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DIÁRIO DE UMA COMPULSIVA: A PANDEMIA ME OBRIGA A COMER

DIÁRIO DE UMA COMPULSIVA: A PANDEMIA ME OBRIGA A COMER

Depois de quase um ano de pandemia, eu comecei a ter quase certeza que o surto está sendo tão coletivo que a gente nem estranha mais. O número de pessoas em quadro depressivo aumentou drasticamente, ansiosos estão por todos os lados, o tremor da pálpebra agora é tipo nervo ciático que dá em todo mundo e estamos tratando com naturalidade a confissão de nossos vícios. Inclusive, confesso que nada no mundo me convidou tanto a ceder à minha compulsão alimentar do que o argumento “é que na pandemia…”

Ao meu ver, talvez seja essa a grande lição que estou tirando, de que a vida é sobre nossas compulsões. Seja como a gente as trata, seja como elas nos dominam. Não, talvez a maior lição seja a falta de senso dos seres humanos. Não, talvez seja como a vida pode ser louca a ponto de vir uma doença e mudar todos os seus planos. Não, talvez seja como a gente não pode confiar em quase ninguém nessa vida. Não, acho que a maior lição é “quem ainda defende o Bolsonaro precisa de mais tratamento do que eu”. Tá, não sei a maior lição. Mas uma delas, com certeza foi que as nossas compulsões falam muito sobre nós e conosco.

Semana passada eu pensei mil vezes em simplesmente deixar de lado a minha busca pelo auto controle e sair comendo tudo o que visse na vida. Sabe o que me segurou? Nada. Eu fiz, me arrependi e segunda-feira eu estava feito criança que riscou a parede voltando para as minhas pequenas tentativas de me superar. É louco, porque ninguém me julga por comer. Comer não é ilícito. Comer é simplesmente natural, necessidade biológica da gente. Mas para mim, ah meu bem, para mim COMER É UMA DROGA ALUCINÓGENA. E eu fiz isso. Passei a semana drogada com toda comida que eu vi na frente.

Mas sabe o que é? A pandemia deixa a gente muito sensível, olha quantas mortes, olha a vacina que ao invés de ser a nossa esperança, virou guerra de ideologias! Meu Deus! Sabe o que é? É começo de ano que a gente paga muito imposto e fica sem grana pra nada- só pra comer. É que o mundo é tipo uma montanha russa que vai engolindo a gente e eu preciso engolir alguma coisa para sentir que eu faço sentido. Sabe o que é? É que eu tenho uma parte de mim que é tão vazia, que eu preciso entupir de comida. É que eu me olhei no espelho essa manhã e não tive vontade de me arrumar, só de comer. Sabe o que é? É que eu ando tão deprimida, que eu só sinto prazer quando eu já estou muito além da segunda taça, da primeira garfada e além de qualquer coisa que me faça olhar para um pouco mais dentro de mim a ponto de me lembrar que eu ando precisando digerir sentimentos ao invés de carboidrato, proteína e glicose.

Sabe o que é? É essa pandemia, não de Covid, mas de emoções. Sigo deixando o iFood inativo essa semana.

Eline Carrano

Jornalista por profissão, cronista por opção e neta coruja. Escrevo porque preciso justificar as ansiedades que o tarja-preta não dá conta.

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