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GARIMPEIROS INVADEM BASE DO ICMBIO E FAZEM SERVIDORES REFÉNS

GARIMPEIROS INVADEM BASE DO ICMBIO E FAZEM SERVIDORES REFÉNS
Foto: Arquivo pessoal

Um grupo de garimpeiros encapuzados e fortemente armados com fuzis invadiram na tarde desta segunda-feira (31), por volta das 16h, a base avançada da Estação Ecológica de Maracá, em Roraima. Na ocasião, três brigadistas foram feitos de reféns, enquanto os criminosos roubaram os materiais que haviam sido apreendidos em uma operação de fiscalização bem sucedida, realizada há duas semanas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e pelo Exército brasileiro. O episódio mostra uma escalada do conflito entre o garimpo ilegal e servidores ambientais e povos indígenas, que também vêm sofrendo ameaças e retaliações em suas terras por denunciar atividades ilegais.

Segundo testemunhas, o bando buscava agentes do ICMBio e foram taxativos ao dizer que iriam assassinar os profissionais. Os reféns ainda afirmaram que os garimpeiros ameaçaram queimar viaturas do órgão que encontrarem na região futuramente e que estão monitorando os servidores ambientais. Além disso, foram roubados cinco quadriciclos, oito motores de popa e outros materiais apreendidos que eram patrimônio da unidade.

Foto: Arquivo pessoal

Atualmente, três brigadistas permanecem em situação de vulnerabilidade dentro da base avançada do ICMBio, segundo informações do local. O Instituto está organizando uma ação com o apoio de bombeiros e da Polícia Federal para resgatar essas pessoas, buscando manter a integridade dos servidores.

Outros ataques

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) declarou na semana passada desapreço ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o que levou os servidores do órgão a reagir através da campanha “Eu gosto do ICMBio”. O vídeo publicado no canal oficial da Associação Nacional dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente (Ascema Nacional) tinha mais de 5,6 mil visualizações até esta terça-feira (1).

Além de criticar órgãos ambientais, o presidente incentiva abertamente o garimpo ilegal, com declarações de que pretende legalizar esta prática.

Em nota, a Ascema Nacional afirma que os ataques ocorridos nesta segunda-feira (31) estão ligados diretamente ao inquérito que a Polícia Federal abriu e que também foi solicitado pela Procuradoria-Geral da República, no mesmo dia, para que o Supremo Tribunal Federal (STF) investigue o ministro do Meio Ambiente (MMA), Ricardo Salles.

“As denúncias possuem fortes indícios de que o chefe do MMA atrapalhou investigações sobre a maior apreensão de madeira da história do país com o intuito de defender o interesse de madeireiros ilegais”, diz a nota dos servidores ambientais.

A Ascema Nacional pediu, ainda, que a relatoria do caso no STF, ministra Cármen Lúcia, determine o afastamento de Salles. “Se o poder Judiciário precisa intervir para que o governo cumpra sua obrigação, isso é um flagrante de que as autoridades têm cometido crime de responsabilidade ao descumprir suas obrigações constitucionais”, dizem os servidores.

“Exigimos ainda que as autoridades protejam os servidores ambientais, alvos de constantes ameaças. Que todos os responsáveis pela invasão, roubo e ameaças de ontem, na Estação Ecológica de Maracá, sejam encontrados e disciplinarmente punidos, dentro das diretrizes do Estado Democrático de Direito”, diz ainda a Ascema.

Garimpeiros também perseguem indígenas

Além de atuar para intimidar servidores ambientais, garimpeiros ilegais também perseguem lideranças indígenas. Na semana passada, ocorreu um conflito entre garimpeiros, alguns indígenas e agentes de forças de segurança em Jacareacanga, sudoeste do Pará.

O confronto ocorreu durante a operação Mundurukânia de combate ao garimpo ilegal nas terras indígenas Munduruku e Sai Cinza. As forças de segurança que participavam da ação foram surpreendidas por um grupo de garimpeiros, que iniciou um protesto contra a operação de proteção das terras indígenas.

Conforme as informações enviadas pelas lideranças Munduruku, aconteceu tiroteio e algumas casas foram incendiadas por garimpeiros em retaliação à denúncias feitas sobre garimpo ilegal.

“É preciso dar um basta nesta violência e é preciso tomar providências imediatas para estabelecer segurança, a integridade física e a vida dos povos indígenas”, disse a deputada federal Joenia Wapichana (REDE-RR), primeira mulher indígena eleita para o cargo, em pronunciamento na Câmara na semana passada.

Esse não é o primeiro caso de violência contra o povo Munduruku registrado nos últimos meses. Em março, a sede da Associação de Mulheres Indígenas Munduruku foi depredada por garimpeiros ilegais que atuam na região. 

A região sudoeste do Pará, junto com a Terra Indígena Yanomami, são as áreas mais emblemáticas na atuação organizada de grupos garimpeiros, que além de interferirem na gestão dos territórios indígenas, também ameaçam a vida e integridade física dos indígenas. 

Ainda na semana passada, a Frente Parlamentar Mista em Defesa do Direitos dos Povos Indígenas (FPMDDPI) encaminhou ofício junto com a Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara, nesta sexta-feira, 21, ao STF pedindo a retirada dos garimpeiros ilegais da terra indígena Yanomami.

No mês passado, garimpeiros  fortemente armados e em barcos teriam atacado a comunidade Palimiú, deixado dois meninos mortos, um de um ano e outro de cinco, alguns indígenas feridos e a comunidade aterrorizada. As crianças teriam se afogado depois de fugir do ataque a tiros à comunidade. 

O conflito na Terra Indígena Yanomami revela uma escalada de violência aterradora. No dia 11 de maio, garimpeiros atiraram contra policiais federais que estavam no local investigando o conflito.  No dia 15, lideranças da Comunidade Palimiú, que fica no município de Alto Alegre em Roraima, realizaram uma coletiva de imprensa em Boa Vista para denunciar a violência dos ataques de garimpeiros ilegais às suas terras. 

O caso mais recente foi no dia 19 de maio, quando foi denunciado à Funai que garimpeiros teriam tentado novamente invadir a comunidade de Palimiú, segundo informação divulgada pelo Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kuana (Condisi-YY). A entidade enviou um ofício às autoridades pedindo urgência para impedir a continuidade da violência na região. 

No ofício em questão, o conselho distrital informou que o ataque teria acontecido por volta de 22h do dia 19. Os indígenas de Palimiú relataram que os garimpeiros chegaram em 15 barcos e tentaram invadir a comunidade. Os invasores ainda teriam voltado para os barcos após perceberem a presença de indígenas que estavam no entorno fazendo vigia. 

Em nota, a FPMDDPI “reforça a necessidade urgente de proteção da comunidade Palimiú e as demais comunidades na Terra Indígena Yanomami, antes que o genocídio anunciado se concretize”.

*Colaborou Kelli Kadanus

Eline Carrano

Jornalista por profissão, cronista por opção e neta coruja. Escrevo porque preciso justificar as ansiedades que o tarja-preta não dá conta.

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