COLÔMBIA ENTRA EM GUERRA CIVIL, DIZEM JORNAIS LOCAIS

A Colômbia vive dias que, conforme o noticiário local tem chamado, se assemelha a uma guerra civil. Neste último final de semana ao menos oito pessoas foram feridas por disparos de armas de fogo, enquanto manifestavam. Um dos principais veículos de comunicação do país, Notícias Uno, exibiu imagens chocantes de supostos civis sacando pistolas e atirando contra indígenas que protestavam em apoio à grande paralisação nacional.

Pelas imagens, é possível ver homens entrando e saindo de caminhonetes brancas e atirando contra os manifestantes. Ao menos dois flagrantes foram feitos em que policiais fardados escoltam esses homens, até que eles entrem nas caminhonetes e saiam do local. Conforme noticiado no canal do Regra dos Terços na última semana, o governo está acusando a guerrilha e as Farc de estarem causando depredações durante as manifestações. Porém, uma moradora da Colômbia ouvida pela reportagem do Regra declara que há indícios fortes de que esteja partindo do próprio governo os grandes saques, com o intuito de justificar o assassinato dos manifestantes.

Quase 30 pessoas já morreram e cerca de mil ficaram feridas durante a grande paralização nacional que se arrasta por duas semanas. E a tendência é que nesta segunda-feira (10) a situação piore ainda mais.

O presidente Iván Duque desembargou logo cedo no epicentro dos protestos, Cali, e ordenou que as forças de segurança façam o que for necessário para encerrar as manifestações ainda hoje. Após a ordem de massacre, ele voltou para Bogotá, sem conversar com nenhum líder dos protestos.

Parlamentares de oposição estão alertando ao povo que, caso a situação siga como está, o governo pode usar de pretexto e autorizar, desta vez oficialmente, o uso da força contra o povo, e se assim o fizer com a desculpa de resguardar a ordem social, estará resguardado pela Constituição. Os opositores questionam o que pode acontecer se a repressão for autorizada oficialmente. se até aqui já foram registradas dezenas de mortes e milhares de feridos.

O motivo da revolta

As manifestações começaram há duas semanas e tinham como pauta principal impedir a tramitação da reforma tributária que estava sendo implementada pelo governo do presidente Iván Duque. O texto, porém, cobrava impostos dos mais pobres e classe média e não mexia nos bolsos dos mais ricos, o que causou revolta popular. O país vive o que especialistas estão chamando de década perdida. A pobreza aumentou 6,8 pontos percentuais, atingindo 42,5% da população. Em março de 2021 a taxa de desemprego na Colômbia atingiu 14,18%.

E foi para recuperar a economia que o presidente do país resolveu fazer a reforma tributária. O texto, porém, desagradou 80% da população. O projeto de Iván Duque previa ampliar a base do imposto sobre vendas e aumentar suas taxas, que chegariam a 19%, uma das mais altas do mundo. Esses impostos seriam cobrados em produtos básicos, como gasolina. Até mesmo funerais passariam a sofrer taxações. Mais de 60% do PIB nacional passaria a ser pago por pessoas físicas.

Outro ponto polêmico é quem iria pagar pela reforma. Atualmente no país só é tributado quem recebe acima de US$ 1.000 por mês, o que equivale a R$ 5.465,60. Mas o governo queria mudar isso para cobrar de todos que recebem mais de US$ 656,00 por mês, o equivalente a R$ 3.585,43. Para se ter uma ideia, o salário mínimo da Colômbia é de US$ 248,00, que daria R$ 1.345,57. Ou seja, a reforma taxaria a classe média baixa, que recebe dois salários mínimos e meio. Os mais ricos não sofreriam mudanças significativas na tributação. Tudo isso tornou-se um fósforo aceso num barril de pólvora. Mas era só o começo.

Em menos de uma semana de protestos, todos os aliados políticos de Iván Duque já haviam virado as costas para ele. Até mesmo seu padrinho político, Álvaro Uribe Vélez o abandonou. Com isso, o presidente resolveu desistir do texto e anunciou que estava retirando a proposta da mesa. Mas já era tarde demais.

A Colômbia figura entre os países mais corruptos do mundo, segundo os dados da Transparência Internacional. Em 2020, figurou na 92ª posição no ranking mundial. Para se ter uma noção, o Brasil ocupa hoje a 94ª. A Colômbia ainda vive com um caos quando o assunto é narcotráfico. A Colômbia é hoje o maior exportador de cocaína do mundo.

Atualmente o país está dividido entre: dissidentes das Farc, guerrilheiros conhecidos como o Exército de Libertação Nacional (ELN), narcotraficantes, paramilitares e forças oficiais de segurança. Tudo isso, como se é de imaginar, faz com que o nível de insegurança no país seja altíssimo. Há ainda suspeitas de que o governo mantenha os paramilitares como força paralela de segurança, além de negociar às escondidas com os guerrilheiros.

É por tudo isso, que mesmo após o recuo da proposta de reforma tributária, que os manifestantes seguem indo às ruas.

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