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Lula e a marolinha de 2008: estratégia controversa para lidar com a crise econômica mundial

Lula e a marolinha de 2008: estratégia controversa para lidar com a crise econômica mundial
José Cruz/Agência Brasil

Em 2008, a falência do banco norte-americano Lehman Brothers impactou o mercado financeiro internacional tão fortemente quanto um tsunami. Porém, no Brasil, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que a crise mundial no mercado imobiliário afetaria a economia brasileira como uma “marolinha”, pois seu governo tomaria medidas de estímulo para amenizar a recessão. Nunca houve um consenso entre economistas, empresários e a população sobre a estratégia do petista para blindar o país dos efeitos da crise mundial. Afinal, Lula evitou que a crise atingisse o Brasil ou apenas adiou o problema?

A política de expansão econômica não foi uma ideia originalmente brasileira. Com os EUA à frente, os bancos centrais de diversos países desenvolvidos ao redor do mundo endureceram a regulação e injetaram dinheiro na economia, adotando medidas para expandir a oferta de crédito, dinheiro na economia e gastos públicos. Por isso, diversos historiadores e cientistas políticos acreditam que a crise de 2008 foi um dos fatores que iniciou a crise do neoliberalismo, que defende a atuação do Estado apenas na prestação de serviços essenciais à população, e não na economia. 

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Diante do cenário internacional, Lula encontrou um pretexto para implementar uma de suas principais propostas de campanha, isto é, aumentar o protagonismo do Estado na economia. Mesmo com o impacto da crise do mercado financeiro internacional, o PIB brasileiro aumentou 5,2% em 2008. No entanto, o sucesso da política econômica de Lula durou apenas um ano. Em 2009, o PIB nacional diminuiu 0,3%. Além disso, ainda em 2008, a Bolsa de Valores brasileira (Bovespa) teve uma queda de 4%, a maior até então desde a década de 70. 

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Por isso, parte dos empresários, políticos, economistas e brasileiros mais conservadores acreditam que a displicência de Lula com a crise de 2008, que ele chamou de “marolinha”, cristalizou a ideia de que a política econômica de um Estado forte e credor da população é efetiva em todos os momentos de recessão. 

Como ficou a economia brasileira depois da crise de 2008?

Desde então, a política econômica em tempos de recessão sempre foi a mesma: liberação de crédito para a população a partir do dinheiro de bancos públicos e cortes de impostos, visando superar a crise por meio do incentivo ao consumo em vez de sua retração. 

O problema foi o fato de que essa ideia se repetiu em um momento no qual não havia crise econômica mundial, isto é, por volta de 2010 durante o governo da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Mesmo com crescimento de 7,5%, o governo aumentou os estímulos econômicos em vez de mantê-los ou reduzi-los, considerando o bom andamento da economia. 

O governo Dilma manteve os estímulos usados antes, durante e depois da crise de 2008: reduziu impostos para determinados setores econômicos, beneficiou bancos públicos, aumentou o subsídio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e também a oferta de crédito para estimular a atividade industrial e o consumo das famílias. Com isso, houve o período da euforia em 2010, que provocou o crescimento gradativo de uma onda de dívidas fiscais de 2014 em diante.

Em 2015, o Brasil registrou um prejuízo de R$ 11,1 bilhões aos cofres públicos (valor corrigido pela inflação). Esse prejuízo é chamado de déficit primário, que ocorre quando as receitas com tributos e impostos ficam abaixo das despesas do governo, desconsiderando os gastos com o pagamento de juros da dívida pública. Já em 2016 e 2017, a dívida pública triplicou para R$34,4 bilhões. No mesmo período, os protestos contra o governo Dilma começaram a recrudescer, e a Câmara dos Deputados levou adiante o processo de impeachment da ex-presidente.

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O crescimento da dívida pública foi, inclusive, um dos fatores que impulsionou a aprovação da Emenda Constitucional 95, conhecida como Teto de Gastos, que estabeleceu um limite para o crescimento das despesas públicas por 20 anos a partir de 2016. Dessa forma, o cálculo do Orçamento Anual fixou-se no valor dos gastos da União do ano anterior somados ao valor corrigido pela inflação do ano, de acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Por exemplo, o limite de gastos da União para 2022 é de R$ 1,610 trilhão, que corresponde ao R$ 1,486 trilhão de 2021, corrigido em 8,35% (inflação medida pelo IPCA).

Por que Lula não temeu o impacto da crise de 2008?

Nas palavras de Lula, “Lá (nos EUA), ela é um tsunami; aqui, se ela chegar, vai chegar uma marolinha que não dá nem para esquiar”. O otimismo de Lula se justificou devido ao crescimento de 4% que o Brasil registrava em 2007. Na época, sua principal aposta foi o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), com meta de crescer 5% ao ano. 

Por isso, o governo ampliou os gastos públicos e iniciou a construção de quatro refinarias, aumentou o subsídio para empresas pelo BNDES e ampliou o conceito de micro e pequena empresa para o faturamento de R$ 2,4 milhões. Isso elevou a despesa tributária, que tem um teto ou limite muito menor nos países desenvolvidos que no Brasil. 

Na opinião do cientista político da Universidade de Brasília (UnB), Antônio Flávio Testa, a crise de 2008 não foi uma “marolinha”, e Lula sabia que o aumento dos gastos públicos e da oferta de crédito à população deixaria um legado negativo para os próximos governos.

“O mundo quebrou em 2008. Se você pegar as manchetes dos grandes jornais na época, elas diziam ‘Lula vai deixar uma herança maldita do ponto de vista econômico para os seus sucessores’. O governo americano teve que estatizar a economia e na época o governo Obama tentou trazer investimentos externos para os EUA, porque a quebradeira foi enorme e foi preciso neutralizar os impactos econômicos. Acontece que a economia norte-americana tem muito mais capacidade de recuperação do que a brasileira, que acumulou um endividamento monstruoso que só cobrou seu preço tardiamente, a partir de 2015”, explica o cientista político.

Também por volta de 2008, o governo Lula criou o Fundo de Investimento do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FI-FGTS), um fundo de investimento bilionário administrado pela Caixa Econômica Federal que aplica recursos do FGTS em projetos de infraestrutura.

Porém, parte do dinheiro do FI-FGTS foi desviado durante o governo Lula, conforme revelou o ex-vice-presidente da Caixa Econômica, Fábio Cleto, em seu acordo de delação premiada durante a Operação Lava Jato. Segundo Cleto, a empresa Eldorado (do grupo J&F, o mesmo do frigorífico JBS) pagou propina para obter recursos do fundo de investimentos FI-FGTS. Parte do dinheiro desviado foi para o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (MDB-RJ) e Cleto, que recebia uma parte menor da propina. No total, a PF constatou que o valor financiado pelo FI-FGTS em favor da Eldorado foi de R$ 940 milhões. 

Embora Lula tenha ressaltado que o objetivo do PAC era acelerar o crescimento sem comprometer a estabilidade, a oferta de crédito no Brasil fez com que o país crescesse a 5% em 2008 quando estourou o tsunami no mundo, provocado pelos empréstimos arriscados e sem lastro no mercado hipotecário americano e europeu.

Bancos ameaçavam quebrar nas maiores economias, sobretudo o Lehman Brothers nos EUA, que decretou falência em 15 de setembro de 2008. Apesar do otimismo do então presidente Lula sobre a crise de 2008, a crise teve um impacto significativo no Brasil, apesar de ter sido menor do que o ocorrido nas economias americana e europeia.

Visando remediar os impactos da crise financeira mundial, o governo baixou a taxa básica de juros (SELIC) de 13,75% para 8,75% ao ano em 2009, diminuindo os juros pagos para empréstimos tanto de pessoas físicas quanto de empresas, para aumentar o dinheiro em circulação.

Além disso, diminuiu a alíquota de impostos (principalmente IPI) para produtos da linha branca, materiais de construção e automóveis e liberou bilhões de reais em depósitos compulsórios para os bancos para aumentar a liquidez no mercado, ou seja, estimular a produção das indústrias e aumentar o dinheiro em circulação para que as pessoas consumissem mais.

Entre as empresas que haviam feito operações perigosas no mercado de derivativo cambial, destacam-se Sadia e Aracruz. Por isso, o BNDES teve que financiar a fusão da Sadia com a Perdigão e da Aracruz com a Votorantim Celulose. Além disso, o Unibanco uniu-se ao Itaú na mesma época.

A Sadia, por exemplo, investiu em derivativos tóxicos (títulos que foram comprados por um valor muito maior do que o real) e acumulou um prejuízo trimestral de mais de R$ 2 bilhões. Já a Aracruz também perdeu mais de R$ 3 bilhões com derivativos tóxicos no último quarto de 2008 e, consequentemente, fez um acordo de aquisição com a VCP, criando a Fibria. 

Letícia Fortes

Estudante de Jornalismo na PUCPR e estagiária do Regra. Escrevo para evidenciar e esclarecer assuntos que exigem nossa atenção, pois essa é minha forma de defender uma comunicação humanizada, acessível e engajada socialmente.

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