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Emily Dickison, transgressora e necessária

Emily Dickison, transgressora e necessária

Olá querides companheiros e companheiras! Já fazem pelo menos 2 anos que eu estou ansiosa para escrever sobre este assunto. Primeiro porque eu vou falar sobre alguém que serve de inspiração pra mim como mulher, escritora/poetisa e LGBTQIA+. Segundo porque compartilhar uma história tão trágica e ao mesmo tempo tão inspiradora sempre foi uma das minhas maiores motivações para escrever e escrever e escrever. Espero que vocês também se apaixonem pelo contexto de tudo que vamos falar hoje e pelo mundo incrível da minha poetisa favorita, Emily Dickinson.

Afinal quem foi Emily Dickinson?

Emily Elizabeth Dickinson, nasceu em Amherst, Massachusetts Estados Unidos no dia 10 de dezembro de 1830. Era a segunda filha de Edward e Emily Norcross Dickinson. Foi uma das maiores poetisas dos EUA, pouco conhecida durante toda a sua vida e por fim reconhecida após sua morte, Emily veio de uma família com fortes laços na comunidade onde moravam.

Considerada uma pessoa excêntrica pelos moradores de sua cidade, ela desenvolveu uma certa relutância em receber convidados, pretendentes ou amigos em sua casa, se isolando por grande parte do tempo em seu quarto, onde escrevia seus poemas e fazia amizades por correspondência. Com quase 1.800 poemas escritos, teve apenas 10 deles publicados, que então eram geralmente editados para se adequar às regras poéticas convencionais. Mas Emily nunca foi convencional, sempre esteve à frente de seu tempo em suas palavras e ações.

As maiores características de suas escritas eram as linhas curtas, não tinham títulos e utilizavam rimas inclinadas, como letras maiúsculas e pontuação diferenciada. Diversos de seus poemas tratam de morte e imortalidade, temas que Emily falava bastante em recorrentes cartas a seus amigos, mas também falava sobre sociedade, espiritualidade e natureza.

Foi somente depois de sua morte, em 1886, que sua irmã mais nova Lavinia Dickinson, descobriu um estoque de poemas escondidos e então tornou público todo seu trabalho. Uma coleção de poesias de Emily foi publicada em 1890 por alguns amigos pessoais, porém os versos foram editados intensamente. Haviam muitas histórias e burburinhos sobre a personalidade dela, construiu-se o mito acerca de sua versão mais solitária e reprimida.

É importante lembrar, porém, que tais comportamentos conversava diretamente com o modelo de conduta feminina da época. Eram raros os momentos em que ela tivera deixado essa vida reclusa. Viajou poucas vezes para Filadélfia para tratar um problema de visão, para Washington e para Boston. Foi em uma dessas viagens que Emily conheceu dois homens que influenciaram diretamente em sua inspiração poética: Charles Wadsworth e Thomas Wentworth Higginson.

“Cruzam-se em sua poesia os traços de um panteísmo espiritualizado, de uma solidão-solitude, ora serena ora desesperada, e de uma visão abismal do universo e do ser humano. Micro e macrocosmo compactados em aforismos poéticos”.

Augusto de Campos, poeta e tradutor brasileiro.

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Susan Dickinson

Susan Huntington Gilbert Dickinson, nasceu em 19 de dezembro de 1830 em Massachussetts, EUA. Era casada com Austin Dickinson, portanto era cunhada de Emily, sua melhor amiga, vizinha e amante. Sue, tem seu nome revelado em diversos dos poemas de Dickinson. Era escritora, poetisa e editora, o que era considerado muito para uma mulher da época. Ela ficou órfã quando tinha onze anos, e logo nos anos seguintes casou-se com Austin para que pudesse erguer uma nova família e não ficar sozinha dentro da sociedade da época que obrigava as mulheres a se casarem e ter filhos.

Por ser uma grande escritora, Sue era também a maior fã das escritas de Emily, descrevendo por muitas vezes que seus poemas a “eram como veneno” que podia mata-la em doses maiores. Apesar dos grandes desafios da época para as mulheres, Sue e Emily sempre se corresponderam com intenso sentimento, e com uma devoção que ambas não pareciam ter por mais ninguém. É inegável que Susan foi o grande amor da vida de Dickinson, na maioria de seus poemas depois descobertos foram encontrados quase 300 versos inteiros que descreviam essa relação de admiração e paixão proibida no qual era correspondida com a mesma intensidade.

Por ser uma grande escritora, Sue era também a maior fã das escritas de Emily, descrevendo por muitas vezes que seus poemas a “eram como veneno” que podia mata-la em doses maiores. Apesar dos grandes desafios da época para as mulheres, Sue e Emily sempre se corresponderam com intenso sentimento e com uma devoção que ambas não pareciam ter por mais ninguém. É inegável que Susan foi o grande amor da vida de Dickinson, na maioria de seus poemas, depois descobertos, foram encontrados quase 300 versos inteiros que descreviam essa relação de admiração e paixão proibida no qual era correspondida com a mesma intensidade.

“Eles estão limpando a casa hoje, Susie, e eu fiz um rápido esboço do meu quarto, onde com carinho, e com você, passarei esta minha preciosa hora, a mais preciosa de todas as horas que marcam os dias de vôo e o dia em que minha querida, que por ele eu mudaria tudo e, assim que acontecer, eu suspirarei novamente por ele. Não posso acreditar, Susie querida, que fiquei quase um ano sem você; às vezes o tempo parece curto, e minha memória de você esquenta como se tivesse partido ontem, e outras vezes se os anos e os anos seguissem seu caminho silencioso, o tempo pareceria menos longo. E agora, assim que eu tiver você, eu a abraçarei; Você vai perdoar as lágrimas, Susie, elas ficam tão felizes que não está no meu coração repreendê-las e enviá-las para casa.

Não sei por que é – mas há algo em seu nome, agora você está tirando de mim, que enche completamente meu coração e meus olhos também. Não que mencionar isso me aflige, não, Susie, mas penso em todos os “lugares ensolarados” onde sentamos juntos, para que não haja mais; Eu acho que essa memória me faz chorar. Mattie esteve aqui ontem à tarde, e nos sentamos na pedra perto da porta da frente, conversamos sobre vida e amor, e sussurramos nossas suposições infantis sobre coisas tão felizes – a tarde se foi tão cedo e eu voltei para casa com Mattie por baixo. da lua silenciosa, e só faltava o céu. Você não veio, minha querida, mas um pouco do céu veio, ou assim nos pareceu, enquanto caminhávamos de um lado para o outro e nos perguntávamos se aquela grande bênção que possa ser nossa será agora concedida a alguém. Aqueles sindicatos, minha querida Susie, pelas quais duas vidas são uma, essa adoção doce e estranha para onde podemos olhar, e ainda não admitimos, como isso pode encher nossos corações e fazê-los bater violentamente, como isso nos levará um dia, e ele nos fará dele, e não existiremos longe dele, mas permaneceremos quietos e seremos felizes!”

Emily Dickinson, para Sue.
Foto: Emily Dickinson e Susan Gilbert/Divulgação

Dickinson, a série da Apple.

Em 1 de novembro de 2019, foi lançado pela Apple TV, uma série sobre a releitura da vida de Emily. Criada por Alena Smith, e estrelada pela atriz Hailee Steinfeld, a série tem 3 temporadas e conta com um toque de comédia e drama sobre como era a vida dos Dickinsons nos EUA de 1800. É considerada uma série de tons modernos e sensível ao mesmo tempo. Explora as restrições da sociedade, da família, gênero e dá a biografio de Dickinson uma perspectiva que encaixa na vida da poetisa.

Traz os pontos de vista da imaginação fértil de Emily, sua periódica conversa com a “morte”, a relação dela com a comunidade que vivera e todos os desafios de ser uma mulher, escritora e LGBTQIA+ numa época extremamente conservadora.

Alena na minha opinião é um gênio, ela soube captar o humor, a dedicação, as inspirações e os transtornos de Emily com uma destreza sem igual. Quem é fã de Dickinson sabe como ela era intensa, fervorosa e nada convencional. Seu romance com Susan, foi carregado destes desafios, afinal nenhuma das duas podia declarar seu amor uma pela outra. Tudo ficou marcado em suas trocas de cartas e seus encontros pessoais. Emily teria sido uma transgressora de sua época e uma voz potente em meio há tantas condutas impostas para as mulheres.

Há episódios onde Dickinson declara ter vontade de cursar a universidade como os garotos. E se questiona sobre as posições das mulheres que não se encaixavam nas normas femininas daquela sociedade. Ela não costurava, não gostava de cozinhar, não se sentia a vontade para receber pretendentes em casa e nunca se casou, deixando entender que seu único amor verdadeiro foi vivido com Susan Gilbert. Em um de seus poemas ela descreve amar alguém que não pode ser seu, pois não poderiam se casar um dia.

De uma forma suave e transmitindo todo o amor que Dickinson tinha pela escrita, pela vida que tinha, Alena captou a essência de uma mulher que vivia um amor proibido por outra mulher, que queria ser ouvida, que a seu modo foi revolucionária, escreveu tudo que pensava, criou um jeito único de se expressar, se enclausurou dentro das palavras, e usou um lápis e um pedaço de papel para dizer ao mundo o que acreditava e esperava da sociedade.

Eu conheci Emily Dickinson quando comecei a escrever alguns poemas aleatórios, em busca de idealizações e formatos de poesias eu a encontrei, costumo dizer até que foi ela quem me encontrou. Acho que me sinto mais liberta quando leio Emily, ela teve e tem muito do que eu acredito, tem palavras e personalidade complexa, mas que fazem todo sentido quando você entende a necessidade de termos mulheres gays dizendo que existem.

Acredito que ela é necessária, tanto na época em que viveu quanto hoje em dia, deixou um trabalho incrível e inspirou muitas pessoas. A trajetória de sua vida pode não ser considerada romântica e até acredito ser bem trágica por ter morrido em sua cidade natal, ter viajado pouco e conhecido pouco do mundo. Mas ela tinha um mundo só dela, onde nenhuma daquelas regras eram válidas, nesse mundo, ela era poetisa, feminista, flertava com a morte e amava Sue.

“Eu tenho somente um pensamento, Susie, nessa tarde de junho, que é você, e apenas uma prece; querida Susie, que é para você. Que eu e você de mãos dadas, como é com o coração, perambulamos por aí feito crianças, por entre bosques e campos, e nos esquecemos desses anos todos, e dessas preocupações tristes, e nos tornamos crianças de novo – quem dera assim fosse, Susie, e quando olho ao meu redor e me encontro sozinha, suspiro por você outra vez; um suspiro curto, suspiro em vão que não vai lhe trazer para casa”.

De Emily, para Susan Gilbert, 11 de junho de 1852.

Que a gente possa refletir sobre nossos amores não vividos, sobre a sorte que temos de mesmo em tamanhas dificuldades ainda podermos viver nossas diversas formas de amor. Ainda cá estamos lutando por igualdade, por liberdade e para termos voz, mas antes, muito antes de todos nós, houve pessoas que caminharam para que pudéssemos correr.

Temos que conquistar muita coisa ainda como sociedade, mas temos o privilégio de poder lutar. Que em 2022 a gente faça como a Emily, que sejamos transgressores de nosso tempo, militantes das nossas causas e acima de tudo,que façamos ser ouvida a nossa voz e não sejamos mais “um senhor ninguém”.

Mr. Nobody – por Emily Dickinson

Eu sou Ninguém. E você?
É Ninguém também?
Formamos par, hein?
Segredo — Ou mandam-nos p’ro degredo.
Que enfadonho ser alguém!
Tão público — como o sapo
Coaxando seu nome, dia vai, dia vem
Para um boquiaberto charco.

Jhey Borges

Jenifer Borges, publicitária, colunista e ativista das causas das mulheres, negros, jovens e LGBTQIA+, escrever é um ato político desde que suas palavras sejam condizentes com igualdade social e sua própria índole

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