fbpx

Economia Solidária e Moedas Sociais: uma resposta sobre como desenvolver as comunidades brasileiras

Economia Solidária e Moedas Sociais: uma resposta sobre como desenvolver as comunidades brasileiras
Imagem de nelson390 por Pixabay

Por Gabriele Vitoria Ramos e Indiamara Pereira e Walcir Soares Junior. O Brasil é a décima maior economia do mundo. Logo, problemas de fome, saneamento e renda não são mais relevantes, certo? Não é preciso conhecer muito sobre desigualdade para saber que esta afirmação está errada. Apesar de ser uma das maiores economias do mundo, o Brasil está entre os países mais desiguais, de acordo com o Relatório Sobre Riqueza Global do banco Credit Suisse. O relatório aponta que 49,6% da riqueza do país em 2020 estava concentrada nas mãos do 1% mais rico da população.

Apesar da população mais pobre movimentar R$119,8 bilhões por ano (BOEHM, 2020), a concentração de renda da parcela mais rica da população e em centros urbanos, prejudica a introdução de regiões marginalizadas (favelas e regiões mais afastadas) no sistema financeiro. Ainda que essa discussão já tenho sido pauta de discursos de políticos, economistas e alvo de diversos projetos sociais, a situação da favela não possui melhora significativa. Dados do Instituto Data Favela, em parceria com a Locomotiva – Pesquisa e Estratégia e a Central Única das Favelas (Cufa), 68% dos moradores de favela não tinham dinheiro para comida em 2021.

Sendo assim, a economia solidária e as moedas sociais entram como estratégia para mudar este cenário, visto que não se faz necessária uma influência governamental, nem movimentação de grandes recursos para alocar centros comerciais em lugares desfavorecidos no círculo financeiro. As moedas sociais são criadas em regiões afastadas com intuito de barrar parte da fuga de capital das regiões inseridas. Para entender como as moedas sociais funcionam, imagine uma moradora que trabalha em um grande centro comercial e ganha sua renda nesse centro. Ela não utiliza essa renda na sua região e, por isso, os donos de pequenos comércios da região onde ela vive não possuem capital para ampliar seus negócios e gerar empregos. Um círculo vicioso se forma, e cidades-dormitórios são criadas. Com a moeda social, essa moradora teria vantagens para gastar sua renda em sua região, gerando emprego e estrutura para a região, quebrando o ciclo vicioso.

Joaquim de Melo foi o primeiro brasileiro a aplicar a ideia da moeda social no Brasil. Sua história começa no conjunto Palmeiras, região realocada pela Prefeitura de Fortaleza, fato que gerou o problema da fuga de capital. Após a realocação, milhares de famílias tiveram de deixar suas casas para viver em uma região menos favorecida, sem saneamento básico e com diversos problemas estruturais. Joaquim de Melo começou a questionar a razão pela qual a região era pobre: “porque não temos dinheiro”, pensou ele. No entanto, ele descobriu que a região movimentava cerca de R$ 1,2 bilhão ao ano, mas o uso deste dinheiro não era voltado à comunidade, o que cada vez mais a empobrecia.

A criação da moeda Palmas é um dos exemplos bem sucedidos de como as moedas sociais podem ajudar no desenvolvimento local. Hoje a comunidade encontra-se fortificada em sua moeda social e comércio, além de servir de referência a outras 100 moedas sociais que circulam no país, favorecendo regiões menos privilegiadas. Outro exemplo é a moeda Mumbuca que abrange toda uma cidade, aumentando o quadro de funcionários em 26,5% no seu primeiro ano uso, conforme a pesquisa da Fundação Getúlio Vargas em 2014.

Desta forma, as moedas sociais, ainda pouco conhecidas, mostram-se um caminho promissor para a diminuição da desigualdade social em regiões afastadas. O trabalho de conclusão de curso no qual esse artigo foi baseado descobriu que as moedas sociais promovem melhora no desenvolvimento local, aumentando os níveis de emprego e renda de suas comunidades. Além disso, há evidências do uso exitoso de microcrédito, redução dos níveis de pobreza e desigualdade, desenvolvimento sustentável e melhora em aspectos da saúde e da educação. A economia solidária determina os princípios para uma outra globalização, mais solidária e equilibrada, como por exemplo serviços de proximidade, comércio justo, empresas de inserção, responsabilidade empresarial, marketing social entre outros. Uma excelente resposta para um país tão cheio de questões a serem respondidas.

Artigo baseado no Trabalho de Conclusão de Curso “A INFLUÊNCIA DAS MOEDAS SOCIAIS NAS PEQUENAS COMUNIDADES NO BRASIL: ANÁLISE DO PERÍODO 2000 A 2020” das alunas Gabriele Vitória Ramos e Indiamara Pereira, sob a orientação do Professor Doutor Walcir Soares Junior.

REFERÊNCIAS

BOCCHINI, Bruno; Quase 70% dos moradores de favelas não têm dinheiro para comida. Dísponível em:     <https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2021-03/quase-70-dos-moradores-de-favelas-nao-tem-dinheiro-para-comida> Acesso em: 03/02/2022

BOHEM, Camila; Moradores de favelas movimentam R $119,8 bilhões por ano. Dísponível em: <https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2020-01/moradores-de-favelas-movimentam-r-1198-bilhoes-por-ano> Acesso em: 03/02/2022

FREITAS, Henrique; EGYDIO, Olavo; Programa Moeda Social Mumbuca:  Inovação Social, Digital e Econômica. Dísponível em:<https://pesquisa-eaesp.fgv.br/sites/gvpesquisa.fgv.br/files/conexao-local/relatorio_conexao_local_final_-_mumbuca_henrique_e_olavo.pdf> Acesso em: 10/02/2022

PALMA. Direção: Edlisa Barbosa Peixoto. Produção: Camila Battistetti. Local: Brasil, 2016. (82 minutos). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=yuXbEPQUbD8> Acesso em: 11/06/2020.

professordabliu

Economista, Doutor em Desenvolvimento Econômico (UFPR/UCL). Atualmente é professor da Fundação de Estudos Sociais do Paraná (FESP) e na Business School da Universidade Positivo (UP). É também avaliador dos cursos de graduação pelo INEP.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: