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Corrida pela vacina e condução da pandemia não viabilizaram candidaturas de Doria e Mandetta

Corrida pela vacina e condução da pandemia não viabilizaram candidaturas de Doria e Mandetta

Ao se contraporem à condução negacionista da pandemia de Covid-19 realizada pelo presidente Jair Bolsonaro (PL), o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (União Brasil) e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), adquiriram projeção política nacional a ponto de cogitarem candidaturas à presidência nas eleições deste ano. As candidaturas de ambos, porém, desidrataram por discordâncias políticas com o próprio presidente e também por falta de apoio político dentro do partido, como foi o caso de Doria.

Para o cientista político da Uninter, Doacir Quadros, as candidaturas que ganharam projeção através da “corrida da vacina” foram mais circunstanciais do que duradouras. “Existe um fator social, no caso a pandemia, que entrou em conflito com fatores políticos, como a necessidade de vários partidos de terceira via terem que negociar um nome em comum e a rejeição que tanto Doria quanto Mandetta acumularam em seus partidos”, explica.

terceira via
Terceira via: A busca por um nome viável

Na análise de Quadros, as candidaturas de Doria e Mandetta tiveram uma vida útil determinada pelo período de ascensão e auge da pandemia. “Eles de fato tiveram uma projeção no cenário nacional devido a uma questão social, que lhes trouxe popularidade. Porém, para que ela se reverta em capital político, existe uma dificuldade. Só a dinâmica intrapartidária pode solucionar essa questão, e foi ela que tolheu as candidaturas de Doria e Mandetta pelo alto índice de rejeição desses candidatos entre os eleitores”, afirma.

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Mandetta se colocou como contraponto a Bolsonaro dentro do próprio governo, quando era ministro da Saúde. Médico de formação, Mandetta defendeu a atuação do SUS durante a pandemia, além de recomendar que os os brasileiros seguissem as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para prevenção ao vírus, como isolamento social. Apoiado em evidências científicas, Mandetta se recusou, por exemplo, a recomendar o uso de cloroquina em pacientes infectados – medida que se provou ineficaz para combater o vírus. Ele acabou deixando o governo devido à discordâncias com o presidente em relação a condução da emergência de saúde.

Doria também foi um contraponto a Bolsonaro durante a condução da pandemia. Enquanto o presidente defendia a volta à normalidade e o “isolamento vertical”, apenas da parcela da população que fazia parte do grupo de risco, o governador de São Paulo adotou medidas duras para evitar a proliferação do vírus.

Além disso, Doria apostou no desenvolvimento de uma vacina, a Coronavac, desenvolvida pelo Instituto Butantan, em São Paulo. Enquanto isso, Bolsonaro se colocava contra a vacinação e o governo federal atrasou o máximo que pôde o início da imunização, inclusive negando ofertas de vacinas da Pfizer, conforme mostrou a Comissão Parlamentar de Inquérito aberta no Senado para investigar as omissões do governo federal, a CPI da Pandemia.

De empresário a político: entenda a trajetória do tucano João Doria

João Doria iniciou sua carreira política provocando um ambiente instável dentro do PSDB. Até 2016, ele era um empresário paulistano que, embora já tivesse atuado como secretário de turismo de São Paulo e presidente da Embratur, nunca havia exercido um cargo eletivo. Para concorrer à prefeitura de São Paulo, o empresário paulistano derrotou Andrea Matarazzo nas prévias do partido. Com mais de 20 anos de influência no PSDB, Matarazzo acusou Doria de comprar votos de correligionários nas prévias do partido, ao passo que o tucano atribuiu as acusações à “instabilidade emocional” de Matarazzo, que saiu do partido logo após sua derrota nas prévias para a prefeitura de São Paulo. 

À época, Doria tinha o governador de São Paulo Geraldo Alckmin como seu cabo eleitoral, o qual contrariou a opinião de outras lideranças importantes do partido para apoiar essa candidatura, como Fernando Henrique Cardoso, José Serra e Aécio Neves. Antes de desfiliar-se do PSDB, Matarazzo também acusou o governador de utilizar a estrutura do Executivo estadual para favorecer a candidatura do empresário paulistano. Desde então, o apoio interno a Doria no PSDB jamais foi unânime.

Em outubro de 2016, Doria estreou na política vencendo a disputa pela prefeitura de São Paulo com 53,29% dos votos. Essa foi a primeira vez na qual a eleição para o comando da capital paulista foi decidida já no primeiro turno. No entanto, após cumprir apenas metade de seu mandato como prefeito, Doria decidiu candidatar-se ao governo de São Paulo, em 2018. Para vencer Márcio França (PSB), Doria fez sua campanha eleitoral com o mote “BolsoDoria”, associando sua imagem ao candidato mais próximo de vencer a disputa pelo Planalto. Para mostrar seu alinhamento ideológico com Bolsonaro, Doria passou a apelidar seu adversário no segundo turno, Márcio França, como “Márcio Cuba”, equiparando-o à esquerda radical para atrair a simpatia dos bolsonaristas.

Bolsonarismo: da ascensão à queda
Bolsonarismo: da ascensão à queda

Após as eleições, Doria começou a criticar pontualmente as falas de Bolsonaro, até consolidar seu rompimento definitivo durante a pandemia de Covid-19. Enquanto Bolsonaro combatia as medidas de distanciamento social, Doria adotou um tom moderado e agiu para que São Paulo começasse a fabricar vacinas antes das primeiras importações do governo federal. 

Após assumir o cargo de governador, Doria começou a articular-se para aumentar sua influência dentro do PSDB, colocando aliados nos diretórios do partido, enquanto os antigos nomes da sigla se afastavam de postos de comando após serem citados em denúncias de corrupção. Um dos políticos que se incomodou com as mudanças internas promovidas por Doria foi o deputado Aécio Neves. 

Em 2019, o governador de São Paulo estimulou a abertura de dois processos internos contra a permanência de Aécio no partido, mas ambos foram arquivados. Os pedidos foram apresentados por dois diretórios do PSDB: um na cidade e o outro no estado de São Paulo. Na época, Doria afirmou que o “velho PSDB escondia sujeiras” e que iria “até o fim” para expulsar Aécio. Em entrevista no programa “Roda Viva”, Doria chamou o deputado mineiro de “covarde” e “pária dentro do PSDB”. 

Porém, enquanto Doria explicitava suas críticas a Aécio, os tucanos defendiam que o mineiro atuava em “prol dos interesses do coletivo” e que sua interlocução com as demais bancadas era “essencial nas costuras de acordos” dentro do Congresso. A influência de Aécio na Câmara tornou-se clara na eleição à presidência da Casa, quando convenceu quase metade dos 33 deputados tucanos a apoiar candidatura de Arthur Lira (PP-AL) em vez de Baleia Rossi (MDB-SP), apoiado por Doria e pelo então presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Com Lira na presidência da Câmara, Aécio Neves conseguiu se eleger presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) da Casa, que tem o dever de estabelecer a interlocução com o Ministério das Relações Exteriores e embaixadas de países estrangeiros.

Outra situação que diminuiu a influência de Doria no PSDB foi a indicação de um aliado de Aécio, o deputado Rodrigo de Castro, para a liderança do partido na Câmara. Segundo os tucanos, a mudança aumentou a influência da bancada mineira na Casa em detrimento da paulista, mais próxima do governador de São Paulo.

Em março de 2021, Aécio já desconsiderava a viabilidade da candidatura de Doria à presidência. Na época, o deputado mineiro cogitou a possibilidade de o partido se abster da indicação de um candidato a presidente para apoiar algum nome do que chamou de “centro ampliado”, como Ciro Gomes (PDT).

Mesmo após tornar-se alvo dos bolsonaristas e de ruir seu apoio interno no PSDB, Doria conseguiu vencer as prévias do partido para a presidência da República, mas por uma pequena margem em relação ao segundo colocado, o governador do Rio Grande do Sul Eduardo Leite. Porém, desde o anúncio de sua candidatura, Doria oscilou entre 2% e 5% nas pesquisas de intenção de voto, jamais ultrapassando o quarto lugar nas sondagens. A falta de confiança do PSDB na candidatura de Doria ficou evidente em abril deste ano, quando o partido começou a procurar outras opções para a terceira via.

Bastou um ano e dois meses após Aécio comentar o fracasso da candidatura de João Doria para que o tucano anunciasse sua desistência na disputa pelo Planalto, oficializada em 23 de maio de 2022. Após renunciar à candidatura ao Planalto, o PSDB elogiou a atitude de Doria de reconhecer a inviabilidade da candidatura, pois a falta de perspectiva de crescimento eleitoral de Doria prejudicaria a carreira de seu antigo vice, Rodrigo Garcia, eleito como candidato do partido ao governo de São Paulo.

O presidente do partido, Bruno Araújo, afirmou que as portas da sigla seguem abertas para o ex-governador de São Paulo. Nacionalmente, o PSDB deve definir se vai apoiar a senadora Simone Tebet (MDB-MS) para a presidência. Porém, a prioridade do PSDB é manter o controle sobre o governo paulista, que o partido controla desde 1995.

De afilhado a rival do próprio padrinho político

O racha na relação entre Doria e Alckmin começou desde que o empresário abandonou a prefeitura de São Paulo e, para eleger-se como governador do estado, associou sua imagem mais a Bolsonaro e menos a Alckmin, que era o candidato do PSDB ao Planalto, ignorando sua aliança com o ex-governador de São Paulo quando as pesquisas mostraram sua baixa popularidade. Nesse contexto, as dissidências ficaram evidentes em 2018, quando Alckmin contrariou seu perfil moderado durante uma reunião da direção do PSDB e deu a entender que Doria era um “traidor”. 

As diferenças entre os ex-aliados foram se intensificaram até este ano. A vitória de Doria nas prévias do partido para a disputa pela presidência culminou na saída de Alckmin do PSDB e sua posterior filiação ao PSB, a fim de formar uma chapa como vice de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na disputa pela presidência. 

Doria, por sua vez, criticou publicamente a guinada ideológica feita por Alckmin, ignorando o fato de que ele mesmo apoiou Bolsonaro para vencer as eleições de 2018 e, como governador, tornou-se antagonista do presidente. “Geraldo Alckmin, você não está arrependido de sair depois de 33 anos em que combateu a corrupção de Lula nos 13 anos de lulismo no governo do PT, um partido que o senhor criticou inúmeras vezes em debates, manifestações, artigos? Agora o senhor se associa a Lula e aceita fazer parte de uma chapa como vice-presidente de Luiz Inácio Lula da Silva?”, questionou o governador de São Paulo.

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Lulismo: As esperanças controversas

De ministro da Saúde ao isolamento político: como fica a carreira de Mandetta?

Através de coletivas de imprensa diárias no início da pandemia de Covid-19 no Brasil, o então ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta adquiriu o protagonismo das políticas públicas do governo federal contra a pandemia de coronavírus, o que irritou o presidente Jair Bolsonaro e culminou em sua demissão. 

Em junho de 2021, Mandetta considerava a possibilidade de ele mesmo representar o “centro político” ou a “terceira via”, considerando o capital eleitoral que ganhou após deixar o governo Bolsonaro em abril de 2020 por discordâncias com o presidente sobre medidas de isolamento social e o uso de cloroquina para tratar pacientes com Covid-19. 

Na época, o ex-ministro da Saúde afirmou que a única chance de um candidato da terceira via adquirir protagonismo nas pesquisas era a união entre partidos. “Se fragmentar esse centro, se tiver três, quatro, cinco candidaturas, não conte comigo. Eu não vou fazer esse papel pra conspirar, para que os extremos consigam, com os seus cercadinhos de radicais, ir pro segundo turno. Acho que é pra entrar para vencer a eleição”, defendeu.

Porém, em março do ano seguinte, Mandetta denotou sua mudança de planos após anunciar sua pré-candidatura ao Senado, devido à baixa adesão gerada pela possibilidade de sua candidatura à presidência. Porém, o ex-ministro da Saúde enfrentará a ministra da Agricultura e favorita nas pesquisas, Tereza Cristina, por uma vaga no Senado por Mato Grosso do Sul. 

Letícia Fortes

Estudante de Jornalismo na PUCPR e estagiária do Regra. Escrevo para evidenciar e esclarecer assuntos que exigem nossa atenção, pois essa é minha forma de defender uma comunicação humanizada, acessível e engajada socialmente.

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