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Seis em cada 10 lares de mulheres negras enfrentam insegurança alimentar no Brasil

Seis em cada 10 lares de mulheres negras enfrentam insegurança alimentar no Brasil
(Foto: Stas V - Getty Images)

Divulgado nesta segunda-feira (25), o segundo Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil (II Vigisan) revelou que a dificuldade em comprar e consumir alimentos e produtos de higiene pessoal tem cor e gênero no Brasil. Enquanto 60% dos lares chefiados por mulheres negras sofrem com insegurança alimentar, apenas 53,6% das famílias sustentadas por homens, independente da raça, passam pelo mesmo problema. Entre famílias chefiadas por pessoas brancas, o índice é ainda menor: menos da metade (46,8%) enfrenta falta ou restrições alimentares. 

Realizada pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede PENSSAN) entre novembro de 2021 e abril de 2022, a pesquisa entrevistou 35.022 brasileiros em 12.745 domicílios, distribuídos pelos 26 estados do país e no Distrito Federal, tanto em áreas urbanas quanto rurais.

As mulheres negras são mais vulneráveis à insegurança alimentar por terem sido o segmento da sociedade que mais morreu de Covid-19 em 2020, segundo estudo da Rede de Pesquisa Solidária em Políticas Públicas e Sociedade. Além disso, as mulheres negras também foram as mais afetadas pela recessão econômica da pandemia, perdendo parte significativa de sua renda devido ao desemprego e a trabalhos informais mal remunerados. No segundo trimestre de 2021, a Pnad Contínua (IBGE) constatou que elas receberam, em média, 46,6% a menos do que a remuneração de homens não negros, como brancos e pardos. Nesse sentido, a diminuição de renda e poder de compra torna-se, consequentemente, um fator para a insegurança alimentar.

Segundo a mesma pesquisa da Rede Penssan, 58% de toda a população brasileira vive em situação de insegurança alimentar em 2022. Cerca de 30% dos brasileiros (125 milhões) convivem com restrições de acesso a alimentos, enquanto 15% (33 milhões) passam fome diariamente. 

Insegurança alimentar e agronegócio com recordes de exportação?

Apesar do agravamento da insegurança alimentar no Brasil, o PIB do agronegócio obteve um crescimento recorde de 24,31% em 2021, segundo cálculo do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) e da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Em 2020, no auge da pandemia, o país tornou-se o terceiro maior produtor de alimentos, devido à uma safra recorde e ao apoio do governo Bolsonaro, classificado como ruralista pela coordenadora do coletivo Arroz, Feijão e Economia Clara Saliba. “O projeto bolsonarista busca favorecer os grandes agropecuários, pautando projetos de lei que aumentam a tolerância em relação ao desmatamento e reduzem a fiscalização no uso de agrotóxicos”, explica.

Além disso, o II Vigisan apontou que as restrições alimentares e a fome tornaram-se problemas nacionais em 2022: entre as regiões de menor e maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) – isto é, Nordeste e Sudeste – existe uma diferença de apenas 400 mil pessoas vivendo com insegurança alimentar. Em números absolutos, 12,1 milhões vivem em situação de insegurança alimentar grave no Nordeste, enquanto 11,7 milhões enfrentam o mesmo problema no Sudeste.

Quem é o vilão por trás da volta da insegurança alimentar no Brasil?

Nos supermercados, os brasileiros percebem que os preços dos alimentos estão aumentando rapidamente, e o principal motivo que apontam para isso é o descontrole da inflação. Porém, o economista e professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Ricardo Kureski, afirma que o que explica a alta dos preços dos alimentos é exatamente o contrário. Segundo ele, existem duas causas para o aumento da inflação: a seca e a variação do dólar.

 “A seca afeta a produção dos alimentos e diminui a colheita, gerando uma safra menor para o consumo da população. A outra questão é o dólar. Por exemplo, o frango: ele come milho até chegar no peso certo para o abate. Só que, como a colheita de milho no Brasil foi baixa, a demanda pela produção de milho em outros países se torna maior. Sendo o milho uma commodity, com preço em dólar, o produtor de frangos repassa ao consumidor o valor, em dólar, do milho que ele utilizou para produzir o frango que está no mercado. Por isso, o preço do frango sobe”, explica o economista.

Outro fator que estimula a alta dos preços é o aumento das exportações de alimentos, o que enfraquece o mercado interno e deixa menos produtos disponíveis para consumo da população. No caso da carne bovina, por exemplo, Kureski explica que, embora paguemos o preço da carne em reais, o pecuarista compra os insumos para a produção da carne e exporta o produto final em dólares. Portanto, os produtores investem na produção e recebem na mesma moeda: o dólar. “Como o mercado é livre no Brasil, o pecuarista pode escolher entre vender no mercado interno, com o real desvalorizado, ou exportar essa carne para os demais países, com a cotação alta do dólar”, afirma.

Qual é o efeito da política na quantidade e na qualidade dos alimentos no prato dos brasileiros?

A principal medida que reduziu o orçamento público para programas de proteção social voltados para a alimentação, higiene e saúde foi a Emenda Constitucional 95, mais conhecida como Teto de Gastos. A EC estabeleceu que o governo federal deveria reduzir, anualmente, as despesas com gastos primários (aqueles que financiam todos os serviços públicos, sociais e os investimentos) até 2036. 

Com a pandemia, o aumento dos índices de desemprego e a diminuição do poder de compra fez com que ao menos 24% dos domicílios brasileiros que passam fome relatassem que um dos moradores teve que se submeter a situações humilhantes para conseguir alimentos, segundo pesquisa da rede Penssan. O perfil das pessoas mais atingidas é a população negra em geral, mulheres, brasileiros das regiões Norte e Nordeste e pessoas com baixa escolaridade. 

Embora a alimentação adequada seja um direito humano previsto na Declaração Universal dos Direitos Humanos desde 1948, mais de 16 milhões de brasileiros vivem uma situação indigna e degradante por causa da fome. Em seu artigo 25, a Declaração prevê que “toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem-estar, inclusive alimentação (…)”.

Segundo o economista Ricardo Kureski, o descontrole da inflação no preço dos alimentos não é uma consequência da pandemia, mas também da interferência da política nacional. “Com as brigas do Presidente da República com o Congresso, os investidores tiram o dinheiro aplicado no Brasil e compram mais dólares, para se resguardarem dessa instabilidade. Toda vez que existe algum problema no orçamento público ou alguma briga política, o preço do dólar sobe, porque os investidores buscam uma moeda mais valorizada que o real para não perderem dinheiro com a instabilidade da cotação do real”, explica.

Para o professor de Análise Conjuntural Política e Econômica da PUCPR, Marcos José Zablonsky, é preciso investir em uma rede de políticas integradas de proteção social para combater a fome e a insegurança alimentar no Brasil, a fim de incluir a oferta de alimentos saudáveis, ampliar a renda da população, a geração de empregos e a retomada de medidas de inclusão que foram abandonadas nos últimos anos. “Em 2022, vamos ter uma grande luta contra inflação alta, falta de comida, emprego, política industrial reduzida, e com certeza esse cenário vai estimular a presença de uma política populista, que venda uma solução fácil e mentirosa para o eleitor. Porém, a única solução prática é fortalecer os programas de transferência de renda para combater a fome, como o Bolsa Família”, afirma Zablonsky.

Letícia Fortes

Estudante de Jornalismo na PUCPR e estagiária do Regra. Escrevo para evidenciar e esclarecer assuntos que exigem nossa atenção, pois essa é minha forma de defender uma comunicação humanizada, acessível e engajada socialmente.

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