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Deus e sua mania de fazer criaturas ridículas e mortais

Deus e sua mania de fazer criaturas ridículas e mortais

Neste final de semana o pai de um amigo faleceu. Câncer, descoberto em metástase, não havia muito o que ser feito.  Eu enviei uma mensagem sincera de “eu estou aqui”, mas até agora ele não viu. E eu entendo, não existe vontade alguma de responder esse tipo de mensagem. “Sinto muito, estou aqui, fique bem, confie em Deus, vai passar, é uma fase, que tragédia, como você está, o que posso fazer…” e assim vai. Mensagens de preocupação e dor, empatia. Eu entendo tudo isso. Mas eu entendo mais ainda a vontade de enfiar a cabeça dentro de um balde e segurar a respiração até desmaiar.

Não tem um dia que eu não sinta vontade de arrancar toda a minha pele e raspar meus ossos com uma colher. A sensação é essa. Eu me sinto tão machucada e tão dolorida, que nada no universo consegue tirar de mim essa sensação de que a vida é um saco plástico entrando na minha garganta. As pessoas morrem e isso é tão ridículo. É ridículo demais uma pessoa morrer no meio da sala de estar por um infarto ou internada ou enquanto luta pela vida contra um câncer. Eu pergunto para o Deus com quem eu converso todos os dias se a vida, a criação que Ele se dedicou tanto, se nós somos essa piada pronta? Aquela história do “fulano entrou no mar e começou a nadar na tentativa de chegar do outro lado do oceano e morreu, fim”. E ninguém ri. E o silêncio que vem depois desse fim se torna a única coisa que nos acompanha.

Mesmo sabendo que a vida precisa ser vivida, que o caminho é para frente, não posso deixar de me sentir nesse roteiro de mau gosto. Mesmo querendo falar da política do país, mesmo querendo compartilhar os livros de filosofia que eu estou lendo, a beleza de ter um kindle na cabeceira, querendo falar do amor e da vida que é abundante, mesmo não querendo que meu rosto seja só um reflexo de dor e saudade no espelho… mesmo assim, eu só consigo falar da morte. De como morrer é injusto, de como seguir vivendo sem quem a gente ama é uma violência natural que nós romantizamos. “Ah, é um ciclo que chegou ao fim. Fulano está melhor agora. Ah, Deus sabe o que faz…” Bobagem. Pura anestesia placebo.

A gente não fala da morte no café da manhã e nem com aqueles que vivemos sob o mesmo teto, porque a gente tem medo e é covarde demais para assumir que ela é enorme. A gente não cita testamentos durante um churrasco e a importância de fazê-los para que nossos descendentes não fiquem aqui se ferrando com burocracias. A gente não comenta com os outros que não se morre só de coisas graves, se morre de acidentes bobos e tombos no banheiro. Nós não fazemos planos pós morte, fingimos que somos eternos e lindos e nunca iremos nos deparar com o último suspiro. Ninguém está pronto para a morte porque a gente vive fingindo que ela não existe.

Mas ela existe

 Ela sufoca quem fica aqui e agora, nesse instante, me parece apenas um preço que eu tenho que pagar porque amei imensamente alguém. Parece um surto coletivo onde me dizem que eu preciso ser forte e sofrer quietinha, em silêncio. E aí tudo fica mais ridículo ainda. Mas não vai acontecer, não comigo. Sigo escrevendo, lê quem quiser.

Afinal, eu vou acabar morrendo mesmo.

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Eline Carrano

Jornalista por profissão, cronista por opção e neta coruja. Escrevo porque preciso justificar as ansiedades que o tarja-preta não dá conta.

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