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Ensaio sobre a saudade – o luto e  suas sobras

Ensaio sobre a saudade – o luto e  suas sobras

Pouco café na cafeteira, muito pó, resultado: forte. Como o meu luto. Mas cafés fortes sempre aqueceram minhas mãos. Nossas mãos. Nosso amor. Você dizia que cafés fracos não têm força nem para sair da garrafa térmica. Eu ria. Eu sempre ri das nossas piadas. E agora, aquece esse sentimento que eu já disse: luto. Mas também de espera, de falta, de vontade de estar vivendo uma mentira.

A foto na galeria do celular, você indo embora como se fosse buscar algumas laranjas ali no quintal, mas não volta. Você não volta desde o dia 10, e eu aqui, silenciosa e ao mesmo tempo sorrindo. Eu sorrio para as pessoas não me olharem com pena. Lembra? A gente odiava a pena alheia, o olhar com sobrancelhas arqueadas de surpresa por descobrirem que a gente sangra. Eu te vi sangrar tantas vezes, chorar de medo, de culpa, de tristeza. E você me segurou tantas vezes, pelos mesmos motivos e tantos outros.

Sinto sua falta.

A parte mais cruel da partida são as sobras. Sobram espaços, roupas, comida. E as diminuições. Menos café na cafeteira, menos proteína na geladeira, menos risadas na mesa ao dividir a refeição, menos tempos de alegria- é só ausência. E aí vou sonhando que você ainda ri de uma piada boba ou faz uma pipoca para vermos nossos filmes favoritos e os novos que lançaram essa semana.

Você não ouviu o álbum novo da Adele, está tão lindo.

Eu não consegui te contar sobre a minha foto nova de passaporte que eu saí com o cabelo bagunçado. Eu fiquei inteira bagunçada depois que você foi. Seu perfume vai saindo dos cantinhos que você habitava e vai dando espaço para novos cheiros, aromas. O mundo me diz que há novas possibilidades batendo à porta, mas eu só queria deitar com você na cama e te ouvir dizer “não chore, você é maior que isso”. Agora, nesse instante, não sou.

Sou pequena, bem pequena. Choro no portão pelo abandono. Logo você, que nunca me abandonou, agora me dói como se a solidão fosse meu destino. Eu choro. Gaguejo nos discursos de consolo. Todos dizem que ficará tudo bem, mas ninguém me fala como você falava. Sinto medo. Mas sinto mais saudades.

Pouco café na cafeteira. Muita vida para ser guardada. As laranjas aguardam suas mãos. Que pena, até elas sentem sua falta.

Eline Carrano

Jornalista por profissão, cronista por opção e neta coruja. Escrevo porque preciso justificar as ansiedades que o tarja-preta não dá conta.

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