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Como o caos no Sri Lanka reflete a crise política Brasileira

Como o caos no Sri Lanka reflete a crise política Brasileira

Agora que o ex-presidente do Sri Lanka, Gotabaya Rajapaksa renunciou ao poder na última quinta-feira (14), o país se prepara para novas eleições. A renúncia já era esperada após anúncio feito pelo próprio Rajapaksa, que está refugiado em Singapura. Assim como ruas e prédios públicos do país, a residência, a piscina e a cadeira presidenciais foram ocupadas por manifestantes. A indignação tomou a população local, e o caos social visto nos últimos dias foi a gota d’água para um regime político que controlou o Sri Lanka por anos. A nação se encontra em estado de emergência.

Em 12 de abril, o país declarou falência econômica. Não à toa, a revolta vista agora é uma reação à crise atual, que está ligada à gestão dos recursos do país. Mas esse não é o único motivo. Os protestos e a fuga de Rajapaksa refletem também a história do Sri Lanka, principalmente a partir da década de 1980. Além disso, há paralelos que conectam Sri Lanka e Brasil, como o abismo financeiro que levou ambos os países à crise e os conflitos mais recentes que cercam a política brasileira – que podem, inclusive, desembocar na eleição presidencial deste ano. 

O Regra conversou com o especialista em economia internacional, macroeconomia e filosofia política Másimo Della Justina para entender mais.

O que foi a Guerra Civil do Sri Lanka?

Em 1983, uma guerra civil se iniciou no país. A disputa tinha como objetivo a implementação de um novo sistema político no Sri Lanka, que era regido por pelo presidencialismo desde 1978. Tigres de Libertação do Tamil Eelam (LTTE) era o principal grupo armado envolvido e interessado na ascensão do novo regime.

O conflito se estendeu por décadas e chegou ao fim apenas em 2009. Entre tentativas de apoio da comunidade internacional para que as atividades militares fossem cessadas e civis pudessem sair do país, aproximadamente 250.000 civis foram presos ao longo dos anos no Sri Lanka. No último ano de guerra, considerado o período de maior tensão, estima-se que 40.000 habitantes morreram. Inúmeras violações de direitos humanos são contabilizadas nos quase 30 anos de guerra.

Mahinda Rajapaksa, irmão do presidente de Sri Lanka até a última semana, ocupava o cargo máximo no país, na época. O fim do conflito foi atribuído a ele, que permaneceu na presidência até 2015 – um total de dez anos no poder. De acordo com o professor Másimo Della Justina, a influência dos Rajapaksa esteve presente durante toda a guerra civil, e a percepção política da população é de que a família foi a única capaz de apaziguar o Sri Lanka. “Eles jogaram a cartada de acabar com o terrorismo, unir o país, promover desenvolvimento, liberdade e paz”, afirma o professor.

Cada vez mais, os Rajapaksa implementaram práticas populistas. É um populismo que se transformou em populismo, e assim puderam permanecer no poder por tanto tempo”, analisa Justina. 

Apenas nas eleições de 2015 um Rajapaksa não venceu a disputa à presidência. Gotabaya Rajapaksa, Secretário de Defesa durante o fim da Guerra Civil, alcançou o poder em 2019. Na última gestão, diversos membros da família ocuparam cargos no governo, inclusive Mahinda, escolhido primeiro-ministro.

O que motivou a crise no Sri Lanka?

Em paralelo ao fim da guerra, outra nação oriental começa a despontar como força econômica em todo o mundo: a China. As ambições do país o leva a investir em locais menos desenvolvidos, principalmente por meio de empréstimos. Em Sri Lanka, há uma alta injeção de recursos bilionários no setor de infraestrutura. O aparente desenvolvimento do país também ajudou na construção positiva da família Rajapaksa, e a China sempre esteve interessada em tal promoção.

Foto: AntanO (Creative Commons)

No entanto, como explica Justina, o governo de Sri Lanka não implementou reformas econômicas e políticas que evitassem o endividamento do país. A ausência de reformas, o acúmulo de reservas cambiais e outras práticas que se provaram fracassadas – como o programa de agricultura orgânica – levaram à recente queda na economia. No entanto, como ressalta o professor, as “rachaduras” já eram aparentes há anos. “Houve uma tentativa por parte da família Rajapaksa de culpar o governo eleito em 2015 [do presidente Maithripala Sirisena] pela crise econômica. Era uma tentativa de proteger o legado da família, que tentaria e conseguiria voltar ao poder. Mesmo com o caos atual, ela ainda pode voltar”, comenta.

Além disso, o estabelecimento da pandemia de Covid-19 bloqueou o turismo, principal atividade econômica do Sri Lanka, e aumentou o endividamento. As recentes consequências da Guerra na Ucrânia impactaram o preço dos combustíveis e ampliaram a crise em cascata, o que atingiu todo o consumo. Uma das maiores reivindicações da população é justamente a escassez de alimentos. A moeda passou a uma maior desvalorização, com consequente crescimento da inflação.

Para Justina, a “revolução popular” pode ser considerada surpreendente, apesar de todo o contexto político e econômico. “A questão cultural em Sri Lanka é fundamental para entender esse conflito. Há no país forte influência da religião, predominantemente budista. Ela constrói uma cultura de respeito e reverência às divindades, que em um contexto social, podem ser as autoridades máximas do país. O que se vê, somado ao paternalismo populista praticado pelo governo, é a submissão de um povo. Por isso, não era de se esperar os protestos tomando todo o Sri Lanka”, analisa o professor, que também aponta uma “cultura de leitura” no país – fator que pode ser decisivo para que um povo não seja subordinado a um grupo.

Qual a relação entre a crise de Sri Lanka e o Brasil?

Assim como em Sri Lanka, parte significativa da crise política e econômica vivida no Brasil se deve à condução da política econômica sem reformas estruturantes. Para Másimo Della Justina, o endividamento nos dois países serviu como uma fuga para os problemas profundos existentes em ambos. No Brasil, os governos petistas intensificaram políticas de crédito e consumo, o que levou à ascensão social das classes C e D. No entanto, os anos de alta na economia foram seguidos pela queda vertiginosa da economia. Assim como em Sri Lanka, os principais problemas são a desvalorização da moeda e a inflação – que, novamente, derrubam o poder de consumo da população.

Foto: Agência Brasil

O crescimento de Jair Bolsonaro, com forte discurso populista de direita, vai de encontro à vulnerabilidade dos brasileiros. O atual presidente, segundo Justina, pode inclusive se inspirar na situação vivida em Sri Lanka. “Lá existe uma família que se recusa a sair do poder. Tentou e resistiu por anos. O mesmo pode acontecer em diversas democracias pelo mundo. Se algo parecido aconteceu nos Estados Unidos, considerado a maior democracia do mundo, não podemos deixar de esperar que algo assim também pode acontecer aqui”, alerta.

Questionado sobre como a vontade popular pode se sobrepor a um governo antidemocrático, o professor ressalta que a força militar é essencial – ela esteve ao lado da população de Sri Lanka. Justina ainda comenta que regimes como o que chega aparentemente ao fim no país asiático ainda devem existir pelo mundo, mesmo com o avanço da democracia. “O que faz com que os Rajapaksa tivessem vez e voz são pessoas que ainda querem esse tipo de sistema de submissão. Sempre vão existir aqueles 5% que querem ser submissos. O que temos que fazer é evitar que esse tipo de retórica se transforme em poder político”, conclui.

Eduardo Veiga

Estudante de Jornalismo e redator freelancer. Já trabalhou em Rádio Banda B, Portal Banda B e publicou no Jornal Plural. Atualmente, é estagiário no Regra.

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