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Bolsonarismo e MBL: casamento curto, mas com fortes laços ideológicos

Bolsonarismo e MBL: casamento curto, mas com fortes laços ideológicos
Ex-deputado estadual Arthur do Val ao lado do deputado federal Eduardo Bolsonaro (Foto: reprodução)

Assim como no caso de uma série de deputados estaduais e governadores, a aliança do presidente Jair Bolsonaro (PL) com membros do Movimento Brasil Livre (MBL) durou pouco e foi cercada de polêmicas. Os dois têm em comum o fato de a ascensão política estar relacionada diretamente com o sentimento antipetista que atingiu seu ápice em 2018. O MBL, inclusive, apoiou Bolsonaro no segundo turno das eleições. 

Fundado no contexto das manifestações de rua em 2013, o MBL ampliou sua influência política através do oportunismo político: em 2016, o grupo apoiou o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), surfando na onda do antipetismo, e em 2018 conseguiu eleger parlamentares através da onda bolsonarista. Porém, o MBL rompeu com o presidente logo após as eleições, disfarçando um racha interno na extrema direita sob o falso argumento de que o afastamento marcava apenas a distinção entre direitistas moderados e radicais.

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Bolsonarismo: da ascensão à queda
Bolsonarismo: da ascensão à queda

Para o cientista político da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Ricardo Ismael, o MBL e o ex-pré-candidato à presidência João Doria (PSDB-SP) enfrentam um problema parecido nas eleições deste ano: afastar-se de Bolsonaro sem parecerem oportunistas que, em 2018, apoiaram o presidente.

“Doria ainda não capitalizou o sentimento de rejeição a Bolsonaro, embora tenha criticado o presidente abertamente e em rede nacional sobre a má gestão da pandemia desde 2020. E eu acho que tem muito a ver com o fato que sua gestão como governador de São Paulo não ter sido das melhores e com o fato de não ter concluído seu mandato como prefeito de São Paulo”, analisa Ismael. Para o especialista, uma das principais pedras no sapato do MBL é a mudança abrupta de apoiador para rival, como aconteceu com Jair Bolsonaro. “Isso mostra uma falta de amadurecimento e de uma identidade política sólida”, explica.

A aproximação entre o MBL e Bolsonaro ocorreu no segundo turno das eleições de 2018, quando parlamentares como o deputado federal Kim Kataguiri e o deputado estadual Arthur do Val, ambos do União Brasil de São Paulo, passaram a apoiar o presidente para se contraporem a Fernando Haddad, então candidato do PT — um partido contra o qual o MBL nasceu. 

O MBL foi fundado sob a promessa de defender a pauta liberal, combater a corrupção e a má política. Não demorou muito para se abraçar em temas conservadores nos costumes. Porém, a aproximação ideológica entre o MBL e Bolsonaro sempre foi bastante clara. O deputado estadual por São Paulo Arthur do Val citou publicamente as pautas de costumes defendidas pelo MBL em um congresso do grupo político: “Concordamos muito com o Bolsonaro em diversas coisas: revogação do estatuto do desarmamento, redução da maioridade penal… Concordamos em diversas pautas. Inclusive quando ele falou mal da CLT, eu quase soltei fogos na minha casa. Quando ele fala em criar leis antiterroristas que atinjam o MST, eu acho que é um ato de extrema coragem. Eu acho uma palhaçada quando começam a chamá-lo de racista e homofóbico”.

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Logo após as eleições, Kataguiri foi o primeiro membro do MBL a dizer que Bolsonaro estaria “indo para o abismo” e “levando com ele seus seguidores mais fanáticos”. Porém, o rompimento do MBL com Bolsonaro ocorreu principalmente devido ao fracasso da política econômica ultraliberal que Bolsonaro prometeu através do ministro Paulo Guedes, e não por supostas divergências ideológicas. 

Desde então, a relação só piorou, pois o MBL já realizou diversas manifestações a favor do impeachment de Bolsonaro. Recentemente, o grupo declarou apoio à pré-candidatura do ex-ministro Sérgio Moro, que também virou rival do presidente ao acusá-lo de interferência no comando da Polícia Federal. Recentemente, porém, Moro desfiliou-se do Podemos e aderiu ao União Brasil, desistindo da pré-candidatura à presidência e voltando-se para o planejamento de sua campanha como deputado estadual por São Paulo, seu atual domicílio eleitoral. 

Além das mudanças que implementou em sua carreira política, Moro rompeu com um dos deputados do MBL, Arthur do Val, em decorrência de suas falas machistas durante sua viagem “humanitária” para mostrar “a verdade da guerra” na Ucrânia. Foi vazado um áudio do então deputado Arthur do Val, em meio à guerra na Ucrânia, falando que as refugiadas eram fáceis porque eram pobres. Ele também disse que voltaria ao país devastado para se aproveitar dessa suposta facilidade. Em outras palavras, queria praticar turismo sexual.

Após o escândalo, Arthur do Val desistiu de sua pré-candidatura ao governo de São Paulo, e Bolsonaro aproveitou para criticar o integrante do MBL ao chamar sua frase de “asquerosa”. Arthur do Val teve o mandato cassado por unanimidade pelo Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) e renunciou antes do caso ir ao Plenário, o que não impediu que o caso fosse julgado e perdesse os direitos políticos por oito anos.

O deputado estadual desfiliou-se do Podemos após a divulgação dos áudios com mensagens sexistas sobre refugiadas ucranianas para integrar o União Brasil, seguindo o movimento da maioria dos integrantes do MBL. Em nota, o grupo político nega desavenças com a direção do Podemos, mas a desassociação foi motivada pelo escândalo envolvendo Arthur do Val, o qual foi duramente criticado pelo então presidenciável do Podemos, Sergio Moro. 

A desavença durou apenas algumas semanas, pois atualmente os principais nomes do MBL e Sergio Moro estão filiados ao mesmo partido, o União Brasil. Por isso, embora Moro e Mamãe Falei tenham rompido a relação pública, trata-se de uma desavença pessoal que não desgasta ou impacta o evidente alinhamento ideológico entre o ex-juiz e o MBL em torno do que chamam de “direita moderada”, que seria uma alternativa à Bolsonaro. 

MBL a partir de 2023

Com a possível eleição do ex-presidente Lula (PT), a tendência é que o MBL tente se agarrar ao antagonismo petista mais uma vez, sendo oposição de toda e qualquer pauta levantada pela base do possível futuro governo. O movimento vai então disputar o espaço eleitoral com o bolsonarismo, que tem se mantido com, no mínimo, 30% de aprovação popular desde 2018. 

Por se tratar de um movimento composto por pessoas de poder aquisitivo alto, a tendência é que renasça, ainda que muito menos relevante, e um novo MBL surja com uma máscara para tapar as marcas das polêmicas sexuais e éticas que circundam seus membros ou ex-filiados. Além disso, o cientista político Ricardo Ismael afirma que a falta de uma bancada consolidada na Câmara pode prejudicar o futuro do grupo. 

“O MBL é um grupo pequeno do ponto de vista político, e ganhou projeção por conta de ocupar bem as redes sociais. Mas sempre que algumas lideranças se envolvem em alguma polêmica, vem a dúvida: ‘o que o MBL realmente pensa e defende de maneira clara?’. Porque simplesmente se afastar de Bolsonaro não resolve o problema de afastar a rejeição e se aproximar de uma terceira via. Eu acho que a força maior de uma terceira via são de pessoas que realmente não apoiaram o Bolsonaro em momento algum, nem nas eleições de 2018”, afirma Ismael.

Letícia Fortes

Estudante de Jornalismo na PUCPR e estagiária do Regra. Escrevo para evidenciar e esclarecer assuntos que exigem nossa atenção, pois essa é minha forma de defender uma comunicação humanizada, acessível e engajada socialmente.

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