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Porque não devemos chamar Bolsonaro de fascista e qual o melhor termo para se referir a políticos extremistas, segundo pesquisador

Porque não devemos chamar Bolsonaro de fascista e qual o melhor termo para se referir a políticos extremistas, segundo pesquisador
Foto: Marcos Corrêa/PR

Um dos termos mais comuns para se referir ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) remete a um fenômeno do século XX que ficou conhecido como fascismo. Mas esse não é o termo ideal, segundo o historiador e analista político Steven Forti, que estuda o fenômeno da ascensão de políticos extremistas em todo o mundo. Ele defende que estamos, na verdade, diante de um novo fenômeno, que ele denomina Extrema Direita 2.0.

“Definir Trump, Bolsonaro, Salvini ou Le Pen como fascistas, por um lado, acarreta uma banalização do fascismo histórico e, por outro, nos impede de ver o que há de novo no que defino de extrema direita 2.0”, disse o pesquisador em uma entrevista por email ao Regra dos Terços. Para ele, há uma diferença notável entre movimentos como o fascismo e o que estamos vendo atualmente em todo o mundo: a extrema direita 2.0, veste camisa, paletó e gravata, afirma falar a língua do povo e representar o “bom senso”.

Bolsonaro
Foto: Marcos Corrêa/PR

Esse fenômeno tem ganhado corpo, segundo o historiador, por causa das profundas transformações pelas quais a sociedade tem passado, de forma cada vez mais acelerada. “É claro que em tempos de crise – seja ela econômica, política, social ou cultural – as opções radicais têm mais chances de se enraizar e seguir em frente”, explica.

“Quando as pessoas estão com medo ou preocupadas, procuram proteção e segurança. À sua maneira, a extrema direita 2.0 te oferece isso. É claro que é uma falsa proteção e uma falsa segurança, mas isso não significa que muitas pessoas não comprem essa história”, explica Forti. “O que acontece é que nossas sociedades são extremamente complexas e respostas simplistas não podem funcionar”, completa.

Se as causas para a ascensão da extrema direita 2.0 parecem lógicas a um primeiro olhar, combater esse fenômeno é mais difícil do que parece. Para isso é necessário vontade política e consciência social. “É necessário recolocar as fendas que se abriram nas nossas sociedades: é preciso garantir que volte a haver confiança nas instituições e que os partidos políticos, os sindicatos e as associações da sociedade civil funcionem como uma verdadeira correia de transmissão entre os cidadãos e as instituições. Com sociedades desgastadas e fragmentadas, a extrema direita continuará a se expandir porque não encontra barreiras para impedi-la”, diz Forti.

Steven Forti é um historiador e analista político. Ele é pesquisador integrado do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa e professor associado da Universidade Autónoma de Barcelona. Seus estudos se concentram no fascismo e na extrema direita. Os seus últimos livros são, ao lado de Francisco Veiga, Carlos González-Villa e Alfredo Sasso, Patriotas indignados. “Extrema direita no Pós-Guerra Fria” (Alianza, 2019) e “Extrema direita 2.0: O que é e como combatê-lo”, que será publicado no final de outubro pelas editoras Século XXI da España Editores.

Confira a entrevista na íntegra:

1) Você defende em seu artigo a importância de uma nomenclatura adequada para se referir aos novos ultra-direitistas. Por que essa definição é tão importante?

Porque para compreender um fenômeno é essencial defini-lo com precisão. Se não soubermos como defini-lo, nunca seremos capazes de entendê-lo. E, consequentemente, não seremos capazes de parar e lutar contra isso. Definir Trump, Bolsonaro, Salvini ou Le Pen como fascistas, por um lado, acarreta uma banalização do fascismo histórico e, por outro, nos impede de ver o que há de novo no que defino de extrema direita 2.0. E, cuidado, dizer que os de hoje não são fascistas não significa pensar que eles não são perigosos para uma sociedade democrática. São simplesmente algo diferente, embora possa haver elementos de continuidade com o fascismo histórico, mais ou menos marcados de acordo com o contexto nacional.

2) Qual seria, na sua opinião, a diferença entre expressões como populismo radical de direita, nacional-populismo, pós-fascismo e fascismo?

Mais do que diferenças, eu falaria de uma grande confusão. Na verdade, são termos que se usam para falar da mesma coisa, ou seja, Trumpismo, Bolsonarismo, Vox, Chega, Lepenismo, etc. Mas, embora esteja claro o que era o fascismo – um movimento político e uma ideologia nascida na Itália em 1919, que se espalhou na Europa nas duas décadas seguintes e que foi derrotado em 1945 – não está nada claro o que é o pós-fascismo, nacional-populismo ou populismo radical de direita.

Simplificando um pouco, o pós-fascismo representa movimentos e partidos políticos que são filhos ou netos do fascismo histórico, mas se distanciaram dele. Ou também pode significar, como explicou o filósofo húngaro Gáspár Miklós Tamás, um fenômeno que implica um “fascismo generalizado da sociedade neoliberal devido a vários fenômenos concomitantes que deterioram a condição cívica nos países socialmente mais avançados”.

Quanto aos outros dois conceitos, é difícil explicar porque atualmente não há consenso sobre o que é populismo. Há quem diga que é uma ideologia “light”, quem diga que é um estilo ou uma retórica e quem diga que é uma estratégia política. Em vez disso, o populismo parece um saco misturado onde tudo o que não se encaixa nas categorias tradicionais de interpretação da política é colocado. Pessoalmente, acho que populismo é um adjetivo e não um substantivo, então não faz sentido falar de populismo radical de direita ou nacional-populismo. O que podemos dizer é que os atuais ultradireitistas também são populistas, ou seja, usam ferramentas e linguagem populistas.

3) Você defende que estamos diante de um fenômeno novo. Quais são as principais características desse novo fenômeno e em que difere do que vimos em outros períodos da história?

No que diz respeito ao fascismo histórico, por exemplo, a extrema direita 2.0 não é um partido com milícias paramilitares que quer estabelecer um regime autoritário de partido único. Nem propõe enquadrar as massas ou construir um “novo homem”. Nem tem um projeto imperialista de política externa.

Em vez disso, seu objetivo é transformar a democracia em uma casca vazia, sem negá-la expressamente. Veja a Hungria de Viktor Orbán: o primeiro magiar falou a respeito da “democracia iliberal”. Os novos ultradireitistas, em suma, não usam mais jaquetas de couro, ou suásticas tatuadas, nem vão com a cabeça raspada em concentrações autossustentáveis ​​onde fazem a saudação romana. Neo-fascistas e neonazistas ainda existem, obviamente, mas eles ainda são ultra-minoria.

A extrema direita 2.0, veste camisa, paletó e gravata; ele afirma falar a língua do povo e representar o “bom senso”. As suas principais características são um marcado nacionalismo, identitarismo ou nativismo, a recuperação da soberania nacional, uma profunda crítica ao multilateralismo – e, na Europa, um elevado grau de eurocepticismo -, a defesa dos valores conservadores, a defesa da lei e da ordem, a islamofobia, a condenação da imigração rotulada de “invasão”, a crítica ao multiculturalismo e às sociedades abertas, o antiintelectualismo e o distanciamento formal de experiências passadas de fascismo.

4) Você acha que o surgimento de uma extrema direita é inevitável em todos os momentos? Estamos diante de um ciclo histórico?

A extrema direita sempre existiu. Não vejo por que deveria desaparecer agora ou no futuro. O que acontece é que pode adotar roupas novas, ou seja, modificar sua forma de organização, seu projeto, seu programa e seus objetivos de acordo com o contexto histórico em que nasceu e atua. Cada movimento político, em suma, é filho de seu tempo. E de suas contradições. Dito isso, é claro que em tempos de crise – seja ela econômica, política, social ou cultural – as opções radicais têm mais chances de se enraizar e seguir em frente. Não descubro nada se digo que Mussolini e Hitler conseguiram tomar o poder também devido ao contexto de crise em que a Itália se encontrava no primeiro mundo do pós-guerra e a Alemanha após a crise de 1929, respectivamente. Agora vivemos uma fase de profunda crise por diversos fatores: o fracasso do modelo econômico neoliberal, o desgaste de nossas sociedades, a crescente desconfiança dos cidadãos em relação aos partidos e instituições políticas, as rápidas transformações do modelo de produção, as mudanças tecnológicas, as consequências da globalização, as dúvidas sobre quem manda a nível global… Num contexto deste tipo, não é surpreendente que as propostas extremistas e anti-sistema possam prosperar.

5) Você disse que o medo das rápidas mudanças que vivemos tem causado uma verdadeira crise cultural e de valores. Parece que o mundo vai acelerar cada vez mais essas transformações. A ascensão da extrema direita é uma resposta para isso? Como combater esse fenômeno em um mundo em constante mudança?

Quando as pessoas estão com medo ou preocupadas, procuram proteção e segurança. À sua maneira, a extrema direita 2.0 te oferece isso. É claro que é uma falsa proteção e uma falsa segurança, mas isso não significa que muitas pessoas não comprem essa história. Há cada vez mais imigração? Bem, fechamos as fronteiras. A família tradicional está em crise? Pois bem, tiramos os direitos do coletivo LGBT+ e lutamos contra a suposta “ideologia de gênero”. Os salários caem e muitas empresas fecham? Bem, nós lutamos contra o “mundialismo” e o “globalismo”. O que acontece é que nossas sociedades são extremamente complexas e respostas simplistas não podem funcionar.

Para combater a extrema direita, você deve oferecer respostas às perguntas que preocupam as pessoas. E, além disso, é necessário entender por que motivos essas formações se instalaram e avançaram. Trata-se, em suma, de resolver ou pelo menos confrontar os problemas subjacentes. Em suma, por um lado, devemos encerrar a fase do neoliberalismo que devastou o tecido social e devemos retornar a um consenso keynesiano para limitar o lado selvagem do capitalismo. Por outro lado, um trabalho pedagógico profundo deve ser feito para evitar que boatos, notícias falsas e teorias da conspiração continuem a se espalhar. E, por último, é necessário recolocar as fendas que se abriram nas nossas sociedades: é preciso garantir que volte a haver confiança nas instituições e que os partidos políticos, os sindicatos e as associações da sociedade civil funcionem como uma verdadeira correia de transmissão entre os cidadãos e as instituições. Com sociedades desgastadas e fragmentadas, a extrema direita continuará a se expandir porque não encontra barreiras para impedi-la.

6) O atual governo brasileiro está, em sua opinião, na categoria 2.0 de extrema direita?

Desde sempre. Obviamente, existem diferenças entre Bolsonaro e Salvini, Orbán, Le Pen ou Trump, mas eles têm mais pontos em comum. No debate interminável sobre se o regime de Franco foi um regime fascista ou simplesmente um regime autoritário, Ricardo Chueca explicou que cada país dá vida ao fascismo de que necessita. Essa frase pode ser perfeitamente adaptada ao presente: Bolsonaro, em suma, é a expressão brasileira da extrema direita 2.0.

7) Qual a relação da extrema direita 2.0 com os direitos humanos?

Formalmente não os nega, mas na prática não os respeita. Basta ver o que ele diz ou faz quando está no governo com imigrantes estrangeiros, com o coletivo LGBT+ ou com a mídia. Trump defendeu a construção do muro com o México para evitar a chegada de migrantes que foram detidos nas prisões ou expulsos: há meses vimos centenas de crianças separadas de suas mães. Salvini criminalizou ONGs que salvam vidas no Mediterrâneo e fechou portos italianos para evitar a chegada de migrantes quando ele era ministro do Interior. Orbán, além de construir uma cerca na fronteira com a Sérvia, aprovou uma lei que limita os direitos do coletivo LGBT+ e controla na prática 90% da mídia húngara. Isso significa respeitar os direitos humanos, ou seja, o direito à vida, liberdade de expressão, liberdade de opinião e consciência, educação, moradia, participação política ou acesso à informação? O que os ultradireitistas estão fazendo os nega enfaticamente.

8) Em relação às estratégias políticas, o principal objetivo da extrema direita 2.0 é polarizar a sociedade, marcar o debate político com questões fragmentadas e direcionar a opinião pública para a extrema direita, segundo seu artigo. Como as democracias podem escapar dessas armadilhas?

Não é fácil, obviamente, mas o que se deve desenvolver é uma estratégia multinível e poliédrica. Ou seja, não há um único plano de ação, mas muitos. E todos eles precisam se desenvolver ao mesmo tempo. Por um lado, os partidos políticos democráticos não podem aliar-se, nem mesmo por tática, aos partidos de ultradireita: embora não sejam a solução, os cordões sanitários são necessários. Da mesma forma, os partidos democráticos não podem comprar parte do seu discurso ou entrar no seu jogo. E, por último, devem ser muito rigorosos na seleção de seu pessoal político para evitar desvios radicais, como aconteceu com o Partido Republicano nos Estados Unidos já na época do Tea Party. Por outro lado, a mídia também tem enormes responsabilidades na ascensão de Trump, Bolsonaro ou Le Pen: jornais, rádios e televisões não podem se tornar alto-falantes para as declarações e embustes da extrema direita 2.0. Eles devem fazer um trabalho de contextualizar e controlar as fontes com maior ética jornalística: se uma afirmação é uma mentira, eles não devem reproduzi-la, mas negá-la. Finalmente, muito progresso deve ser feito na gestão de redes sociais que favoreçam a polarização da sociedade e a viralização do discurso de ódio: as instituições devem pressionar as grandes empresas de tecnologia para reduzir a opacidade dos algoritmos e aplicar regulamentações estritas e credíveis, sob a supervisão de o poder público, além de implementar legislação que combata efetivamente o discurso de ódio e a disseminação de trotes, notícias falsas e teorias da conspiração.

9) As questões raciais só se tornaram inaceitáveis ​​para algumas sociedades após Auschwitz. Agora, esses problemas são substituídos por problemas de identidade. Será necessária uma nova tragédia para que a sociedade também condene este tipo de discriminação? Existe um caminho alternativo?

Espero que não seja necessário. Na verdade, o caminho é simples: educar, educar, educar. As instituições devem reduzir o hiato educacional, que é uma das explicações para o crescimento da extrema direita. A qualidade da educação, assim como sua gratuidade, deve ser uma meta compartilhada por todos os governos, sejam eles progressistas ou conservadores. Ao mesmo tempo, devem ser desenvolvidos programas de alfabetização digital que são essenciais na era da internet, das redes sociais e da pós-verdade.

Tradução: Eline Carrano

Kelli Kadanus

Kelli Kadanus, jornalista, cronista, tia coruja. Escrevo para tentar me entender e entender o mundo. É assim desde que aprendi a juntar sílabas. Sonho em mudar o mundo e as palavras são minha única arma disponível.

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