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Nada abala o Lulismo?

Nada abala o Lulismo?
Foto: Ricardo Stuckert

Mesmo depois de ter seu nome envolvido nas investigações da Operação Lava Jato, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conservou sua popularidade política. Em 2022, o petista é considerado o candidato favorito para vencer as eleições presidenciais, segundo pesquisas de intenção de voto mais recentes. Essa é a segunda vez em que a credibilidade de Lula nas urnas é testada após ser citado em um esquema de corrupção, pois o petista se reelegeu com 60% dos votos em 2006, mesmo após o Mensalão. Por isso, sua candidatura é cercada de conjecturas, tanto de apoiadores quanto de adversários, sobre se sua capacidade de articulação e propaganda política necessárias para sustentar seu favoritismo histórico. 

Ao longo de dois mandatos como presidente, Lula construiu sua popularidade a partir de dois eixos: indicadores econômicos positivos e marketing político. Em 2002, no início de seu primeiro mandato, o Brasil ocupava a 13ª posição no ranking global de economias medido pelo Produto Interno Bruto (PIB) em dólar, segundo dados do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Porém, em oito anos de governo Lula, o Brasil atingiu a 6ª posição no ranking, subindo sete estágios na classificação. 

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Lulismo: As esperanças controversas

Um dos maiores impactos eleitorais e econômicos da gestão Lula foi o aumento real de 80% no salário mínimo, provocado pela implementação do Bolsa Família. Entre 1995 e 2006, o programa de transferência de renda idealizado por Fernando Henrique Cardoso e ampliado na gestão Lula reduziu 14,8% da desigualdade regional no Brasil, segundo estudo realizado em 2013 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). A redução das desigualdades também foi comprovada internacionalmente através do cálculo do coeficiente Gini, realizado pelo Banco Mundial. Entre 2002 e 2013, o Brasil reduziu 5,7 pontos no índice de desigualdade, passando de 58,6 para 52,9. 

Em relação ao Bolsa Família e aos demais programas sociais implementados na gestão Lula, o cientista político da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Marco Rossi, ressalta que a própria estrutura econômica brasileira impediu a expansão da representatividade. “Tivemos todas as políticas de cotas nas universidades, avanços na demarcação de terras indígenas e na viabilização da reforma agrária, mas tudo ocorreu dentro de um limite muito específico e bem moderado pelas questões econômicas, isto é, ditado pelos empresários e pelas elites que representam o capital”, afirma.

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Ainda, o cientista político ressalta que, a partir de 2016, a transição de um governo progressista para outro mais conservador a partir do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) causou um retrocesso social no Brasil. “Com a crise econômica de 2013 e 2014 e com os governos Temer e Bolsonaro, as políticas públicas do governo Lula simplesmente foram retiradas da pauta. Isso significa que pensar a aproximação do governo com movimentos sociais foi por água abaixo, e não houve novas propostas de leis de cotas, reparação histórica e ampliação da participação política”, comenta.

Em relação ao marketing político de Lula, o cientista político da Universidade de Brasília (UnB), Antônio Flávio Testa, afirma que o principal diferencial das campanhas do petista foi a construção constante de sua imagem pública, seja antes, durante ou depois de seus mandatos. “Lula fez um excelente marketing desde o início da carreira política. Ele usou bem o dinheiro do fundo partidário do PT para fazer suas campanhas e, principalmente, para construir sua imagem como ‘pai dos pobres’ e ‘salvador da pátria’, quando ele não foi nada disso. Porém, ele consegue convencer o eleitorado e se mostrar como a melhor opção”, afirma Testa.

Mensalão: esquema de corrupção não abalou popularidade de Lula

Em 2005, na época do Mensalão, o prejuízo foi maior para a imagem política do partido do que de Lula. Segundo pesquisa do Instituto Datafolha (realizada em 2010 com 1.400 entrevistados), a imagem do PT tornou-se descredibilizada para 52% dos brasileiros, enquanto a do presidente Lula para apenas 39%. Encomendada pelo PL, a pesquisa apontou três políticos como os mais envolvidos no suposto pagamento do Mensalão: o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, o deputado Roberto Jefferson (PTB) e o ex-chefe da Casa Civil, José Dirceu (PT). 

O Mensalão foi um esquema que consistia no repasse mensal de dinheiro para “comprar” votos de deputados do Centrão. O objetivo do dinheiro era fazer os parlamentares votarem a favor dos projetos de lei do governo e auxiliarem na sustentação política do Planalto, sobretudo na Câmara dos Deputados. Na época, os principais beneficiários do Mensalão foram políticos do Centrão, os quais priorizam o pragmatismo político em vez da fidelidade às suas posições ideológicas pessoais ou partidárias. 

Embora não existissem provas concretas do esquema de corrupção, os políticos envolvidos foram afastados de seus cargos porque não conseguiram se defender de maneira convincente nos interrogatórios à CPI dos Correios, instaurada para investigar o caso. Lula negou que soubesse do Mensalão, e o próprio Roberto Jefferson não o citou em sua denúncia à imprensa. Mesmo com o escândalo revelado e a condenação de seus aliados mais fortes, Lula se manteve no Planalto e se reelegeu em 2006.

Bolsonarismo: da ascensão à queda
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Após o Mensalão, o cientista político da UnB Antônio Testa ressalta que foi apenas o marketing político que conseguiu sustentar a popularidade de Lula. “Em 2005, Lula quase sofreu impeachment. Porém, o que o salvou foi a publicidade, porque inventaram um slogan com a frase ‘deixa o homem trabalhar’ e, na mesma época, o ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, lançou o Bolsa Família e aumentou a popularidade de Lula. Por isso, na minha opinião, ele deve sua reeleição a Ananias, por conta da popularidade que adquiriu com os programas sociais”, explica Testa.

Apesar das suspeitas do envolvimento de Lula no esquema do Mensalão, uma pesquisa Datafolha realizada em 2010 constatou que o governo Lula foi avaliado positivamente pela população. Três a cada quatro brasileiros (76%) consideravam o Brasil um lugar bom ou ótimo para viver. Esse patamar superou os índices do final do governo Fernando Henrique Cardoso, quando dois terços (66%) avaliavam o país como bom ou ótimo para viver.

Em 2011, Lula deixou seu segundo mandato com 83% de aprovação, o maior índice de popularidade da história para um presidente da República, segundo pesquisa Datafolha. Além disso, 41% dos brasileiros ainda desejavam que Lula permanecesse na política e participasse informalmente do governo de sua ex-ministra e sucessora no Planalto, Dilma Rousseff (PT). A aliança entre os dois, porém, desintegrou-se gradativamente até culminar no impeachment de Dilma, em 2016. 

Lava Jato: reforma no triplex do Guarujá custou a candidatura de Lula em 2018, mas não sua popularidade 

Com o antipetismo como reflexo das manifestações de junho de 2013, o paradigma político e social do Brasil foi modificado. Além do desejo de eleitores de extrema e centro-direita por um “voto de protesto” nas eleições de 2018, outro fator que contribuiu para descredibilizar a imagem pública de Lula e do PT foi a Operação Lava Jato, deflagrada em 2014 pela Justiça Federal. 

A Lava Jato investigou o maior esquema de lavagem e desvio de dinheiro do Brasil, que começou com a apuração de um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo o ex-deputado federal José Janene (Londrina-PR), Alberto Youssef e Carlos Habib Chater (empresários apontados como doleiros responsáveis pela lavagem de milhões de reais) e expandiu-se para um grande esquema de lavagem e desvio de recursos públicos na Petrobras. 

Com o aprofundamento das investigações a partir das revelações feitas pelos próprios réus em delações premiadas, a Polícia Federal descobriu uma rede de pagamento de propinas envolvendo a Petrobras, vários políticos (principalmente do PT, PP e MDB), as maiores empreiteiras brasileiras (Odebrecht, Andrade Gutierrez, OAS, Camargo Correia, Queiroz Galvão, Galvão Engenharia, Mendes Júnior, Engevix e UTC) e empresas de outros ramos, como redes de postos de combustíveis.

O esquema também envolvia grandes obras públicas de infraestrutura, como a construção da Usina Nuclear Angra 3, a Ferrovia Norte-sul e as obras realizadas para a Copa do Mundo (reforma do Maracanã). O esquema funcionava com a cobrança de propina para facilitar as negociações das empreiteiras com a Petrobras, adulterando o processo de aquisição de licitações para a construção das grandes obras públicas. Os contratos entre as empreiteiras e demais empresas que faziam parte do acordo eram superfaturados para facilitar o desvio de dinheiro público. Esse dinheiro, por sua vez, era repassado pelos doleiros diretores da Petrobras, políticos e até mesmo partidos políticos, como o PT, MDB e o PP, que teriam direito, de acordo com dados divulgados pelo jornal Estadão, a 2% do valor do contrato em propina.

Lula foi acusado de beneficiar-se com o repasse de R$3,7 milhões para a compra e reforma do triplex no Condomínio Solaris, em Guarujá (SP). De acordo com a denúncia, as reformas feitas no triplex de Lula pela construtora OAS eram parte de pagamento de propina da empreiteira ao ex-presidente por supostamente tê-la favorecido em contratos e licitações com a Petrobras. 

O petista passou 580 dias detido em uma cela especial da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba. Como estava preso e condenado em segunda instância, não pôde concorrer à Presidência em 2018. Sua soltura ocorreu em 8 de novembro de 2019, um dia após o julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a inconstitucionalidade da prisão em segunda instância – isto é, antes que se esgotem todos os recursos judiciais cabíveis. 

Após ser absolvido e sobreviver politicamente às acusações e condenações da Operação Lava Jato, Lula é o atual candidato com melhor desempenho nas pesquisas de intenção de voto para presidente em 2022. Mesmo assim, o ex-presidente enfrenta resistências em setores mais conservadores do eleitorado e, por isso, buscou compor uma chapa com o ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB) para denotar moderação da condução da política econômica. 

Letícia Fortes

Estudante de Jornalismo na PUCPR e estagiária do Regra. Escrevo para evidenciar e esclarecer assuntos que exigem nossa atenção, pois essa é minha forma de defender uma comunicação humanizada, acessível e engajada socialmente.

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