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A chatona do rolê

A chatona do rolê

Eu me tornei, oficialmente, uma mulher chata.

Tá permitido me chamar de chata, de dizer para os amigos não me chamarem para o churrasco, de dizerem “ah não, ela não”, porque eu realmente virei uma mulher chata. Agora eu quero beber até 22h, no máximo, para poder tomar um banho e fazer uma limpeza na pele antes de deitar meia-noite (quando muito). Não tenho paciência para rímel colado na bochecha no dia seguinte e ter que acordar com a cara de 3 cores diferentes: base borrada, rímel seco e batom na orelha.

Eu ando de tênis o máximo de tempo possível (ou sapato baixo, tá valendo). Chega, cansei de ficar horas em 12 centímetros de sapato que só vai me deixar com o pé doendo e me render… nada. Anos no salto não me renderam nada. Eu uso roupa confortável, cabelo do jeito que dá e estou numa filosofia do “tirando sete para passar, tá ótimo”.

Não puxo conversa com gente ignorante, não estou rindo de piadinha machista, eu questiono as pessoas no meio da roda de conversa no menor vestígio de um papo arcaico com restos de homofobia, racismo ou qualquer coisa que agrida alguém. Virei a chatona do “puxa, você viu que o Almodóvar usou uma outra sequência de câmera nesse filme novo dele?”, e eu só tenho um amigo que sabe o que eu estou falando. Tudo bem, eu mando mensagem só pra ele e ele me responde com seis minutos de áudio, isso é amor. Virei mesmo a mulher que as pessoas dizem que vai ficar encalhada porque eu não engulo sapo. Não ligo. Pode falar, fala mais enquanto eu compro calcinha cara com o dinheiro que eu ganho reclamando na internet. Porque, sabe, eu sinto que eu sempre fui alguém mais ácida e andei por algum tempo diminuindo quem eu era para caber em alguma forminha que hoje eu nem me lembro mais.

Me tornei a chatona que fala da CPI da Covid o dia inteiro, que não aceita o fato de termos passado do meio milhão de mortes e as pessoas acharem que é assim mesmo, tá tudo bem. Não finjo que gosto do que não gosto, não ando baixando a voz para muita coisa. Outro dia me disseram eu preciso me acalmar um pouco, “talvez um floral?” Mandei se foder.

Em tempos tão confusos, com tantos lutos e todo mundo usando Rivotril como perfume, agora eu vou fingir que estou bem quando não estou? Não vou. Podem me tirar da lista de amigos, podem me bloquear no zap, podem me deletar de suas vidas. Não ligo. Mas quem ficar, por favor, pega uma cerveja e vamos reclamar juntos de tênis, moletom e cabelo do jeito que tá. Ando buscando ranzinzas como eu, que estão em falta nesse mundo de coaching e lifestyle. Na próxima vida eu prometo virar uma princesa Disney, quem sabe a Fiona.

Eline Carrano

Jornalista por profissão, cronista por opção e neta coruja. Escrevo porque preciso justificar as ansiedades que o tarja-preta não dá conta.

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