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Eleições 2022: Governo Bolsonaro enfrentará falta de comida e desemprego

Eleições 2022: Governo Bolsonaro enfrentará falta de comida e desemprego
Presidente Jair Bolsonaro (Foto: Alan Santos/PR)

A retomada dos trabalhos dos poderes Legislativo e Judiciário estimulou o debate sobre as eleições de 2022, principalmente sobre as expectativas dos candidatos e da população brasileira para este ano. A campanha eleitoral, em especial para a presidência da República, deverá ser marcada por discussões sobre a retomada da economia, o que pode trazer à tona, mais uma vez, discursos populistas, como ocorreu em 2018, quando o presidente Jair Bolsonaro (PL) foi eleito. 

“Em 2022, vamos ter uma grande luta contra inflação alta, falta de comida, emprego, política industrial reduzida, e com certeza esse cenário das eleições vai estimular a presença de uma política populista, que venda uma solução fácil e mentirosa para o eleitor”, analisa o  professor titular dos cursos de Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e especialista em análise conjuntural política e econômica, Marcos José Zablonsky. 

Zablonsky conversou com o Regra dos Terços sobre a conjuntura para as eleições de outubro deste ano. Ele também analisou o peso das federações partidárias no cenário eleitoral; as chances de uma terceira via surgir durante a campanha, entre outros assuntos.

Confira a entrevista na íntegra:  

Qual será o peso da conjuntura econômica do Brasil no momento do voto?

O cenário econômico é extremamente importante em uma eleição, e isso já é claro, é uma condição sine qua non. Então, [a economia] vai ser uma pauta explorada por todos os candidatos, porque todos eles vão ter que apresentar uma proposta econômica que tire o Brasil dessa condição atual, que têm, por exemplo, juros acima de dois dígitos. É preciso oferecer um plano que coloque o Brasil em uma condição de inflação controlada, e a visão que a gente tem do governo Bolsonaro é bastante negativa em termos econômicos. É fato que o Produto Interno Bruto (PIB) passa por dificuldades para voltar ao normal, e isso se deve à pandemia também, mas o povo não vê a economia dessa maneira. Ele precisa ver condições de trabalho favoráveis e uma política industrial que atraia boas oportunidades, e o governo Bolsonaro tem suas ferramentas para mudar essa situação. 

Quais seriam essas ferramentas? O governo Bolsonaro tem alguma margem para revitalizar a economia até o momento das eleições, em outubro?

Uma dessas estratégias é a discussão da redução do IPI [Imposto sobre Produtos Industrializados], que aumentaria a perspectiva de retorno da indústria, tanto em termos de captar negócios e gerar riquezas quanto de proporcionar novos empregos. Então, pode ser que isso mude um pouco o cenário industrial. Por outro lado, o próprio Bolsonaro sempre manifestou claramente que não sabe discutir sobre economia, e ele terceirizou esse debate desde a campanha de 2018 para o ministro da economia Paulo Guedes, o popular “posto Ipiranga”. Então, se pensarmos nos outros candidatos mais bem avaliados, que são o Lula e o Ciro Gomes, ambos têm experiência na área econômica. O primeiro já governou ativamente, e o segundo já foi ministro da Economia e governador. Mesma coisa aconteceu com o Moro, que nunca foi gestor e também já declarou que não sabe sobre economia. Por isso, ele já buscou um veterano do mercado financeiro para auxiliá-lo nessa área. A economia será colocada em debate o tempo todo, e a discussão sobre isso estará presente o tempo todo, porque comida na mesa, expectativa de emprego e qualidade de vida dependem da economia. Se os juros permanecerem altíssimos como estão no Brasil, as pessoas passam a consumir menos, demoram mais para financiar imóveis ou bens, o dinheiro fica desvalorizado e escasso, e isso atrapalha de microempresários a grandes empresas. E como não temos uma política industrial clara no governo atual, a perspectiva é negativa para o governo Bolsonaro. Ele ainda não entendeu que a economia é o grande motor de uma eleição, bem mais do que a pauta ideológica.

Na sua opinião, as eleições de 2022 trarão destaque para o discurso populista, como aconteceu em 2018, ou o eleitor pensará mais a longo prazo e de maneira mais pragmática?

Para o eleitor, pensar a médio ou longo prazo não funciona. Ele vota pensando no momento presente, pensando “quem vai resolver meu problema na próxima eleição?”. Por isso, o candidato que se sai melhor é aquele que conseguir dizer de forma mais clara e objetiva como vai resolver os problemas do eleitor. Então, essa questão do populismo e da polarização ideológica vai continuar, até porque um dos candidatos em destaque, que é o presidente Bolsonaro, faz política a partir dessas provocações com os seus opositores. Existem questões absurdas que funcionam com parte dos eleitores dele, que incluem o combate ao fantasma do comunismo, do socialismo, e também à China e à Rússia. Também não podemos esquecer que os partidos do Centrão, que hoje são a base de apoio do presidente Bolsonaro no Congresso, estão com o controle do “cofre e da caneta”, o que significa que a regulação da economia, de cargos em ministérios e da distribuição de emendas parlamentares está na mão de partidos como PP, PL, Republicanos, Solidariedade, PTB, MDB, DEM, entre outros. Em 2022, vamos ter uma grande luta contra inflação alta, falta de comida, emprego, política industrial reduzida, e com certeza esse cenário vai estimular a presença de uma política populista, que venda uma solução fácil e mentirosa para o eleitor. Os partidos de esquerda também podem aparecer com um discurso populista, como aconteceu quando Lula acenou para os trabalhadores ao propor, durante entrevista, uma revisão da reforma trabalhista caso seja eleito. Porém, é preciso pensar que a eleição estará determinada apenas nos próximos meses, quando as federações entre partidos forem confirmadas. 

E qual é o peso que as federações vão assumir nessas eleições, na sua opinião? Quais são os principais indícios que os planejamentos de campanha dos candidatos nos trazem?

As uniões entre partidos vão aumentar o tempo de propaganda eleitoral na TV, trazer aliados políticos aos candidatos, e vão evitar que partidos pequenos não passem pela cláusula de barreira, que indica que os partidos devem eleger pelo menos 11 deputados federais em nove estados diferentes ou obter 2% dos votos válidos.Na minha visão, o planejamento de campanha é fundamental nesse início de ano. Por exemplo, o fato de o Lula estar em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto faz com que ele atraia partidos que não necessariamente estejam alinhados com ele na questão ideológica, mas buscam a sobrevivência do partido e da candidatura de algum parlamentar, como aconteceu com a união entre Lula e Alckmin, que tradicionalmente sempre foi mais de centro-direita com o PSDB. O Lula já tem cerca de 30% dos votos, e principalmente dos eleitores de esquerda. Então, ele busca acenar para a direita, especialmente para os eleitores que se decepcionaram com o governo Bolsonaro e buscam uma terceira via. Por isso, caso a sociedade perceba que o Lula realmente se consolida como uma boa opção, a eleição pode sim ser decidida no primeiro turno. Essa história de que o Lula assusta o mercado financeiro com pautas progressistas não se sustenta, porque ele não é um candidato tão de esquerda quanto dizem. Logo no seu primeiro governo, o Lula fez uma carta ao povo brasileiro, que formalizou o compromisso dele de continuar com os contratos públicos firmados na gestão passada. Foi no segundo governo que ele investiu mais diretamente em reformas, principalmente aquelas relacionadas à pautas sociais. Mas o perfil de Lula é pragmático, e ele é uma liderança política que sabe convencer a população, valorizar cada voto que recebe, e o mais importante: ele sabe ceder e fazer alianças políticas. Claro que o bolsonarismo não é fácil, e os disparos em massa de fake news nas redes sociais podem dificultar o caminho do Lula. Só que, como se trata de um crime, a questão também vai envolver a fiscalização do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o uso de plataformas como WhatsApp, Facebook, TikTok, Twitter, Instagram e principalmente o Telegram, que ainda não tem uma base no Brasil e, portanto, dificulta a fiscalização do Judiciário sobre os conteúdos que circulam na rede.

Existe viabilidade e até mesmo sobrevivência política para os candidatos de terceira via, como Sérgio Moro (Podemos) e Ciro Gomes?

O cálculo dos candidatos de terceira via é, basicamente, atrair o eleitor de centro-direita que ainda não cedeu ao Lula devido ao antipetismo. Por isso, os candidatos mais emblemáticos da terceira via até o momento, que são Sérgio Moro (Podemos) e Ciro Gomes (PDT), buscam atrair uma porcentagem de dois dígitos de eleitores, isto é, acima de 10%, para conduzir as eleições a um segundo turno. Eles tentam tirar uma parcela de eleitores do Bolsonaro e represar o avanço do Lula entre os eleitores de centro-direita, especialmente após anunciar uma aliança com o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin. Mas esses candidatos ainda têm um peso político muito fraco, porque todos eles figuram nas pesquisas de intenção de voto com 8% a 5%, dentro da mesma margem de erro. Eu acho que é até uma manipulação da imprensa citar o Sérgio Moro como o terceiro candidato mais bem colocado, porque ele tem no máximo 8% das intenções. Enquanto o Lula permanece com 41% e Bolsonaro, com 20%, todos os candidatos da terceira via não somam nem mesmo 15% das intenções de voto. O desequilíbrio entre forças é muito grande neste momento. A única alternativa para esse grupo é o Sérgio Moro, caso ele dê uma guinada no discurso e atraia mais eleitores além daqueles que apoiam a pauta anticorrupção desde a Lava Jato. O problema é que ele não tem um discurso sólido o bastante para responder às provocações dos seus opositores, o que aconteceu semana passada [de 31 de janeiro a 7 de fevereiro], quando ele teve que se explicar em relação ao dinheiro que recebeu quando prestou consultoria jurídica na Alvarez & Marsal, a mesma empresa que cuidou da recuperação judicial da Odebrecht após a Lava Jato. Cada vez que ele quer enfrentar o Lula, ele se isola. E cada vez que ele busca enfrentar o Bolsonaro, ele tem que gastar mais tempo explicando as próprias contradições éticas durante a carreira de juiz do que apresentando seu plano de governo.

Considerando o perfil da disputa eleitoral até o momento, qual é o seu recado para o eleitor no momento do voto?

É preciso prestar atenção nas alianças entre partidos, de quanto os partidos vão utilizar de verbas públicas presentes nos fundos partidários para financiar suas campanhas, e fiscalizar o cumprimento das cotas nos partidos, para que grupos minoritários se candidatem, participem e sejam eleitos, em vez de serem apenas números nos partidos. O eleitor precisa entender que, quando se vota em um candidato majoritário como um presidente da República, por exemplo, é preciso que ele tenha respaldo de deputados e senadores no Congresso, para que ele possa governar e realmente aprovar suas propostas para o país na Câmara e no Senado. Por isso, é preciso que o eleitor faça o cálculo e vote em representantes que conversem entre si e que formem alianças. Não adianta votar em um presidente antagônico a um deputado federal, a um governador, e assim por diante.

Na sessão de abertura do Judiciário, o presidente do Supremo Tribunal Federal Luiz Fux declarou que, embora as eleições despertem paixões acerca de candidatos, elogios e partidos, a política “também deve ser visualizada pelos cidadãos como a ciência do bom governo”. Na sua opinião, o que o ministro Fux quis dizer com ciência do bom governo e quais dicas você dá para que o eleitor vote com sabedoria?

O presidente do STF passou um recado, mas não para o eleitor: foi para os candidatos e mais especificamente para o Bolsonaro. Isso acontece porque os ministros já sabem que o Telegram é uma ferramenta sem regulamentação jurídica no Brasil, e que por isso os bolsonaristas provavelmente vão utilizá-la para disparar fake news durante as eleições, como foi na campanha de 2018. Pode ser que o TSE tenha até que derrubar a plataforma, caso eles não retirem conteúdos falsos por determinação judicial do STF. Isso sem mencionar o fato de que Bolsonaro foi indiciado recentemente pelo crime de vazar um inquérito sigiloso da PF durante uma de suas lives, justamente para questionar a lisura das eleições depois de um ataque hacker ao STF. Por isso, eu vejo que o discurso do Fux foi um recado direto ao Bolsonaro, porque ciência do bom governo é o mesmo que fazer uma campanha de maneira legal e aceitar o resultado das eleições. O problema é que a campanha eleitoral do Bolsonaro se sustenta nessa agressividade e nas teorias da conspiração sobre o resultado das urnas, e isso se reflete no comportamento dos bolsonaristas também. Recentemente, eu viajei para o interior do Paraná e vi adesivos nos carros dizendo “Eu autorizo”, no sentido de permitir questionamentos ao STF e até um golpe militar caso o resultado das urnas seja desfavorável para o Bolsonaro. Isso remete até mesmo à invasão ao Capitólio, que ocorreu nas últimas eleições presidenciais dos Estados Unidos. Por isso, o STF e o TSE têm uma função muito importante no Brasil, que é dar transparência para todo o processo eleitoral e para que todos conheçam e entendam seus direitos e deveres na hora de votar. 

Pesquisa eleitoral

Durante a entrevista Marcos José Zablonsky citou dados de eleitorais. A última pesquisa foi divulgada na última sexta-feira (11) pelo Ipespe, onde o ex-presidente Lula segue na liderança, com 43% das intenções de voto, seguido pelo presidente Jair Bolsonaro (PL), com 25%. Os dois oscilaram dentro da margem de erro.

Em seguida aparecem os pré-candidatos Sergio Moro (Podemos), ex-juiz e ex-ministro, com 8% das intenções de voto e o ex-governador Ciro Gomes (PDT), também com 8%. O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), tem 3%. A pesquisa também mostra as intenções de voto da senadora Simone Tebet (MDB) – 1% – e do deputado federal André Janones (Avante) – 1%. Os pré-candidatos Rodrigo Pacheco (PSD), Alessandro Vieira (CID) e Felipe D’Ávila (Novo) não pontuaram.

A margem de erro é de 3,2 pontos percentuais para mais ou para menos e o nível de confiança é de 95%. O Ipespe ouviu 1.000 pessoas maiores de 16 anos em todo o país entre os dias 7 e 9 de fevereiro. O levantamento foi registrado no TSE sob protocolo BR-03828/2022.

Veja a pesquisa completa aqui.

Letícia Fortes

Estudante de Jornalismo na PUCPR e estagiária do Regra. Escrevo para evidenciar e esclarecer assuntos que exigem nossa atenção, pois essa é minha forma de defender uma comunicação humanizada, acessível e engajada socialmente.

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