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Monark e o limite da liberdade de expressão

Monark e o limite da liberdade de expressão
Foto: Reprodução

Nas últimas semanas o youtuber Monark tem estado no centro dos debates por defender a liberdade de expressão irrestrita. A ideia pode parecer positiva em um primeiro momento, mas não é. É sobre isso que vou discorrer nessa coluna, mas antes preciso contextualizar quem é o Monark e por que é importante debater as ideias dele.

Atualmente ele é um empresário que comanda o maior podcast do Youtube brasileiro. Ao lado de Igor 3k, fundou o Flow Podcast, que tem mais de dois milhões de inscritos. O sucesso foi tanto que os dois investiram em uma estrutura pesada e atualmente administram dezenas de programas semelhantes em seus estúdios. Somente Monark soma mais de 1 milhão de seguidores em seu perfil no Twitter, tornando suas ideias relevantes para milhões de jovens brasileiros.

A bandeira defendida por ele também é tida como direito fundamental no tratado internacional dos Direitos Humanos, na Constituição brasileira e em diversos outros documentos do qual o Brasil é signatário. Mas em nenhum desses tratados o direito à liberdade de expressão é absoluto, por um motivo simples e um tanto clichê: seu direito termina onde o do próximo começa.

Alguém já morreu por excesso de opinião? Questionou o youtuber nas redes e a resposta é que sim, morreram e morrem diariamente. Negros morrem todos os dias porque, na opinião de alguns seguranças e policiais, eles podem ser bandidos. Homossexuais morrem e são agredidos todos os dias porque, na opinião de alguns trogloditas, eles são pecaminosos. Mulheres são violentadas todos os dias porque, na opinião de alguns machistas, elas são objetos e inferiores.

“Mas não é a opinião que mata, agride e estupra, são as ações”, Monark pode rebater. Mas essas ações são movidas por pensamentos, que muitas vezes são adquiridos após ouvir discursos de pessoas que imaginam que estão apenas utilizando seu direito à “liberdade de expressão”. Ter pensamentos racistas, homofóbicos e machistas é crime? Não, mas a depender de como você os externa, pode virar.

Há algumas semanas o ator e diretor do canal humorístico Porta dos Fundos, Antônio Tebet, participou do programa e disse que Monark não achava que opiniões racistas deveriam ser proibidas pelo simples fato dele não ser negro. O influenciador digital discordou. Entendo ele não ter concordado, afinal é difícil se colocar no lugar do outro. Sendo assim, vou falar em uma linguagem que ele vai compreender.

Muitos brasileiros são contrários ao uso da maconha com fins recreativos, já Monark não é apenas favorável, como também é usuário ativo, fumando inclusive em seu programa. Digamos que essas pessoas que têm pensamentos contrários ao uso da canabis comecem a dizer que usuário de maconha é uma sub-raça. Depois de dois anos, o assunto escala e essas pessoas começam a dizer que têm vontade de bater em maconheiro. Até aqui são apenas opiniões, expressões livres. Dois anos depois estará normalizado falar que maconheiro tem que apanhar e quem sabe, morrer. Pouco tempo depois se inicia no Brasil uma campanha de linchamento de maconheiros. Todos os dias dezenas de maconheiros passam a ser espancados e mortos por, em seu espaço privado, utilizarem da planta. Monark passa a temer a morte por ser quem é. Será que ele continuaria defendendo o direito irrestrito à liberdade de expressão?

Se suas opiniões podem tirar a vida de alguém, logo elas precisam ser coibidas.

Mas quem vai agir como fiel da balança? Monark não confia no Estado para isso. Ora, quem me impede de abrir uma rádio com o nome Flow e utilizar uma logomarca parecida com a da empresa dele é o Estado. Quem multa quem anda em alta velocidade é o Estado. Existem casos de policiais que multam sem evidências? Sim, para isso existem instâncias superiores para quem recorrer. Quem diz até onde o chefe pode cobrar dos funcionários é o Estado. Quem diz que roubo é crime e prende quem o comete é o Estado. Existem casos de excesso e presídios superlotados de inocentes? Sim, mas isso não anula a necessidade do papel regulador do Estado para decidir quem vai preso ou não.

A menos que abdiquemos do direito à vida, o direito à liberdade de expressão precisa ter limites. No mais, vejo a esquerda demonizando o jovem pelos seus pensamentos, nisso preciso discordar, pois o direito à liberdade de expressão permite com que ele questione o limite dela, mesmo que fale impropérios sobre o assunto. Enquanto Monark não externar pensamentos criminosos, vou defender o direito dele pedir por liberdade para isso, só não é razoável conceder o pedido.

Erick Mota

Jornalista com passagem em grandes veículos de comunicação, como RICTV Record, Gazeta do Povo e Congresso em Foco. Atualmente é repórter de rede da Band e Bandnews TV em Brasília. Fundador do Regra dos Terços

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