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Eleito com apoio de 16 governadores, Bolsonaro viu debandada de apoiadores ao longo do mandato

Eleito com apoio de 16 governadores, Bolsonaro viu debandada de apoiadores ao longo do mandato
Foto: Reprodução

Eleito com o apoio de 16 governadores no segundo turno em 2018, Bolsonaro viu sua base nos estados “derreter” ao longo do mandato. Quase metade dos governadores que apoiaram o presidente foram acusados de corrupção, enquanto outros políticos se afastaram à medida em que Bolsonaro começou a atacar instituições e por causa da má gestão da pandemia de Covid-19.

Entre eles, Wilson Witzel (PSC-RJ), João Doria (PSDB-SP), Ronaldo Caiado (DEM-GO), Romeu Zema (Novo-MG) e Eduardo Leite (PSDB-RS) romperam com Bolsonaro para buscar uma base eleitoral de direita mais moderada, visando ampliar as chances de um candidato da chamada ‘terceira via’ nas eleições deste ano.

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Porém, os principais candidatos da terceira via, como Ciro Gomes (PDT), Simone Tebet (MDB), João Doria (PSDB) e Eduardo Leite apresentaram intenções de voto abaixo de 10% em todas as sondagens realizadas até o momento pelos institutos Ipespe, Datafolha e PoderData. Portanto, os resultados das pesquisas eleitorais indicam que os candidatos moderados não possuem viabilidade política diante da polarização entre o ex-presidente  Lula (PT) e Bolsonaro. 

Abandonaram o barquinho bolsonarista

O atual governador de São Paulo, João Doria (PSDB), foi um dos políticos eleitos através da onda bolsonarista e que, após as eleições, buscaram outra base eleitoral. Durante as eleições, sua principal marca foi a campanha “BolsoDoria”, que estimulava o voto a nível estadual em Doria e em Bolsonaro na esfera federal no segundo turno das eleições de 2018. Na época, Doria vestiu camisetas verde e amarelo com a expressão “BolsoDoria” e evidenciou seu alinhamento ideológico com Bolsonaro nas pautas de costumes e segurança pública, que estimularam mais votos na disputa eleitoral. 

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O slogan de campanha de Doria evidenciou seu rompimento com o PSDB, pois o então candidato tucano ao governo de São Paulo preferiu apoiar Bolsonaro em vez de Geraldo Alckmin, que era o nome indicado pelo partido à presidência da República. Depois de provocar dissidências dentro da legenda, Doria rompeu com Bolsonaro logo após as eleições de 2018 com o objetivo de viabilizar sua candidatura à presidência como uma opção mais moderada aos eleitores de direita. 

Um dos primeiros embates se deu em julho de 2019, quando Doria reagiu ao comentário de Bolsonaro tripudiando o desaparecimento do pai do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Fernando Santa Cruz, durante a ditadura militar (1964-1985). 

Na época, Bolsonaro afirmou que sabia o motivo do sumiço do pai do presidente da OAB Felipe Santa Cruz e justificou o sumiço dizendo que Fernando “integrou a Ação Popular, o grupo mais sanguinário e violento da guerrilha lá de Pernambuco e veio desaparecer no Rio de Janeiro”. Doria classificou a conduta do presidente como ‘infeliz’ e ‘inaceitável ao cargo’, marcando o início do rompimento político entre ele e Bolsonaro. 

Outro político do PSDB que rompeu com Bolsonaro após as eleições foi o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. Ele afirmou que errou ao apoiar Bolsonaro no segundo turno das eleições de 2018 durante o primeiro debate entre pré-candidatos do PSDB à presidência da República, realizado em outubro de 2021. Leite tentou justificar sua associação a Bolsonaro ressaltando seu antipetismo, ao declarar que “infelizmente, era uma eleição de segundo turno que tinha somente dois caminhos. O outro caminho era o do PT, que tinha quebrado o país”.

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Além disso, Leite criticou Doria indiretamente por sua associação com Bolsonaro apenas durante as eleições, chamando-o indiretamente de oportunista ao criticar o fato de que seu adversário, José Ivo Sartori (MDB), fez uma campanha centralizada na imagem de Bolsonaro, tal qual Doria fez em São Paulo. “Lá no meu estado, meu adversário juntou o nome e o sobrenome dele ao Bolsonaro, eu não fiz isso. Me neguei a fazer isso, não autorizei nem que fizesse material de campanha conjuntamente”, afirmou. 

Diferentemente de Doria, o ex-governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel (PSC-RJ) evidenciou sua proximidade com Bolsonaro nas propostas para as áreas de segurança pública e costumes desde o início do mandato. Uma das declarações mais polêmicas do ex-juiz foi dizer que, para resolver o problema da criminalidade no Rio de Janeiro, os policiais deviam “mirar na cabecinha” dos bandidos. 

Porém, a aliança entre os dois se rompeu em setembro de 2019, quando Bolsonaro acusou Witzel de vazar à imprensa informações comprometedoras a respeito das investigações sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco. A revolta de Bolsonaro ocorreu porque esse vazamento citou uma suposta conexão entre ele e o caso, pois o porteiro do condomínio onde Bolsonaro mora (onde também vive um dos acusados pelo homicídio) teria dito que o “seu Jair” autorizou a entrada de outro suspeito pelo assassinato no dia do crime. 

Durante a pandemia, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), criticou veementemente Bolsonaro pela má gestão da pandemia. Neste ano, Caiado pretende se reeleger como governador, mas seu rompimento com Bolsonaro já lhe traz empecilhos eleitorais. Em 20 de abril, durante discurso em um evento destinado à entrega de títulos de propriedade rural em Rio Verde (GO), Caiado foi vaiado pela base bolsonarista presente no evento, mesmo afirmando sua militância de anos “contra as esquerdas” no Brasil e dizendo que “nós tivemos a coragem de levantar a bandeira de quem produz e trabalha”.

Mesmo eleito pela onda conservadora e bolsonarista nas eleições 2018, o governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) também busca viabilizar sua reeleição em 2022 distante de Bolsonaro. Em entrevista ao jornal Valor Econômico, Zema afirmou que seguirá as diretrizes do partido, o que significa que seu apoio no primeiro turno das eleições é ao pré-candidato Luiz Felipe d’Avila. “Se amanhã o Luiz Felipe e também o partido chegarem à conclusão de que é recomendável abandonar a corrida de candidato a presidente ou pré-candidato, e vir a se aliar a outro partido, eu estarei acompanhando o partido”, afirmou.

O governador do Mato Grosso do Sul, Reinaldo Azambuja (PSDB), foi um dos últimos a se contrapor a gestão de Bolsonaro na pandemia. Na época, Azambuja protelou a decisão de romper com Bolsonaro e, desde então, não manifestou apoio ou rivalidade em relação ao presidente nas eleições deste ano.

Desde as eleições de 2018, os governadores Ratinho Júnior (PSD-PR), coronel Marcos Rocha (PSL-RO) e Waldez Goés (PDT-AP) não romperam com Bolsonaro, mas se manifestam publicamente com declarações neutras em relação ao atual presidente.

Fechados com Bolsonaro

Apesar da perda de aliados, Bolsonaro ainda tem apoio em alguns estados. Em abril deste ano, o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), reafirmou seu apoio à reeleição do presidente ao afirmar, durante entrevista: “Entre Bolsonaro e Lula, devo caminhar com Bolsonaro”. Porém, apesar de seu claro apoio a Bolsonaro, Ibaneis sinalizou que irá dialogar com o governo federal independente do presidente eleito. Referindo-se à rivalidade entre Bolsonaro e Lula nas eleições deste ano e denotando uma postura mais pragmática, Ibaneis afirmou que “Não adianta ficar nessa briga A e B. Qualquer dos presidentes eleitos, eu vou buscar ter uma boa relação”.

Além de Ibaneis, o governador de Roraima, Antônio Denarium (PSL), permanece como aliado de Bolsonaro desde as eleições de 2018. Sua principal manifestação de apoio ao presidente foi desfiliar-se do PSL em 2020 e anunciar, em suas redes sociais, que seguiria o presidente na criação do partido Aliança pelo Brasil, que não conseguiu o número mínimo de assinaturas para ser oficializado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Mesmo não tendo se filiado ao PL, atual partido de Bolsonaro, o governador de Roraima permanece apoiando o presidente.

Combate à corrupção, só que não

Entre as principais bandeiras da campanha de Bolsonaro à presidência estava o combate à corrupção. A campanha se apropriou, principalmente, dos resultados da operação Lava Jato, que levou o ex-presidente Lula à prisão em meados de 2018 e estava em seu auge de aprovação popular. 

A bandeira do combate à corrupção foi uma das principais armas de campanha dos governadores que embarcaram no bolsonarismo na última eleição. Apesar disso, pelo menos sete deles passaram a ser investigados por suspeitas de desvio de recursos em seus estados.

Três governadores que apoiaram Bolsonaro chegaram a ser afastados do cargo. Witzel (PSC) sofreu impeachment no Rio de Janeiro por causa de um esquema de propina para a contratação emergencial e liberação de pagamentos a organizações sociais (OSs) que prestam serviços ao governo, especialmente nas áreas de saúde e educação. Mauro Carlesse (União Brasil – antigo PSL) foi afastado do governo do Tocantins em 2021, suspeito de superfaturar itens hospitalares. Já Carlos Moisés (União Brasil, antigo PSL), em Santa Catarina, também sofreu impeachment por suspeita de fraude na compra de respiradores. 

Além deles, também enfrentam denúncias de corrupção os governadores do Acre, Gladson Cameli (PP); do Amazonas, Wilson Lima (PSC); do Pará, Helder Barbalho (MDB); e do Mato Grosso, Mauro Mendes (União Brasil, antigo DEM). 

A onda de governadores bolsonaristas pode se repetir nas eleições deste ano?

Para o cientista político da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Ricardo Ismael, a eleição de governadores “anti sistema” e ligados ao bolsonarismo foi uma circunstância específica de 2018, quando a Operação Lava Jato expôs o esquema de propina na Petrobras e evidenciou a corrupção nos estados.

“Em função da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de anular os julgamentos do Lula devido à suspeição de Moro [ex-juiz que conduziu o caso], desencadeou-se uma série de liberdades para muitos políticos corruptos, e a narrativa que acabou se impondo é que o Brasil retornou ao que era antes da Operação Lava Jato, com políticos e empresários blindados contra investigações do Ministério Público. Portanto, a possibilidade de existirem outsiders e caras novas diminuiu muito”, explica Ismael.

Em 2022, outro fator que dificulta a renovação dos candidatos a governador é o aumento do fundo eleitoral, que foi estabelecido em R$4 bilhões e facilita que os partidos mantenham ou ampliem suas bancadas já estabelecidas no Congresso.

“Como o investimento empresarial em campanhas está proibido e as pessoas físicas estão sem dinheiro para investir grandes quantias em campanhas políticas devido à inflação, a distribuição dos recursos do fundo eleitoral se torna essencial para viabilizar campanhas políticas. Em resumo, as “caras novas” vão ficar com as sobras do fundo eleitoral, pois a maior parte dele será destinada para a reeleição de governadores, deputados e senadores que já têm mandato ou pelos indicados dele”, explica o cientista político.

Letícia Fortes

Estudante de Jornalismo na PUCPR e estagiária do Regra. Escrevo para evidenciar e esclarecer assuntos que exigem nossa atenção, pois essa é minha forma de defender uma comunicação humanizada, acessível e engajada socialmente.

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