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Disputa pela presidência da Câmara em 2021 foi presságio para o destino da terceira via nas eleições deste ano?

Disputa pela presidência da Câmara em 2021 foi presságio para o destino da terceira via nas eleições deste ano?
Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

A eleição presidencial de 2022 é vista como uma das mais importantes desde a redemocratização e já mobiliza há meses a elite política do país. A disputa pelo comando da Câmara dos Deputados, no início de 2021, que terminou com a derrota do candidato de Rodrigo Maia, é um termômetro importante para analisar a capacidade de articulação da chamada terceira via, que busca se colocar como alternativa à reeleição do presidente Jair Bolsonaro (PL) e à volta de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao poder. Neste sentido, os ventos não parecem soprar a favor deste movimento político, que tem muita dificuldade em se articular internamente, como mostrou a disputa na Câmara, e de atrair votos, como mostram as sondagens de intenção de votos.

Após ter sua terceira candidatura à presidência da Câmara derrubada por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), o deputado federal Rodrigo Maia (então no DEM-RJ) articulou-se politicamente para eleger Baleia Rossi (MDB-SP) como seu sucessor, em 2021. Antes das eleições na Câmara, Maia já se colocava como antagonista ao governo. Porém, como não conseguia pautar os pedidos de impeachment do presidente por falta de apoio no plenário (composto majoritariamente por políticos do Centrão, aliados de Bolsonaro), Maia aproximou-se de nomes da “terceira via”, como Ciro Gomes (PDT), João Doria (PSDB) e Simone Tebet (MDB). Maia transformou a eleição da Câmara no ano passado em uma cruzada contra os desejos autoritários de Bolsonaro, que apoiava a candidatura de Arthur Lira (PP-AL). O então presidente da Câmara buscou formar uma rede de alianças na disputa, mas acabou sendo traído, inclusive por deputados do próprio partido.  

terceira via
Terceira via: A busca por um nome viável

Na análise do cientista político da Uninter, Doacir Quadros, foi a inflexibilidade interna dos partidos que impediu a organização de uma terceira na eleição da presidência da Câmara, o que deu vitória ao candidato de Bolsonaro, Arthur Lira (PP-AL). “Rodrigo Maia sentiu a falta de controle do seu partido e também dos demais sobre os seus membros, no sentido de orientar qual é a decisão que eles devem tomar conjuntamente. Por isso, houve a dispersão de votos para o vencedor, Arthur Lira, e o insucesso da indicação de Baleia Rossi (MDB-SP), apoiada por Maia para a presidência da Câmara”, afirma Quadros.

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Maia era uma das principais lideranças do antigo Democratas e atual União Brasil, uma fusão entre DEM e PSL. Porém, diversos embates internos no partido na época das eleições para a presidência da Câmara fizeram com que o DEM expulsasse Maia da sigla em junho de 2021. Quando a bancada do DEM passou a apoiar a candidatura de Arthur Lira (PP-AL), estimulada por Bolsonaro, Maia afirmou de imediato ter sido vítima de “traição” pelo presidente do partido, o ex-prefeito de Salvador (BA) ACM Neto. 

Na primeira semana após deixar a presidência da Câmara, Maia não concedeu entrevistas e afastou-se da imprensa para se reorganizar politicamente. Antes que os membros da comissão nacional do DEM julgassem sua permanência, Maia corria o risco de perder seu mandato como deputado ao migrar para outra sigla por “infidelidade partidária”. Porém, após a Executiva do partido oficializar sua expulsão em 14 de junho de 2021, Maia passou a analisar e organizar uma troca de partido. Em nota, o DEM afirmou que “a comissão nacional [do partido], à unanimidade de votos, deliberou pelo cometimento de infração disciplinar, e consequente expulsão do deputado”.

Para o cientista político Doacir Quadros, o fracasso de Maia para emplacar um candidato na eleição da Câmara pode explicar o favoritismo da polarização novamente nas eleições deste ano. “Qual é o grande problema de uma terceira via? O excesso de partidos. Esse já é um problema dentro da Câmara dos Deputados, como ficou provado nas eleições da Casa. Por vezes, você não negocia com partidos, mas com lideranças políticas, tornando a negociação ainda mais danosa. Rodrigo Maia sentiu fortemente nesses três pontos durante sua troca de gestão. Se pensarmos no contexto eleitoral atual, existe também a necessidade de escolher um candidato com baixa rejeição nacional para ser um nome viável para a terceira via”, explica.

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Maia e a terceira via

Uma das provas da relação de Maia com a terceira via foi o fato de o deputado ter aceito o convite do então pré-candidato à presidência João Doria (PSDB-SP) para coordenar o plano de governo do tucano. O convite foi realizado em 18 de janeiro de 2022, quando Doria ainda planejava sua candidatura ao Planalto. O tucano desistiu de concorrer à presidência da República desde 23 de maio, por falta de apoio interno no PSDB após sua estagnação nas pesquisas e o crescimento de Eduardo Leite, que ficou em segundo lugar nas prévias do partido.

Na época, Doria justificou a proposta dizendo que considerava “fundamental” para fortalecer seu projeto de campanha ao Planalto com a “experiência de Rodrigo Maia, seu brilhante desempenho como secretário de Ações Estratégicas e seu traquejo político”. Caso Doria tivesse seguido adiante com sua candidatura, seu programa se estruturaria a partir de três eixos principais, definidos em conjunto com Rodrigo Maia: “Refortalecimento da democracia”, “Compromisso do país com o meio ambiente” e “Adoção de um novo regime fiscal”. “Temas como desigualdade de gênero, racismo e combate à fome terão papel central na agenda liderada por Maia”, dizia o comunicado. 

Desde que deixou a presidência da Câmara, Maia passou a integrar o grupo de auxiliares mais próximo de Doria. Em agosto de 2021, assumiu a Secretaria de Projetos e Ações Estratégicas do governo de São Paulo. Segundo comunicado do governo paulista, o cargo de Maia tem a função de “agilizar” os projetos de privatização em curso em São Paulo, firmar parcerias entre o poder público e empresas privadas e promover concessões à iniciativa privada.

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Lulismo: As esperanças controversas

Do DEM ao PSDB: o que a mudança de partidos feita por Rodrigo Maia muda na disputa eleitoral?

Em 01 de abril de 2022, Maia confirmou sua filiação ao PSDB. Com isso, o ex-presidente da Câmara assumiu articulação do partido no Rio de Janeiro, especialmente a coordenação do acordo entre PSDB e PSD, que consiste em apoiar a candidatura do atual prefeito, Eduardo Paes (PSD) para o governo fluminense. Em sua conta pessoal no Instagram, Maia declarou: “Minha decisão de assumir a presidência da federação do PSDB e Cidadania no Rio é um alinhamento com o prefeito do Rio, Eduardo Paes [PSD] . Estaremos juntos com a candidatura que ele apoiar”.

Essa aliança entre os partidos também mudou os planos de Paes, que previa inicialmente lançar-se ao governo do estado com o apoio do PDT e, aproveitar, nacionalmente, a projeção eleitoral de Ciro Gomes (PDT). Porém, como o PDT lançou o ex-prefeito de Niterói, Rodrigo Neves, como pré-candidato ao governo, Paes desfez a aliança e buscou apoio no PSDB, mesmo sem a definição de um candidato na disputa nacional que lhe sirva de “cabo eleitoral” na disputa pelo governo do Rio de Janeiro.

Vai e volta entre Legislativo e Executivo: qual é o papel de Maia na disputa pelo Planalto?

Embora Maia tenha anunciado seu comprometimento com a candidatura de Doria, demonstrou incerteza sobre seu futuro político ao tomar posse como secretário de Projetos e Ações Estratégicas no governo de São Paulo em 20 de agosto de 2021, mas não assumir o cargo. Ele permaneceu como deputado federal pelo Rio de Janeiro e reassumiu seu cargo no governo paulista apenas em 04 de abril de 2022, anunciando sua decisão de não se candidatar ao seu sétimo mandato na Câmara no dia seguinte (05). 

Maia afirmou que “já ocupou quase todas as posições na Casa” e não pretende se acomodar como congressista. Depois de ser presidente da Câmara duas vezes, Maia declarou em seu Instagram: “Quero cumprir um ciclo no Executivo e me reciclar. Quero aprender mais sobre gestão e orçamento público para que no futuro eu possa ter outros desafios na política ou até no setor privado”.

Apesar de sua ligação com a coordenação de campanha de João Doria – quando o governador paulista ainda era pré-candidato ao Planalto -, Maia rejeitou o rótulo de terceira via, afirmando que o PSDB deve se posicionar como centro-direita. “O eleitor de centro pode decidir a eleição, mas não é majoritário. O PSDB é o principal partido de contraponto ao PT”, afirmou.

Além disso, Maia disse que não se envolverá nos conflitos internos do PSDB. Porém, apenas o fato de trabalhar para a campanha de Doria já denotou a escolha de um “lado” na disputa interna do partido, que começou desde antes da primeira vitória eleitoral do ex-empresário paulistano, em 2016. Para concorrer à prefeitura de São Paulo, Doria derrotou uma das figuras mais influentes do PSDB nas prévias do partido, Andrea Matarazzo. Utilizando-se de sua influência política, Matarazzo acusou Doria de vencer a disputa injustamente, comprando apoio de correligionários. Desde então, o apoio a Doria no PSDB nunca foi unânime.

Na visão do ex-presidente da Câmara, o PSDB deve se posicionar à direita do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a fim de confrontar a  “direita não democrática” do presidente Jair Bolsonaro (PL). Na hipótese de um segundo turno entre Lula e Bolsonaro, Maia afirmou que deve votar no petista “em nome da democracia”.

De primeiro presidente do DEM a derrotado na Câmara: entenda a trajetória política de Maia

Desde 1999, Rodrigo Maia exerceu seis mandatos como deputado federal. Nascido no Chile e carioca por criação, Maia foi um dos líderes do movimento que refundou o Partido da Frente Liberal (PFL) no início de 2007, quando tornou-se Democratas. Desde então, Maia tornou-se o primeiro presidente do DEM como deputado federal. Além de sua experiência política, Maia contava com prestígio familiar por ser filho de um dos líderes mais influentes do PFL, o então prefeito do Rio de Janeiro César Maia. 

Rodrigo comandou o partido durante quatro anos, até 2011. Um ano depois, concorreu à prefeitura do Rio de Janeiro, mas fracassou na tentativa. Maia obteve apenas 95 mil votos, menos de 3% do total dos votos válidos naquela eleição. A nova ascensão política do deputado federal começou apenas em 2016, depois que o então ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Teori Zavascki, afastou o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha (então no MDB), sob acusação de envolvimento com esquemas de corrupção na Petrobras investigados pela Operação Lava Jato. 

Viabilizando-se como líder dos parlamentares do Centrão, Maia foi eleito presidente da Câmara pela primeira vez em 2016, na votação que escolheu um presidente para um “mandato-tampão” após a queda de Eduardo Cunha (MDB-RJ). Nos primeiros anos de mandato, a presidência de Maia na Câmara foi marcada pela parceria direta com o ex-presidente Michel Temer (MDB), que também era um político de centro-direita e filiado ao mesmo partido de Maia na época posterior ao impeachment. 

Como os chefes do Legislativo e Executivo tinham opiniões convergentes sobre muitos temas, trabalharam juntos para aprovar medidas provisórias e Projetos de Emenda à Constituição (PECs), como a PEC do Teto de Gastos, que limitou as despesas do governo ao aumento da inflação anual.

Com apoio da maioria dos parlamentares, Maia renovou seu mandato como presidente da Câmara duas vezes, nas disputas de 2017 e 2019. Sua projeção política torna-se tão intensa a ponto de ser lançado pelo DEM como pré-candidato à presidência nas eleições de 2018. Na época, ACM Neto disse que ele era “o quadro mais preparado do país” para o Palácio do Planalto. 

Porém, após a eleição de Jair Bolsonaro (PL) em 2018, a relação entre Legislativo e Executivo tornou-se conflituosa. Apesar de ter declarado voto em Bolsonaro em 2018, Maia criticou diversas ações e declarações do presidente. Em março de 2019, por exemplo, Bolsonaro provou o então presidente da Câmara dizendo que ele estava “abalado com coisas da vida pessoal” dias depois da prisão do ex-ministro Moreira Franco, que era casado com a sogra de Maia. No mesmo dia, o deputado respondeu no mesmo tom, afirmando que Bolsonaro estava “brincando de presidir o Brasil”.

A decadência de Maia no DEM ocorreu apenas em 2021, quando foi expulso da sigla após as dissidências provocadas pela sucessão na Câmara dos Deputados. Sua terceira candidatura foi derrubada por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) e, por isso, Maia tentou eleger Baleia Rossi (DEM) como seu sucessor. Porém, os parlamentares do DEM acompanharam os votos dos demais partidos do Centrão e elegeram o candidato do governo Bolsonaro, Arthur Lira (PP-AL) para a presidência da Câmara.

Letícia Fortes

Estudante de Jornalismo na PUCPR e estagiária do Regra. Escrevo para evidenciar e esclarecer assuntos que exigem nossa atenção, pois essa é minha forma de defender uma comunicação humanizada, acessível e engajada socialmente.

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