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Escolha de Dilma para suceder Lula custou caro para o ex-presidente e para o PT

Escolha de Dilma para suceder Lula custou caro para o ex-presidente e para o PT
Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula

Saindo do governo depois de dois mandatos e com uma aprovação de 87% dos brasileiros, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conseguiu emplacar Dilma Rousseff (PT) como sucessora. Embora tenha conseguido eleger sua ex-ministra, que também conseguiu um segundo mandato em 2014, a escolha de Lula custou caro para ele e para o PT. Anos mais tarde, Dilma acabou sofrendo um impeachment, o PT se viu em meio à uma crise sem precedentes e o ex-presidente, preso. A escolha de Dilma como sucessora na Presidência pode ter sido o maior erro político de Lula?

Desde 2014, o ex-presidente Lula acompanhou a erosão de sua relação com Dilma, aliada que nomeou como ministra da Casa Civil em 2005, durante seu primeiro mandato como chefe do Executivo. Como gerente do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e coordenadora do programa “Minha Casa, Minha Vida”, Dilma passou a acompanhar Lula nas viagens pelo Brasil para tornar-se mais conhecida pelos brasileiros. Utilizando Lula como cabo eleitoral, Dilma venceu a disputa presidencial sem nunca ter participado de uma eleição antes, mas sofreu um impeachment dois anos antes de terminar seu segundo mandato.

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Mesmo doze anos após a primeira campanha eleitoral de Dilma, ainda não existe um consenso entre aliados governistas e ex-membros do PT sobre os motivos que levaram Lula a emplacar a eleição do “poste” de sua gestão, como Dilma era chamada informalmente por políticos no Congresso por ser pouco conhecida pela população. 

Em setembro de 2014, um mês antes do primeiro turno das eleições, Lula afirmou que escolheu Dilma como candidata à Presidência da República por ser mais competente do que Marina Silva, que disputava a presidência pelo PSB na época. Nas palavras de Lula, “a escolha para ser presidente não é caso de amor, senão eu escolhia a Marisa (sua mulher) para ser presidente. Quando escolhi a Dilma para ser candidata, eu não estava escolhendo apenas uma amiga, é porque na hora de escolher alguém para dirigir um barco desse tamanho a gente não escolhe por amizade, mas por competência”.

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Apesar de Lula ressaltar a competência de Dilma em seu discurso, o ex-presidente nutria uma relação de amizade com a petista desde seu primeiro mandato. Em novembro de 2002, Lula convocou Dilma para uma reunião após ouvir elogios sobre seu trabalho como secretária de Minas e Energia do Rio Grande do Sul. Segundo um dos coordenadores da campanha do PT à Presidência, Antônio Palocci, e o governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, Dilma era competente e mantinha um bom diálogo com os empresários do setor. 

Ao fim da reunião, Lula decidiu nomear Dilma como ministra de Minas e Energia em 2003, desbancando referências nacionais no setor como Ildo Sauer e Pinguelli Rosa. O então presidente da República contradisse inclusive seu combinado com o então futuro ministro da Casa Civil, José Dirceu, com quem já havia combinado de entregar a pasta de Minas e Energia a um político do MDB para ampliar a viabilidade política do governo no Congresso. “Desfaça tudo porque eu já tenho a ministra”, informou Lula.

Em 2003, Dilma assumiu o cargo de ministra de Minas e Energia. Após dois anos de trabalho, Lula citou a competência da petista na construção do marco regulatório do modelo de energia elétrica do Brasil como exemplo de eficiência em encontro com ministros no salão oval da Presidência. “Vocês precisam trabalhar como a Dilma. Ela faz as coisas andarem”, disse o presidente. Ainda em 2005, quando José Dirceu deixou o Ministério da Casa Civil após afastamento determinado pelas investigações do Mensalão, Lula indicou Dilma como substituta.

Como Dilma passou de “poste” para presidente da República em 2010?

Dois anos antes do fim de seu segundo mandato, Lula começou a construir a imagem pública de Dilma. Em março de 2008, durante evento na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, Lula batizou a então ministra da Casa Civil como “mãe do PAC”, atrelando o nome de uma política até pouco tempo desconhecida a um dos programas sociais mais famosos e eficazes de seu governo. 

A partir do mesmo ano, Lula começou a prepará-la para ser a candidata à sua sucessão, levando-a para reuniões estratégicas, viagens internacionais e encontros com chefes de Estado. Segundo o próprio Lula, durante entrevista à revista ISTOÉ, “fui colocando Dilma em várias reuniões das quais, teoricamente, ela não precisaria participar. Passei a levá-la para viajar comigo para que visse o mundo com uma concepção mais política. Percebi, então, que estava diante de um animal político não trabalhado”. 

Dessa forma, as duas vitórias consecutivas de Dilma nas eleições de 2010 e 2014 se devem, entre outros fatores, ao capital político de Lula e ao impacto positivo do Bolsa Família entre os eleitores. Em 2010, a votação de Dilma foi proporcionalmente maior nos municípios menores, menos urbanizados e com maior taxa de analfabetismo. As prefeituras do PT não foram particularmente favoráveis a Dilma, demonstrando uma diferença entre o perfil do seu eleitor e aquele do PT. Ademais, essa mesma alteração ocorreu com os eleitores de Lula entre 2002 e 2006: de um perfil mais disperso para um mais concentrado em municípios menores e mais pobres, com forte participação nas regiões Norte e Nordeste. 

O que causou o “racha” entre Lula e Dilma?

O afastamento entre Lula e Dilma aumentou de maneira gradual devido à diferença entre seus perfis políticos, na análise do cientista político da Universidade de Brasília (UnB), Antônio Flávio Testa.  “A Dilma não conseguia fazer a política tradicional, que depende dessas negociações com o Centrão e a oposição. Ela odiava essa articulação política, porque tinha um perfil muito mais técnico, adequado para exercer o cargo de ministra. Por isso, ela tinha um trânsito muito mais difícil no Congresso do que o Lula, que sempre soube articular-se politicamente negociando, fazendo ou comprando acordos com políticos, como foi o caso do Mensalão”, explica.

O afastamento da presidente em relação a Lula durante seus dois mandatos foi um dos fatores que diminuiu suas alianças políticas no Congresso e aumentou sua rejeição entre a população, sobretudo em meio a Operação Lava Jato e as denúncias de corrupção envolvendo o financiamento de suas campanhas eleitorais por meio de “caixa dois” em 2010 e 2014.

Por isso, Testa afirma que a indicação de Dilma como sucessora foi “um erro gravíssimo” para Lula. “O problema do Lula é que ele não confia em mais ninguém além dele mesmo”, afirma o cientista político. De acordo com sua análise, Lula conseguiu a continuidade de seu segundo mandato logo que Dilma assumiu a presidência, visto que elegeu uma candidata desconhecida e que nunca havia disputado uma eleição antes. “Dizem os políticos mais próximos a Lula que ele fez um acordo para que a Dilma ficasse apenas um mandato, para que ele voltasse depois.”

Por volta de 2010, durante o primeiro mandato de Dilma, a economia mundial vivia uma grande crise, relacionada principalmente à adoção massiva de políticas de austeridade fiscal nos Estados Unidos e nos principais países da Europa. Os cortes de gastos foram medidas suplementares àquelas adotadas na época da crise financeira de 2008

A crise nos mercados imobiliários ao redor do mundo exigiu a ampliação da oferta de crédito e trouxe a necessidade de o Estado assumir as perdas do sistema financeiro após a quebra do banco Lehman Brothers, levando a medidas como nacionalização de bancos. Em síntese, a mesma crise que inicialmente realçou o papel do poder público para recuperar a economia exigiu que o mesmo Estado pagasse por essa oferta de crédito. 

Porém, em 2010, Dilma apostou erroneamente no caminho inverso, promovendo a liberação de crédito para aumentar os gastos do governo e das famílias e reaquecer a economia. Já em 2014, o contexto eleitoral foi distinto. Para o cientista político da UnB, Antônio Flávio Testa, “foi a partir do momento que a turma da Dilma a convenceu de que ela tinha condições de ser reeleita é que houve a quebra de confiança definitiva entre ela e Lula, que queria se candidatar novamente em 2014”. 

Na disputa eleitoral daquele ano, Dilma se reelegeu com uma pequena margem em relação ao seu adversário Aécio Neves (PSDB). Segundo o cientista político Antônio Testa, sua vitória ocorreu, em grande medida, por apresentar-se como uma candidata de continuidade dos programas que fizeram sucesso nos mandatos de Lula, como o Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida. 

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Porém, logo após assumir o cargo, Dilma foi acusada por seus adversários de estelionato eleitoral e crime de responsabilidade, acusando a então presidente de ordenar a edição de créditos suplementares sem a autorização do Senado, bem como realizar operação de crédito com instituição financeira controlada pela União. A defesa de Dilma, por outro lado, argumentou que não houve crime nas operações de crédito editadas pela presidente, pois foram autorizações de gastos sem impacto na realização da despesa prevista na Lei Orçamentária Anual (LOA).

Sem vocação para negociar com o Congresso, Dilma foi boicotada pelo próprio partido, que sabotava o então ministro da Fazenda, Joaquim Levy. A popularidade de Dilma despencou, pois as manifestações de rua de 2013 evoluíram de um protesto contra o aumento das tarifas do transporte público para a catarse de uma insatisfação geral da população brasileira com a classe política, corrupção e problemas sistemáticos na saúde e na educação. 

No auge da crise, o líder do PT no Senado, Delcídio do Amaral, foi preso, acusado pelas investigações da Operação Lava Jato de obstruir a Justiça ao tentar comprar o silêncio do ex-diretor da Petrobras, Nestor Cerveró. Em novembro de 2015, quando Delcídio aceitou e fez sua delação premiada, detalhou esquemas de corrupção para financiar as campanhas de Dilma e acusou a presidente de nomear Marcelo Navarro Ribeiro Dantas para ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) para tentar libertar presos da Lava Jato. “O principal era o impacto da soltura dessas pessoas, porque eram pessoas importantes no cenário político e no cenário empresarial”, afirmou Delcídio. 

Na época, Dilma negou as acusações do líder do PT no Senado. Ainda em 2015, a procuradoria geral da República pediu ao Supremo Tribunal Federal para abrir inquérito por obstrução às investigações da Lava Jato contra a então presidente Dilma Rousseff, o ex-presidente Lula e o Advogado-Geral da União, José Eduardo Cardozo. 

Segundo a procuradoria, Dilma pretendia nomear Lula como ministro da Casa Civil para dar foro privilegiado ao seu aliado e retirar as investigações contra ele da competência do juiz Sérgio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba. Além disso, partidos como o PSDB e Cidadania solicitaram a suspensão da nomeação de Lula ao Supremo Tribunal Federal (STF) alegando a mesma justificativa que a PGR.

No pedido de investigação, a PGR também cita uma conversa entre Dilma e Lula, na qual a presidente dizia que estava mandando o termo de posse de Lula como ministro da Casa Civil para que ele usasse em caso de necessidade. Porém, o aúdio foi obtido de maneira ilegal, através de grampos telefônicos da própria Polícia Federal, mesmo após a suspensão da ordem de interceptação.  

Por que Dilma sofreu impeachment?

O processo de impeachment de Dilma começou em 2 de dezembro de 2015, quando o então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, aceitou o pedido realizado pelos juristas Hélio Bicudo, Miguel Reale Júnior e Janaína Paschoal. Os autores justificaram que Dilma havia cometido crime de responsabilidade pela prática das chamadas “pedaladas fiscais”, ou seja, pela edição de decretos de abertura de crédito sem a autorização do Congresso.

A própria abertura do processo contra Dilma mostra a dificuldade que a ex-presidente tinha em se relacionar com o Congresso. Cunha abriu o processo de impeachment no mesmo dia em que a base do governo votou a favor da abertura de um procedimento contra ele no Conselho de Ética da Câmara. Depois do processo mais longo da história do colegiado, Cunha foi cassado por ter mentido na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Petrobras, afirmando que não tinha contas no exterior – fato desmentido pelas investigações da Lava Jato. Cunha foi preso logo após perder o mandato.

Com uma duração de 273 dias, o impeachment de Dilma se encerrou em 31 de agosto de 2016, afastando a petista da presidência, mas preservando seus direitos políticos. 

O cientista político Antônio Flávio Testa atribui um dos motivos da queda de Dilma à conjuntura econômica desfavorável durante seu governo. “Além de herdar as consequências da oferta de crédito no governo Lula para remediar a crise de 2008, a Dilma também aumentou seu desgaste gerado quando fez a Medida Provisória (MP) do sistema elétrico, causando um prejuízo pelo qual o consumidor paga até hoje.”

Editada em 2012, a MP 579 tinha o objetivo de reduzir o custo da energia elétrica remunerando as usinas hidrelétricas que aceitavam prorrogar suas concessões apenas pela operação e manutenção dos equipamentos, e não pelo valor da venda de energia. Inicialmente, essa mudança reduziu 20% do valor das tarifas de energia elétrica em 2013. Porém, a partir de 2015, os preços para a geração de energia cresceram 14,25%, superando o valor da inflação no período.

Além disso, Testa afirma que os ministros e secretários nomeados por Dilma também foram incapazes de ajudá-la a superar a crise política que se instaurava entre o Executivo e o Congresso Nacional. “Por exemplo, a Dilma tinha um secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, que não era muito confiável. Foi ali que começaram as pedaladas fiscais, ou seja, quando o governo gastou sem ter dinheiro em caixa. Até aí, não seria motivo para impeachment, embora seja imoral e ilegal. Todos os presidentes desde Fernando Henrique Cardoso fizeram pedaladas fiscais, mas no caso da Dilma, houve denúncia do site Contas Abertas, que pediu uma auditoria das contas públicas pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Os resultados dessa inspeção chamaram muita atenção, e essas pedaladas foram imperdoáveis naquele momento, porque a Dilma não conseguia negociar com o Centrão para frear a abertura do processo de impeachment.”

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Embora Lula tenha indicado Dilma como sua sucessora em 2010, sua descrença em relação à sustentação política da petista foi aumentando gradativamente, assim como a base de apoio da presidente foi ruindo no Congresso. Em entrevista para a revista Veja, o então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, afirmou que o próprio Lula o procurou para buscar uma solução menos drástica do que o impeachment de Dilma. De acordo com Cunha, durante a conversa, Lula revelou o que pensava sobre sua sucessora: “Contendo o choro, Lula disse que o maior erro que ele havia cometido na vida foi ter permitido que Dilma se candidatasse à reeleição”. Procurados pela revista Veja, Lula e Dilma não quiseram conceder entrevistas. 

Embora Lula tenha negado as acusações de Cunha em 2016, na época da entrevista, ele descartou explicitamente a possibilidade de nomear a ex-presidente como uma de seus ministros, caso inicie um novo mandato a partir de 2022. Em entrevista à rádio Rede T, do Paraná, Lula afirmou que não se sente “à vontade” de “mandar na Dilma” e que, embora a experiência da ex-presidente possa ajudar o país em questões importantes, “é muito difícil imaginar um presidente dando ordem a outro presidente”.

Letícia Fortes

Estudante de Jornalismo na PUCPR e estagiária do Regra. Escrevo para evidenciar e esclarecer assuntos que exigem nossa atenção, pois essa é minha forma de defender uma comunicação humanizada, acessível e engajada socialmente.

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