DITADURA, CRISE SANITÁRIA, FOME E INFLAÇÃO LEVAM POPULAÇÃO A PROTESTOS EM CUBA

A ditadura, apagões, escassez de alimentos, crise econômica e sanitária são os principais motivos que desencadearam protestos nas ruas de Cuba nos últimos dias. Manifestações como essas são raras no país, controlado pelo ditador Miguel Díaz-Canel. As últimas grandes reivindicações populares foram registradas em 1994, durante o governo de Maleconazo. O arquipélago de Cuba fica localizado na América Central e tem cerca de 11.194.000 habitantes, de acordo com uma estimativa de 2019. 

As primeiras manifestações foram vistas nas cidades de San Antonio de los Baños e Palma Soriano, e em seguida se espalharam por todo país. Além dos pedidos de direitos básicos à vida, os cubanos também pedem a renúncia do atual presidente, Miguel Díaz-Canel.

Governo de Cuba/Divulgação

O Ministério do Interior do país confirmou a morte de um homem na periferia de Havana durante os protestos. Os ativistas que organizam as manifestações estimam que ao menos 150 pessoas foram presas e outras estão desaparecidas. O presidente do país afirma que os protestos acontecem por problemas causados pelas sanções econômicas aplicadas pelos EUA. Já o presidente americano, Joe Biden, afirma que o povo “exige sua liberdade de um regime autoritário”.

Para o pesquisador em relações internacionais do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional (NPII) da Fundação Getulio Vargas (FGV), Leonardo Paz, os apagões, o acesso limitado a alimentos e a crise econômica são os principais elementos do protesto.

“Acho que essas são as questões que mais impactam drasticamente as pessoas. Realmente a covid é uma situação importante, mas todos sabem o que está acontecendo, acho que isso por si só não seria questão. Morrendo gente, as pessoas sem poderem comer e sem luz, a questão fica muito diferente”, avalia

Cuba vive apagões e insatisfação com o governo    

O pesquisador explica que a ilha está passando por dificuldades para a compra de combustíveis, o que afeta as termelétricas do país e gera a falta de eletricidade. “Apagões oferecem um drama social muito complicado, isso realmente oferece um evento muito complicado”, diz. 

Esse é o primeiro grande protesto após o fim do regime dos irmãos Fidel Castro e Raúl Castro que estiveram à frente do país durante décadas. Em 2018, Miguel Díaz-Canel foi o primeiro presidente eleito desde a Revolução Cubana que não fazia parte da família Castro. Leonardo Paz analisa que todos os regimes são criados em torno de uma personalidade e dificilmente resistem sem seu criador. 

Para o pesquisador, a insatisfação com o governo atual também é um importante elemento para a situação política atual do país. “[Miguel Díaz-Canel] não tem a mesma figura emblemática, aquela figura mística que os irmãos Castro tinham. Então, isso vai ajudar a corroer um pouco a legitimidade do sistema, porque o regimento revolucionário, da revolta que eles tinham contra o capitalismo, que os Castros lideraram”, explica o pesquisador. 

O economista, cientista político e trader do mercado de criptomoedas austro libertário, Uriel Carrano, destaca que antes da Revolução Cubana, o país tinha uma situação per capita melhor que a Áustria, Itália e maior que o Japão. O índice de pessoas de classe média era maior que o da Suíça. “Depois disso, a União Soviética aportou bilhões anualmente e desde então o povo vive na miséria e na propaganda ideológica, que é vendida como algo que deu certo”, explica.

Carrano explica que após a Revolução, a saúde e a educação que tinham bons índices decaiu e todos esses fatores refletiram nos serviços básicos que deveriam ser prestados à população com qualidade. “O povo passa fome e sofre com os impactos da má alimentação”, aponta.

Pandemia de Covid-19

Em entrevista à CNN, o representante da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAs) e da Organização Mundial da Saúde (OMS), José Geraldo Moya Medina, disse que Cuba já havia registrado casos da variante Delta em julho deste ano. “Nas últimas duas ou três semanas o aumento de casos foi mais intenso. As autoridades confirmaram a variante delta no interior de Cuba”, disse. 

Segundo o representante da OMS, a situação era ainda pior em cidades do interior. Em Havana, capital do país, as vacinas produzidas no país, com eficácia de 92%, já haviam começado a serem aplicadas. De acordo com o JHU CSSE COVID-19 Data, até agora já foram registrados 257 mil casos positivos de covid-19 e 1.659 mortes causadas pela doença. No domingo (11) o país registrou recorde de infecção (6.923) e de mortes (47) desde o início da pandemia. 

Inflação também desafia Cuba

Leonardo Paz relembra que a literatura mostra que grande parte dos protestos no mundo tiveram por trás questões ligadas à inflação, principalmente, o aumento desenfreado do preço dos alimentos. “A Primavera Árabe foi assim. As pessoas, no primeiro momento, queriam colocar que as pessoas queriam votar e serem livres. O que deu mais força ao movimento é você ter o salário num determinado ano e ele cobre a sua subsistência, mas chega no ano seguinte, o seu salário não cobre mais a sua subsistência”, exemplifica. “Inflação em alimentos é, sim, um dos grandes elementos para protestos populares”, conclui. 

Além da pandemia de covid-19 que tem afetado a economia de todo o mundo, em Cuba a outro fator que impulsiona o aumento excessivo dos preços é a recente reforma monetária.  Em dezembro de 2020, Díaz-Canel anunciou que iria unificar as duas moedas, o Peso Conversível (CUC) e o Peso Cubano (CUP), do país em uma só. À época, o presidente disse que a medida não era isenta de riscos e que poderia haver uma inflação superior às previsões.

O CUP era a moeda tradicional do país, ou seja, se você fosse a Cuba trocaria dólar ou real por esse dinheiro. Já o CUC era a moeda utilizada pela população. “[CUC] era usada no mercado paralelo de forma que a população cubana poderia comprar os produtos muito mais baratos”, diz Leonardo Paz. Ele explica que a decisão do governo em unificar as moedas teve impactos negativos no poder de compra da população. 

“Ao juntar essas duas moedas para ter uma só, eles, obviamente, aumentaram os salários mínimos, fizeram uma reforma e, se não me engano, aumentaram os salários em 450%, 500% para equilibrar o peso da moeda que era superior. Lembrando: o CUC valia menos que o peso cubano”, explica. De acordo com Leonardo Paz, ao aumentar os salários o valor dos bens triplicaram de valor o que fez as pessoas perderem o poder de compra. 

Reação do governo

Em pronunciamento, Díaz-Conel, convocou a população para enfrentar os manifestantes que estão nas ruas pedindo por melhores condições de vida e liberdade no país caribenho. A fala do ditador, vista para muitos como uma convocação para uma guerra civil em Cuba, não teve o efeito esperado. Jornalistas, artistas e demais membros da sociedade usaram as redes sociais para mostrar o que está acontecendo no país. Desde de domingo (11), a população cubana tem usado as redes para mostrar o que está acontecendo na ilha.

Como forma de tentar esfriar as manifestações e evitar que pessoas se reúnam para protestarem nas ruas, o regime da ilha cortou o fornecimento de internet em todo país. Na segunda-feira (12), de acordo com o jornal Folha de S. Paulo, plataformas como o Whatsapp, Instagram, Telegram e Facebook quando funcionaram estavam instáveis. Em pronunciamento, o ditador Díaz-Conel, atacou youtubers e disse que quem os acompanhasse estariam uma mudança de regime que não se preocuparia com o bem-estar da população.

De acordo com a organização, NetBlocks, que monitora a internet livre pelo mundo, o acesso a foi suspenso em 50 pontos de Cuba.

O acesso a web é recente no país. Apenas em 2018, os moradores puderam conectar os celulares a internet mobile, no entanto, os planos eram caros o que dificultou que toda a população pudesse ter acesso. Um ano depois, em 2019, a internet pode chegar as residências, no entanto, o acesso é restrito.

Além disso, manifestantes estão sendo presos pela ditadura que reprime fortemente quem se opõe ao regime. A comissária da Organização das Nações Unidas (ONU), Michelle Bachelet, exigiu que o país liberte os presos nos protestos e que reestabeleça a conexão com a internet. Para a alta comissária da organização para Direitos Humanos, Michelle Bachelet, é preocupante que pessoas estejam presas em lugares desconhecidos e sem qualquer comunicação com outras pessoas.

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