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Era dos extremos: por que as democracias estão em perigo

Era dos extremos: por que as democracias estão em perigo
Cerimônia comemorativa do 7 de Setembro, no Palácio da Alvorada. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O termo recessão democrática tem sido usado com frequência por cientistas políticos para analisar o fenômeno da ascensão de extremos na política, tanto à esquerda quanto à direita e o perigo que eles representam para as democracias ocidentais. Figuras autoritárias apostam no carisma e em soluções fáceis para problemas complexos e polarizam a sociedade de tal forma que é quase impossível encontrar pontos de consenso na esfera pública. Mas afinal, a democracia tem salvação?

O pesquisador Larry Diamond, maior autoridade em democracia no mundo, acredita que estamos em um período de recessão democrática. Exemplos de países que vêem sua democracia ser atacada por dentro não faltam: Brasil, Estados Unidos, Venezuela, Tailândia, Turquia, Hungria, Polônia e por aí vai. 

No livro “O povo contra a democracia” (Companhia das Letras. 442 páginas), Yascha Mounk constata que a população hoje é muito mais crítica à democracia do que no passado. Segundo o autor, os jovens estão cada vez menos propensos a dar importância a viver em uma democracia. 

Isso, em parte, explica a ascensão de extremos na política. Mas não é só isso. Mounk também defende que pelo menos três constantes que caracterizaram as democracias ocidentais não são mais válidas atualmente: a rápida melhora no padrão de vida dos cidadãos, a dominação exclusiva dos meios de comunicação por elites políticas e econômicas e a homogeneidade racial ou étnica dos países. 

A sociedade evoluiu rapidamente, mas as democracias não parecem mais oferecer respostas aos problemas de algumas sociedades. Neste contexto surgem discursos do nós contra eles e as soluções simplistas. 

Em “Como as democracias morrem” (Zahar, 270 páginas), Steven Levitsky e Daniel Ziblatt destacam uma característica perversa da democracia como regime de governo: ela permite que figuras extremistas cheguem ao poder e destruam as instituições de dentro para fora, em um processo lento e gradual. 

“O paradoxo trágico da via eleitoral para o autoritarismo é que os assassinos da democracia usam as próprias instituições democráticas – gradual, sutil e mesmo legalmente – para matá-la”, escrevem. 

Casos para ilustrar o que os autores querem dizer não faltam. No caso da Hungria, por exemplo, não houve nenhuma decisão revolucionária que retirasse o país abruptamente da lista de nações democráticas do mundo. Qualquer uma das medidas isoladas de Viktor Orbán poderia ser defendida do ponto de vista legal. Mas o conjunto da obra deixa claro que o país não é mais uma democracia liberal. 

O ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, trilhou um caminho parecido, agindo com a cartilha de políticos autoritários embaixo do braço o tempo todo, enquanto tentava minar as instituições democráticas do país e polarizar cada vez mais a sociedade. O ápice do estrago feito pelo Trumpismo na política norte-americana foi assistido pelos olhos atônitos do resto do mundo quando seus apoiadores tentaram invadir o Congresso e impedir que a vitória do adversário, Joe Biden, fosse declarada. 

No Brasil, Jair Bolsonaro (sem partido) segue os mesmos passos de Trump. A exaltação do nacionalismo, propagação de notícias falsas e a promessa de facilitar a posse de armas para a população foram alguns pontos que trouxeram à tona a ascensão da extrema direita no país, personificada em Bolsonaro. O presidente brasileiro ataca o sistema eleitoral, convoca manifestações golpistas, ameaça fechar o Supremo Tribunal Federal (STF) e já afirmou com todas as letras que as cenas vistas no Congresso americano podem se repetir por aqui em 2022 – ano em que Bolsonaro tentará se reeleger. 

A era dos extremos

Ambos os extremos ideológicos, esquerda ou direita, são marcados por pensamentos radicais, a busca por um único culpado para algum eventual problema que a sociedade esteja passando e também a exaltação de personalidades políticas. “É o culto de personalidades como [Josef] Stalin [ex-primeiro ministro da antiga União Soviética], do lado esquerdo. E o culto a personalidade de Mussolini, do lado direito”, exemplificou o advogado e internacionalista João Alfredo Nyegray.

A extrema direita é representada por uma forte exaltação do nacionalismo e do populismo. Preconceito contra etnias, raças, identidades de gênero e xenofobia são alguns exemplos de características dessa ideologia política. “Uma visão etnocêntrica da sua cultura ser a melhor, da sua cultura ser a superior”, diz Nyegray.    

Para Nyegray, não há muitas diferenças entre os extremos. No entanto, a direita tem características perigosas que vêm de um passado não muito distante e extremamente violento. “No caso da extrema direita, essas características do nazismo da década de 20 e também na década de 30, onde esse extremo, em particular, surgiu com uma força muito grande naquela separação: nós versus eles”. 

O internacionalista explica que os extremos políticos sempre estiveram presentes na sociedade, no entanto, foi durante o nazisfacismo que houve a ascensão da extrema direita. “São grandes marcas da catástrofe que sobreveio a Segunda Guerra Mundial. Do outro lado a gente viu o outro extremo, foi mais ou menos nessa época. A gente não pode esquecer que Stalin, por exemplo, matou mais pessoas na União Soviética do que Hitler matou no decorrer da Segunda Guerra”.

A democracia está reagindo aos extremos?

Apesar dos sinais de alerta, em alguns países é possível ter a impressão de que as democracias começam a reagir. Nos Estados Unidos, por exemplo, Donald Trump foi derrotado ao tentar um segundo mandato. Nas Filipinas, Rodrigo Duterte recentemente anunciou a aposentadoria da vida política. Na França, a extremista Le Pen foi derrotada. A extrema direita e extrema esquerda encolheram na eleição da Alemanha. No Brasil, as pesquisas indicam que Bolsonaro terá dificuldades para se reeleger em 2022. 

Mesmo assim, ainda há uma preocupação no ar, que não pode ser descartada. Para Nyegray, a derrota de Trump nos Estados Unidos não significa que a onda da extrema direita tenha passado e muito menos que esteja diminuindo. “O Trump foi derrotado, mas não podemos acreditar que pela derrota do Trump, automaticamente, é a esquerda que está no poder dos Estados Unidos, porque não é. Biden não seria um esquerdista, eu classificaria mais como um centro direita do que um esquerda em si, até pelas próprias características históricas do Democratas [partido político do presidente americano]” explicou. 

O papel das redes sociais no enfraquecimento das democracias

Uma das grandes armas utilizadas pela extrema direita tem sido a propagação de notícias falsas, sejam elas contra partidos opositores e concorrentes, como também contra ideologias, ciência e saúde. Durante o período das eleições de 2018 no Brasil houve uma explosão de Fake News compartilhadas em grupos de troca de mensagem na internet. O rastro de destruição deixado pelo compartilhamento dessas (des)informações ainda hoje causam enormes problemas, que tomaram proporções ainda maiores neste período de pandemia de covid-19. 

Para Nyegray, a ascensão da extrema direita e da extrema esquerda tem fortes ligações com as falsas notícias transmitidas pelas redes sociais. “Essas pessoas passam a propagar informações que não são verdadeiras, mas que são exatamente aquilo que as pessoas queriam acreditar. Enquanto no passado, as notícias e as mídias eram um canal unidirecional, saia da fonte e vinha direto para os consumidores, hoje ela é muito multipolar, ela vai e vem de diversas fontes”, analisa.

Nyegray avalia que as redes sociais possibilitam que pessoas com as mesmas ideias e pensamento entrassem em contato, o que é um lado positivo possibilitado pelo avanço tecnológico. No entanto, é também um aspecto negativo e perigoso, pois nesses fóruns e bate-papos on-line são criadas as Fake News. “Um Filósofo chamado Karl Popper dizia que para construirmos uma sociedade tolerante, nós não podemos tolerar os intolerantes. Porque se eu tolero os intolerantes e eles chegam ao poder, eles eventualmente farão sociedade tão intolerante quanto eles”, citou.  

O pesquisador Cass Sunstein destaca que como as mídias sociais permitem às pessoas fazer curadoria de suas próprias fontes de informação, elas ensejaram o surgimento de “câmaras de eco”, em que os usuários se cercam de pessoas com pensamentos similares. Isso torna as pessoas cada vez menos tolerantes com aqueles que pensam diferente e cada vez mais propensas a dar ouvido a extremistas. 

“Os riscos dos extremos para a democracia são aqueles que a história já nos ensinou. Ao personificar aqueles que são eventuais responsáveis pelo momento de crise, nós podemos estar apontando para as pessoas erradas e culpando de forma muito leviana pessoas que não têm relação com algo que nos incomode. O grande receio é as instituições democráticas, pelas quais lutamos tanto,que elas acabam padecendo no nosso país e em outros lugares do mundo. Então qualquer extremo é perigoso por causa disso, ao receber o poder, os extremos podem criar uma sociedade de intolerância, tirar os freios do contrapeso que caracterizam as sociedades modernas”, alerta Nyegray.           

*Edição e supervisão: Kelli Kadanus

Wanessa Alves

Estudante de jornalismo na Universidade de Brasília (UnB) e estagiária no Regra dos Terços. 

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