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Efeito Bolsonaro: pré-candidatos à presidência evitam imprensa tradicional e priorizam plataformas onde são pouco questionados

Efeito Bolsonaro: pré-candidatos à presidência evitam imprensa tradicional e priorizam plataformas onde são pouco questionados
Antônio Cruz - Agência Brasil

Em 2018, o então candidato Jair Bolsonaro (PL) tornou-se um dos primeiros políticos a ganhar uma eleição evitando debates e entrevistas incômodas na imprensa tradicional. Na época, essa atitude foi repudiada pela maioria dos candidatos à presidência, especialmente por Fernando Haddad (PT), que disputou o segundo turno das eleições e alegou que o atual presidente evitava debates porque “não tinha planos para o país”. Agora, na disputa eleitoral de 2022, surgem indícios preocupantes de que o “efeito Bolsonaro” de evitar a imprensa tradicional pode se tornar uma estratégia geral de campanha. 

Pré-candidatos como Ciro Gomes (PDT), Lula (PT) e Sérgio Moro (Podemos) já alinharam suas imagens públicas nas redes sociais e participaram de podcasts como Flow, Mano a Mano e PodPah, que se comunicam com um público mais jovem, se estendem por horas e permitem que os entrevistados falem livremente, diferentemente dos formatos jornalísticos, que costumam contestar os candidatos e conceder-lhes um tempo específico para resposta. 

Para o cientista político e professor da UFRGS Rodrigo Gonzalez, o podcast é um formato propício para que os pré-candidatos mobilizem uma base de apoio no início da campanha. “Eu diria que o podcast é um espaço para construir falas do candidato que não pareçam ensaiadas para, depois, utilizá-las nesses trechos que viralizam nas mídias sociais. Então, do ponto de vista de transmissão de mensagem política, é muito mais efetivo o uso de um veículo como Tik Tok e Youtube, com mensagens curtas que tenham algum tipo de imagem de fundo para animar, do que propriamente um formato gravado, que tende a aumentar a dificuldade de atenção das pessoas, caso não seja direcionado para um público interessado”, analisa.

Embora a migração das estratégias de campanha das mídias tradicionais para a internet tenha sido debatida desde o ano passado, o assunto veio novamente à tona nesta semana, principalmente após o ex-presidente Lula recusar-se a participar de entrevista para o jornal O Globo. Desde o anúncio de sua pré-campanha, em 2021, o ex-presidente criticou o posicionamento da Rede Globo na cobertura da Operação Lava Jato. Nesta semana, Lula recusou um convite do jornalista Bernardo Mello Franco para entrevista sobre uma série de ex-presidentes da República. Através de carta, Lula afirmou que não confunde as organizações com as condutas profissionais de seus jornalistas, mas reforçou que não aceitará um pedido de entrevista enquanto as Organizações Globo não reconhecerem e corrigirem o que chamou de “tratamento editorial difamatório”.

Eleição polarizada pode aumentar o foco na imagem dos candidatos e reduzir o debate político

Na visão de Gonzalez, a tendência de um cenário polarizado nas eleições deste pode estimular os candidatos a evitarem temas polêmicos, sobre os quais eles não têm uma proposta clara. “Em um cenário de polarização, Bolsonaro vai voltar a estimular o antipetismo, Lula vai continuar com o discurso de trazer os bons tempos de volta. No caso do Sérgio Moro, ele é um candidato despido de conteúdo além do discurso de anticorrupção, como também era o Bolsonaro em 2018. O que o Bolsonaro fez foi terceirizar a sua política econômica para o Paulo Guedes e focar no discurso da moralidade e dos costumes, que propriamente não é discussão de política. Em termos de perfil de proposta política, o candidato que tem um perfil mais claro é Ciro Gomes, que continua com uma proposta neodesenvolvimentista, com uma certa lógica de nacionalismo econômico um pouco galgada na proposta mais tradicional do PDT. O Lula faz um discurso social que, no fundo, não sabe muito bem qual é o conteúdo que tem, porque a sua política econômica foi em parte liberal e em outra social, e ele não vai se distanciar disso. Já o Bolsonaro vai continuar discursando que vai salvar o país dos comunistas”, explica.

Além de evitar temas polêmicos, os pré-candidatos investem suas estratégias de campanha em outro aspecto: a imagem diante do eleitor. O investimento no perfil midiático dos candidatos durante as eleições se deve, principalmente, ao alcance massivo e nacional dos meios de comunicação. “A própria entrada da televisão no processo político desde os anos 60, nos Estados Unidos, tem colocado essa crítica de que as campanhas políticas são muito mais uma questão de imagem do que de conteúdo”, relembra o cientista político Rodrigo Gonzalez.

“Se fala, por exemplo, que a vitória nos debates eleitorais de John Kennedy em relação a Richard Nixon se deve simplesmente à sua melhor capacidade de se apresentar diante da câmera, que é um desafio para os políticos atuais. Um político como o Lula, por exemplo, têm quarenta anos de experiência na frente de uma câmera de televisão em suas diversas passagens pelo espaço político, enquanto o Moro está enfrentando uma câmera pela primeira vez, e perdendo no domínio do meio em relação ao Lula e aos demais candidatos”, aponta Gonzalez.

Discussão política permanece elitizada nas eleições deste ano

Segundo pesquisa realizada pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal, o WhatsApp é a principal fonte de informação para 79% dos brasileiros, com mais de 136 milhões de usuários. Porém, na pandemia, essa rede social tornou-se o principal meio de transmissão de notícias falsas, de acordo com pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). 

Na análise do professor da UFRGS Ricardo Gonzalez, é provável que o WhatsApp também seja utilizado para disparar fake news sobre as eleições neste ano, como ocorreu em 2018. Essa previsão, contudo, revela que o debate político permanece distante da maior parte dos brasileiros, mesmo sendo uma questão essencial para a cidadania e o exercício do voto. 

“Os debates com conteúdo costumam ser aqueles para públicos fechados, porque a própria estrutura da televisão impede qualquer aprofundamento de discurso, com perguntas curtas e pouco tempo para réplica e tréplica. As pessoas não conseguem nem acompanhar qual é o raciocínio do candidato neste processo, e isso fica chato. Então, onde há um certo conteúdo é quando um grupo de candidatos se reúne para uma sabatina de alguma associação profissional ou sindicato, que é um espaço onde ele realmente tem que responder perguntas de quem quer uma resposta sobre algo específico”, afirma Gonzalez.

O cientista ressalta que o debate político no Brasil provavelmente vai permanecer superficial em 2022, não apenas devido às redes sociais, mas também a um processo histórico de desgaste político. Na visão do professor, as disputas eleitorais têm sido superficiais pelo menos nos últimos 20 anos, já que a última campanha que trouxe uma diferenciação ideológica mais clara ocorreu em 2002, entre PSDB e do PT, os quais se assemelhavam em termos de política econômica, mas divergiam na visão social de mundo.

Letícia Fortes

Estudante de Jornalismo na PUCPR e estagiária do Regra. Escrevo para evidenciar e esclarecer assuntos que exigem nossa atenção, pois essa é minha forma de defender uma comunicação humanizada, acessível e engajada socialmente.

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