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Eleições 2022: como chegamos até aqui

Eleições 2022: como chegamos até aqui
Eleições 2022: como chegamos até aqui

Pesquisas eleitorais recentes apontam que as eleições deste ano serão marcadas pela mesma polarização política de 2018, ou seja, bolsonarismo de um lado e petismo de outro. A diferença no pleito de 2022 é que a disputa de fato ocorrerá entre Lula (PT) e Jair Bolsonaro (PL), diferentemente de 2018, quando o petista estava preso e inelegível devido a condenação por corrupção e lavagem de dinheiro na Operação Lava Jato. Nesse contexto, políticos da chamada “terceira via” tentam se contrapor ao que chamam de “bolsopetismo”, mesmo sem alcançar intenções de voto acima de dois dígitos nas pesquisas. Por isso, o Regra te explica a conjuntura eleitoral na série original “Eleições 2022: como chegamos até aqui”, que estreia nesta terça-feira (24). 

Antes de entender o que cada uma das opções que estarão nas urnas em outubro significa para o presente e o futuro do país, é preciso entender o que nos trouxe até aqui. As eleições deste ano são marcadas por um forte apelo em defesa da democracia e das instituições. Ao longo dos últimos quatro anos, o presidente Jair Bolsonaro (PL) corroeu por dentro o sistema democrático do país, colocando eleições em dúvida, atacando instituições e insistindo em uma política baseada, principalmente, no confronto.

Um ponto central para entender como chegamos onde estamos é o processo que levou ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), em 2016. Mas o cenário político brasileiro atual vem se desenhando há mais tempo – pelo menos desde as manifestações de 2013.

Na análise da maioria dos cientistas políticos, as manifestações de junho de 2013 quebraram o paradigma político e social do Brasil, e os reflexos desses protestos são sentidos até hoje. Segundo o cientista político da Universidade de Brasília (UnB), Antônio Flávio Testa,  “o movimento marcou a história do país”. “Ninguém achava que duraria muito tempo e que envolveria tantos agentes importantes na sociedade, além de pautas e segmentos sociais que não tinham envolvimento direto com o intuito dos primeiros protestos, que eram contra apenas o aumento de R$0,20 na passagem de ônibus em São Paulo. Por exemplo, no Distrito Federal, advogados e magistrados começaram também a fazer protestos em relação não ao aumento da passagem de ônibus, mas sobre outras reivindicações ao governo”, explica.  

No contexto das manifestações de 2013, surgiu o grupo político conhecido como Movimento Brasil Livre (MBL), que tornou-se decisivo para o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, e para a eleição de Jair Bolsonaro (PL), em 2018. O MBL representou a ascensão de aspectos conservadores que foram crescendo até se tornarem ideias de extrema-direita. Os principais aspectos são a luta contra políticas afirmativas construídas pelos governos petistas (como o direito às cotas raciais nas universidades e o Programa Bolsa Família) e o repúdio às discussões envolvendo a conscientização social  sobre questões de raça, gênero e sexualidade, que começaram a ser levantadas com mais força justamente neste período. 

Bolsonarismo: da ascensão à queda
Bolsonarismo: da ascensão à queda

Essas ideias juntaram tanto os direitistas conservadores quanto liberais, proporcionando a ascensão da extrema-direita na figura de Bolsonaro, que representou o antipetismo e o “voto de protesto” nas eleições de 2018. Assim, depois das eleições presidenciais de 2014 e o impeachment de 2016, o slogan “Meu partido é o Brasil” (criado pelo MBL e que tornou-se mote das manifestações de rua de 2013 e 2014) foi  transformado pela equipe de Jair Bolsonaro em “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, em uma simbologia que pode ser interpretada como a supressão dos partidos políticos e do jogo democrático.

No entanto, o cientista político Antônio Testa ressalta que não existe uma relação plausível de causa e efeito que explique o que aconteceu no cenário político brasileiro desde a emergência das manifestações de 2013. “Não existe um efeito direto entre as manifestações de 2013 ou o nascimento do MBL com o atual período político do Brasil, porque não se trata de uma coisa linear. Porém, diversos fatores direta ou indiretamente associados mudaram a conjuntura política e mostraram como a população brasileira estava indignada com muitos serviços públicos e com a maneira com a qual a política tradicional era realizada.”

Mesmo em meio à ebulição política causada pelas manifestações de 2013, Dilma Rousseff conseguiu se reeleger em 2014 por uma pequena margem de votos em relação ao seu adversário, Aécio Neves (PSDB). Foi nessa época que o PSDB apresentou um pedido de auditoria das urnas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sugerindo a criação de uma comissão com representantes do tribunal e de partidos para verificar o sistema de apuração e contagem dos votos. Na petição, o PSDB cita denúncias e desconfianças na internet e nas redes sociais. O partido argumentava que a auditoria era necessária para garantir a “confiança do povo brasileiro no processo eleitoral”.

Lula Lulismo esperanças controversas eleições
Lulismo: As esperanças controversas

Para Antônio Testa, esse fato contribuiu para a abertura da “caixa de pandora” que nos trouxe ao presente, com Bolsonaro duvidando da segurança das urnas eletrônicas. “Hoje, o Bolsonaro faz a mesma crítica que o PSDB fez em 2014. Ainda que exista a possibilidade de uma fraude nesse momento da contagem dos votos, elas nunca foram provadas efetivamente, mostrando que o sistema eleitoral é realmente seguro. Portanto, a segurança das urnas é, na minha opinião, um tabu político que ainda está mal resolvido e a postura do presidente do STF é exatamente por causa dessa briga em torno do voto impresso e da suspeita de que o resultado das eleições pode ser manipulado no momento da contagem dos votos.”

Ex-presidente do PSDB, o senador Tasso Jeiressati (PSDB) admitiu em 2018 que o partido cometeu um “conjunto de erros memoráveis” após a eleição de Dilma, em 2014. Um deles, segundo a autocrítica do tucano, foi questionar o resultado do pleito.

Outro fator que marcou a ruína política de Dilma Rousseff e contribuiu para prejudicar a imagem pública do PT foi a Operação Lava Jato, deflagrada em 2014 em Curitiba. A Lava Jato investigou o maior esquema de lavagem e desvio de dinheiro do Brasil, que começou com a apuração de um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo o ex-deputado federal José Janene e os doleiros Alberto Youssef e Carlos Habib Chater (empresários apontados como doleiros responsáveis pela lavagem de milhões de reais) e expandiu-se para um grande esquema de lavagem e desvio de recursos públicos na Petrobras. 

Com o aprofundamento das investigações a partir das revelações feitas pelos próprios réus em delações premiadas, a Polícia Federal descobriu uma rede de pagamento de propinas envolvendo a Petrobras, vários políticos (principalmente do PT, PP e MDB), as maiores empreiteiras brasileiras (Odebrecht, Andrade Gutierrez, OAS, Camargo Correia, Queiroz Galvão, Galvão Engenharia, Mendes Júnior, Engevix e UTC) e empresas de outros ramos.

Além de desvios na Petrobras, o esquema também envolvia grandes obras públicas de infraestrutura, como a construção da Usina Nuclear Angra 3, a Ferrovia Norte-sul e as obras realizadas para a Copa do Mundo (reforma do Maracanã). O esquema funcionava com a cobrança de propina para facilitar as negociações das empreiteiras com a Petrobras, adulterando o processo de vencimento de licitações para a construção das grandes obras. Os contratos entre as empreiteiras e demais empresas que faziam parte do acordo eram superfaturados para facilitar o desvio de dinheiro público. Esse dinheiro, por sua vez, era repassado pelos doleiros a diretores da Petrobras, políticos e até mesmo partidos políticos, como o PT, MDB e o PP, que teriam direito, de acordo com dados divulgados pelo jornal Estadão, a até 3% do valor do contrato em propina.

A partir das descobertas da Lava Jato, o cientista político Antônio Testa ressalta que a sustentação política de Dilma desintegrou-se gradativamente. “Foi-se criando um movimento forte no Congresso, e o então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (MDB-RJ), era um adversário ferrenho da Dilma, porque ele mesmo queria o controle da Petrobras. Foi Cunha quem aceitou o processo de cassação de Dilma, que culminou em seu impeachment. E tudo isso gerou um movimento antipetista muito forte em todo o Brasil, e o resultado foi a eleição de Bolsonaro”, explica. Cunha acabou preso na Lava Jato em 2016, enquanto Dilma não foi alvo de nenhuma denúncia de corrupção no caso.

Mas Testa afirma que a eleição de Bolsonaro não foi uma consequência apenas da Lava Jato, mas também da incapacidade de Dilma em governar. “Eu me lembro de uma pesquisa feita pelo Fernando Meirelles, do Data Popular, que se levantou a avaliação dos serviços públicos brasileiros de 0 a 10. A média foi de 4,7 em educação, transporte e segurança pública. Ou seja, nenhum desses serviços atendia a população, e isso chamou muita atenção para como o povo brasileiro era maltratado. Como o Bolsonaro conseguiu se viabilizar como “candidato da mudança” e símbolo do combate à corrupção, ele se tornou o fenômeno eleitoral de 2018″, analisa.

Bolsonarismo: fenômeno vai se repetir nas eleições de 2022?

A série “Eleições 2022: como chegamos até aqui” será composta por três eixos temáticos, que serão aprofundados em diversas reportagens divididas por subtemas. O primeiro deles é “Bolsonarismo: da ascensão à queda”, que explicará como o atual presidente construiu sua carreira política como deputado federal pelo Rio de Janeiro durante mais de 30 anos e, em 2018, aproveitou o antipetismo gerado pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff para construir uma imagem de “candidato antissistema e anticorrupção”, tendo o ex-juiz Sérgio Moro como um de seus ministros.

Para explicar o atual governo, o Regra vai analisar como as principais marcas eleitorais de Bolsonaro convergem com o perfil de seus eleitores fiéis, que toleram mais controvérsias no discurso do atual presidente do que muitos ex-aliados políticos do partido pelo qual ele se elegeu nas eleições de 2018, o antigo PSL e atual União Brasil (união entre PSL e DEM). 

As reportagens vão abordar como a relação entre Bolsonaro e o deputado federal Daniel Silveira (PTB-RJ) tornou-se uma questão mais de oportunismo do que aliança; a imagem das Forças Armadas e de segurança pública durante a gestão; como Bolsonaro passou de aliado a inimigo do Movimento Brasil Livre (MBL); como e porquê surgiram os constantes embates entre Bolsonaro e governadores, especialmente a João Doria (PSDB) e Wilson Witzel (PSC), antigos aliados; como o PSL virou comunista para Bolsonaro; o impacto causado por esquemas organizados por Bolsonaro, sua família e aliados do governo envolvendo de dinheiro na cueca à corrupção desenfreada; e como o atual presidente traiu suas promessas de campanha ao passar de candidato anti-establishment em 2018 a parceiro político e filiado ao PL, um dos principais partidos que compõem o Centrão na Câmara dos Deputados.

Lula: perseguido político ou líder de um esquema de corrupção?

O segundo eixo temático é é “Lulismo: as esperanças controversas”, que contará a trajetória do ex-presidente desde a militância sindical na época da ditadura até seu retorno à disputa eleitoral após a anulação dos processos da Lava Jato que o deixaram inelegível em 2018.

O Regra vai te explicar como Lula governou a partir de programas sociais, quais foram os principais deles e suas mudanças na sociedade brasileira; seu envolvimento com o Mensalão; sobre a ‘marolinha’ na economia em 2008; o que mudou na política externa do Brasil antes e depois da gestão Lula; como a indicação de Dilma Rousseff como sucessora no Planalto impactou sua carreira política; a investigação pela Operação Lava Jato; o que motivou a aliança eleitoral de rivais como Lula e Geraldo Alckmin neste ano e a se a viabilidade política do lulismo ainda é uma realidade nas eleições deste ano. 

Terceira via vai emplacar nas eleições de 2022?

O terceiro e último eixo temático, por sua vez, é “Terceira via: a busca por um nome viável”, começando por Marina Silva (PV) em 2014, Ciro Gomes (PDT) e Geraldo Alckmin (PSB) em 2018 e, em 2022, João Doria (PSDB), Eduardo Leite (PSDB), Simone Tebet (MDB) e Felipe D’Ávila (Novo). Nesse contexto, a busca por “um lugar ao sol” se refere ao fato de que nenhum dos principais nomes da terceira via atingiu intenções de voto iguais ou maiores do que 10%, o que os torna pouco competitivos na disputa eleitoral.

O Regra vai acompanhar a trajetória da terceira via desde 2014, quando o marqueteiro de campanha eleitoral de Dilma Rousseff (PT) desintegrou a candidatura da principal representante da terceira via, Marina Silva, com uma série de fake news a seu respeito; o fracasso eleitoral do PSDB mesmo com uma supercoligação para viabilizar a candidatura de Geraldo Alckmin em 2018; como Ciro Gomes tentou emplacar a 3ª via em 2018 com o Movimento Vira Voto; o fracasso do ex-presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, em iniciar um movimento para a terceira via em 2022 através de uma vitória na eleição para presidência da Câmara; e como a corrida pela vacina contra Covid-19 trouxe João Doria (PSDB) como candidato e acabou com a candidatura do ex ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta.

O restante das reportagens vai abordar como a saída de Moro do governo Bolsonaro impactou na tentativa do ex-juiz de se colocar como candidato à presidência e o esmagou diante da política profissional; como o PT matou a terceira via novamente em 2022 ao reunir todos os partidos de esquerda (exceto PDT) em torno de sua candidatura; e, por fim, como a terceira via luta para emplacar o “Bolsopetismo” x Terceira via mesmo com a falta de propostas, carisma, união e apelo eleitoral de seus principais candidatos.

As reportagens serão publicadas sequencialmente de segunda à sexta-feira no site do Regra dos Terços.

Letícia Fortes

Estudante de Jornalismo na PUCPR e estagiária do Regra. Escrevo para evidenciar e esclarecer assuntos que exigem nossa atenção, pois essa é minha forma de defender uma comunicação humanizada, acessível e engajada socialmente.

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