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INVERSÃO DA ENTROPIA DOS OBJETOS E O BOLO DE MILHO DA TIA CLARICE

INVERSÃO DA ENTROPIA DOS OBJETOS E O BOLO DE MILHO DA TIA CLARICE
Eline Carrano - Sonhos do Avesso

Esses dias eu queria ver um filme leve e sair um pouco das séries, então escolhi ver TENET, do Cristopher Nolan. O começo do filme já vem com os ares de Batman, que eu sempre sinto que é uma assinatura do Nolan, com as trilhas sonoras também muito características do diretor e, lógico, ele não estava falando de uma comédia romântica, até porque o Nolan que deixa o pião do Di Caprio girando pra sempre em “A origem”, não ia fazer filme da sessão da tarde. Ele estava falando sobre a inversão de entropia dos objetos, ou seja, viagem no tempo.

Eu entendi o filme? Pouquíssimo, o básico para fazer bonito em uma roda de conversa. O que eu tirei do filme? O tempo.

Durante a trama, o herói luta contra o tempo. Seja o que ele perdeu, seja o que ele não sabe o que aconteceu, seja qualquer coisa que o tempo o tenha tirado ou possa causar no presente e, graças a inversão de entropia dos objetos, ele tinha a oportunidade de resolver. E eu fui fazendo a nossa boa e velha lista das coisas que eu mudaria. E aos poucos eu vi que se eu mudasse tantas coisas das quais eu me arrependo ou acho que poderia ter feito diferente, eu talvez não chegasse aqui. Seja lá o que for o tal do “aqui e agora”, dentro conceito de tempo e do multiverso da Hawking, seja no conceito de conquistas que a sociedade nos impõe, seja na minha realização pessoal, enfim, eu sinto que eu estou onde eu deveria estar. Pela primeira vez, em anos, eu volto a me sentir apenas bem e encaixada na minha vida. E isso era tudo o que eu mais queria.

Na teoria das cordas, tenho a sensação que me enforco na repetição. Eu faria tudo de novo e viveria cada erro, para que tudo isso pudesse me ensinar como ensinou e até mais.

Na viagem do tempo, só voltaria para comer um bolo de milho da minha tia Clarice que nos deixou. Eu só voltaria para que a minha avó tivesse sua saúde intacta de novo e pudesse voltar a tomar uma garrafa de vodka enquanto a gente conversava na varanda de casa. Eu iria lá para a Augusta, tomaria um chopp no meu bar favorito e compraria um pedaço de pizza no restaurante que fechou no Morumbi. Eu viveria novamente há 20 minutos da minha melhor amiga. Eu me apaixonaria de novo pelo grande amor da minha vida. Eu faria cada coisa igual, de novo e mais uma vez, porque a entropia dos objetos da minha vida seguiu o rumo que eu acho que deveria ser e me trouxe até aqui.

E se hoje eu estou bem, em paz comigo e vivendo meus dias da melhor forma que eu posso, é porque um dia o ritmo das coisas estava acelerado demais ou indo para o rumo errado. Se Nolan queria nos mostrar que é possível mudar o passado, eu queria que ele soubesse que mais do que isso: eu queria revivê-lo. Afinal, há cicatrizes nessa vida que são simplesmente necessárias.

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Eline Carrano

Jornalista por profissão, cronista por opção e neta coruja. Escrevo porque preciso justificar as ansiedades que o tarja-preta não dá conta.

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