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Lula com chuchu: de rivais a aliados, Alckmin e ex-presidente formam chapa para eleição

Lula com chuchu: de rivais a aliados, Alckmin e ex-presidente formam chapa para eleição
Foto: Ricardo Stuckert

Adversários históricos na política, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSB), oficialização no dia 7 de maio uma das alianças mais estratégicas na disputa pela Presidência da República nas eleições deste ano. Alckmin deixou o PSDB para viabilizar a aliança com o petista e formar uma chapa para expressar a defesa da democracia contra o bolsonarismo e a extrema-direita.

Apesar de Alckmin ter deixado o PSDB, a aliança carrega uma forte simbologia graças à rivalidade histórica entre PT e PSDB nas eleições desde 2002. Alckmin, inclusive, disputou a presidência com Lula naquele ano. Em 2018, voltou a concorrer ao cargo pelo PSDB, perdendo para o presidente Jair Bolsonaro (então no PSL). A viabilidade eleitoral da chapa ainda é debatida entre jornalistas e analistas de política, pois não está claro se Alckmin será capaz de atrair votos da direita moderada para Lula.

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No evento de lançamento da pré-candidatura, Alckmin brincou com o termo “picolé de chuchu” atribuído a ele para caracterizá-lo como um político de tom excessivamente moderado e sem carisma. “Presidente Lula, mesmo que muitos discordem da sua opinião de que lula é um prato que cai bem com chuchu – o que eu acredito vá ainda se tornar um hit da nossa culinária -, quero lhe dizer perante toda a sociedade brasileira: muito obrigado”, disse o ex-governador.

No dia seguinte, Lula entrou no embalo da brincadeira e postou em sua conta oficial no Twitter a receita de um risoto de lula com chuchu.

A rivalidade entre PT e PSDB começou no final da década de 90 e acirrou-se no início da década de 2010. Enquanto o PSDB ganhou as eleições presidenciais por dois anos consecutivos (1994 e 1998), o PT venceu quatro pleitos (2002, 2006, 2010 e 2014). 

A disputa nacional só mudou de perfil em 2018, quando Jair Bolsonaro, do então PSL, quebrou a alternância de vitórias no Planalto entre PT e PSDB. Embora a “dobradinha” PT e PSDB fosse algo informal, assemelhava-se ao revezamento de poder que ocorria entre políticos de São Paulo e Minas Gerais durante a República Café com Leite.

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Por outro lado, o cientista político da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Roberto Gonzalez, analisa que o revezamento da presidência, feito de maneira quase oligárquica entre PT e PSDB, trouxe debates políticos melhor posicionados ideologicamente. “Talvez a campanha de 2002 tenha tido alguma diferenciação de natureza mais ideológica em relação às propostas do PSDB e do PT. Porém, ainda assim, sem grandes mudanças no cerne da política econômica. Mas havia uma diferença de visão social de mundo. E as campanhas posteriores tornaram-se praticamente uma questão de ataque moral, de quem é o mais honesto e quem é o mais corrupto”, avalia.

Como Alckmin e Lula se aproximaram? 

Alckmin viveu o momento mais preocupante de sua carreira política em 2018, quando colheu o pior resultado eleitoral do PSDB (4,76%) em uma eleição presidencial. O partido havia ficado em segundo lugar nas eleições de 2014, quando Aécio Neves concorreu com Dilma Rousseff (PT). Em 2018, Alckmin foi o candidato com maior tempo de propaganda eleitoral e, mesmo com esse recurso eleitoral estratégico, não conseguiu progredir para o segundo turno. 

Alckmin estava insatisfeito com o PSDB desde a filiação de João Doria, seu ex-afilhado político que ampliou rapidamente seu poder sobre o partido até 2018, quando elegeu-se através da campanha “BolsoDoria” – apesar de Alckmin ser o candidato do partido à Presidência.

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Em 2021, Geraldo Alckmin já flertava com outros partidos (como o PSD, o União Brasil e o PDT) quando começaram as conversas com o PT, na ocasião em que Lula procurava uma pessoa para ser seu vice. Conforme a possibilidade de aliança entre o petista e o tucano tornou-se maior, lideranças e parlamentares do PT-SP criticaram essa aproximação. A desconfiança inicial ocorreu devido à oposição em relação aos quatro mandatos de Alckmin como governador de São Paulo.

O que pesa mais para Lula: a viabilidade política ou a ideologia?

A formação da chapa Lula-Alckmin não foi a única manobra ideológica do ex-presidente Lula ao longo de sua carreira política. Em 2002, Lula oficializou José de Alencar como seu vice e recebeu a mesma reação que sua aliança com Alckmin causou agora: reprovação inicial de segmentos da militância e por uma parcela de dirigentes do PT. 

Lula justificou a aproximação com um de seus adversários históricos devido ao desafio de evitar a reeleição do atual presidente, Jair Bolsonaro (PL). Bolsonaro é tratado pelo marketing da chapa como uma “ameaça à democracia”, o que justifica as inflexões ideológicas que Lula e Alckmin fizeram para se aliarem. 

Em 2002, o então presidente do PT, José Dirceu, defendia uma formação de chapa centro-esquerda entre Lula e José de Alencar para que o petista pudesse não apenas vencer as eleições, mas governar efetivamente. Por ser filiado a um dos principais partidos do Centrão, o PL, José de Alencar traria apoio no Congresso Nacional para a aprovação dos projetos de lei do governo, sobretudo na Câmara dos Deputados.

Disputa pelo governo de São Paulo está em jogo na formação da chapa 

Para o cientista político da UnB, Antônio Flávio Testa, Lula buscou aliar-se a Alckmin por outro motivo além da aliança pela democracia. “Eu acho que a grande questão de ter trazido Alckmin é ajudar o PT a vencer a eleição para o governo de São Paulo com a candidatura de Fernando Haddad, que é um estado rico, poderoso e importantíssimo”, explica. 

A saída do ex-tucano da disputa pelo governo de São Paulo, no entanto, não resolve a disputa entre Fernando Haddad (PT) e Márcio França (PSB), que devem manter suas candidaturas. Nesse contexto, Alckmin não sabe se apoia o candidato de seu partido, o PSB, ou se promove a candidatura de Haddad em demonstração de apoio e parceria com Lula.

Embora Alckmin tente negociar a candidatura de França ao Senado, há quem defenda, no próprio PT, que tanto Haddad quanto França concorram ao governo de São Paulo, pensando na probabilidade de Márcio França frear, pela direita, o crescimento do governador Rodrigo Garcia (PSDB-SP).

O cientista político explica que, para Alckmin, a aliança com Lula foi mais vantajosa do que o contrário. “Como o Alckmin perdeu espaço no PSDB e filiou-se ao PSB, ele se juntou a Lula e disse, nas palavras dele, que política não se faz olhando no retrovisor. Para quem já teve um péssimo resultado em 2018, agora ele tem pelo menos a chance de aproveitar os votos do Lula.”

Porém, na análise de Testa, a aliança entre Lula e Alckmin será mais distante e pragmática do que como foi com José de Alencar, em 2002. “Como Alckmin não é tão aliado quanto José de Alencar, provavelmente Lula vai entregar um ministério a Alckmin para mantê-lo ocupado e não vai ouvi-lo, porque ele é muito centralizador nesse aspecto da política”, afirma o cientista político.

A aliança entre candidatos ideologicamente antagônicos foi pensada para amenizar o temor de eleitores de centro-direita e das elites econômicas, simbolizando que Lula será capaz de governar com moderação, adequando os interesses do empresariado mais liberal com pautas progressistas, como a proposta de revogação da reforma trabalhista estabelecida durante o governo Temer. 

De maneira geral, Testa acredita que a chapa Lula-Alckmin pode gerar dúvidas no eleitor de centro-direita, que mantém-se indeciso em relação à polarização entre Lula e Bolsonaro. “Do ponto de vista da moralidade e da ética, os negociadores que fizeram essa chapa fizeram um acordo muito ruim, porque Alckmin não vai trazer votos para Lula e vice-versa. Acho que gerou uma grande antipatia no eleitorado, mas tudo depende da aproximação das eleições para vermos o resultado”, afirma.

Letícia Fortes

Estudante de Jornalismo na PUCPR e estagiária do Regra. Escrevo para evidenciar e esclarecer assuntos que exigem nossa atenção, pois essa é minha forma de defender uma comunicação humanizada, acessível e engajada socialmente.

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