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O que o neoliberalismo, o bolsonarismo e a morte Moïse Kabagambe têm em comum?

O que o neoliberalismo, o bolsonarismo e a morte Moïse Kabagambe têm em comum?
Foto: Facebook/Reprodução

Por Deco Costa*. No início da era que inaugura a primeira Revolução Industrial, sem qualquer regulamentação, trabalhadoras e trabalhadores derramavam suor, submetidos aos esgotamentos físicos e psíquicos, em ambientes insalubres, com jornadas de trabalhos extenuantes, e palavras como férias e salário mínimo soavam como um dialeto alienígena sem significado ou tradução. O trabalhar e o explorar eram, sem qualquer licença poética, uma única palavra. O tempo de vida era diretamente proporcional ao que os braços e pernas poderiam aguentar. A exploração do “homem pelo homem” explicitava todo o mal na busca pelo capital.

Na tentativa de arregimentar outro padrão de reivindicação na dinâmica de produção econômica, muito menos por compaixão às dores dos açoites, e no afã de conter tensionamentos que atrapalhassem o lucro, os donos dos meios de produção perceberam-se na encruzilhada da necessidade da concessão de direitos trabalhistas. Uma tal de consciência de classe elevava o tom e fazia desses direitos trabalhistas também uma conquista. Entretanto, o que parecia um concreto avanço se revelou, em muitos casos, pequenas mudanças que apenas mantinham a mesma estrutura social.

A exploração continuou a existir e ser sentida. O salário, com o tempo, se viu que também tinha o seu lado ordinário. Era curto para a fome do pobre operário. Na verdade, a roda viva da economia dependia da exploração para fazer valer a mais valia. E por isso não se rompeu com um padrão cultural, nem tampouco comportamental. A luta de classes aparecia e, como uma caixa de pandora, abria as vísceras do racismo, xenofobismo, machismo, aporofobismo e toda e qualquer denominação que significasse preconceito.

Ver um ser humano espancado até a morte pelo fato de cobrar o que lhe era devido pela relação laboral firmada, desnuda a selvageria desse modelo econômico que se mantém de pé graças ao preconceito e à exploração. E se já não fosse o suficiente, para completar o enredo, era um negro, pobre e estrangeiro. Tem–se, portanto, um fechamento triste e nada lúdico de todas as vertentes de discriminação numa única pessoa. Mas por que matar brutalmente por espancamento?

Alguém pode suscitar que a violência é um elemento encontrado em outros momentos e períodos históricos na sociedade, o que é verdade, mas o fato é que hoje vive-se a face cruel do neoliberalismo, que para o capitalismo avançar, direitos sociais são incinerados das legislações, enquanto uma minoria se refastela na riqueza ao sabor e cheiro da pobreza da maioria. Aqui no Brasil, a reforma trabalhista, a lei 13467/17, é produto dessa orquestra afinada de maldade.

Entretanto, quando direitos sociais são suprimidos se ouvem gritos, e para se calar a violência passa a ser uma política consentida. A necropolítica vira uma cartilha. E o Bolsonarismo é um exemplo contumaz. A banalização da violência pautada no discurso de ódio se pulveriza numa sociedade em transe profundo da falta de humanismo e compaixão. Tudo vira uma combustão. Deixa de ter apenas forma. Não é à toa que Moïse, negro, pobre e estrangeiro, diga-se africano, por cobrar o seu salário, o seu dinheiro, morreu espancado, por assassinos legitimados pelo discurso da violência, do ódio, em 2022, no Rio de Janeiro. Adquiriu causa e consequência. O neoliberalismo e o bolsonarismo não apenas rimam, combinam. Juntos, matam.

*Deco Costa é advogado e professor

Regra dos Terços

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