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Educação pode reduzir desigualdades sociais que impactam perspectiva de futuro de jovens periféricos no Brasil

Educação pode reduzir desigualdades sociais que impactam perspectiva de futuro de jovens periféricos no Brasil
Marcelo Camargo/Agência Brasil

Em 2018, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) constatou que o Brasil era o oitavo país mais desigual do planeta, com a renda dos 10% de brasileiros mais ricos sendo 13 vezes maior que a média dos 40% mais pobres. A partir de 2020, a pandemia de Covid-19 agravou rapidamente a crise social e econômica do Brasil, revelando que negros e mulheres continuam sendo a base da pirâmide social brasileira devido ao baixo acesso à educação pública de qualidade e Ensino Superior, além de fatores raciais e de gênero. 

Durante a pandemia, a evasão escolar de crianças e adolescentes aumentou 171% em comparação a 2019, quando o IBGE divulgou a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua). De acordo com um levantamento da ONG Todos pela Educação, 244 mil brasileiros de seis a 14 anos estavam fora da escola no segundo trimestre de 2021. Além disso, o  Instituto de Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) constatou que a educação é, historicamente, a dimensão na qual o Brasil tem menor mobilidade social. 

Acesso à educação não acompanhou a qualidade do ensino no Brasil

Embora o Brasil tenha avançado em direção à universalização do acesso ao ensino fundamental e ao médio nas últimas duas décadas, a evasão escolar entre os jovens de famílias pobres ainda é bem maior do que entre os jovens ricos, de acordo com dados da Pnad Contínua de 2017, do IBGE. Menos de 75% dos jovens de famílias pobres concluíram o Ensino Fundamental, contra 100% de adolescentes de famílias ricas. 

Segundo o diretor de pesquisa do IMDS, Sérgio Ferreira, a evasão escolar é o principal fator que prejudica a mobilidade social no Brasil, isto é, a possibilidade de um indivíduo estudar, trabalhar e prosperar financeiramente para atingir uma classe social mais elevada do que sua família. “Como a diferença salarial entre pessoas com Ensino Superior e com Ensino Médio é muito grande, terminar a universidade é necessário para a ascensão social no Brasil. Isso não é verdade em países europeus, onde a diferença de escolaridade não afeta tanto a renda mensal das pessoas.”

Além disso, Ferreira ressalta que os efeitos da evasão escolar impactam mais do que a futura condição financeira. “Outras dimensões mais associadas ao bem-estar, como saúde e composição familiar, tendem a ser piores entre quem não completou o Ensino Médio. Essas pessoas, por exemplo, estarão mais propensas a serem trabalhadores informais, a formar laços familiares instáveis, a sofrerem violência nas ruas quando mais novos a terem doenças crônicas quando mais velhos, talvez até a passarem pelo sistema carcerário. Essas são dimensões que trazem infelicidade na vida, mesmo que desassociadas do critério econômico de renda”, explica.

Evasão escolar e queda de matrículas são efeitos da pandemia da Covid-19 

Além do aumento da evasão escolar, a pandemia de Covid-19 também provocou a redução do número de matrículas no Ensino Fundamental e Médio, prejudicando a universalização do ensino no Brasil. Enquanto 99% das crianças e adolescentes entre 6 e 14 anos estavam matriculados em 2019, essa taxa caiu para 96,2% em 2021, menor número de matrículas registradas no Brasil desde 2012.

No contexto de crise sanitária, o pesquisador Sérgio Ferreira destaca que a evasão escolar é multifatorial, isto é, não depende apenas da escola. Por isso, trazer essas crianças e adolescentes de volta à escola após a pandemia exige uma estratégia mais ampla. “A evasão é determinada por diversas causas, como o ambiente familiar. A escola não consegue resolver tudo e, por isso, esse problema requer o apoio da assistência social e da saúde pública. Há questões de temperamento do jovem, inclusive, que podem ser tratadas de forma focalizada. Existem programas que trabalham para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais e psicológicas, que têm efeitos comprovados na vida desses jovens, incentivando-os a continuarem os estudos”, contextualiza.

Além disso, o diretor de pesquisa do IMDS ressalta que a baixa mobilidade social no Brasil faz com que a hereditariedade não determine, mas influencie fortemente a possibilidade de ascender socialmente. “Por conta desse enorme ‘prêmio’ pelo Ensino Superior, passa a ser muito importante analisar as desigualdades nesse nível de ensino. Cerca de 70% dos filhos adultos de pais com ensino superior repetem a escolaridade do pai ou vão além, enquanto apenas 5% dos filhos de pais sem instrução chegam no Ensino Superior. Esses são o que chamamos no instituto de ‘super móveis’, isto é, pessoas que destacamos na multidão”, classifica Ferreira.

Fase de alfabetização foi a mais afetada pela paralisação de aulas presenciais

Durante a pandemia de Covid-19, o Brasil retrocedeu 15 anos na alfabetização de crianças entre cinco e nove anos de idade. Segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a taxa de crianças fora das escolas saltou de 1,39% em 2019 para 5,5% em 2020. Para Sérgio Ferreira, a paralisação das aulas presenciais para essa faixa etária foi uma medida irresponsável, pois causou prejuízos de aprendizado a longo prazo nas séries escolares seguintes. “O ensino remoto nunca foi uma possibilidade viável para crianças em estágio de alfabetização, até porque existe uma janela de quatro a sete anos que é, neurologicamente, a idade correta e possível para ensinar um ser humano a ler e escrever”, justifica.

Por isso, o diretor de pesquisa do IMDS propõe a adoção de programas de reforço escolar nas redes públicas de ensino aliada à busca ativa por jovens que abandonaram a escola, para trazê-los de volta ao ambiente escolar e reduzir prejuízos futuros na renda e na qualidade de vida caso não completassem os estudos. “No Espírito Santo e no Ceará, já existem programas de monitoramento de abandono escolar e outras ferramentas estatísticas que permitem identificar os jovens que abandonaram a escola e trazê-los de volta para os estudos. Isso é crucial para que o esforço seja focalizado nos alunos que mais precisam”, explica Ferreira.

Letícia Fortes

Estudante de Jornalismo na PUCPR e estagiária do Regra. Escrevo para evidenciar e esclarecer assuntos que exigem nossa atenção, pois essa é minha forma de defender uma comunicação humanizada, acessível e engajada socialmente.

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