500 MIL MORTES, 500 MIL LUTOS: UM RETRATO DO LUTO EM TEMPOS DE PANDEMIA

Os estudos sobre estresse pós-traumático e luto se iniciaram depois da Segunda Guerra Mundial e, até um tempo atrás, dentre os traumas sofridos nos anos de guerras e pandemias, o luto ainda não era considerado uma doença, apesar de ser parte inalienável da vida e tão frequente no cotidiano da sociedade. Hoje, mais do que nunca, vivemos com essa emoção e, em muitos casos, patologia, com mais frequência. O Brasil bateu hoje a marca de 500 mil mortos, vítimas do Covid-19. São 500 mil vidas que se foram e deixaram rastros de saudade e muitos também deixaram o peso de não poderem se despedir. Em todos os lugares há pessoas sofrendo por essas não-despedidas e pela confusão que esses tempos pandêmicos geram. Quem fica, no final das contas, continua sendo vítima da pandemia, mesmo que não tenha contraído o coronavírus. 

Sentir, nos tempos de hoje, tem sido um grande desafio para continuar vivendo.

O quadro de luto dentro do cenário atual pode provocar um novo estudo sobre o tema, já que também provoca uma mudança social sobre o rompimento dos vínculos humanos. Esse sentimento que é definido pelo teórico da psicologia, Jonh Bowlby, como um processo natural que acontece em relação ao rompimento do vínculo e que é o motivo de diversos ritos e tradições em torno dessa despedida, passa agora por adaptações que geram efeitos que podem ser irreversíveis nas pessoas que precisam se despedir e nem sempre conseguem.

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Um exemplo dessa situação foi Maria de Lourdes Bueno, 74 anos, curitibana, que perdeu três familiares na mesma semana para a doença. “Eu senti como se a gente não tivesse fechado aquele ciclo. Na minha cabeça, parece que a gente ainda vai se ver em qualquer reunião de família, em qualquer mercado da cidade. Eu me senti sozinha, porque não podia nem chorar com os nossos parentes ou ir ao velório. Eu sou grupo de risco”, afirmou em entrevista ao Regra dos Terços.

Não é mais sobre ver mortes na televisão e lamentar pela dor de alguém que você provavelmente nunca irá conhecer. É sobre perder pessoas que estavam na sua casa até semana passada, mas morreram. O coronavírus é uma doença de sintomas fortes e que leva pacientes ao óbito rapidamente. “Foi tudo muito rápido. Eu falei com meus familiares na sexta-feira e na outra sexta-feira eles tinham morrido. Os três. Pai, mãe e filho. Eu realmente não tive reação na hora que eu soube”, completou Maria de Lourdes. “A pior parte foi saber que eles não souberam da morte uns dos outros. Os três estavam em coma e não souberam de nada do que estava acontecendo”, concluiu.

Essa sensação de perda repentina também tira a identidade do papel social de alguns. Se antes uma pessoa era mãe, hoje ela não tem mais um filho. Se era cônjuge, hoje está só. São espaços gigantescos que invadem a vida de pessoas que estavam com planos, projetos, sonhos engavetados, mas agora isso tudo foi interrompido e quem fica, quem está vivo, não consegue lidar com a morte. Com a dor. Com o famigerado luto.

No artigo, A clínica do luto e seus critérios diagnósticos: possíveis contribuições de Tatossian, de Luís Henrique Fuck Michel e Joanneliese de Lucas Freitas, os autores destacam que “não há superação possível, no sentido de que não é possível um retorno a um mundo anterior, a uma vida tal como co-vivida com aquele que se perdeu. Há apenas a possibilidade de ressignificar essa relação a partir de sua presença-ausente: o luto não pode ser entendido como uma experiência que se supera”. Ou seja, a não despedida é um agravamento dessa sensação de descontinuidade numa história e, consequentemente, desse sentimento de que agora é preciso se reencontrar no seu papel dentro da sua vida e na sociedade. 

Hoje, o luto é um dos sintomas característicos de depressão e defende-se pela sociedade médica que sintomas como insônia, apetite reduzido, perda de peso e humor depressivo, costuma-se apresentar em indivíduos enlutados. Ainda que não se trate de um transtorno mental, o auxílio profissional para encontrar o alívio destes sintomas é uma solução recomendada.

Luto interrompido

Além disso, há a questão dos velórios e ritos fúnebres que não estão sendo feitos ou que são realizados com restrições de público. Estudos apontaram que a impossibilidade de realizar rituais pós-morte que são específicos de cada cultura e religião podem causar um impacto negativo no processo de luto de uma comunidade (ou nação, como no caso do Brasil). 

Ainda que muitos hospitais tentem contribuir nesse processo de despedida, com estratégias próprias, o funeral e outros ritos são formas de fazer com que os indivíduos que estão se despedindo consigam assimilar cognitivamente e afetivamente a partida do ente querido. 

Os rituais relacionados com a morte, como os funerais e velórios, contextualizam a experiência e permitem a mudança de papéis e a transição do ciclo de vida. Além disso, oferece à família o suporte e a sensação de pertencer a um cultura que lhe servirá de apoio emocional que seja capaz de proporcionar respostas previsíveis em um momento em que o choque da perda deixa os indivíduos entorpecidos e desarticulados diante do choque. 

Atualmente, ainda não há estudos aprofundados sobre o impacto do luto e da ausência de ritos fúnebres em tempos de pandemia de coronavírus. Mas, segundo a psicóloga Giseli Cipriano, o padrão é semelhante aos lutos que ela observa em seus pacientes rotineiramente. A psicóloga afirma que esse quadro é mais pesado devido a sensação de que os familiares deixaram o paciente sozinho e que ele morreu nesta condição de solidão, devido ao isolamento exigido pela doença. 

Cipriano explica que é mais fácil lidar com o luto antecipatório quando já se sabe que o indivíduo está na fase final de vida, quando ainda há tempo para recuperar histórias mal resolvidas, geralmente durante uma doença crônica, com mortes previsíveis. “Nessa situação de pandemia, a evolução é muito rápida. Então, às vezes, em quinze dias, um mês, a gente perde a pessoa e ela não estava acessível”, explica. “O que a gente escuta das famílias é que ‘eu estou com as mãos atadas. Quem pode fazer alguma coisa, não faz nada”’, continua a psicóloga.

Ela ainda chama atenção para a busca dos culpados pela falta de assistência ao ente falecido, seja do governo, das pessoas ao redor ou dos profissionais de saúde. O luto acaba sendo mais difícil porque essa sensação de ter sido vítima de uma irresponsabilidade alheia é muito intensa e porque essa culpa também acaba sendo transferida para quem está sofrendo, gerando o pensamento de “eu não me cuidei como deveria ter me cuidado e, assim, eu favoreci para que acontecesse o que aconteceu”, com explica a psicóloga. “Não é só a questão de aceitar a morte, mas sim de reorganizar a vida. E uma pessoa que está fragilizada emocionalmente pode ter dificuldade de readaptação”, conclui. 

Luto complicado

Cipriano diferencia dois tipos de luto: o luto que é uma emoção que tem seu trabalho de aceitação dentro dos processos esperados e o “luto complicado”. O luto complicado é um luto relacionado com mortes que poderiam ser evitadas, por exemplo, quando provocadas por um ato de violência. É um quadro considerado profundo, que já pode ser chamado de patologia e que gera outras doenças psicossomáticas. No caso da Covid, esse luto complicado é mais comum, já que existe essa sensação de que algo poderia ter sido feito, que havia recursos, saídas, mas nada foi aconteceu.

Agora, os tão comentados novos tempos trazem consigo um novo modelo de dizer adeus. Uma despedida distante e menos física. O tão necessário amparo presencial se tornou uma videochamada, um afastamento que é fruto dos cuidados exigidos pelos órgãos de saúde. E a saúde mental, essa que é tão esquecida, acaba ficando de lado. Também vai matando aos poucos pela sensação de impotência, de medo, de angústia e da mais perigosa das sensações: a solidão.

Aos profissionais de saúde, fica a missão e o desafio de tentar fazer a melhor manutenção dessa saúde mental e física, oferecendo dignidade aos pacientes e familiares. Aos líderes políticos, fica o desafio de prover vacinas e medidas eficazes de enfrentamentos. Aos líderes religiosos, o desafio de ampara espiritualmente suas comunidades.  

Assim, os números assustadores dão espaço também para emoções que terão que ser trabalhadas durante muitos anos e que são tão assustadoras quanto. Além do luto, vemos altos números de depressivos, ansiosos, pessoas com suas neuroses e compulsões explodindo e angustiando dia após dia. Pessoas com suas dores emocionais e que precisam de ajuda, de afeto, respeito e cuidado. Talvez por um tempo, até as coisas melhorarem. Talvez por uma vida inteira. 

A pandemia pode passar daqui uns meses e ter uma solução (a vacina) que nos devolva a liberdade de encontrar quem amamos, de estar em nossos restaurantes favoritos e fazer nossas viagens. Porém, mesmo ele indo embora, ele não devolve as vidas que levou, as despedidas que não aconteceram e o vazio que muitos corações carregarão eternamente. 

O coronavírus pode ser passageiro, mas a saudade jamais.

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