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Sobre estar sempre dizendo tchau

Sobre estar sempre dizendo tchau

Eu nunca acreditei que estar sempre no mesmo lugar, fazendo a mesma coisa, fosse o segredo da felicidade. Sim, eu tenho muita dificuldades com mudanças – seja de emprego, de casa, da disposição dos móveis ou até da ordem em que a louça fica no escorredor. Quem frequenta minha casa sabe que o escorredor sempre – SEMPRE – vai estar do lado direito da pia. E que, não importa a situação, eu vou querer dormir do lado esquerdo da cama. E que eu tenho um lugar na mesa aqui em casa e na mesa de qualquer asa que eu já frequentei mais de uma vez. Qualquer mudança – seja ela pequena ou grande – sempre tem que ser muito pensada e negociada.

Mesmo assim, não sou o tipo de pessoa que acredita que as coisas não devem mudar nunca. E eu até consigo me adaptar muito bem às mudanças – sejam elas do tamanho que forem. Acontece que, quando a gente é feito de sonhos, a gente está sempre se despedindo de alguém.

Um dia eu sonhei que queria ser correspondente em Brasília. Deu medo. Eu vacilei em uma oportunidade. Mas eu acabei indo. E é isso. Com o sonho, vem também as despedidas. Porque se o mundo é grande, nossos sonhos também têm que ser. Eu deixei pra trás minha família e os melhores amigos do mundo inteiro e vim.

Eu passei datas comemorativas vendo meus pais jogando Uno com minha sobrinha e meu avô por videoconferência. E depois chorei igual criança por estar a 1200 quilômetros de casa. Eu deixei de abraçar minha família no Natal. E, embora estivesse cercada de bons amigos, fiquei triste por não estar sob o mesmo teto da minha mãe e do meu pai – que nem comemorar o Natal direito comemoram.

Eu me perguntei uma dezena de vezes que diabos eu estava fazendo tão longe das pessoas que eu amo. Pra que? Qual o propósito? Eu me culpei tantas e tantas vezes por não estar perto para acompanhar o crescimento das minhas sobrinhas. Por que?

Mas eu sei porque. E é por elas, também. É pra que elas vejam que também podem sonhar, igualzinho a mim. Minha sobrinha do meio lembra de mim toda vez que vê um avião no céu. Minha sobrinha mais velha dorme agarradinha comigo toda vez que eu estou de passagem por lá. Minha sobrinha mais nova não vai muito com a minha cara, mas é porque ela ainda não me conhece direito. Mas no fim, eu sei que elas vão crescer sabendo que elas podem muito mais e que o mundo é muito maior que o quintal da casa delas – se elas quiserem explorá-lo.

E então chegou a ver de sonhar de novo, mais alto. E, inevitavelmente, a hora de dar tchau mais uma vez para as pessoas que eu amo. Brasília é uma cidade difícil. Não é tarefa simples encontrar pessoas que sejam de verdade com você por essas bandas. Mesmo assim, eu fiz bons amigos nessa trajetória. E agora é hora de me despedir de mais um bocado de pessoas de novo.

Sonhar também tem seu preço. Mas eu sigo, porque os sonhos, mesmo que às vezes sejam meio do avesso, ainda são meu combustível para lidar com tempos tão estranhos.

Kelli Kadanus

Kelli Kadanus, jornalista, cronista, tia coruja. Escrevo para tentar me entender e entender o mundo. É assim desde que aprendi a juntar sílabas. Sonho em mudar o mundo e as palavras são minha única arma disponível.

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