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Risco à democracia: Após defender criação de partido nazista, Monark pede desculpas e é desligado do Flow

Risco à democracia: Após defender criação de partido nazista, Monark pede desculpas e é desligado do Flow
Reprodução: Flow Podcast - YouTube

Nesta segunda-feira (7), o apresentador do Flow Podcast Monark defendeu a criação de um partido nazista no Brasil, propagando uma ideologia responsável pelo holocausto que levou à morte de mais de seis milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Durante um programa com os deputados federais Tabata Amaral (PSB-SP) e Kim Kataguiri (DEM-SP), Monark alegou que “dentro da expressão, tem que se liberar tudo”, inclusive o “direito de ser antijudeu”. Embora Monark tenha ultrapassado os limites da liberdade de expressão no Brasil, ele recebeu uma tímida correção de Tabata Amaral e apoio de Kim Kataguiri, que condenou a criminalização do nazismo na Alemanha.

A declaração de Monark defende uma ideologia política que é, por definição, racista, antissemita e anticomunista, como o próprio Adolft Hitler ressaltou em seu livro chamado Minha Luta (Mein Kampf, na língua alemã). Embora a Lei 5.250 afirme que a “exposição de doutrina ou ideia” não constitui abuso no exercício da liberdade de pensamento e manifestação (artigo 27, inciso IX), o artigo 14 da mesma lei afirma que é crime “fazer propaganda de guerra, de processos para subversão da ordem política e social ou de preconceitos de raça ou classe”, com pena de um a quatro anos de prisão. Portanto, Monark cometeu um crime contra a ordem política e social ao defender a criação de um partido nazista no Brasil. 

Após a polêmica, o vídeo saiu do YouTube, o Flow Podcast perdeu patrocinadores, e o próprio Monark se manifestou sobre o ocorrido na sua conta do Twitter. Apesar de caracterizar sua fala como um erro e como uma insensibilidade com a comunidade judaica, o apresentador tentou se justificar dizendo que estava bêbado, e afirmou que a criação de um partido nazista é um debate legítimo em diversos países, como os Estados Unidos.

Como consequência, Monark foi desligado do Flow Podcast nesta terça-feira (8). “O Flow Podcast surgiu de um sentimento de liberdade, pluralidade e transparência. Com isso, carregamos a responsabilidade de nos conectar com milhões de pessoas e é inevitável que grandes decisões exijam grandes responsabilidades”, anunciou o programa nas redes oficiais. “Reforçamos o nosso comprometimento com a Democracia e Direitos Humanos, portanto, o episódio 545 foi tirado do ar. Comunicamos também a decisão que, a partir deste momento, o youtuber Bruno Aiub @Monark está desligado dos Estúdios Flow”, diz ainda a nota.

Para o cientista político da PUC-Rio Ricardo Ismael, a discussão sobre a criação de um partido nazista não avançará no Brasil devido à falta de apoio político e jurídico, já que o artigo 20 da Lei 7.716 criminaliza a fabricação, comercialização e distribuição de símbolos para divulgação do nazismo. Porém, o cientista político ressalta que a declaração de Monark é polêmica e atrai a atenção do público por pautar os limites de um direito fortemente questionado desde o início da pandemia de Covid-19: a liberdade de expressão.

Fazendo uma analogia entre o discurso de Monark e o movimento antivacina, Ricardo Ismael afirma que “cabe à lei estabelecer limites para a ideia de que cada um pode dizer qualquer coisa, propagar fake news ou dar declarações como a do Monark, porque essas falas e atitudes contrariam o bem coletivo assim como as pessoas não vacinadas que sobrecarregam o sistema de saúde agora”. 

Porém, o cientista político ressalta que impor limites jurídicos à liberdade de expressão é um desafio antigo, tanto no Brasil quanto nos demais países ocidentais. “O problema é que essa discussão sobre liberdade de expressão não é fácil no mundo ocidental, porque ele é assentado no individualismo. Cada um decide o que quer para a sua vida, e essa é a linha de pensamento que os norte-americanos e europeus propagam há muito tempo. A ideia de individualismo só começou a ser altamente questionada agora, com a pandemia e o prejuízo que as pessoas não vacinadas causam para os hospitais e para a sociedade”, explica.

Além disso, Ismael ressalta que o próprio formato do podcast pode trazer uma falsa sensação de liberdade ilimitada, pois é comum que o apresentador conduza o programa sem interferências ou mediações. “Os influenciadores e youtubers pautam as questões de forma pouco aprofundada e com o objetivo de atrair mais audiência, porque eles não têm formação para discutir política de forma aprofundada. E além do mais, eles têm que se manter como centro do vídeo ou do podcast, então não vai chamar um professor ou especialista para discutir sobre política para mediar a entrevista junto”, analisa o cientista.

Ricardo também sinaliza que a liberdade de expressão será um dos temas em destaque nas eleições deste ano, e caberá às instituições estabelecerem os devidos limites. “O fenômeno de esgrima entre os candidatos é normal, principalmente a partir do segundo semestre e do início dos debates na televisão. Não adianta imaginar que uma campanha não terá ataques de um candidato ao outro, mas devem haver limites para essa propaganda negativa. Esses limites, por sua vez, vão ser estabelecidos pela Justiça Eleitoral”, afirma.

Letícia Fortes

Estudante de Jornalismo na PUCPR e estagiária do Regra. Escrevo para evidenciar e esclarecer assuntos que exigem nossa atenção, pois essa é minha forma de defender uma comunicação humanizada, acessível e engajada socialmente.

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