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CHUVA

CHUVA
Kelli Kadanus - Sonhos do Avesso

Essa noite choveu forte e eu descobri tudo. Eu acordei no meio da madrugada com o vento batendo incansavelmente na minha janela como que querendo me mostrar alguma coisa que só eu não estava vendo. Eu acordei irritada como sempre acordo quando meu sono é interrompido contra a minha vontade e fui checar se a janela da sala estava fechada. E aí eu lembrei de você, que sempre fazia uma piada infame sobre o mundo estar acabando enquanto eu dizia o quanto eu morro de medo de temporais assim. Eu lembrei de como você fazia questão de me mostrar cada arco-íris que aparecia no céu pra me provar que vale a pena passar por toda e qualquer tempestade.

Só que dessa vez eu não senti nem um pingo de vontade de te ligar e ouvir uma piada infame para me acalmar. Então eu entendi. Assim, como se o vento estivesse tentando derrubar a minha janela para me dizer:

– Não, sua boba. Você nunca entendeu nada.

Eu voltei pra cama tentando ignorar o que tinha acabado de descobrir, mas esse pensamento – e o medo da tempestade – não me deixou pegar no sono. Então é isso. Não é você. Nunca foi você.

Não era você quando eu joguei tudo pro alto para viver a nossa história. Não era você quando eu voltava atrás depois de uma briga. Não era você quando eu achava que não iria suportar tanto amor dentro do peito.

Não é você todas as vezes que eu lembro das piadas infames e dos momentos de paz. Não é você quando eu quero pegar o telefone e te ligar. Não é você quando eu penso em largar tudo o que estou fazendo para ir até sua casa – que é do outro lado do mundo – e dizer que você é um idiota e está me perdendo sem sequer perceber.

Eu levei anos para perceber, e precisei que uma tempestade me acordasse no meio da noite para perceber que nunca foi você. Sempre fui eu.Eu que nunca me realizei com meios amores que não me provocassem a alma. 

Todas as vezes em que eu voltei para você, não foi por você. Foi pelo vício que eu tenho em ser provocada, em ser desafiada, em ir além de onde a maioria das pessoas tem coragem de ir. Sempre foi a coragem em pular do precipício sem saber ao certo se eu poderia voar. Sempre foi o ímpeto de tomar caminhos sem volta só para ver onde eu iria parar.

Todas as vezes em que eu voltei, não era você que eu procurava. Era o que você representava. Você me provocava, me desafiava, me fazia questionar tudo o que eu achava que era certo. Você nunca foi fácil. Você sempre foi o vendaval que eu procurava quando a calmaria era demais para suportar.

Por isso a gente nunca deu certo. Eu era tempestade demais e você era pé atrás demais. Eu nunca pensei duas vezes antes de cometer loucuras. Eu nunca deixei de pular do penhasco para tentar voar. Você sempre precisou de terra firme. Não era você.

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Kelli Kadanus

Kelli Kadanus, jornalista, cronista, tia coruja. Escrevo para tentar me entender e entender o mundo. É assim desde que aprendi a juntar sílabas. Sonho em mudar o mundo e as palavras são minha única arma disponível.

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