fbpx

Eliezer, Mamãe Falei e cia: deixem nossos corpos em paz

Eliezer, Mamãe Falei e cia: deixem nossos corpos em paz

Eis que um deputado estadual de São Paulo resolve ir para a guerra na Ucrânia (?). Não bastasse o flagrante desvio de função, Arthur do Val (Podemos), também conhecido como Mamãe Falei, resolve ainda nos brindar com uma aula de machismo estrutural. O cidadão se deslocou do Brasil até a Ucrânia para dizer que mulheres – que estão desesperadas, fugindo de uma guerra – “são fáceis porque são pobres”.

Ouvir a sequência de áudios revelada pelo jornalista Igor Gadelha embrulha o estômago de qualquer ser humano com um pingo de decência. “Vou te dizer, são fáceis, porque elas são pobres. E aqui minha carta do Instagram, cheia de inscritos, funciona demais”, disse o deputado. Eu ainda estou em dúvida se estou revoltada, com nojo ou preocupada – afinal, ele é um deputado eleito e, portanto, parte do espelho da sociedade brasileira, o que nos mostra que o caso é muito mais sério do que parece.

Esse caso, somado ao episódio de importunação sexual televisionado para todo o Brasil que ocorreu no BBB22 nesta semana, mostram que as mulheres não têm um minuto de paz. Nem no Brasil, nem na Europa, nem em qualquer outro canto do mundo.

Milhares, milhões de mulheres vão apontar esses episódios, vão mostrar o quanto isso é absurdo e, acreditem, serão chamadas de chatas que militam demais. No caso de Eliezer, no BBB22, foi só uma “brincadeira”. No caso de Arthur do Val (Mamãe Falei), ele ainda não se pronunciou, mas eu faço uma aposta com vocês: vai soltar uma nota dizendo que se tratava de uma brincadeira que foi tirada de contexto. Isso se ele se der ao trabalho de se explicar. Podem anotar e me cobrar depois.

Vivemos em um mundo patriarcal e machista. E nós, mulheres, somos violentadas todos os dias por nossos parceiros, por nossos amigos, por nossos familiares. São piadas, brincadeiras “inocentes”, gestos que são “mal interpretados”, partindo muitas vezes para a violência psicológica, física e sexual. Mas quando ousamos levantar a voz e reclamar somos histéricas, loucas e militantes demais.

No fundo, estamos implorando por uma coisa muito simples há muito, muito tempo: respeito. Queremos que deixem nossos corpos em paz. Queremos ser tratadas com respeito. Independente de sermos brancas, negras, hétero, LGBTQIA+, pobres, ricas. Queremos ser tratadas com o mesmo respeito que aos homens é dado desde o nascer e que praticamente nada é capaz de abalar ao longo da vida.

É claro que qualquer ser humano com um pingo de decência vai repudiar o que disse Arthur do Val (Mamãe Falei) sobre as refugiadas ucranianas. Mas quantos dos indignados levanta a voz para criticar os amigos no grupo de WhatsApp, que fazem “piadas” parecidas, ou até piores? Quantos homens solidários às refugiadas ucranianas chamam atenção de um amigo quando ele faz um comentário machista, sexista ou misógino? Poucos. Pouquíssimos.

E quando a situação escala para um episódio como de Arthur do Val e as mulheres passam a gritar mais alto para serem ouvidas, são classificadas como loucas e exageradas. Inclusive, no episódio envolvendo Eliezer, sobram passadores de pano afirmando que “era tudo uma brincadeira, que exagero”. Até a vítima, que estava bêbada em uma festa e pediu (séria) para que ele parasse, além de literalmente pedir por socorro, concordou que era brincadeirinha! Essas feministas que são muito chatas e enxergam problema em tudo.

O mundo é machista. O machismo é estrutural. E essa estrutura não vai mudar sozinha, nem do dia para a noite. Como diria Ruth Manus, as coisas não estão melhorando – Arthur do Val e Eliezer são exemplos claros disso -, nós é que estamos lutando. E seguiremos gritando o quão alto for necessário para causar incômodo, constrangimento e, finalmente, mudanças. Ao ser entrevistada no Papo do Avesso no ano passado, Ruth foi direito ao ponto: “Gente legal demais não muda o mundo”.

Kelli Kadanus

Kelli Kadanus, jornalista, cronista, tia coruja. Escrevo para tentar me entender e entender o mundo. É assim desde que aprendi a juntar sílabas. Sonho em mudar o mundo e as palavras são minha única arma disponível.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: