – Eu me mudei pra Curitiba há aproximadamente 11 anos. Vim pra estudar e em procura de um lugar mais acolhedor. O Rio era uma cidade muito caótica, bem complicada e difícil para me manter. Aqui sendo menor eu conseguiria um local melhor. Vim atrás de um sonho, acreditando que Curitiba era uma cidade realmente desenvolvida e mais moderna, na qual poderia aprender muito, mas as coisas foram bem diferentes do que pensei.

E – O que fez de você um militante de esquerda? E quanto as manifestações de Curitiba, como vocês começaram a organizar o ato?
R – Tenho muita influência da minha família. Além de ter vindo de uma família pobre, o que me fez sentir os problemas de desigualdade social na pele, tive muita instrução familiar. Minha mãe é assistente social aposentada pelo estado do Rio, meu pai trabalha com sem terra, comunidades quilombolas, tribos diversas na Bahia, numa região bem complicada, a qual tive oportunidade de visitar algumas vezes. Tudo isso me incentivou a estudar sobre causas, observar o sistema, a nossa base política, estudar ciências sociais, filosofia, ver muitos filmes e documentários sobre o assunto. Absorver arte e cultura brasileira e pesquisar sobre outros ambientes. Mas eu nem sabia que era um militante, fui descobrir isso com o tempo. Comecei a organizar as manifestações por ver o golpe se consolidando no congresso. Na primeira votação falando que o impedimento iria ser realmente julgado e a Dilma afastada, resolvi me movimentar sobre esse fato. Fui numa reunião do antigo Minc Resiste, que se tornou Cultura Resiste, pois trabalho na área cultural, e lá falamos sobre ocupar o Iphan e começar uma resistência dos membros da cultura. Mas pra mim não parecia ser suficiente, queria chamar o apelo popular para estar do nosso lado. Como conheço bastante gente por aqui, montei um evento de um ato Fora Temer e conversei com o Thiago Regis que estava montando outro. Unimos as forças dos atos e logo no primeiro tinha umas 4 mil pessoas ou mais, só com convocação através do Facebook.

E – Dentro das manifestações existe a presença dos Black Bloc, a organização tem alguma coisa a ver com isso?
R – Eu particularmente conheço os membros do Black Block de Curitiba, alguns outros membros também, mantemos estreito contato com todas as formas de resistência da esquerda nacional, desde sempre. Mas a convocação para o ato é aberta pra todos e a orientação do movimento não é ação direta, não é propor o que chamam de “vandalismo e depredação”, se fazem, na maior parte das vezes não temos controle. São milhares de pessoas marchando, muita correria pra organizar tudo. Acaba fazendo parte. Mas deixo claro que esse tipo de manifestação deve sim ser respeitado, existem milhares de ideologias diferentes, cada um tem sua orientação, se engana muito quem pensa que pichador é marginal, Black Bloc é vândalo. Talvez essas pessoas tenham muito mais consciência politica que todos nos juntos. Nossos conceitos de propriedade privada e patrimônio público são extremamente deturpados e excludentes, mesmo que sejam baseados em leis, em questões de ordem consideradas socialmente aceitáveis, acho que deveriam ser revistas. Conceitos como ética e moral, dificilmente são abordados nessas questões, e quando são favorecem alguns poucos. Violento é o Estado, violência é matar, deixar pessoas passando fome e justificar que não estudaram o suficiente, ou não se esforçam, como se fosse assim. Como se dependesse somente do esforço de cada um e não de um pensamento mais unificado e do esforço comum. Como se não houvesse boicotes constantes a milhares de pessoas que são consideradas minorias, mas que são na verdade maioria. Temos 54% de população negra no país por exemplo, olhe para o seu lado no seu trabalho e veja quantos negros trabalham com você. Agora olhe para cargos maiores e cargos que recebem mais e cargos que recebem menos e faça essa comparação. Isso por um acaso é culpa de falta de esforço? Pensar que falta esforço por parte da população negra de Curitiba é corromper a lógica, corromper os fatos.

E – Você tem sofrido ameaças, de que tipo são?
R – Aconteceram algumas ameaças específicas. Pontuais. Sofri ameaças por internet a minha integridade física. Pessoas falando que iriam me agredir fisicamente. As pessoas ficam nervosas com as questões mais polêmicas, ações diretas, Black Blocs, questões consideradas vandalismo, depredação ou violência. Acabam descontando em quem está mais exposto, fazendo parte da organização. Reitero que essa não é a orientação do movimento. Vamos pras ruas com todas, todos, pra pedir a saída de Michel Temer da presidência. É isso. Não tem muito mais. Não ajudamos as pessoas a se unirem pra atacar ninguém. Acredito que as ameaças venham de pessoas que estão perdidas, que pensam de maneira violenta, que não debatem e nem argumentam seus pontos. Se tudo fosse mais conversado, seria muito mais fácil. Acho uma pena que aconteçam esses fatos. A desinformação gera sérios problemas, a falta de comunicação ainda mais. Ao invés de apontar o dedo, poderíamos ouvir e pensar o que os outros têm a dizer, mas esse debate precisa ser de todos os lados. Se for apenas de um, não funciona.

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E –  Diante das ameaças, quais serão as providencias a serem tomadas?
R – Fizemos B.O. de todas as ameaças e serão movidas ações contra os que ameaçaram. Caso ocorra qualquer coisa comigo ou qualquer membro do movimento, todo mundo será acionado imediatamente, temos bastante controle sobre isso. Advogados que nos protegem e nos ajudam de perto. Estamos bem protegidos e seguros sempre.

E – As manifestações são partidárias? Existe algum partido por trás delas?
R – As manifestações não tem partidos sustentando, nem patrocinando, nenhum tipo de instituição. Não fazemos nem procuramos nenhum centavo, evitamos envolver dinheiro em qualquer situação. Até mesmo quando o pessoal está com sede ali na frente e precisa de água durante os movimentos, fazemos vaquinha na hora e nos ajudamos como podemos ou cada um paga o seu. Mas vale ressaltar que se partidos querem fazer parte, caminhar junto, conhecer as pessoas, tem livre acesso. A manifestação não é de ninguém, não tem um líder, não tem dono. Seria até interessante para os que acreditam em votação, eleições, urnas e afins, que partidos aparecessem e se explicassem por exemplo seus casos de corrupção. Quem quiser estar junto, estará junto, agora se todo mundo da marcha resolver colocar pra fora alguém com camiseta do PMDB por exemplo, como controlar? Se essa mesma pessoa resolveu andar junto e ninguém falar nada, o que fazer? As decisões são tomadas em conjunto e todas devem ser ouvidas e respeitadas.

E – Quais são as principais reivindicações dos atos?
R – Reivindicação é uma boa palavra, denota exigência. Acredito que em todo país os manifestantes estão unindo suas agendas e suas pautas. O principal é Fora Temer. É o que mais tem que ser discutido e debatido, as outras são agendas importantes tanto quanto de conscientização política, ideológica e afins. Apoia-se muito de uma maneira massiva as greves gerais. A Diretas Já é um tanto contraditório. Apoiamos em um ato, mas acredito que não vamos mais debater esse assunto. Temos muitos pensamentos contrários. Anarquistas por exemplo de todo o país, são extremamente contra Diretas Já. Eles não querem governo por exemplo. Essas ideologias devem ser respeitadas. Por isso as agendas secundárias devem ser muito analisadas e se possível nesse momento, não serem apresentadas. Serem debatidas durante os atos, terem palavras de ordem durante as manifestações, mas não serem a frente de nenhum movimento. Temos uma forte e muito necessária pauta que tange a causa feminista é extremamente necessária que seja colocada a frente, debatida e repensada a todo momento. É uma aula diária que ganho com as colegas desse movimento que deve ser respeitado e pautado. Mas reitero que o que deve unir e ser mais debatido no momento, o tempo todo, em todas as questões é o Fora Temer e se possível a Greve Geral. Pois a rejeição ao governo Temer é praticamente incontestável.

E – Qual é o recado que você deixa para a população brasileira?
R – Um recado maior e principal é: se amem. Amem mais. Respeitem mais. Tenham mais empatia com as pessoas. Cada um tem um processo, cada um tem uma jornada e vai descobrir com o tempo. Às vezes é muito difícil aceitar as condições alheias, mas precisamos entender, e caso a gente não consiga concordar, precisamos respeitar e mais do que isso, conversar e debater. As pessoas podem sim mudar de opinião, mudar como pessoas. Se tornarem mais íntegras, humildes e conscientes. É tudo parte de um trabalho, um processo constante. Isso pode ser inclusive aprendido nas escolas, é só a galera estar disposta a reformar o pensamento, ainda tem como melhorar. Olha é bem incerto o futuro. Não temos como prever tudo já que os momentos estão bem instáveis. Queremos que todos saiam as ruas e mostrem sua indignação com o que está acontecendo, que ninguém queira ser governado por alguém que nos retire direitos, que prejudique nossa vida e que ponha o Brasil num patamar tão arriscado. Queremos continuar com cada vez mais gente nas ruas. Ganhar uma força nacional. Algo que já estamos alcançando, mostrar como podemos ser influentes no processo democrático de um país.


O próximo ato contra o atual governo em Curitiba acontecerá no próximo dia 09. O manifesto será contra a reforma do sistema de educação do país. Saiba mais na página do evento.

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D. S. Binkowiski e Os Senhores do Tempo

Um livro de fantasia, cheio de aventuras e surpresas. Os Senhores do Tempo conta a história de Thiago, um mestiço meio elfo, meio homem, que foge de casa e leva três amigos junto. A mente por trás dessa história fascinante é o jovem escritor Diego Samuel Binkowski ou D. S. Binkowski como é conhecido o jovem de 23 anos (ou mais segundo ele mesmo), nascido no interior do Paraná, em Guarapuava. Filho do seu Theonísio e da dona Maria Binkowski ele é tímido, sonhador e amante da solidão. D. S. encontrou na escrita a sua fuga, o escape para dar vasão aos sentimentos que lhe tomavam o peito. Sua principal referência é a criadora do best-seller Harry Potter JK Rowling, e seu maior sonho é deixar uma marca para os leitores de sua obra. Diego enfrentou a solidão, depressão e o isolamento, para tão somente entender que é na arte que ele encontraria o espelho do seu verdadeiro eu. Assim como Diego faz para criar te aconselho a pegar um café, ou um vinho e mergulhar nessa deliciosa conversa com o escritor D. S Binkowski.


Erick Reis – Diego, iniciemos com a sua infância. Você era um rapaz popular ou o oposto disso?

D.S. Binkowski –  Eita, vamos dizer que era o oposto disso. Na verdade eu era um pouco tímido na infância e parte da adolescência e evitava chamar atenção dos outros.

E – Essa sua timidez te levou a solidão?

D – E a depressão também. O que é engraçado por que de fato eu nunca estive sozinho, sempre estive rodeado pela família e por amigos, mas se sentir solitário não é a mesma coisa que estar sozinho, claro, só que eu cresci no interior do Paraná, onde tudo é pequeno, incluindo a mentalidade e a abertura das pessoas pras coisas novas.

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E – E teria sido por não encontrar coisas que te sustentassem e que te fizessem se sentir parte do todo, que você começou a ler? Você teria procurado na leitura encontrar um espelho?

D – Ler era o escape para um garotinho de dez, doze anos que sabia que era diferente do resto dos amigos, que sabia que não se encaixava no padrão estabelecido pela sociedade em que viva. Mas escrever era e ainda é o espelho. E quero dizer que escrever se tornou a minha terapia e o meu remédio na tentativa de manter a calma e um pouco de sanidade também.

E – Qual foi o momento em que esse garotinho conheceu o espelho da escrita? Quando você somou a leitura com a a arte de escrever?

D – Por volta dos quatorze anos, eu acho, quando minha professora de história [e madrinha] deu um trabalho em sala de aula, o trabalho era escrever um livro. Esse foi o primeiro passo, mas eu não tinha percebido a importância disso ainda e sem perceber, comecei a escrever pequenos contos, crônicas, poemas. Foi só quando entrei pro ensino médio que percebi o quanto isso significava e o que significava.

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E – Já que você tocou nesse assunto, o que significa?

D – Significa respirar, ter liberdade, poder construir mundos melhores que a nossa realidade, desconstruir paradigmas, dar vazão a sentimentos e deixar algo que valha a pena nesse mundo infernal.

E – Se escrever desse pena de morte, você se arriscaria a ainda assim fazê-lo? Porque?

D – Uau, essa foi legal! (risos) Provavelmente sim, por que sou petulante o bastante pra entender que algumas regras foram feitas pra serem quebradas.

E – Isso também se encaixa nas regras ortográficas? Você como escritor se arrisca a criar suas próprias regras?

DSIIIM, não sei escrever sem usar neologismos. Por exemplo, nesse livro que vou lançar agora, Os Senhores do Tempo, usei e abusei disso, tanto é que precisei aprender um pouco de Teoria da Linguística pra poder desenvolver a língua que se fala dentro da minha história. E o fato de você ser escritor é poder ultrapassar essas regras, porém, a única regra que eu não ultrapasso, ou pelo menos tento não ultrapassar, é a regra de sempre deixar bem claro pro leitor o que ele está lendo e aonde a história pode chegar [não que vá].

E – Já que você tocou nesse assunto, sobre onde a história pode chegar. Como funciona o seu processo de criação? Você simplesmente escreve o que te agrada como leitor ou deixa os personagens falarem por si, viverem por si e morrerem por si? Você pensa muito em chegar a um resultado, ou o resultado surge no processo muitas vezes até mesmo te surpreendendo?

D – Eu não penso no resultado, deixo a escrita fluir, por que se você ficar preso nessas regras, a escrita acaba sendo muito formal e se perde numa bagunça de frases. Mas normalmente eu já tenho o final, eu sei até onde a história vai, o que eu faço é criar os meios pra se chegar nesse final. Só que eu não consigo escrever sem ter o título da história. Dificilmente eu altero um titulo, por que a ideia das minhas histórias sempre são a resolução que o titulo trás como problema. Porém, se você quer saber se eu tenho uma formula pra escrever: eu não tenho. Eu só sento na cadeira com uma xícara de café ou uma taça de vinho, ligo uma musica, releio os últimos dois ou três capítulos da história, relembro minhas anotações mentais e escrevo.

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A Espada, o Espelho e o Relógio
Capitulo III

O lêmure pigarreou, mexeu-se no cadeirão de madeira mal esculpido onde estava sentado e esforçou-se para levantar por causa do barrigão – herança das canecas de cerveja doce que costumava beber na Taverna.
– Não importa quem achou ou deixou de achar os mortos – disse o lêmure – não importa quem morreu ou deixou morrer. Importa saber o que está matando os nossos. Como líder de Roída, eu quero qualquer besta ou demônio longe do meu povo.
Um silêncio abateu-se sobre todos que estavam presentes no Conselho.
– Oren, prepare seus esquilos e os leve até as Nor – disse o lêmure. – Os malditos corvos que passaram por aqui na última estação nos avisaram sobre ogros e trolls, é melhor verificar. Feodor – o lêmure voltou-se ao macaco dourado – providencie para que não faltem armas, vestes e suprimentos a esses roedores.

E – Você sofre? Escrever dói? Você já chorou pela morte de um personagem de um texto seu? Me fala um pouco dessa tortura, ela existe?

D – Existe, escrever é uma tortura constante, latente. E é até curioso dizer isso, mas eu tenho uma dificuldade enorme pra chorar, mas em Os Senhores do Tempo, nos últimos capítulos acontece uma morte e quando eu parei pra ler o que tinha escrito, estava tocando uma musica bem triste também, e foi impossível não chorar. E dói, dói pra caralho escrever, principalmente quando você percebe que o personagem que você criou precisa morrer. Os leitores não entendem como funciona esse processo. Então, sempre que a gente encontra a morte de um personagem, um personagem que gostamos, dói. Por que, claro, tem personagens que a gente simplesmente detesta. O que de certa forma nos faz sofrer e muito, por que escrever é como ser Deus, você passa por alegrias e tristezas com suas criações, algumas te dão orgulho, já outras te dão decepções. Então você sofre, você sente dor, você chora e principalmente, você ama.

E – Você acredita que suas criações são inspirações do Divino? Acredita que exista um Deus? Se sim, ele se envolve com as questões da Terra, ou assim como os escritores, deixa sua cria viver por si?

D – Bom, eu acredito em Deus, o que por consequência me faz entender que Ele dá uma força sempre que “quer” em tudo o que a gente precisa. Mas normalmente, não gosto de deixar as coisas que eu acredito influenciarem nas minhas histórias. Procuro deixar politica e religião afastadas disso. Em Os Senhores do Tempo eu criei um mundo com uma política, uma cultura, um idioma próprio o que por consequência, faz com que eles acreditem em algo, mas assim como é pra mim, deixo que cada personagem  guarde essa crença para si. Só que eu também coloquei a Morte como personagem na história, justamente para dar um contraponto ao fato de Deus ou qualquer outro ser divido não ser citado e adorado na minha história.

E – O que mudou do Diego tímido da infância pro Diego de hoje? A timidez ainda é a mesma? Os medos? A depressão?

D – Enfrentei a timidez e a maior parte dos medos. Mudei meu modo de ver o mundo e as pessoas. Acho que posso dizer que amadureci muito em muito pouco tempo. Mas ainda sou tímido pra muitas coisas. Não sei puxar conversa, não sei flertar, não sei puxar o saco, não sei lidar com câmeras e microfones. Mas alguns medos ainda existem: tipo agora com Os Senhores do Tempo, mesmo ele estando pronto, em papel e tinta, eu olho pra ele e penso: “e se não der certo? e se for um fiasco? e se eu não der conta?”.

E – O que seria não dar certo? O que o categorizaria como um fiasco?

D – Eu não sei, é que a gente vai criando barreiras e mais barreiras quando as coisas vão dando certo, justamente por que você não tá acostumado com as coisas serem assim. Eu aprendi a lutar pelo que acredito, a conquistar quase que a força as coisas que sonho e desejo. E não dar certo seria algo do tipo: todo mundo achar o livro uma bosta, por que eu sou meu maior critico nesse processo todo de escrita, edição, produção e venda do livro de Os Senhores do Tempo.

Eu sonho grande, tão grande que tenho vergonha de falar e parecer idiota. Mas eu tracei um plano, uma meta – chame isso do que quiser – e vou chegar lá. E se der, além do lá. Não quero que me parem.

D. S. Binkowski

E – Eu creio que esse medo vem devido a cultura que é pregada aí fora. Sucesso – na sociedade ainda regada pelo velho Pão e Circo – é quando algo gera dinheiro, fama, repercussão. Você concorda com isso?

D – Não vejo erro em você usar o seu trabalho pra gerar dinheiro. O problema é que nossa sociedade criticou a geração Y [e eu sou dessa geração] e fechou os olhos pra geração que veio em seguida, que é essa geração de youtubers, MCs Biels e Anittas, que falam mais do que pensam. Algumas pessoas vão dizer que é inveja da fama deles, mas eu não quero fama, quero deixar um legado útil para o mundo e para os que vierem depois de mim. Então não concordo com as regras do show business de hoje em dia, por que ao invés de incentivarmos a leitura de Machado de Assis, Agatha Christie, Fernando Pessoa, Lewis, Rowling, estamos incentivando a leitura de biografias não vividas e o que mais dói nesse processo é ver grandes editoras incentivando isso, enquanto autores com ótimas histórias estão sofrendo atrás de uma única oportunidade de mostrar seu trabalho.

E – E se tivesse a chance de mudar uma única coisa em todo o mundo, o que você mudaria?

D – O dinheiro. É um mal necessário. Reconheço. Mas seria muito bom não precisar dele pra nada.

E – E quanto ao lançamento do livro nessa segunda, qual é sua expectativa?

D – Minha maior expectativa é que a história seja aceita, seja algo que as pessoas possam entender e gostar, claro. Não tenho pretensão de ser o próximo nome da literatura nacional, por que tem muita gente boa por aí esperando uma chance como a minha, mas gostaria que minha história encontrasse um caminho pra realmente deixar algo concreto na literatura, deixar um legado genuíno para quem gosta de ler.


No dia 8 de Agosto de 2016, às 19h30, na Livrarias Curitiba do Shopping Palladium, o escritor paranaense D.S. Binkowski lança seu livro Os Senhores do Tempo, pela editora portuguesa Chiado. A entrada para o evento é franca e direcionada para todos os públicos.

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Arte-se e Fotoverbe-se com Andressa Barichello

Apresento-lhes uma mulher de 28 anos, paulista. Filha do seu Dárcio e da dona Mariza. Andressa Barichello é Graduada em Direito pelo Unicuritiba, Especialista em Sociologia Política pela UFPR e Mestre em Filosofia e Teoria do Estado com ênfase em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa. Uma mulher com um pensamento de mundo muito bem formado, com uma cultura enraizada naquilo que há de mais belo – amar e doar-se. Andressa doa-se aos seus estudos, doa-se aos seus projetos, doa-se a arte. Co-criadora do site fotoverbe-se.com e agora lançando o site arte-se.com, Andressa sai da sua área de formação para somar com os artistas.  Conversar com a senhorita Barichello é como devorar um livro poético, a cada palavra uma inspiração, a cada frase uma nova reflexão. Está na hora de nos conectarmos com a arte!


Erick Reis – Andressa, você já migrou por diversas áreas de estudo, mas nenhuma das suas graduações é em específico sobre artes plásticas, o que lhe encaminhou a empreender nesse ramo?

Andressa Barichello – Os encontros da série Rosto & Gosto para o projeto Fotoverbe-se trouxeram o privilégio de me aproximar do universo das artes plásticas e da fotografia. O contato com artistas e mesmo com pessoas que possuem um hobby capaz de incluir sua subjetividade em algum espaço da rotina trouxe mais clareza a respeito do quanto é importante buscar caminhos para a expressão individual e aproximar o coletivo dessas expressões. Com o trabalho no Fotoverbe-se descobri que a arte é um bem do qual todos podemos fruir, embora ainda seja muito comum o equívoco de a associarmos ao distante e inacessível, seja porque atualmente o modo de vida mais pragmático e o ritmo acelerado nos façam demais apegados às coisas tangíveis e demasiadamente concretas, seja porque ainda há um distanciamento real entre a produção artística das pessoas e os lugares de frequentação cotidiana. Será que as pessoas fazem ideia de quantos artistas a cidade delas abriga? Se os intervalos de “respiro” que temos são raros e curtos, parece-me que é preciso buscar alternativas que tornem mais curto o caminho entre o belo e o dia a dia das pessoas. A partir daí é que surgiu o arte-se, como galeria virtual que contempla perfis de artistas os quais podem ser acessados em qualquer hora e em qualquer lugar (para que todos possam ler sobre eles e ver algumas de suas obras) e também como espécie de “cupido” entre espaços que desejem ceder seu ambiente ou suas paredes para eventos culturais – acho que uma iniciativa para ser completa atualmente precisa existir no mundo virtual, mas também se preocupar em promover encontros reais e a ocupação da cidade de um jeito capaz de resgatar alguma delicadeza.

E – Do direito para a fotografia também encontramos uma grande distância. Quando foi que você se sentiu atraída para a fotografia? Me fala um pouco desse momento da sua vida.

A – Admiro muito os fotógrafos e sua capacidade de lançar um olhar capaz de enriquecer e transformar os lugares, os objetos e as pessoas. Acho que a fotografia tem algo de captura, mas de algum modo é também uma arte de reescrita pois a lente do fotógrafo é interventiva e é algo só dele. Acho que quando eu e o Paulo (que é meu parceiro no Fotoverbe-se e o responsável por todas as fotos do projeto) percebemos que as áreas nas quais gostávamos de nos expressar (eu na escrita e ele na fotografia) poderiam ser áreas que, mais do que dialogar poderiam até mesmo subverter um pouco os limites entre imagem e palavra é que o Fotoverbe-se foi ganhando corpo. Acho que é por isso que uma das indagações que colocamos na apresentação desse projeto desde o início foi: “Como fazer retratos utilizando palavras e escrever poesia por meio de uma lente, um olhar?”. Na verdade, a nossa história pessoal se mistura um pouco com o início do Fotoverbe-se pois quando nos conhecemos (antes, portanto, de sermos namorados e parceiros no projeto) aconteceu de trocarmos fotos e textos (ele me enviar uma foto para que eu escrevesse algo a partir dela). Essa primeira experiência, uma brincadeira, acho que foi um “click” muito significativo e me chama atenção o fato de que muitas vezes as coisas mais sinceras e interessantes que podemos produzir são essas um dia mediadas pela força de um acaso, por uma despretensiosidade e também pelo afeto. Embora o arte-se seja um projeto novo e à parte, que empreendo com meu irmão Luigi, sinto que ele é um desdobramento do amadurecimento das experiências acumuladas no Fotoverbe-se.

é a luz,
somente ela a fazer dos anjos
luz
a ver de nós sombra e cruz
– Andressa Barichello

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(Foto | Paulo Andrade)

E – Você tem uma paixão declarada pela arte, pelo fazer arte ao ponto de respira-la, isso está bem nítido. Como a arte se apresentou na sua infância? Quais foram suas primeiras paixões artísticas? Seja no cinema, fotografia, plásticas, literatura, música ou demais manifestações?

A – Acho que ao pensar em infância temos de considerar as influências mais sutis e mesmo inconscientes. Nesse aspecto, impossível não pensar no meu pai. Ele era daqueles que arrastava os móveis para inventar uma dança depois de chegar do trabalho. Eu devia ter uns quatro anos mas recordo bem da minha imagem em cima de uma cadeira aos pulos com as músicas da Rosana e do Beto Barbosa (risos)! Quando contava histórias meu pai costumava sonorizar os bichos, carros, etc e isso, de algum modo, certamente teve uma importância muito grande para mim. Embora depois dos trinta anos ele tenha seguido carreira na área de vendas e marketing, durante as décadas de 60 e 70, ainda no período da ditadura militar, ele foi ator em diversas peças e filmes nacionais e chegou mesmo a ser dono de teatro em São Paulo. Na minha adolescência ele resgatou de algum modo isso, passando a apresentar programas na televisão. Pensando mais especificamente sobre as experiências da minha infância, a atração pelas palavras se manifestou com meu grande interesse em aprender a escrever, com o gosto que eu tinha pelas cantigas e a facilidade em fantasiar histórias. Acho que o fato de meus pais terem se mudado para Curitiba quando eu ainda era muito pequena e de meu irmão ser quase dez anos mais velho foram coincidências que favoreceram para que eu fosse uma criança mais “ensimesmada”.

E – A solidão foi sua companheira na adolescência? Como foi essa sua fase de vida?

A – De certo modo sim pois não me sentia muito adaptada ao tempo dos amigos para algumas atividades e acho que nessa fase todos nos sentimos um tanto perdidos sobre quais são as coisas que de fato valorizamos. As mudanças no corpo tendem a gerar uma preocupação demasiada com a aparência e o apelo por pertencimento talvez seja um pouco maior do que em outras fases da vida. Isso pode fazer com que o adolescente se afaste ou renuncie um tanto a coisas importantes, ao menos por um período. Acho que comigo não foi diferente.

E – Eu acredito que cedo ou tarde todos receberão a solidão, e nesse momento o indivíduo precisa estar preparado para lidar consigo mesmo. E é exatamente por não olharmos para dentro que muitas vezes nos encontramos perdidos e desesperados com essa sensação de não pertencimento. Você concorda com esse ponto de vista? Como você avalia a relação das pessoas o “eu”.

A – Concordo sim. Muitas pessoas, inclusive, se deixam levar por uma vida muito agitada e muito voltada ao consumo, porque velocidade e objetos de perecimento rápido (que exigem uma rápida substituição) são dois “ingredientes” capazes de produzir uma evitação quanto ao encontro desse momento no qual, diante de algum vazio, é preciso criar, com os próprios recursos, algum sentido bastante. O papel da arte vem ao encontro desse lugar, suponho. A arte é um modo bacana de fazer alguma coisa com aquilo que o “eu” nos apresenta, por mais feio e assustador que possa ser. A arte, além de um excelente “anteparo” para os nossos tempos, pode ser também um “amparo” porque nos reconduz pela criação ou contemplação, a sentimentos e questionamentos que embora possam ser universais, se situam para cada um, no íntimo, fora da multidão. Ao mesmo tempo é curioso pensarmos que o encontro com a solidão talvez seja o único modo de termos uma experiência menos sofrida com ela, afinal, quando nos entregamos totalmente ao “pertencimento” estamos sujeitos a viver histórias que não nos fazem muito sentido.

E – Você falou sobre o consumismo, e o que te trouxe até aqui foi exatamente seu negócio, seu empreendimento. Nele os artistas vendem sua arte, e essa não tem vencimento, validade, não fica ultrapassada. Você acredita que o consumo da arte leva as pessoas a uma reflexão interior? De que maneira a arte molda o nosso intelecto? Nos tira do consumismo?

A – Em primeiro lugar a arte não é um bem de consumo, mas de fruição. Por isso precisa estar de algum modo disponível ao acesso do público. Para facilitar a acessibilidade ao coletivo, acho que é preciso existir maior conscientização das pessoas. Porque é preciso que aqueles que podem invistam no trabalho dos artistas, sem diminuir seu valor e importância. As pessoas que desenvolvem trabalhos na música, na escrita e também nas artes visuais são muitas vezes desrespeitadas. Sabe aquela coisa do “toca no meu bar para divulgar a sua banda?”. Acho que essa história caricata é um drama vivido, de outros modos, por outros setores da produção cultural. Mas sou otimista e acho que essa mentalidade está mudando. As pessoas com quem converso, em sua grande maioria tem muito claro o entendimento de que o reconhecimento que chega pela via da aquisição de obras é também muito importante para o artista, porque é o que tantas vezes permite que continue a produzir. Há coisas que compramos para consumir, mas as artes, assim como as viagens, acredito que são investimentos. E acho que se nos perguntássemos com mais frequência se as coisas que desejamos comprar são necessárias, supérfluas, são consumíveis ou um investimento, teríamos chance de rever nossa relação com o dinheiro e estarmos cada vez mais atento a durabilidade, a cadeia produtiva e aos valores imateriais que estão ligados a tudo que compramos. Um agir consciente com relação a tudo que compramos impacta em sustentabilidade, em redução de mão de obra escrava, em qualidade de vida e no campo das artes, no respeito à criação e ao ofício do artista.

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(Foto | Paulo Andrade)

dos olhos pares milhares havia um sobre humano…
era um mas ousava dizer-se mais certeiro que
todos os olhos feitos da matéria de um olho verdadeiro
– Andressa Barichello

E – Se você pudesse mudar uma só coisa em todo o mundo, o que você mudaria?

A – Eu mudaria a forma que temos de aceitar viver tantas desigualdades. Quando vejo alguém dormindo debaixo de uma marquise fico pensando em quando terá sido, exatamente, que nos distanciamos desse modo do senso de comunidade. Sem querer pensar ou discutir história, política ou psicologia, na constatação apenas, na constatação simples de que, por algum motivo, não se sabe dizer qual e nem a partir de quando, foi possível que fôssemos estes que constatam a miséria, sentem uma pena quase filosófica dos que sofrem dela e seguem adiante.

E – De que maneira a arte pode romper essas distâncias sociais?

A – A arte é uma ferramenta de denúncia, e acho que isso a gente pode perceber com bastante clareza, por exemplo, na arte de rua. Se de um lado a arte nos apresenta questões, tem o poder de nos inquietar, de outro também facilita uma mudança efetiva. Porque a mudança efetiva na nossa relação com os outros e com o mundo antecede sua concretização no dia a dia da cidade e das ruas, isso de incluir o outro é uma coisa que vem antes, em a gente poder ter esse espaço simbólico do diferente aberto, rasgado mesmo, para que ele possa entrar e então termos efetivamente novos jeitos de ser um coletivo, de estarmos inclusos, de pertencermos de um jeito que não seja aquele em que alguns se anulam em prol de outros. Um estar mais consciente. Todo mundo adora citar o Guimarães Rosa e eu não sou diferente (risos), então gostaria de concluir essa resposta com um trecho que é dele, do Sertão Veredas:

“Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera; digo. Quadrante que assim viemos, pôr esses lugares, que o nome não se soubesse. Até, até. A estrada de todos os cotovelos. Sertão, — se diz –, o senhor querendo procurar, nunca não encontra. De repente, pôr si, quando a gente não espera, o sertão vem. O sertão não chama ninguém às claras, mais, porém, se esconde e acena. Mas o sertão de repente se estremece, debaixo da gente… “

E – E aos artistas que estão conhecendo o arte-se agora, qual seria seu recado?

A – Apresento o arte-se.com como um convite a abrir um espaço. A que os artistas marquem presença em palavras e imagens concretas a serem expostas ali, sim, mas esse convite também tem a ver com abrir um espaço simbólico. Porque fora a ideia de exposição e venda que a plataforma contempla, deixo aos artistas a ideia de pensar sobre empreender em arte de modo mais coletivo. O que me agrada no arte-se.com além da questão do conteúdo real é a possibilidade de o espaço, mais do que ser democrático, ser um lugar onde um artista empresta um pouco do seu talento ao outro. Porque o público de um vai ter acesso a obras do outro e essa pluralidade não ameaça ninguém, não diminui ninguém. Os artistas de trajetória mais longa dividirão espaços com a turma dos mais jovens e cada perfil tem algo de positivo contribuir com os demais. Porque, por exemplo, se para um artista jovem é bacana estar no mesmo espaço onde artistas de carreira bem consolidada tem um perfil, para esse artista que às vezes é de uma geração anterior, é muito importante ter seu nome conhecido por um novo público, quebrando um pouco distâncias, permitindo que os artistas mais jovens até mesmo se encorajem a buscá-los para orientações e trocas. Tem a ver com generosidade.


Gostou da entrevista? Não esqueça de visitar o site do arte-se.com. Curta a página do Regra dos Terços no Facebook, e espalhe essa entrevista por aí. Vamos juntos divulgando a boa arte pelos quatro cantos da web.

Márcio Rodrigues é uma pessoa comum, com um travesseiro para 40 mil pessoas

Escritor, músico, publicitário, apaixonado pela vida e um cara extremamente comum. Márcio Rodrigues é paulistano, tem 29 anos. Apesar de escrever rotineiramente não se considera um grande escritor. Apesar de fluir em suas linhas com palavras perfeitamente encaixadas, não se classifica como um grande leitor. Se suas inspirações não vem dos livros de onde elas vem? Das ruas, das vielas, dos metrôs, das conversas, dos comuns, pessoas comuns, como eu, você e principalmente o próprio. A sua página “Um Travesseiro Para Dois” já está com quase 40 mil curtidas no Facebook, seu blog já ultrapassou 3 milhões de acessos. Já tem um livro lançado, e está se movimentando para o segundo. Esse fenômeno que é o Márcio Rodrigues é uma pessoa simples, de uma humildade singela e de um coração que não cabe no peito. Conheça um pouco mais a fundo a pessoa de Márcio Rodrigues.


Erick Reis – Márcio, vamos começar pelo início de tudo. Como foi sua infância?

Márcio Rodrigues – Entre vergonha de cumprimentar garotas por conta das minhas espinhas e boas notas na escola, minha infância foi feliz. Sempre gostei de escrever. Na adolescência, influenciado pela ideologia Straight Edge, me tornei vegetariano. Canhoto, até os 15 eu queria ser o Ronaldinho e me dedicava em escolinhas de futebol. Troquei esse sonho por aprender a tocar violão e pela necessidade de trabalhar para ajudar minha família. Meu primeiro emprego foi numa fábrica na minha rua. Fiquei 2 semanas. Sou filho único, de pais separados, moro com a minha mãe e a minha tia – e esta composição familiar, inclusive, me influenciou a escrever sobre o amor que pode unir as pessoas, pois tive o exemplo em casa de como a falta de amor faz mal não só para o casal, mas para a família. Aos 16, finalmente, depois de sofrer por amores não correspondidos, dei meu primeiro beijo e já pedi a garota em namoro – sou ansiedade com ascendência em expectativa. Ela era a garota da minha vida até terminar e eu conhecer a próxima garota da minha vida.

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E – O seu primeiro emprego durou duas semanas, seus namoros foram sempre banhados de ansiedade com tempo de validade. Para Platão nós amamos tudo aquilo que desejamos, e desejamos o que não temos. Você consegue notar isso nas pessoas ao seu entorno? E em outras situações, a teoria do amor platônico se aplica na sua vida também?

M – Penso que amamos o que sonhamos ter e isso pode ser algo ou alguém. Amamos a resposta que nem recebemos e amamos tanto que nem pensamos que ela pode ser ruim, isto é, “por favor, não me deixe falando sozinho, eu vou gostar de receber uma mensagem sua”. Acho que existe amor platônico na nossa vida inteira, ora por alguém, ora por uma viagem que queremos fazer, por exemplo. Não temos, mas queremos tanto. O que compromete isso é o pessimismo e a neutralidade sentimental, pois eu acredito que é preciso se assumir, é preciso assumir ser fraco – estar num dia ruim, é preciso assumir que “te quero de volta”. Quando a gente rompe essas barreiras, o platônico é atenuado e se transforma em possível. Então nos exemplos que citei no começo: quando você fala pra alguém que você gosta desse alguém, as chances de dar certo são maiores que guardar pra si; quando você economiza pra viajar, as chances são maiores que só querer. É preciso sair da inércia sentimental de só querer.

E – Você disse que “é preciso assumir ser fraco”, mas você diante da vida se sente fraco ou forte? Seria a escrita a sua fortaleza de revitalização? A arte te torna forte, ou ela apenas demonstra a sua fraqueza?

M – Eu me sinto real. Assumir ser, eventualmente, fraco é assumir ser real. É deixar a casa cair para que possa reconstruir. Minha escrita é real, de dias bons e ruins, de choque de realidade, recheada de “uau que alegria incrível” e “que saco passar por isso. A arte, enquanto escrita ou música, principalmente escrita, me lembra de que não sou perfeito. É um refúgio para eu ser quem sou, falar do que quero. Falar de coisas que não vivo e de coisas que vivo demais, sobretudo, me ajuda a entender que tudo bem eu ter fraqueza, pois nenhuma fortaleza nasce pronta.

E – Quais foram suas primeiras paixões na escrita?

M – Eu sou um péssimo leitor. Pés-si-mo. Talvez por eu me dedicar tanto a escrever e faltar tempo, talvez por eu não ter vergonha na cara mesmo, mas eu sempre li as colunas do Veríssimo e livros do Marcelo Rubens Paiva. São escritas que gosto. Tem algo além também: de certa forma, na minha cabeça, eu não leio outros autores do meu segmento para eu não me influenciar e manter um estilo próprio. Ainda reforço que é um comportamento errado, pois ler é fundamental, mas estou em mudança desse hábito. Se eu não me tornar um bom leitor, que eu seja um leitor menos pior então.

E – Você considera a sua leitura ainda fraca, o que mais você acredita que precisa melhorar em você?

M – Muita coisa, quase tudo. Acreditar que não tenho no que melhorar seria tolice. E me excito com a possibilidade de melhorar sempre, mesmo no que acredito desempenhar um bom papel. Confio no “se melhorar, melhora”. Mas, hoje, eu gostaria de organizar melhor meu tempo. Tenho muito a fazer e deslizo em prioridades, aí acabo entrando no ritmo de “depois eu faço” – e não faço. Daí o fim de semana chega e vai embora, o mês chega e vai embora, o ano chega e vai embora e eu não evoluí. Então, o que eu precisaria mudar principalmente em mim hoje e que me ajudaria na vida um modo geral seria: organizar meu tempo.

E – Você se apresenta como um ser falho. Você acha que se mostrar comum te aproxima do seu leitor?

M – Eu acho, sim. Gosto da proximidade que tenho com quem lê meus textos. Não quero que idealizem alguém que não existe e criar uma imagem de “nossa, como eu queria um homem assim”. Por isso meus temas são variados, para que concordem ou discordem de mim, mas que sobretudo criem a própria opinião.

E – Como você começou a escrever?

M – Comecei a escrever no Fotolog, há 15 anos ou mais. Mas tudo mudou mesmo quando ganhei um concurso de redação no clube em que eu era sócio – na mesma época. Era um Concurso de Redação, divido por faixas de idade. O tema era livre. Eu não lembro direito sobre o que escrevi – o que é uma pena – mas eu acho que era sobre a minha adolescência e os meus amores. Sabe, minha família não tem aquela composição-tradicional-almoço-com-a-vó, meus pais se separam quando eu estava na puberdade e tudo ficou confuso. Tinha acabado de entender que eu era filho único e aí tive que lidar com o fato de não ter pai em casa. Retomando (risos), quando eu ganhei o prêmio eu mal entendi. Eu era tão novo que fiquei feliz com a medalha mas não imaginaria onde me levaria hoje.

E – Como foi lançar o primeiro livro?

M – Lançar o primeiro livro foi um sonho que eu nunca tive. Este sonho foi plantado em mim pelas pessoas que me leem a mais tempo e floresceu com uma alegria que eu nunca tive antes. É bom sentir coisas que nunca sentimos antes, principalmente coisas boas. Então, as pessoas que me leem que são as responsáveis pelo meu primeiro livro. Agora gostei e já estou escrevendo outro.

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E – Vida de escritor no Brasil, como é?

M – Como eu não me considero escritor como os outros gigantes por aí, não sei dizer com propriedade como é essa vida, pois eu trabalho muito formalmente ainda. Mas pela experiência do meu livro posso dizer que é bem complicado. Se você quer dinheiro, pense duas vezes. E este é meu trunfo: nunca pensei em ganhar dinheiro, em ser “famoso de internet” ou coisa do tipo, eu só escrevo uns textos sobre umas coisas que a gente vive mas que olhando de dentro não fazem sentido. Aí eu escrevo. E aí as pessoas leem, pensam um pouco, refletem nas atitudes e tomam suas próprias decisões. E vamos juntos nisso.

E – Nesses anos de versos, textos e crônicas  acredito que você teve alguns retornos dos leitores. Qual mais te marcou?

M – Realmente são muitos relatos incríveis. Recentemente um homem disse que conheceu a namorada dele pelos comentários do blog. Só tem um detalhe: ela mora em Tocantins e ele em Piracicaba – interior de SP -, se não me engano. E daí? Foi amor. Pena que acabou, mas enquanto existiu foi incrível – e saber disso me deixa sem palavras. Mas, tenho uma história especial: uma leitora que sofria de câncer me mandou um e-mail falando que meus textos a ajudavam a superar. Li e chorei. A gente não tem ideia da nossa influência, né? Eu tenho a ferramenta do blog que chega em mais pessoas, mas todo mundo tem voz, isto é, todo mundo pode influenciar quem quiser e puder conversar. Ela me ensinou mais da vida que qualquer livro da escola.

E –  Muitas pessoas pensam em montar um blog, escrever crônicas. Mas o que as prende? Seria o medo do que os outros vão pensar? Seria a falta de confiança em si mesmas?

M – Acho que existe esse receio mesmo, receio de se expor e, principalmente, de “não gostarem” dos textos. Uma oficial vergonha que eu acho bobagem. Me pergunto: será que o Veríssimo que citei lá em cima termina os textos e pensa: “uau, eu sou um gênio!”? Acho que ele só escreve. Acho que tem a ver com a falta de confiança também. As pessoas só precisam ter menos medo de mostrar quem são.

E – Clarice Lispector sempre disse que escrevia por necessidade. O mesmo acontece com você? Se escrever desse pena de morte, você escreveria mesmo assim?

M – Acho que acontece o mesmo que eu sim. Eu amo escrever e nunca me importa se teria alguém pra ler. Acho que esse é o segredo: nunca escrevi para agradar, escrevi e escrevo para me realizar. O que mudou é que pessoas começarem a ler a se identificar. Não tenha dúvidas que eu escreveria mesmo se houvesse pena de morte. Até porque é algo incontrolável, por vezes mais forte que eu. Ainda que matassem meu corpo, teria uma alma viva andando pelas entrelinhas das pessoas que já leram.

E – Se você pudesse mudar uma só coisa em todo o mundo, o que mudaria?

M – Se eu pudesse mudar uma só coisa no mundo, bem, será que daria para mudar algo? Eu queria que as pessoas tomassem injeção de otimismo. Uma pessoa otimista é invencível, automaticamente o pessimismo seria anulado. Eu acredito tanto na energia que a gente emana e que ela pode resolver a grande maioria dos nossos problemas, então, talvez, eu mudaria o jeito que a gente fica triste, que a gente lembrasse de ser sempre otimista. Imagina como seria o mundo se TODOS NÓS fôssemos mais otimistas?

E – Se essa fosse sua última oportunidade de deixar um recado para seus leitores, o que diria?

M – Eu diria para os meus leitores que, cada quem já me leu, pode dormir com a certeza de que fez alguém muito feliz. E que este alguém sou eu; feliz com cada comentário e cada soma de energia. Diria obrigado por falarem comigo, por trocarem toda essa força e diria para se colocarem mais no lugar dos outros, acreditar que este tal de amor é real e mora dentro da gente e, por fim, diria que o melhor está por vir.


Márcio Rodrigues é um dos convidados do próximo Regra Soma. A sexta edição do evento acontecerá em São Paulo no próximo dia 10, às 16h no Diminuta Bar. O evento é gratuito. Confira mais detalhes aqui. Confirme sua presença.


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A Editora Estronho surgiu para abrir espaço para artistas independentes

Quem já sonhou em ser escritor sabe que as barreiras são diversas. Muita gente de talento não consegue se lançar na carreira devido a todas as dificuldades que encontram pelo caminho. Foi perceber essas dificuldades e ter a convicção de que precisava fazer algo para mudar, que motivou o escritor e editor Marcelo Amado a abrir a Editora Estronho. Marcelo tem 47 anos, filho do seu João Borges Amado (in memorian) e da senhora Carmélia Dias Amado, nasceu na cidade de Belo Horizonte e já morou em algumas cidades, dentre elas Varginha. Marcelo nega que tenha recebido uma influência muito forte das cidades de onde morou para formar seu gosto literário, segundo o escritor, sua influência maior veio da própria internet de onde ele garimpou os seus primeiros autores favoritos lá pelos meados de 2005. Conheça agora um pouco mais do sr. Estronho.


Regra dos Terços – Me conte um pouco de você. Onde você nasceu e cresceu?
Marcelo Amado – Nasci em Belo Horizonte, MG. Cresci em cidades diferentes, pois na época meu pai era auditor bancário e vivíamos mudando. Morei em Vitória (ES), Muriaé (MG), Piraúba (MG), Varginha (MG) e depois voltamos para Belo Horizonte onde passei o final da infância e toda a adolescência.

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RT – Qual desses lugares que mais te inspirou para a literatura?
MA – Olha, não sei se tive tanta influência assim de uma cidade… mas se fosse escolher uma, seria Belo Horizonte por ter passado mais tempo de minha vida. Eu diria que minha influência maior veio da internet mesmo, de ler autores nacionais de terror, lá pelos anos de 2005.

ER – Quais eram os nomes por traz dos seus primeiros contatos?
MA – Alguns tantos escritores da época, mas posso destacar Richard Diegues, Gianpaolo Celli, Camila Fernandes, Giulia Moon, Adriano Siqueira. Mais tarde, já com a editora, esse leque aumentou bastante (risos).

RT – Aproveitando a deixa então, o que te levou a abrir sua própria editora?
MA – A dificuldade de publicação de bons autores que eu conhecia na época (2010), que aparentemente está logo ali, mas não tinha essa facilidade toda que tem hoje para publicar. Haviam sim algumas editoras, mas muita picaretagem no meio.

RT – Você acredita que falta um pouco disso na humanidade? Ao se perceber um erro, uma falta, tomar para si a responsabilidade de fazer pelo menos a sua parte para mudar essa realidade?
MA – A humanidade está em falta com muita coisa (risos)… uma delas é essa sim. Muita gente tem boas ideias e vive reclamando que não faz porque não tem apoio, porque não conseguiu edital, porque não tem patrocínio bla bla bla… O lance é começar, seja como for. No caminho você acerta as falhas, encontra gente que quer caminhar ao lado pra fazer acontecer. Claro, vai encontrar pilantras e preguiçosos, mas isso faz parte. Resta saber separar as coisas e não se deixar levar pelo mais fácil, que muitas vezes cai no “errado”.

RT – E qual seria o segredo para encontrar essas pessoas que ajudam a fazer a coisa acontecer? As pessoas mantém uma relação fria umas com as outras, sempre mantando a distância, “cada um no seu quadrado”. Você acredita que o segredo para encontrar essas pessoas estaria numa relação mais pessoal, sincera? Ser mais entregue na vida lhe ajuda a conseguir resultados mais sólidos no profissional também?
MA – Sem dúvida. Os melhores parceiros que temos na editora, por exemplo, são aqueles mais abertos a uma relação menos fria, excessivamente profissional. São pessoas que lutam pelo que amam fazer, alguns bem sucedidos, outros ainda tentando realizar um sonho, mas todos de bem com o que fazem. Obviamente que nem tudo são flores e nem todos são confiáveis. Muitas vezes temos que fingir que não sabemos que estão se aproveitando de alguma situação, fingimos de bobo para evitar decepções. E se não fosse assim, não seria a raça humana. Mas, repito, as melhores parcerias profissionais e de amizade são aquelas que fogem do excesso de seriedade. Aquelas que aceitam criticar e serem criticadas. Aquele parceiro que chega pra gente e diz “olha, achei legal o que você fizeram mas vi algumas coisas que poderiam ser melhoradas”. E saber ouvir… saber que por mais que a gente tenha estudado, que por mais que o outro que está criticando não seja do seu meio, ele pode ter razão em alguma coisa que está apontando, justamente porque não está viciado no seu cotidiano. Mas infelizmente nem todo mundo aceita “pitacos”.

RT – Em algum momento você já teve que escolher uma amizade ou um parceiro profissional? Nesse caso, com qual dos dois ficou?
MA – Você diz para realizar um trabalho?

RT – Na vida, em uma situação onde você percebeu que seria impossível manter uma amizade trabalhando com a pessoa, qual escolha você fez? Ou se isso viesse a acontecer, qual escolha seria feita?
MA – Cara… isso aconteceu, mas há muito, muito tempo. Início dos anos 90, eu trabalhava numa transportadora e era encarregado do setor responsável pela expedição de conhecimentos de transporte. Um amigo meu de adolescência trabalhava com a gente, mas ele vinha prejudicando a produção do departamento porque ficava de conversa o tempo todo com a secretária (eles vieram a se casar depois). Foram muitos avisos e conversas até que não deu pra segurar a barra mais. Tive que levar o caso pro supervisor que o demitiu. A amizade terminou, infelizmente. Ele não soube separar as coisas. Se eu faria de novo? Sim…

RT – Ao meu ver falta isso nas pessoas, enquanto por um lado sinto que falta um pouco de sensibilidade, por outro sinto que falta – e muito – o fator de honestidade, consigo e com o outro. Você acredita que essa seria outra coisa que falta nas pessoas? Terem pulso para assumir suas posições? Pulso para agirem segundo aquilo que acham correto, mesmo que lhe custe caro?
MA – Sim, isso entra no que já falamos, da sinceridade na parceria, seja ela profissional ou não. Se você aceita essa sinceridade a coisa flui naturalmente. Mas quando o ego e a teimosia falam mais alto, a pessoa interpreta de forma errada as intenções do outro. E tem esse lado também de gente que passa por cima de erros e falhas do outro por amizade. Sinceramente, pra mim isso não é ser amigo. Se você gosta realmente do outro, corrija-o. Se ele não gostar, que se dane, você tentou.

RT – Você mantém essa mesma relação com os escritores que publicam na Estronho ou depende do caso?
MA – Alguns não se permitem essa abertura. Com os que permitem, mantemos sim.

RT – Você como editor se sente realizado com o que fez até agora?
MA – Ainda não (risos). Falta muito ainda. Mas estou no caminho.

RT – Você consegue visualizar um cenário no qual estaria realizado como editor?
MA – Um cenário onde uma editora pequena como a Estronho pudesse pagar adiantado os direitos autorais, que pudessem ampliar a distribuição, levar autores aos eventos fora de suas cidades… coisas assim.

RT – E como funciona o cenário hoje? O autor termina de escrever um livro, pega o telefone e liga na Estronho, a partir de então, o que acontece?
MA – Há todo um processo. Primeiro a gente faz uma primeira leitura rápida pra ver a qualidade do texto e se nos interessa publicar. Depois, fechado o contrato, passamos para a parte de leitura crítica, sugestões de melhoria no texto… o autor recebe o texto de volta para fazer as mudanças e retorna pra gente. Entra a revisão ortográfica e em alguns casos mais uma leitura crítica. Finalizada essa etapa, vem a parte do projeto gráfico. Depois é cuidar da impressão e distribuição (a parte mais chata e pesada).

RT – Quantos livros a Editora Estronho já publicou até hoje? Desses, quais são os mais vendidos?
MA – Com os lançamentos de junho agora, vamos chegar a 85 publicações. Ultimamente os livros da coleção de cinema são os mais vendidos e também os de contos ou romances de horror.

RT – E desses 85, quantos são de sua autoria? Qual seria a “menina dos seus olhos”?
MA – Como editor, praticamente todos são (risos). Como autor solo vou lançar o terceiro livro agora em junho (primeiro romance). E ele é sem dúvida o preferido no momento. Romance de horror, diga-se de passagem.

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RT – Falando em junho, a Mondo Estronho inicia no último dia desse mês. Quais são as principais atrações?
MA – Isso, de 30 de junho a 3 de julho. São 60 filmes, entre curtas, médias e longas (todos nacionais independentes), oficinas de origami, literatura, criação de personagens, exposição fotográfica com arte tumular, bate-papos e palestras de cinema, quadrinhos e literatura. Uma peça de teatro, shows com Repelentes, Offal e Macumbazilla, feira de livros… enfim, um bocado de coisa. Tudo gratuito. A programação completa está no www.mondoestronho.com.br

RT – Se você só pudesse deixar um único recado para os aspirantes a escritores, qual recado seria?
MA – Ixi… tem uma lista (risos). Mas se tem que resumir em um só, vamos tentar: Leia muito, de todos os gêneros possíveis e não só o que você curte escrever. Pesquise, vá aos eventos, participe de bate-papos e não deixe seu ego estragar tudo. Tem autor que publica um, dois livros e já acha que não precisa mais ouvir ninguém. Que virou “O Escritor”. Escreva o que você gosta, pule fora de modinhas… quer dizer, isso se você quer ser um escritor e não um autor comercial.


Assim segue Marcelo, sendo tutor, amigo e editor dos escritores que assim desejam. Mas do lado de cá, do lado dos leitores, apreciadores da boa arte, o real desejo é que surjam mais e mais Marcelos para que tenhamos a oportunidade de conhecer os artistas independentes que ainda lutam e muito para encontrar espaço para expor sua arte. Não esqueça de curtir a página da Editora Estronho no Facebook.


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E assim segue o Regra dos Terços sempre divulgando e incentivando a arte independente.

A Balela profunda e poética de Padú

Calma, aquieta um pouco a alma, reduz a velocidade do caos em que você vive. Te convido a introspectar-se. Respira fundo, conta até dez, inspirando e espirando lentamente a cada intervalo de número. Para ouvir o que vou te apresentar aqui hoje é necessário que se esteja centrado, quieto e em paz consigo.
Você já ficou triste com o término de um namoro? Você já teve uma discussão terrível que você tinha certeza de que ao se findar aquela sequencia de palavras geladas que saiam da boca do amado, tudo estaria terminado entre vocês? Diante disso, você já tentou adiar com todas as possibilidades possíveis o término dessa conversa? Já preferiu dormir antes do (já) anunciado fim chegar? Desejou o último beijo, a última noite de amor, ou mesmo de paz antes de tudo desmoronar? Pois bem, é disso que a canção Balela do músico Padú nos conta. Isso fazendo uma leitura literal da letra, mas quanto aos sentimentos que nos são injetados enquanto a deleitamos, podemos enxergar perfeitamente o nosso desespero perante a ainda desconhecida solidão, perante a perda do conforto, diante da mudança de mundo, de cidade, de pensamento, diante do abismo que nos é apresentado quando percebemos as mazelas da nossa alma. Queremos nos segurar, não queremos encarar esse novo mundo, muitas vezes preferimos mais uma noite de amor com a ignorância do que a dor do saber. A despedida costuma ser assim, doída, inaceitável e um tanto quanto amarga.

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“Essa Balela de ir embora, e me deixar aqui tão só
Não se esqueça que eu te gosto, até antes do que for dizer
Me dê esse recado quando amanhecer
Nós, só nós, tão sós aqui

Mais um beijo de sussego pra quietar a minha dor
Pra falar do nosso amor
Nós, só nós, tão sós aqui”

Paulo Eduardo tem 20 anos, é natural de Matão-SP. E é de lá, da cidadezinha de um pouco mais de 80 mil habitantes que surge o Padú. Garoto simples, aparentemente detalhista e de um talento refinado. Nas próximas linhas você vai acompanhar uma entrevista que dança entre a poesia e a vida nua e crua, como ela é:


Erick Reis – Quem é o Paulo Eduardo?
Padú – Sou eu, porém na minha intimidade, não me expondo tanto, não dando espaço para os sentimentos serem vistos.

E – E é por não aguentar guardar seus sentimentos no peito que o Padú ganhou vida?
P – Sim, na verdade sempre fui muito introspectivo, porém sempre tive a cabeça bem nebulosa quanto a tudo ao meu redor; até que decidi expor mais meus sentimentos, criar uma linha segura de contato entre mim e as pessoas, uma forma que eu pude expressar tudo o que penso e sinto e ao mesmo tempo botar uma ”trilha sonora” em momentos da minha vida, bons e ruins.

E – E quando foi que você tomou essa decisão? Qual era o cenário em que você se encontrava?
P – Bom, tomei essa decisão há uns 2 anos, o momento da minha vida era bem complicado, meus amigos todos haviam se distanciado por faculdade, namoro, todos mudavam suas rotinas. Me encontrava morando em outra casa que não a de meus pais, e então criei alguns eventos de poesia e arte para os artistas da cidade, o Poeme-se, e comecei a gostar desse contato de arte com as pessoas, até porque foi a primeira vez que me expus pras pessoas me conhecerem e o resultado foi bem positivo, tanto na cidade, quanto nas pessoas.

E – E quem são suas inspirações?
P – Ah, gosto de muita coisa – da música clássica ao Indie rock, mas acho que de Keaton Henson, Sleep Party People a Radiohead e Los Hermanos.

E – Você lança seu trabalho em um momento conturbado no país. Você acredita que o caos pode sensibilizar as pessoas para a arte?
P – Acho que talvez o meu trabalho e o de muitos outros nesse momento, terá certamente um papel muito importante pras pessoas, se eu conseguir melhorar pelo menos 5% das relações sociais de hoje em dia, ficarei feliz com o papel que tive nisso.

E – Você é um cara que não usa WhatsApp, agora comentou sobre melhorar as relações sociais, você acredita que a tecnologia tem estragado os indivíduos e isolado as pessoas? Me fala um pouco sobre essas relações sociais.
P – Acredito que a tecnologia é uma faca de dois gumes, ela te dá milhares de coisas, mais ao mesmo tempo pede muitas outras em troca. Hoje em dia as relações sociais se tornaram um tanto quanto superficiais, a tecnologia nos torna muito individualistas, quando não, nos isola de um contato mais próximo com o outro, é raro hoje em dia as pessoas serem uma comunidade e ajudarem umas as outras, tem muito egoismo envolvido e desamor.

E – Eu acredito que as pessoas não conseguem viver em comunidade por não conseguirem viver consigo mesmas. As pessoas encontraram na tecnologia a desculpa perfeita para projetar aquilo que elas gostariam de ser. Então por viverem um “eu” de faxada elas não conseguem viver um “nós” de fato. Em resumo, eu creio que a tecnologia apenas veio para mostrar o quanto as pessoas estão perdidas de si, e é por isso que elas não se encontram em comunidade. Você concorda com essa ponto de vista?
P – Não plenamente, tenho esperança que todos encontrem o caminho de volta pra casa, de volta pra quem elas são de verdade e sejam no final Amor.

E – E estaria na arte a esperança do retorno ao lar?
P – Acredito que em parte sim, a outra parte vai de quão aberta as pessoas estão, as pessoas só voltarão ao lar quando elas sentirem essa necessidade, a arte em si tem um papel importante sim, mas as pessoas tem um ainda maior.

E – Agora que as pessoas conhecem um pouco mais sobre você e sua visão de mundo, quero falar um pouco mais do seu trabalho. De onde surgiu a ideia do nome do disco?
P – Acredito que todo o momento da vida, é como um conto, pode acabar feliz ou triste, no meu caso a maioria não foi tão bom assim, então dai o nome Contos de um coração partido.

E – A dor te ajudou a compor?
P – De certa forma sim, acho que quando o ser humano se sensibiliza, ele enxerga todo o resto de forma mais poética.

E – O que esse trabalho representa para você?
P – Um dialogo sincero com o público, expressando o que sinto e o que penso, uma forma de juntar várias pessoas bacanas em um lugar pra que não se sintam tão sozinhas e saibam que por ae tem muita gente que pensa e quer as mesmas coisas que elas, o Amor.

E – E quanto ao processo de produção, falta quanto pra estar tudo 100% pronto?
P – Eu espero que até o começo de setembro ou final de outubro já tenha terminado tudo, não falta muita coisa, a maioria dos arranjos eu já terminei, o meu amigo e percussionista (Murilo Fuschino) tem trabalhado em muita coisa também, mais acredito que até o fim de outubro já possa disponibilizar o disco gratuito na rede pra dowload.

E – Ele está sendo gravado em casa ou em algum estúdio?
P – Eu diria meio que os dois, já que considero lá a minha casa também, tem sido gravado no estúdio de um amigo meu, músico também o Eric Uliana da banda Vênnus.

E – E qual é sua expectativa com esse lançamento?
P – De que as pessoas gostem e acima de tudo que eu consiga tocar o coração delas.

E – Tenho certeza de que está no caminho certo para isso. Para a gente encerrar Padu, se essa fosse a sua última oportunidade de deixar um recado para toda a humanidade, qual recado você deixaria?
P – Sejam sinceros.


E é diante de todo o sentimento dessa entrevista que lhes apresento a primeira canção divulgada do disco Contos de um coração partido. Com vocês Balela!

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