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Dilma Rousseff e Marina Silva: como o PT matou a terceira via em 2014

Dilma Rousseff e Marina Silva: como o PT matou a terceira via em 2014
Foto: Plínio Xavier/Câmara dos Deputados

Para tentar oferecer uma alternativa à polarização entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL) nas eleições deste ano, vários pré-candidatos tentam se colocar no páreo como uma “terceira via”. Essa não é a primeira vez que a elite política busca criar um caminho para chegar ao Palácio do Planalto e furar a disputa entre dois polos na eleição. Até 2014, esses polos eram formados por um candidato do PT, de um lado, e um candidato do PSDB, de outro. Na eleição de 2018, o PT disputou com Bolsonaro, então no PSL. O ex-governador do Ceará, Ciro Gomes (PDT), tentou emplacar o discurso de candidato da terceira via, mas não conseguiu chegar ao segundo turno. Em 2014, o mesmo aconteceu com a ex-senadora Marina Silva (Rede), que tentou se colocar como alternativa ao PT e ao PSDB.

O Regra dos Terços inicia nesta segunda-feira (20) a terceira e última fase da série “Eleições 2022: Como chegamos até aqui”, que busca contextualizar os fatos históricos que trouxeram o Brasil à eleição mais importante desde sua redemocratização. Ao longo dos próximos dias, serão lançadas reportagens com o tema “Terceira via: a busca por um nome viável” para explicar esse movimento que angaria políticos de todo país, mas tem pouca capacidade de atrair eleitores.

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Terceira via: A busca por um nome viável

As eleições presidenciais de 2014 ocorreram no contexto da mudança de paradigmas políticos causados pelas manifestações de junho de 2013 e pelo envolvimento de diversos políticos petistas no esquema de corrupção na Petrobras, investigado pela Operação Lava Jato. Neste pleito, a ofensiva de ataques contra a candidata Marina Silva (PV) marcou o marketing de campanha da reeleição da então presidente Dilma Rousseff (PT), constituindo a primeira derrota de uma vertente política que buscava uma suposta neutralidade ideológica, batizada oito anos depois como “terceira via”. 

Mesmo sem ser eleita, Marina Silva (então no PV) mostrou-se como uma sólida opção de terceira via em 2010. Na época, Marina obteve 19% dos votos, mas ampliou sua margem para 21% do total ao decorrer de quatro anos, quase chegando ao segundo turno das eleições de 2014, com 22 milhões de votos. 

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Porém, sua ascensão nas pesquisas de intenção de voto também foi o motivo de sua queda nas eleições: ao mostrar-se uma candidata competitiva em 2014, a ex-ministra do Meio Ambiente no governo Lula se tornou o principal alvo de ataques do marketing de campanha de Dilma, que disputava sua reeleição.

Como Marina consolidou-se como opção viável ao eleitor?

Marina adquiriu reconhecimento nacional através de seu trabalho como ministra do Meio Ambiente no primeiro mandato de Lula, entre 2002 e 2006. Além de tornar-se referência na elaboração de políticas para redução do desmatamento nos quatro anos em que atuou como ministra, Marina recebeu o maior prêmio da Organização das Nações Unidas (ONU) na área ambiental, o Champions of the Earth (Defensores da Terra).

Seu destaque não foi apenas na área ambiental, mas também politicamente. A postura moderada de Marina começou a atrair o eleitor de centro-direita a partir de 2013, que se queixava da ineficiência e a má fé na gestão dos recursos públicos, além de indignar-se com a prisão das principais lideranças do PT em decorrência do julgamento do Mensalão e da Lava Jato.

Bolsonarismo: da ascensão à queda
Bolsonarismo: da ascensão à queda

Sua principal vantagem era uma evidente abertura para conciliar pautas progressistas com interesses do mercado (simbolizado por sua amizade com a acionista do banco Itaú, Neca Setúbal). Porém, Marina colecionou derrotas nos embates com a ala mais desenvolvimentista do governo Lula em 2002, principalmente com a então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, que queria acelerar as licenças ambientais.

Insatisfeita com a falta de apoio interno no PT, Marina filiou-se ao PV em 2009 e concorreu à presidência um ano depois, mas não obteve sucesso. Marina também não conseguiu oficializar o partido que criara, o Rede Sustentabilidade, a tempo das eleições de 2014. O registro do partido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) só ocorreu em 2015.

Para concorrer nas eleições de 2014, entrou como vice na chapa de Eduardo Campos (PSB). Após a morte de Campos em um acidente de avião, Marina assumiu a candidatura à presidência. Apenas cinco dias após tornar-se candidata oficial do PSB, Marina ultrapassa Aécio Neves (PSDB)  em dez pontos, alcançando 29% das intenções de voto. Segundo a mesma pesquisa, a simulação de segundo turno indicava que Marina venceria tanto Dilma quanto Aécio. 

Na sucessão do crescimento exponencial de Marina, a  operação Lava Jato se aprofundou, envolvendo denúncias de corrupção na Petrobrás com a participação do PT e membros do governo Dilma. A partir de 2013, as manifestações que começaram com a demanda do Movimento Passe Livre (MPL), com alinhamento progressista, acabaram incorporando outras tendências, dirigindo-se à direita com a adesão de setores da classe média, que implantaram um sentimento anticorrupção e antipetismo no país. Com essa abordagem, os manifestantes expressaram seu desejo da “saída da esquerda” da presidência e a consequente diminuição da corrupção.

Lula Lulismo esperanças controversas eleições
Lulismo: As esperanças controversas

Mesmo com um desempenho positivo nas pesquisas de intenção de voto, Marina foi alvo de críticas de seus adversários e setores da sociedade civil desde a divulgação de seu plano de governo. Os pontos polêmicos do documento incluíram a defesa do casamento gay, da criminalização da homofobia e da lei de identidade de gênero, que permite alteração de sexo e nome na documentação.

Diante da postura de Marina, o pastor da Igreja Evangélica Assembleia de Deus, Silas Malafaia, indignou-se com o apoio da presidenciável, também evangélica, ao casamento homossexual, criticando sua postura via Twitter. Forçando Marina a alterar suas propostas em menos de 24 horas depois do lançamento do plano de governo, Malafaia colocou em dúvida a firmeza e a capacidade de Marina para promover as mudanças que o Brasil precisava, fornecendo argumentos para que os demais candidatos e eleitores adversários questionassem a força de Marina.

Propaganda elaborada por João Santana prejudica Marina Silva

Em 2014, entre os rótulos negativos atribuídos à Marina pela campanha elaborada pelo marqueteiro do PT João Santana, estavam a ideia de que a candidata era fraca e não aguentaria as responsabilidades da presidência por ter chorado e criticado os ataques que recebeu ao longo das eleições.

Considerando sua rivalidade com a então presidente Dilma Rousseff, que tentava reeleição, circulava o boato de que uma das primeiras medidas de governo de Marina seria acabar com a Petrobras, o programa Minha Casa, Minha Vida e com a ferrovia Transnordestina.

Por ser amiga da herdeira do banco Itaú, Maria Alice Setúbal, falava-se erroneamente que Marina cobraria 30% do cartão do Bolsa Família. Neca Setúbal foi, inclusive, a responsável por coordenar o plano de governo de Marina e ajudá-la com o financiamento de campanha em 2014, quando ainda eram permitidas doações de empresas. 

No entanto, embora Neca tenha aproximado Marina de potenciais investidores e empresários que apoiavam seu plano de governo, o auxílio de uma das herdeiras do Itaú também foi uma das fraquezas de Marina nos debates. Seus opositores, especialmente Dilma, associavam Marina negativamente aos interesses do mercado.

Por ser evangélica e ligada à Assembleia de Deus, Marina foi alvo de uma fake news que confundiu sua fé com sua conduta como gestora pública de um Estado laico. No Pará, acreditava-se que a candidata à presidência acabaria com uma das maiores festas católicas locais, o Círio de Nazaré, caso fosse eleita.

Sua religião, inclusive, também foi utilizada injustamente pelo então candidato Jair Bolsonaro (PL) nas eleições de 2018. Marina perdeu a maioria de seus eleitores evangélicos para Bolsonaro, enquanto seus apoiadores mais progressistas se afastaram dela por dois motivos: tomar partido da candidatura de Aécio Neves no segundo turno das eleições de 2014 e apoiar o impeachment de Dilma em 2016.

Até hoje, não se sabe se os boatos a respeito de Marina circularem entre a população por uma estratégia de campanha do PT. Porém, a autoria do marqueteiro João Santana e sua intenção de prejudicar a candidatura de Marina é inegável em uma das propagandas eleitorais de Dilma em 2014, elaborada para criticar a proposta da então presidenciável do PSB sobre dar autonomia ao Banco Central.

Exibida pelo PT durante o horário eleitoral, a propaganda inicia com duas cenas exibidas em sequência: na primeira, banqueiros dão risadas em uma reunião; já na segunda, uma família faz uma refeição. Na locução, a propaganda afirma que o poder dos bancos aumentará com a proposta de Marina de dar autonomia ao Banco Central.

A narração, contudo, é o recurso de menor expressividade na propaganda. João Santana aproveitou o impacto visual da mesma família do início da propaganda vendo seus pratos de comida sumindo e demonstrando desolação e tristeza em seus rostos. A propaganda termina dizendo que, caso eleita, Marina daria “poder aos banqueiros” de decidir até sobre “empregos e salários” da população. 

A exibição de imagens fortes preocupou o procurador-geral eleitoral, Rodrigo Janot, que encaminhou um parecer ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em setembro de 2014, pedindo a suspensão da propaganda de campanha de Dilma. 

Em sua justificativa, Janot afirma que a propaganda veiculada pelo PT faz algo vedado pela legislação eleitoral, que consiste em “criar, artificialmente, na opinião pública, estados mentais, emocionais ou passionais”. “A cena criada na propaganda é forte e controvertida, ao promover, de forma dramática, elo entre a proposta de autonomia do Banco Central e o quadro aparente de grande recessão, com graves perdas econômicas para as famílias”, afirmou.

Em 2014, a linha de argumentação de Aécio Neves (PSDB) consistiu em cobrar Dilma pelo fracasso da gestão econômica do país, enquanto a então presidente da República acusava Marina Silva de ser despreparada, sem força para governar e, principalmente, de ter uma história vinculada ao PT. Terminando as eleições como terceira colocada, Marina teve sua candidatura inviabilizada por uma antiga aliada do PT, partido ao qual foi filiada em 2002.

Letícia Fortes

Estudante de Jornalismo na PUCPR e estagiária do Regra. Escrevo para evidenciar e esclarecer assuntos que exigem nossa atenção, pois essa é minha forma de defender uma comunicação humanizada, acessível e engajada socialmente.

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