MILÍCIAS CONTROLAM MAIS DA METADE DO RIO, MAS SÃO ALVO DE 6,5% DAS OPERAÇÕES POLICIAIS

Apesar de controlarem 56,8% do território da cidade do Rio de Janeiro, as milícias são alvo de apenas 6,5% das operações policiais realizadas na cidade. Esses grupos criminosos controlam uma população de 2,1 milhões de pessoas – 33,9% da população total da cidade – mas ao contrário das facções criminosas, não são combatidos a ferro e fogo pela polícia. Os dados são do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (GENI/UFF). 

A guerra ao tráfico de drogas no Rio de Janeiro tem se intensificado cada vez mais. Diversas operações policiais são realizadas todos os anos pela polícia sob pretexto de desmantelar facções, como Comando Vermelho. Foi com o pretexto de combater o tráfico de drogas que a Polícia Civil realizou na última quinta-feira (7) uma operação policial que terminou com a chacina de 29 pessoas. Segundo o jornal Estadão, um terço dos mortos nunca foram alvo de ações criminais.

Imagem de NakNakNak por Pixabay

É verdade que esses grupos já dominaram grande parte das favelas da Região Metropolitana do Rio, mas esse quadro tem sofrido profundas alterações nos últimos anos, com uma expansão territorial cada vez maior das milícias. Apesar de as áreas de milícias serem maioria, elas não são as regiões que mais recebem atenção da polícia no combate ao crime.

Dados analisados pelo GENI/UFF entre 2007 e 2019 mostram que as regiões onde ocorreram menos operações no período – como Guaratiba, Barra da Tijuca e Campo Grande –, os grupos armados predominantes são milicianos. Já nas regiões  onde houve o maior número de operações – Bangu, Méier e Pavuna – há porções territoriais em disputa e importante presença de “comandos” do tráfico de drogas, como as facções Comando Vermelho, Terceiro Comando Puro e Amigos dos Amigos. 

Levando em conta apenas os dados de 2019, 6,5% das operações policiais foram realizadas em áreas controladas pela milícia. Já 40,9% ocorreram em territórios dominados pelo Comando Vermelho e 45,5% em regiões em disputa. 

Facções versus milícias

O que diferencia a milícia de facções não é exatamente o tráfico de drogas, e sim a composição de cada uma dessas organizações criminosas. O que caracteriza a milícia, segundo definição do GENI/UFF, é a participação de agentes públicos – como membros do Judiciário, parlamentares e policiais civis e militares da ativa e reserva – em seus quadros. 

A CPI das Milícias, realizada em 2008 no Rio de Janeiro, mostrou a participação de agentes públicos dos órgãos de segurança e ocupantes de cargos eletivos nesses grupos criminais armados. O relatório final pediu o indiciamento de 225 políticos, policiais, agentes penitenciários, bombeiros e civis. 

Até pouco tempo atrás, as milícias eram vistas como um “mal menor” no contexto de segurança pública do Rio de Janeiro. Esses grupos eram, inclusive, exaltados pela imprensa e por autoridades públicas como um modelo de “segurança comunitária” em favelas e bairros populares.

Com o tempo, as milícias foram tomando cada vez mais espaço no estado e ampliando suas atividades ilegais. Atualmente, as milícias controlam ilegalmente ou cobram taxas extorsivas sobre os mercados de serviços essenciais como água, luz, gás, TV a cabo, transporte e segurança, além do mercado imobiliário e do tráfico de drogas. 

O pesquisador Bruno Paes Manso descreve o processo de formação de alianças entre milicianos, policiais, parlamentares, bicheiros e traficantes que fez com que as milícias fossem cada vez mais fortalecidas nos últimos anos. Ele é autor do livro “A república das Milícias”, lançado em 2020.

Operações policiais favorecem as milícias

Um estudo produzido pelo GENI/UFF e publicado em janeiro deste ano mostra “fortes indícios” de  que operações policiais têm sido utilizadas para favorecer as milícias e o Terceiro Comando Puro em detrimento do Comando Vermelho. O estudo mostra que há um favorecimento político-coercitivo às milícias por parte da polícia do Rio de Janeiro. 

Em seu livro, Manso trata da aliança estabelecida entre milicianos, traficantes do Terceiro Comando Puro, policiais e bicheiros para combater o Comando Vermelho. Os dados do estudo do GENI/UFF mostram que são justamente as áreas em disputa ou controladas pelo Comando Vermelho que mais recebem operações policiais. 

A operação da Polícia Civil em Jacarezinho, na semana passada, reforça essa hipótese. A região é controlada pelo Comando Vermelho e foi palco de um massacre que terminou com 29 mortes – a operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro. 

Segundo o estudo produzido pelo GENI/UFF, as operações policias que resultam no assassinato de lideranças do tráfico nestas regiões estimulam ainda mais a disputa, já que outras facções e as milícias podem avançar sobre esses territórios em um momento em que a facção dominante está enfraquecida. 

Isso explica, por exemplo, as denúncias de execução durante a operação policial em Jacarezinho. Joel Luiz Costa, advogado e co-fundador do Instituto de Defesa da População Negra deu um relato forte após ver a situação da Comunidade depois da operação. “A gente anda pelo Jacaré, entramos em umas cinco ou seis casas, todas com a mesma dinâmica: casas arrombadas, tiro, execução. Não tem troca de tiro. Tudo parece execução. O menino morreu sentado numa cadeira, gente. Ninguém troca tiro sentado numa cadeira, isso é execução. Isso é cruel, é barbárie”, declarou em um vídeo publicado nas redes sociais.

No perfil do Twitter, a deputada federal Talíria Petrone (Psol-RJ) relatou uma cena chocante onde o corpo de um jovem negro estaria em posição de deboche em uma cadeira no meio da rua, às vistas de todos, como forma de “recado”. 

“Pode-se dizer que a utilização de operações policiais para o enfrentamento das milícias, além de ineficaz, vem sendo instrumentalizada para a sua expansão”, diz o relatório do GENI/UFF. “Se há mais de uma década já se conhece a ligação entre milícias e políticos que ocupam cargos legislativos e executivos em nível municipal, estadual e federal, a permanência desses representantes nas três esferas de governo demonstra a força do projeto de poder desses grupos, à revelia da investigação e prisão de alguns de seus representantes políticos”, diz ainda o relatório. 

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