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Eleições 2022: Combater a desigualdade é chave para resolver principais preocupações dos brasileiros, diz economista

Vladimir Platonow/Agencia Brasil

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O Brasil está a menos de um ano das eleições de 2022 e as pesquisas de opinião divulgadas nas últimas semanas ajudam a entender quais são as principais preocupações dos eleitores. Ao contrário do que aconteceu em 2018, quando temas como combate à corrupção e segurança pública levaram o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) à vitória, desta vez os brasileiros parecem estar preocupados com situações como desemprego, pobreza, inflação e acesso à saúde, entre outros. As pesquisas ajudam a diagnosticar os problemas que o presidente eleito no ano que vem terá que enfrentar. Mas como resolvê-los? A chave para começar a saná-los pode estar no combate à desigualdade.

De acordo com a Pesquisa Atlas, divulgada em novembro deste ano, 59% dos eleitores brasileiros apontam como principais problemas do Brasil o desemprego, a inflação, pobreza e desigualdade social. Somadas, essas questões são enxergadas como mais graves do que a corrupção, apontada como maior problema do país por 21,4% dos entrevistados. O acesso à educação (5,5%), à saúde (5%); criminalidade (3,9%) e degradação do meio ambiente (1,5%) também foram apontados pela pesquisa. A pesquisa Atlas ouviu 4.921 pessoas de forma online entre os dias 23 e 26 de novembro. A margem de erro é de um ponto percentual para mais ou para menos. O índice de confiança é de 95%.

Outro levantamento, desta vez feito pelo Datafolha, mostra que para 22% dos entrevistados a saúde é o principal problema do país. O percentual é um pouco menor do que o registrado em dezembro de 2020 (27%), período em que o país ainda não havia passado pelo momento mais mortal da pandemia. Para além das questões sanitárias, também foram apontados outros três pontos como os mais preocupantes atualmente: desemprego, economia e inflação. O Datafolha ouviu 3.667 pessoas entre 13 e 15 de setembro. 

O professor de economia da Universidade Positivo e colunista do Regra dos Terços, Walcir Soares Junior, explica que é papel do governo criar políticas econômicas que reduzam a ideia de possível desemprego e das altas taxas de inflação, fatores naturais dentro do cenário econômico de qualquer país. No entanto, a inanição do governo em não criar políticas econômicas para reduzir os danos na economia, aliados a pronunciamentos mentirosos em eventos internacionais, auxiliam no aumento da crise financeira no país. 

“A economia é feita de ciclos, mas existem políticas econômicas, as principais são as políticas fiscais, monetárias e cambiais, que têm esse intuito de tornar esses ciclos cada vez mais suaves. Então, o que esse governo peca é em todas essas dimensões. Não dá para não generalizar, porque não existe uma política acertada”, diz. 

Soares explica que o cenário econômico do país é composto por dois elementos principais: as políticas econômicas e a visão que o governo passa para os agentes investidores do exterior.  

“Nós vivemos em uma economia que não é fechada, que está em contato com outras economias do mundo e quando os investidores estrangeiros olham pra cá com essa mentalidade de risco, de que as coisas não estão indo bem, de que em um horizonte de curto, médio e longo prazo não vai ser positivo, elas acabam não mandando o dinheiro para o Brasil, o que influencia em uma cotação de câmbio e também na inflação”, explica.  

“É um conjunto de coisas que, claro, foram amplificadas com os efeitos da pandemia, mas nem de longe a gente pode esperar que teria sido melhor se não fosse a pandemia, porque todas as ações do governo [desde 2019] foram muito ruins”, avalia.   

Para o economista, o Brasil não saiu da crise que iniciou entre 2015 e 2016, período em que houve diversas manifestações e movimentações políticas para o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). “Quando a gente começou a ter uma expectativa de melhora, veio a troca de governo e as coisas começaram a cair e veio a pandemia. Então é muito difícil separar o efeito do que é a crise anterior. Por mais que seja muito claro pra mim que o governo tem uma participação muito grande, ainda é muito difícil mensurar quanto que essa crise seria menor caso não tivesse essas atitudes do governo Bolsonaro”, analisa. 

O impacto no mercado externo

Em setembro deste ano, ao abrir a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Bolsonaro distorceu diversas informações e afirmou que até hoje não surgiu nenhum grande esquema de corrupção em seu governo. A fala do mandatário ignorou, por exemplo, os esquemas criminosos que a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia investiga que envolvem a Precisa Medicamentos, que foi alvo de ações da Polícia Federal (PF), por suspeitas de fraude em licitação.

Além das falas mentirosas do presidente da República em um evento internacional, as atitudes, pronunciamentos e o negacionismo acerca da eficácia dos imunizantes e da gravidade da covid-19 de outros membros da delegação também foram muito comentadas em todo o mundo. Ações como estas impactam diretamente na visão que outros países e investidores têm do Brasil.  

“Parece pouco, parece que uma fala não tem muito efeito, mas uma economia é feita de expectativas. Se todo mundo espera que um banco vai quebrar, todo mundo age de maneira a tirar o dinheiro do banco e esse efeito vai fazer com que o banco quebre. Então, dentro da economia, tem uma coisa meio psicológica, meio difícil de mensurar, mas é claramente influenciada pelas expectativas das pessoas e o governo não tem feito nada no sentido de alinhar essas expectativas de maneira positiva”, exemplifica Soares. 

A redução das desigualdades pode ser a principal saída 

Para o Soares, um caminho para resolver a atual situação do país é a redução da desigualdade “na forma mais genuína”. “Eu acho que no mundo ideal, seria até utópico dizer isso agora, mas seria um governo que colocasse a redução da pobreza e das desigualdades como principal coisa, porque quando você resolver o problema da desigualdade, você vai resolver problemas educacionais, de saúde, de renda dentre outros”, aponta.

O economista avalia que as medidas apresentadas até o momento para viabilizar o pagamento de programas sociais, como o extinto auxílio emergencial e a criação do atual Auxílio Brasil, que substitui o Bolsa Família, são ações do governo com foco na população que pode trazer votos para as próximas eleições.  

“Antes da pandemia, já se criticava o Bolsa Família que era um programa ruim, assistencialista. No começo da pandemia, quando ficou claro que a ajuda precisava ser para os mais pobres, houve uma discussão muito grande sobre isso, e aí, com muita insistência e com muito medo de atraso, começou o auxílio. E apenas quando o auxílio começou a mostrar pontos positivos sobre a popularidade do presidente é que começou-se a considerar isso [a criação de programas econômicos sociais]”, diz.

Na opinião do economista, não há um plano de preocupação com as necessidades básicas dos brasileiros mais vulneráveis. E isso torna a desigualdade social um dos maiores problemas do país, questão que está intimamente ligada aos problemas de renda, e ainda assim, não existe um plano para sanar ou reduzir este problema. “E eu não estou falando só desse governo. Por mais que tivessem outros planos que funcionaram no passado, como a própria política do Bolsa Família, a pobreza ainda não está no centro do debate, como uma coisa muito importante e independente de governo”, pondera.

Desigualdade social no Brasil 

Uma pesquisa realizada pela Oxfam Brasil em parceria com o Datafolha avaliou qual é a percepção dos brasileiros sobre desigualdade no país. Para 86% dos entrevistados, o progresso da nação está condicionado à redução da desigualdade entre pobres e ricos e 85% concordam que é obrigação dos governos diminuir a diferença entre muito ricos e muito pobres. O levantamento foi realizado entre 7 e 15 de dezembro de 2020 com 2.079 pessoas de 130 municípios de pequeno, médio e grande porte. A margem de erro é de 2% para mais ou para menos, considerando um nível de confiança de 95%.

A diretora da Oxfam, Katia Maia, destaca que é fundamental conhecer a opinião da população brasileira sobre o assunto. “Ainda que persistam desafios na forma como a população vislumbra e compreende a distribuição de renda no Brasil, consolidou-se a crença já verificada nas pesquisas anteriores sobre o vínculo entre desenvolvimento e equidade: oito em cada dez pessoas acreditam que não é possível progresso sem redução de desigualdades”, destacou a diretora na publicação. 

Para os entrevistados, a distribuição de renda também é impactada por questões de gênero e raça: 67% dos ouvidos concordam que profissionais mulheres têm salários menores apenas por serem mulheres. Na opinião de 58% dos participantes da pesquisa, profissionais negros recebem menos apenas por serem negros. Além da questão salarial, para 76% das pessoas, a cor da pele também influencia a contratação por empresas. O percentual de pessoas que concordam que a justiça brasileira é mais severa com a população negra passou de 71%, em 2019, para 78% em 2020. 

À exceção da distribuição de renda, o estudo também quis saber a opinião dos cidadãos sobre questões raciais, acesso a saúde, tributação, meritocracia e gênero. Para 62% dos entrevistados, ter acesso à saúde é uma das três principais prioridades para uma vida melhor, assim como, segundo eles, estudar e ter alguma crença religiosa. 73% defendem universalidade para atendimento em postos de saúde e hospitais, o percentual anterior era de 72%, em 2019.

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