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Dona Maria, obrigada

Dona Maria, obrigada

A minha avó está indo embora.

Eu sei que quem ler essa coluna deve estar pensando que eu desisti do fato de que ela pode voltar do coma depois de 4 paradas cardíacas e um infarto, mas não é isso, é só uma realidade. Ela pode sair hoje do hospital e viver mais um tempo, mas o fato é que ela está indo embora. Os médicos já nos informaram, os sinais vitais dela mostram isso, a gente (eu e minha família, amigos, pessoas que a amam muito) está tentando lidar da melhor forma, mas não preciso mentir: eu estou destruída.

Mas, ao mesmo tempo que essa é a maior dor que eu sinto na minha vida, é também o momento em que eu sinto mais gratidão pela vida. Eu sei, eu estou no direito de me sentir magoada com Deus e até mesmo furiosa. Eu sei, porque eu já estive assim com Ele. E eu sei também que seria muito aceitável eu estar agarrada em uma Bíblia, buscando palavras de consolo, mas todo o consolo que eu preciso de Deus agora está na concepção de que eu convivi com a melhor pessoa que o mundo poderia ter conhecido. Quando o medo dessa partida bate, eu lembro dela dizendo que o medo nunca construiu nada. Quando sinto saudade, lembro dela dizendo que a saudade só acontece quando tem amor, então tudo bem sentir. Quando estou cansada, faço um café, que é o que ela sempre faz quando a vida pesa demais. Eu ainda me recuso falar dela no passado, como se já não estivesse mais aqui, porque ela está viva e eu irei viver a vida dela até o último suspiro daqueles pulmões machucados e daquele coração flagelado.

E aí, eu me deparei também com uma emoção muito inusitada diante dessa situação. Eu sempre achei que eu iria sucumbir, que eu iria me enterrar no mais fundo de uma emoção ruim, mas eu estou em paz. Em paz porque a nossa vida juntas sempre foi munida de muita luta, mas ao mesmo tempo de muita troca. A gente se amou absurdamente a vida inteira. E agora, no que parece ser o fim, a gente ainda se ama desesperadamente. Os olhos da minha avó sempre serão os mais bonitos que eu já vi e a sua habilidade de transformação, evolução, é a maior lição que eu aprendi na vida. A minha avó é liberdade e, talvez, seja por isso que eu estou em paz. Porque depois de uma vida inteira sendo obrigada a fazer tanta coisa que ela não queria, agora ela está livre para decidir se vai descansar ou lutar mais um pouco.

Além disso, minha avó sempre foi uma pessoa que se sentiu muito sozinha a vida toda. E eu sei que eu consegui sanar essa emoção, junto ao meu irmão, porque nós não a deixamos sentir isso nos últimos tempos. Nós estivemos aqui. Nós estamos. E a solidão que ela sentiu nesses anos todos e que foi representada nas pequenas frases de autonomia dela que, no fundo, era a expressão da consciência de que na vida a gente nasce e morre sozinhos, foi se dissipando aos poucos, até ela dizer para mim na semana passada que a gente enfrenta qualquer coisa juntos (eu, ela e meu irmão), porque esse mesmo Deus que eu deveria estar irritada agora, nos uniu.

E agora, aqui, vivendo um luto antecipado, eu consigo entender o que a minha melhor amiga me disse ao explicar na sua crença de que a gente escolhe a família que vai nascer e que as nossas encarnações não são um acaso. Hoje, nesse instante, eu confio. Porque eu tenho certeza de que em todas as vidas eu irei escolher estar com a Dona Maria.

Obrigada, vó. Obrigada.

Eline Carrano

Jornalista por profissão, cronista por opção e neta coruja. Escrevo porque preciso justificar as ansiedades que o tarja-preta não dá conta.

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